14 abril 2014

BLIMUNDA, A SENHORA PEDEGACHE E OS SEDUTORES PARISIENSES

 
Blimunda na fachada da residência lisboeta de Pilar e José Saramago. Painel de azulejos de ROGÉRIO RIBEIRO (1930-2008). Foto obtida hoje.
 
 
Excertos de O Portugal de D. João V visto por três forasteiros, relato do médico naturalista CHARLES FRÉDERIC DE MERVEILLEUX.
 
«Vem aqui a ponto falar da Pedegache, mulher não só extraordinária mas também muito sedutora. Por forma alguma tinha aspecto de uma bruxa, embora pelos seus encantos fosse muito bem capaz de embruxar um homem. Confesso que não me atrevo a explicar o dom que ela tinha de ver o corpo humano, bem como o dos animais, por dentro e outrossim o interior da terra a uma grande profundidade, e creio bem que seriam vãos os esforços de todos os filósofos juntos para explicar este fenómeno.
(...)
Julgou-se a princípio que andava ali obra do demo, mas depois de um exame rigoroso abandonou-se tal suspeita, contentando-se todos em admirar um dom tão extraordinário acerca do qual as luzes da inteligência humana não alcançavam explicação que satisfizesse.
(...)
Admiro-me muito que a Academia de Ciências de Paris não tenha aceite o oferecimento que lhe fez o senhor Pedegache de conduzir sua mulher a França, mediante um abono de mil escudos para os gastos de viagem e estabelecimento de uma pensão de cem luíses de ouro graciosamente garantida pelo rei, se os talentos de sua mulher ficassem bem comprovados. Resignou-se, porém, facilmente com a recusa, reflectindo em que, sendo sua mulher muito formosa, além de bastante comunicativa e os franceses muito dados à sedução do belo sexo e não existindo para eles obstáculo à satisfação dos seus desejos, teria constituído uma imprevidência expor-se ao perigo que corre em Paris todo o marido de uma mulher encantadora.»


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