07 agosto 2017

CAIU UM AVIÃO!

«JOÃO-MARIA ESTAVA DE CÓCORAS, FAZENDO CACA NO QUINTAL, QUANDO TUDO ACONTECEU. PERCEBEU, PRIMEIRO, QUE UM RUÍDO SEMELHANTE AO DESMORONAR DAS FRAGAS NUMA PEDREIRA crescia de longe ao seu encontro e vinha sobrepor-se à sonatina das ondas e ao tráfego agoirento das cagarras.»  --- JOÃO DE MELO, O Meu Mundo não É deste Reino, Capítulo 13, Edição Visão / D. Quixote, Julho de 2003.
Agora dirão as leitoras tratar-se de mais um exemplo de literatura escatológica. Imagino a justa indignação, as leituras da Comunidade destravadas pelas vertentes lívidas do mau gosto. Por acaso, até é um fragmento importante do imaginário da Ilha: o acidente do Lockheed L-749-79-22 Constellation, vôo Paris-Nova Iorque, em 28 de Outubro de 1949. Deu-se no Pico da Vara e nele morreram 48 pessoas, entre elas, figuras notórias à época, o pugilista Marcel Cerdan, a violinista Ginette Neveu e o seu irmão Jean Neveu, pianista.
Leia-se que é um belo capítulo do livro.

01 agosto 2017

"O Meu Mundo Não é Deste Reino" de João de Melo - 25 de Agosto às 21h00.


Sinopse

João de Melo apresenta-nos uma crónica dos prodígios que fazem a história de uma comunidade rural perdida algures nos Açores. Narrativa mítica, sem cronologia, que começa in illo tempore (em português arcaizante) e prossegue seguindo o fio das ocorrências fantásticas (a chuva dos noventa e nove dias, o dia em que os animais choraram, o dia em que se viu a outra face do sol, a morte e ressurreição de João Lázaro) e das vidas de personagens excessivos e arquetípicos (um padre venal, um regedor hercúleo e despótico, um curandeiro e um santo) que povoam um lugar perdido nas brumas do tempo, no outro lado da ilha, progressivamente devolvido à comunicação com o mundo.

Ding, ding, ding .... chamada à ordem!


Isto de conduzir um rebanho, mesmo de bons e interessados leitores nem sempre é coisa fácil! A paixão pelas leituras e o entusiasmo do momento, leva-nos muitas vezes àquela característica tão própria dos lusitanos que é falarmos todos ao mesmo tempo e, por vezes, a Babilónia instala-se antes que demos por isso. Mas na última sessão, onde discutimos o muito elogiado "Cântico Final" de Vergílio Ferreira, eis que surge uma bela campainha, para ajudar na condução dos trabalhos. Chegou discreta e elegante, mas certamente vai vibrar e fazer-se ouvir energicamente sempre que a ocasião o justifique. Bem vinda Miss Ding, Ding....


25 julho 2017

EXISTENCIALISMO E LITERATURA

«Só meditando profundamente no que significa a morte, é que nós poderemos ver bem o que com ela se perde e o valor disso que se perde. Por outro lado, a morte é uma prefiguração do que de limite, de fim, preside a todos os actos da vida, já que a cada instante nós estamos de algum modo a realizar actos irremediáveis. A meditação da morte não é pois um fim, mas um meio. Meio de valorizarmos a vida, meio de assim mesmo respeitarmos a vida nossa e alheia, meio de reflectirmos sobre o irremediável do que formos fazendo, meio, em suma, de encararmos a sério esse facto extraordinário que é a vida do homem.»
--- VERGÍLIO FERREIRA, "Existencialismo e literatura".
 
 
 
 

24 julho 2017

"CÂNTICO FINAL", MEDITAÇÃO SOBRE A MORTE

Francisco de Goya, Fuzilamentos de três de Maio de 1808
Abriu a revista, e Mário sofreu uma ataque de agonia. Era uma reportagem sobre fuzilados de uma revolução num país distante: fotografia de um dos condenados bebendo o cálice de rum; fotografia do instante do fuzilamento («como um quadro de Goya» - dizia o repórter).
--- VERGÍLIO FERREIRA, Cântico Final, cap. X.
 

17 julho 2017

AS EGAP-EXPOSIÇÕES GERAIS DE ARTES PLÁSTICAS EM "CÂNTICO FINAL"

Diário da Manhã, órgão oficioso da União Nacional salazarista, na sua edição de 9 de Maio de 1947

Uma das perspectivas de Cântico Final, de Vergílio Ferreira, é a que se prende com o debate sobre arte que nos anos do pós-guerra teve lugar entre os intelectuais e artistas portugueses. No seio da corrente neo-realista, preparavam-se as grandes polémicas dos anos cinquenta, de que as referências aos críticos Ramiro e Rebelo se constituem como uma evidente alusão ficcional. De interesse, a referência a uma das Exposições Gerais de Artes Plásticas (talvez a de  1947), certames que agregavam artistas independentes – leia-se, não vinculados às iniciativas do SPN/SNI – procedentes de diversas orientações estéticas, do neo-realismo ao abstracionismo. Em que corrente se integraria o “Galo” do protagonista Mário?
Cerca de cem artistas, não só de diversas tendências estéticas mas de diferentes ramos da arte estiveram presentes na I Exposição, a de 1946. Ao princípio, o poder constituído não desconfiou de nada; depois é que se deu conta do que ali se preparava de subversivo.  As EGAP realizaram-se anualmente de 1946 a 1956, com excepção de 1952, ano em que a Socidade Nacional de Belas-Artes se encontrava encerrada  pela PIDE.

12 julho 2017

ONDAS DO MAR DE VIGO

7-7-2017, Estação de Vigo-Guixar, a apanhar o comboio para Oporto com o jogral MARTIM CODAX no pensamento.
 
CANTIGA D´AMIGO
 
Ondas do mar de Vigo,
se vistes  meu amigo!
e ai Deus, se verrá cedo!
 
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
e ai Deus, se verrá cedo!
 
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
e ai Deus, se verrá cedo!
 
Se vistes meu amado
por que ei gram cuidado!
e ai Deus, se verrá cedo!
 


11 julho 2017

"Cântico Final" de Vergílio Ferreira - 28 de Julho - 21h00

A abrir:

“Por uma manhã breve de Dezembro, um homem subia de automóvel uma estrada de montanha. Manhã fina, linear. O homem parou um pouco, enquanto o motor arrefecia, e olhou em volta, fatigado. Aqui estou. Regressado de tudo. Pelo vale extenso até a um limite de neblina, viam-se aqui e além indícios brancos de aldeias, brilhando ao sol. Que dia é hoje? Pelos campos perpassava uma alegria estranha, talvez do sol e daquele fundo silêncio a toda a volta, sem uma voz repentina das que sobem e vibram nas manhãs de trabalho. E de súbito lembrou-se: para o fundo do vale, ouviu o dobre dos sinos do Freixo. Manhã de domingo, manhã de infância, sinos de outrora…”


In “Cântico Final” de Vergílio Ferreira

29 junho 2017

A CAPA DO ELOGIO

Alegoria com Vénus e Cupido, 1545, Bronzino

INGRES, MUSEU DO LOUVRE

2014, Museu do Louvre, sob o encantamento de Ingres... O Elogio tem de bom trazer estas coisas à memória.



ANUNCIAÇÕES

Esta, ortodoxa, do pintor Andei Rubliov (lembrar o filme de Tarkovsky), na Catedral da Anunciação, Kremlin de Moscovo.
...É como se a conversa tivesse terminado, nada há a acrescentar...Fiat! Bem à maneira ortodoxa.


















                                                                                                     

MAIS VERSÕES DE VÉNUS COM O AMOR E...

Do mesmo Ticiano (ou Tiziano), para deleite dos encomendadores, ao tempo, e nosso, agora.




27 junho 2017

CANDAULES, REI DA LÍDIA

WILLIAM ETTY (1787-1849), Candaules, King of Lydia, Shews his Wife by Stealth to Gyges, One of his Ministers, as She Goes to Bed (1830), óleo sobre tela.
 
 

23 junho 2017

SOBRE O "ELOGIO DA MADRASTA"


Impressões de uma amiga, não frequentadora da nossa Comunidade, que leu o livro há alguns anos:

Llosa, no Elogio da Madrasta, certamente uma consistente composição narrativa, de trechos interpolados e magníficas descrições de pinturas famosas, eróticas, todavia de anteriores épocas, enquadradas em rica e poética intertextualidade, foi obra lida há tempos. Tesouro de construção literária, deixou-me azedume face ao enteado, adolescente em afirmação de poder contra e sobre o feminino, a madrasta, mulheraça de contornos idênticos ao do seu marido, superior na hierarquia do jovem,  não a empregada doméstica, sua subordinada, a que depois se lança - as mulheres da casa, a mulher instanciada nas mais próximas, sei lá… Se as primeiras emoções sexuais assim se esboçam... patriarca no poleiro, a decidir e o adolescente já a querer substituí-lo, desprezando e servindo-se do outro (como a madrasta dele, claro) , está-se face a perversão das relações desejáveis em comunidade - não no mero sentido sexual. Espelho de certo meio social, infecção de duas gerações? Sátira? (…) E um rasto de certo humor discreto. Contudo a beleza da escrita não me empolga, excessivo para a temática: seres submetidos a impulsos por si mesmos, sensualidade pela sensualidade que nisso se esgota, ternura zero, encerrados seus autores num casulo, não há outros nem cosmos, mais nada. Estranho. Jogos num campo único, sem mais sopro vital. Lembro os rituais corporais, os banhos, e isso é interessante, iniciáticos, mais velhos a passar testemunho ao adolescente, certo plano mítico. Muitas vidas comunitárias ( penso em certo monaquismo, como em Quram, que visitei) dispunham de inúmeros reservatórios de águas destinadas a sucessivos banhos. Atenção a uma corporalidade neste caso banida, expandida em Llosa. Curiosa ritualização, evoca-me a sacralidade inicial, SACER no indoeuropeu, que era a fecundidade, tudo o que faz crescer, e inchar, GONFLER. Acento na fisicalidade, sem contornos além do encontro de corpos. Todavia, do que retive na memória, é uma duplicidade, inocência-perversão o foco da obra: a relação madrasta-enteado e o desejo mútuo, mas já acima apontei como senti tal acordar para a sexualidade. Vejo-o negativo, não penso que deva seguir o desejo por vias de vontade de domínio, de manipulação, de denúncia - a redacção e sua leitura não são inocentes; como nem a frase final,  tipo, «mas ela não é minha mãe», incesto arredado; ou o desvio de «amar a mãe», «usar a madrasta», de cabeça um tanto oca. Creio ser mais o determinar-se a usurpar o poder familiar do pai.
 

15 junho 2017

PARA QUEM NÃO SAIBA...

... A HISTÓRIA TEM CONTINUAÇÃO
«Bateram à porta, Dona Lucrécia foi abrir e, retratada no vão, com o fundo das tortuosas e encanecidas árvores do Olivar de San Isidro, viu a cabeça de caracóis dourados e os olhos azuis de Fonchito. Tudo principiou a girar.»
 

11 junho 2017



Sinopse

Lucrécia e dom Rigoberto vivem em constante felicidade. Ela, uma mulher que acaba de completar 40 anos, nada perdeu da sua elegância e sensualidade; ele, no segundo casamento, descobriu por fim os prazeres da vida conjugal. Juntos, crêem que nada pode afetar esse idílio, cheio de fantasias e de sexo. Alfonso, ou Fonchito, filho de dom Rigoberto, parece ser o único empecilho; ama demais sua mãe, Eloísa, para aceitar a chegada de uma madrasta. Mas até ele acaba por ser conquistado pelos encantos de dona Lucrécia. O amor do menino pela sua madrasta, entretanto, vai muito além do que se esperaria de uma criança, desenhando uma linha ténue entre a paixão e a inocência que mudará o destino de cada um deles.

01 junho 2017

NÓS, OS DE VONDELPARK

MANUEL TEIXEIRA-GOMES, novela Deus ex machina:
«Um dia que eu ficara de me encontrar em Vondel-Park – próximo ao Rijsks-Museum – com vários elegantes de ambos os sexos para dali seguirmos  em excursão de patinagem até Harlém, logo à entrada do parque, numa volta estreita e mal concorrida do lago, a atenção prendeu-se-me irresistivelmente numa rapariga encantadora, de farta e negra cabeleira solta, que patinava sozinha, e fiquei-me a contemplar-lhe os graciosos movimentos sem mais me lembrar de que a poucos metros de distância era impacientemente esperado por um numeroso grupo de amigos.» --- A acção desta novela decorre no Inverno de 1890. Cheguei a Vondelpark tarde de mais, precisamente na manhã do dia de Natal de 2013 – 123 anos depois de Manuel Teixeira-Gomes –, e já não vi a rapariga encantadora de farta e negra cabeleira solta. Naquela altura  o lago não estava gelado e àquela hora da manhã nenhuma rapariga por ali andava, mas alegrei-me de dar com a estátua do poeta Joost van den Vondel (1587-1679), figura maior do século de ouro holandês. É ele, como se percebe, que dá nome ao parque. A estátua, inaugurada em 1867, não teria passado despercebida ao escritor algarvio, mas que interesse podia ter a pedra e o bronze ante os movimentos graciosos da patinadora?  
     

31 maio 2017

A LITERATURA ERÓTICA EM 1935





Novelas Eróticas, edição "Seara Nova" de 1935 (ano da morte de Fernando Pessoa), com advertência aos leitores: LEITURA PARA ADULTOS. Fica-se a saber que teve uma tiragem de 300 exemplares FORA DO COMÉRCIO. --- Fotografias obtidas ontem em exemplar de biblioteca pública.  
 

30 maio 2017

O SÍTIO DA MULHER MORTA

 
 

Uma das novelas eróticas de Manuel Teixeira-Gomes que ontem reli na BN nesta edição preciosa. De um ensaio de Urbano Tavares Rodrigues, respigo a seguinte nota a respeito de outra novela, a "Deus ex machina": « O que nos impressiona desde logo, como aliás sucede com a maior parte das novelas e contos de Teixeira-Gomes, é a desproporção entre a riqueza do discurso e a relativa pobreza da estória (...)» Ora isto fez-me lembrar a nossa leitura de Ronda das Mil Belas em Frol e as apreciações atinentes de algumas leitoras. De qualquer forma, tendo em conta o conjunto da obra, Mário de Carvalho ainda está uns furos acima de Manuel Teixeira-Gomes.

25 maio 2017

PHILÉAS LEBESGUE, POETA E AGRICULTOR

Mais n´est-tu pas toi même un
jet d´eau qui s´irise
Et qui vers l´infini s´élance et
puis se brise?...
 
Conto "Cordélia", de M. Teixeira-Gomes, epígrafe de Philéas Lebesgue (1869-1958). O poeta francês, que entre 1911 e 1933 esteve por três vezes em Portugal, correspondeu-se com o autor das Novelas Eróticas e ainda com Sá-Carneiro, Teixeira de Pascoaes, Téofilo de Braga e Bernardino Machado. Mais informação aqui: http://www.maisons-ecrivain-picardie.fr/ecrivains-celebres-picardie-biographie-La-maison-de-Phileas-Lebesgue-fr-15.html