Impressões de uma amiga, não frequentadora da nossa Comunidade, que leu o livro há alguns anos:
Llosa, no Elogio da Madrasta,
certamente uma consistente composição narrativa, de trechos interpolados e
magníficas descrições de pinturas famosas, eróticas, todavia de anteriores
épocas, enquadradas em rica e poética intertextualidade, foi obra lida há tempos.
Tesouro de construção literária, deixou-me azedume face ao enteado,
adolescente em afirmação de poder contra e sobre o feminino, a madrasta,
mulheraça de contornos idênticos ao do seu marido, superior na hierarquia do
jovem, não a empregada doméstica, sua subordinada, a que depois se
lança - as mulheres da casa, a mulher instanciada nas mais próximas, sei lá… Se
as primeiras emoções sexuais assim se esboçam... patriarca no poleiro, a
decidir e o adolescente já a querer substituí-lo, desprezando e servindo-se do
outro (como a madrasta dele, claro) , está-se face a perversão das relações
desejáveis em comunidade - não no mero sentido sexual. Espelho de certo
meio social, infecção de duas gerações? Sátira? (…) E um rasto de certo humor
discreto. Contudo a beleza da escrita não me empolga, excessivo para a
temática: seres submetidos a impulsos por si mesmos, sensualidade pela
sensualidade que nisso se esgota, ternura zero, encerrados seus autores num
casulo, não há outros nem cosmos, mais nada. Estranho. Jogos num campo único,
sem mais sopro vital. Lembro os rituais corporais, os banhos, e isso é
interessante, iniciáticos, mais velhos a passar testemunho ao adolescente,
certo plano mítico. Muitas vidas comunitárias ( penso em certo monaquismo,
como em Quram, que visitei) dispunham de inúmeros
reservatórios de águas destinadas a sucessivos banhos. Atenção a uma
corporalidade neste caso banida, expandida em Llosa. Curiosa ritualização,
evoca-me a sacralidade inicial, SACER no indoeuropeu, que era a fecundidade,
tudo o que faz crescer, e inchar, GONFLER. Acento na fisicalidade, sem
contornos além do encontro de corpos. Todavia, do que retive na memória, é uma
duplicidade, inocência-perversão o foco da obra: a relação madrasta-enteado e o
desejo mútuo, mas já acima apontei como senti tal acordar para a sexualidade.
Vejo-o negativo, não penso que deva seguir o desejo por vias de vontade de
domínio, de manipulação, de denúncia - a redacção e sua leitura não são
inocentes; como nem a frase final, tipo, «mas ela não é minha mãe»,
incesto arredado; ou o desvio de «amar a mãe», «usar a madrasta», de cabeça um
tanto oca. Creio ser mais o determinar-se a usurpar o poder familiar do pai.