16 março 2011

Memória de Elefante –A. Lobo Antunes, 25 de Março às 21.00

 A abrir

“O hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de pasta de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante:
- A quotazinha da Sociedade, senhor doutor….”
António Lobo Antunes in “Memória de Elefante”

08 março 2011

TOMAR, em breve

Aqueduto dos Pegões, obra iniciada por Filipe Terzi, arquitecto-mor do Reino ao tempo de Filipe I.

22 fevereiro 2011

ETNIAS DE ANGOLA


Sem Medo: kikongo; Comissário, Chefe de Operações, Ingratidão do Tuga e Milagre: kimbundos; Ekuikui: umbundo; Lutamos: cabinda; Mundo Novo e Muatiânvua: destribalizados. [Personagens de Mayombe]

19 fevereiro 2011

Book - a revolução tecnológica !



Uma mão amiga fez-me chegar o link. Achei tão fantástico que não resisti a publicá-lo aqui. Na era das tecnologias, esta é uma preciosidade, como nós bem sabemos!

04 fevereiro 2011

Literatura da Memória Colonial

Sendo este o nosso tema do primeiro trimestre deste ano e em dia do 50º Aniversário do início da Guerra Colonial, deixo uma ligação ao DN e à forma como noticiou esse histórico 4 de Fevereiro de 1961.
Diz Pepetela ao abrir “Mayombe”, o nosso livro do mês:

"Aos guerrilheiros de Mayombe,
que ousaram, desafiar os deuses
abrindo um caminho na floresta obscura,
Vou contar a história de Ogun, o Prometeu africano..."

28 janeiro 2011

Fogo e ritmo (Jornada de África)

“Embondeiro” Neves e Sousa
Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura húmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços. 
Fogueiras
             dança
                      tantan
                              ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.

Ó vozes dolorosas de África!

Agostinho Neto -  in Jornada de África de Manuel Alegre

21 janeiro 2011

CRISTO E ENDOVÉLICO

Cabeça do deus Endovélico, século I d. C., mármore

Portalegre e a Casa-Museu de José Régio; S. Miguel da Mota (Alandroal) e o local onde estaria o santuário pré-romano do deus Endovélico.
Régio era um heterodoxo que coleccionava Cristos, mas só acreditava no Cristo humano, não no divino; e os Romanos eram uns ortodoxos que acreditavam em todos os deuses, até nos dos povos que iam submetendo.
Dará isto para uma passeata de Primavera?
Triste do desassossegado Bernardo Soares que só sabia viajar com a alma!

18 janeiro 2011

Ainda o João Tordo e o Bom Inverno



Entrevista da Geração C ao João Tordo, aquando da sua passagem pela Biblioteca, com a excelente apresentação do nosso mentor Manuel, ouvidos com prazer pela Comunidade de Leitores e não só.

17 janeiro 2011

"JORNADA DE ÁFRICA" II

--- Enviado pela Maria José. Acrescentei-lhe música e voz ----

Nambuangongo meu amor, de Manuel Alegre

http://delta4.no.sapo.pt/malegre17.html

"JORNADA DE ÁFRICA" I

----- Enviado pela Maria José ------

Abaixo el-rei Sebastião

É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

Manuel Alegre

16 janeiro 2011

Palavras para que vos quero...

Efeitos de uma tertúlia!
Com amor o fiz
Derramado depois

Em taça depositado
Pelas mãos de Amelie
Em amor de canela de novo o cobri
Sossego então, vozes, conversas, calor da lareira
Aromas, sabores, vinhos, sentidos 

Quietos
Suspensos ouvindo
Fraterna alegria

Pensamentos de um homem
Fragmentos de vida
Se de "L de D" ou dele, nem ele o sabia
Manuel em Pessoa assim nos dizia...

A inspiração da nossa Leitora Graça!

13 janeiro 2011

Uma coisa, traz a outra ...

Henri Matisse
No passado mês de Dezembro o Manuel (o nosso) trouxe-nos (aqui mais em baixo) este belo poema do Herberto Helder.  E agora, ao travar conhecimento com Sebastião, o protagonista da história do Manuel (o Alegre), deparamo-nos novamente com o poema de HH... deram por isso ?

05 janeiro 2011

"Jornada de África" Manuel Alegre - 28 de Janeiro - 21h00

A abrir:
“Estrada da Beira, Dezembro, mil novecentos e sessenta: é um dia cinzento, cai uma chuva miudinha, Lázaro Asdrúbal olha tristemente as águas barrentas do Mondego, que vêm da serra carregadas de destroços. Conseguiu finalmente falar com o Chefe, teve de esperar quase quinze dias, apesar da urgência. Veio de propósito de Luanda para o informar do levantamento que se prepara no Norte da Província. Agora tem de guardar a resposta só para si: «Deixe andar, é um sacrifício necessário, só assim poderemos contar com o apoio do país e do Ocidente.» Os óculos na ponta do nariz, os esses quase assobiados. Lázaro Asdrúbal não esquecerá a frieza, a secura e a determinação dos olhos de peneireiro com que o Chefe o fitou…”

04 janeiro 2011

CARTA DO PAI NATAL - publicada no blogue "Emoções Básicas" pela mão de Cristina Leimart

Carta do Pai Natal a um disperso escrevedor (Ao abrigo do direito de resposta e ainda a tempo do Dia de Reis)


Meu Caro Jovem
Perdoe-me a demora na resposta. Sucede que, polémicas à parte, continuo muito solicitado e andei ocupadíssimo, primeiro nas lides habituais, depois compensando a minha mulher pelas longas horas fora de casa.
Foi com profunda tristeza, alguma complacência e a máxima arterial a 170 que li e reli as suas desalentadas palavras. Vasculho na minha história, sondo de ponta a ponta a minha consciência, e não encontro passos merecedores de tamanha diatribe. Creio que apenas a sã irreverência, própria da juventude cinquentenária do meu amigo, justifica tal tratamento a um idoso como eu. Bem me avisou em tempos certa astróloga: por volta dos meus 115 anos, uma grande arrelia chegaria por correio e, de tão contundente, far-me-ia crescer (Ainda perguntei "Crescer mais?? Para quê? Mas ela lançou-me um olhar reprovador).
Sou pessoa sensível e magoaram-me algumas das suas farpas, quer as de natureza mais filosófica, quer as alusivas à minha aparência. Sem cerimónias, eis o que se me oferece dizer sobre as primeiras:
Mas agora tenho de levar a toda a hora com a lengalenga anti-consumo, a pretexto dos primórdios da minha existência? Por dá cá aquela palha, salta alguém a responsabilizar-me pela agressividade mercantil da marca que me inventou? É injusto e é absurdo.
Injusto, porque eu não tenho culpa das minhas origens. O meu amigo responde pelas suas? Não podemos arcar pela vida fora com o ónus das opções e acções dos nossos progenitores. Absurdo, pela questão dos prazos de validade: as alianças fazem-se e desfazem-se. No meu caso, mergulhei directamente do acto de criação para uma tarefa especificamente comercial, é verdade. Foi nos anos 30 do século passado. Mas onde é que isso já vai! Há que tempos ninguém me vê agarrado a um dístico de refrigerantes. É como um indivíduo divorciar-se e passada uma década ainda lhe falarem constantemente da ex-mulher. Desagradável. Ainda por cima são essas vozes de revolta mal dirigida que alimentam, nesta quadra e gratuitamente, o portentoso caudal de publicidade à referida marca, pois, como sabe, nos códigos do marketing o que importa é ser-se falado, bem ou mal.
Quanto a promover o consumismo: Eu? Eu, que só saio da toca duas ou três semanas em Dezembro? Então os outros onze meses do ano? Sou eu que canalizo milhares para formigarem pelos centros comerciais das vilas e cidades nos fins-de-semana de sol, nas tardes de primavera? (Dou este exemplo, por me constar que o seu país vai à frente nesse distinto passatempo).
E antes que lhe ocorra imputar-me as enormes desigualdades materiais das famílias, digo-lhe já que reclame noutra secção, com quem fez o mundo assim. Limito-me a entregar o que me mandam - sou apenas o estafeta. Abracei o projecto de distribuir prendas aos miúdos porque me identifiquei com ele. Comecei como mero assalariado, nunca subi na hierarquia, não pedi para ser a estrela do consumismo sazonal do ocidente, e há muito que opero na base do voluntariado responsável. Faço o melhor que posso.
Acredito ter conquistado, assim, o direito a uma existência autónoma, digna e íntegra. Não sou avalista de todas as palermices que inventam a meu respeito, mas sou alheio às réplicas da minha pessoa empoleiradas aí pelas varandas. Alguém, nesta época de twitters e facebooks, poderá assumir os usos indevidos da sua imagem globalizada? Se vamos a matutar nisso, será melhor eu pôr-me a despejar tranquilizantes pelas chaminés abaixo.
É verdade que já poderia ter arrumado as botas. Mas, por um simples erro de génese, vestia agora um fato de treino e enterrava a cabeça nas neves da Lapónia? Não. Como é ingénuo o meu amigo, ao pensar que me movem as comissões das grandes multinacionais. O meu intento é outro. É adiar o face-a-face com a solidão na velhice, é resistir ao medo terrível da inutilidade. Há muito que me sinto escorregando num plano untado a sebo de rena, inclinado a 30 graus sobre a fenda escura da morte. Esta sensação é comum na minha idade e até em pessoas mais novas. Passar a noite de Natal voando pelos céus, nas asas da imaginação, nossa ou de outros, é a minha forma de me agarrar a qualquer ressalto ou cavidade que encontre nessa supefície ímpia. É a minha forma de iludir um tempo que corre muitíssimo mais veloz do que me foi prometido no início da minha existência.
Quanto ao menino Jesus, nada contra. Nutro um carinho de avô por esse eterno bebé, e além disso há mercado para os dois. Tenho alguma vaidade por reunir o consenso entre as famílias que não se revêem nos episódios e personagens bíblicas, mas ninguém me ouvirá uma palavra menos cortês sobre a concorrência. Excessos de competição são desaconselhados na minha idade e esvaziam-nos de energia anímica. Já a quebra de popularidade do Pequeno no coração das pessoas, palpita-me que se deve, isso sim, à incorrigível soberba da massa católica, dos marechais aos soldados rasos.
Por fim: A minha fatiota. Que é que tem?? Eu gosto. O vermelho significa alegria e tonicidade, qualidades nada de desprezar num velho. Além disso, como sou forte, nem tudo me assenta bem. Efectivamente, já nasci com este índice de massa corporal, e ninguém se penaliza mais por isso. Não poderia adoptar uma tanga tipo Jesus, que praticamente nasceu nos trópicos, e também não estou para imitar o São Nicolau: o púrpura e o marfim não me favorecem e as vestes compridas travam-me os movimentos.
Dito tudo isto, meu jovem amigo, estou consigo no desalento perante um Natal esvaziado de sentido. Porém, na tresloucaria refinada que é Dezembro, eu não vejo tanto a ânsia de consumir e possuir - vejo mais a urgência das pessoas em quebrar a rotina a todo o custo, em encher os dias com objectivos palpáveis e próximos, passos e palavras especiais, ainda que frívolos e fugazes. O espírito até existe, mas agora é outro. Jesus cresceu. A humanidade está para lá de madura.
Deste, que afectuosamente o compreeende,

Pai Natal

01 janeiro 2011

Sorrir em dia de Ano Novo

A minha Alma, fugiu pela Torre Eiffel acima,
- A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões
- Fugiu, mas foi apanhada pela antena da T.S.F.
Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertzianas…
(Em todo o caso que belo fim para a minha Alma!...)
Mário de Sá Carneiro

26 dezembro 2010

As raparigas lá de casa

"Duas irmãs" - Fernando Botero
Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silencio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-se
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa.
Emanuel Félix, poeta açoreano
(poema extraído do livro «Habitação das Chuvas»)
Obrigado ao Helder, por nos ter enviado esta pequena (grande) preciosidade!

24 dezembro 2010

CARTA AO PAI NATAL

Ex.mo Senhor,
Devo dizer-lhe, em primeiro lugar, que não encontrará nesta carta as expressões afectuosas e de submissa pedinchice que está habituado a receber dos seus inúmeros admiradores espalhados por todo o orbe. De facto, não só não nutro qualquer simpatia pela rotunda e esdrúxula pessoa de V. Exa., como, por razões que adiante compreenderá, não me é permitido aceitá-lo como representante supremo desta época festiva em que nos habituámos a viver e a comemorar o nascimento do Filho de Deus.
Certamente se recordará que na meninice dos homens e mulheres que, neste país, têm hoje cinquenta e mais anos de idade, nunca a pessoa de V. Exa. era chamada para a entrega de prendas ou brinquedos na noite mágica de Natal. Tínhamos para isso uma figura bem mais credível e ajustada à quadra – o Menino Jesus – a quem não escrevíamos cartas, pois tratando-se de um recém-nascido não poderia naturalmente lê-las, mas a quem rezávamos de joelhos no chão, junto às chaminés de nossas casas, pedindo o carrinho de corda, o triciclo, a boneca de cartão ou os chocolates. A personalidade de V. Exa. era praticamente desconhecida das nossas infantis pessoas, só nos chegando notícia sua, eventualmente, através de algum postal de boas-festas remetido do eldorado americano por um qualquer parente ali emigrado.
Nestas últimas décadas, beneficiando da cumplicidade dos poderes constituídos, tem V. Exa. assumido a representação simbólica do Natal. Paulatinamente, como quem não quer a coisa, foi matando o Menino Jesus que sempre habitara os nossos sonhos de criança – um crime tão bárbaro e nefando como a própria morte do Jesus adulto – insinuando-se junto das novas gerações através de agressivas campanhas de publicidade organizadas pelas grandes multinacionais dos electrodomésticos, das consolas, dos jogos de computador e de toda a classe de brinquedos. V. Exa. vendeu a ternura do Natal aos capitalistas da SONY e da NITENDO, aos fabricantes de sonhos de latão e aos oragos anunciadores de promessas de felicidade descartável. Quem o quer ver é a enviar as suas legiões de clones para a porta das superfícies comerciais, incentivando o consumo desregrado, promovendo o endividamento das famílias e assediando as criancinhas com beijos babados de infame consumismo.
Acresce que a figura e os modos apresentados por V. Exa. são do mais grotesco que se pode imaginar. Ri de uma forma estúpida e desconchavada, veste um fato ridículo que mais parece a farpela dum palhaço, não faz a barba, há quem diga que cheira mal dos pés, e, suprema ironia, garantem-nos que desce pelas chaminés para distribuir as prendas e os brinquedos, quando, com a gordura que ostenta, nem pela porta da garagem seria capaz de passar. Depois, contam-nos que viaja num trenó puxado por renas, entre a Lapónia, sua terra de origem, e os lares de cada um de nós, quando é sabido que tal trenó não existe, é pura ficção para dar um toque de romantismo à sua existência árida, pois as únicas viagens que faz, sabemo-lo bem, fá-las de avião entre as grandes praças financeiras, controlando a evolução dos seus negócios e recebendo as chorudas comissões que lhe são atribuídas pelos fabricantes de brinquedos e de electrodomésticos de todo o mundo.
Não tenho dúvidas que, com V. Exa., o Natal, na sua pureza, está irremediavelmente perdido. Porque o Natal não pode ser este falso esplendor de bens de consumo, sabiamente regido pelos interesses do capitalismo industrial e financeiro. O Natal não pode ser este vazio de alma, este deserto de emoções em redor da mesa farta e de uma árvore, dita de Natal, reverberando luminárias espúrias contra a luz verdadeira da estrela de Belém. Não bastava ter V. Exa. arrancado o Menino Jesus do coração dos homens; era preciso também que os reduzisse, como escravos, a um mero instrumento dos seus desígnios de lucro e enriquecimento ilegítimo.
É por tudo isto e pelo mais que se não diz por ser verdade – cito aqui, de cor, o poeta da Pedra Filosofal – que lhe escrevo estas modestas mas inflamadas linhas, como vivo protesto de quem não se conforma com a ditadura materialista que V. Exa. representa.
Sem outro assunto de momento, e na esperança de topar o menos possível com as execrandas réplicas de V. Exa. que por aí pululam neste período natalício, subscreve-se,

Este que sinceramente o abomina,



(Publicado no blogue "Disperso Escrevedor" em 10 de Dezembro de 2006)

17 dezembro 2010

PROTEU - a propósito de alguém ter apodado de proteiforme a personagem Julian Garmony do romance "Amesterdão"


Deus marinho da mitologia grega, Proteu é filho de Poseidon e de Tétis. Tornou-se guardador dos rebanhos de seu pai, isto é, dos grandes peixes, das focas e dos monstros marinhos.
Este deus-pastor, segundo Eurípides, era rei da ilha de Pharos, no Egipto, onde foi construído o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Proteu tinha o dom da profecia e o poder de se metamorfosear para escapar aos perseguidores ou a quem o buscava para saber os acontecimentos futuros. Se alguém conseguisse vencer o medo perante as formas horríveis e terríveis que assumia, ele revelava a verdade, como sucedeu com Menelau, o rei de Esparta, que queria saber se e como podia voltar à sua terra, após a guerra de Tróia.
O Padre António Vieira, no Sermão de Santo António aos Peixes, na crítica ao polvo, recorda as transformações extravagantes desta figura mitológica quando diz "as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício."


(Infopédia da PORTO EDITORA - www.infopedia.pt/$proteu)

12 dezembro 2010

MOLLY LANE

Diz-se que em Culloden, lugar da carnificina
de que fala Hélia Correia em Lillias Fraser,
o fantasma dum guerreiro derrotado costuma
atravessar as noites com o seu lamento de sombra.

E em Tantallon Castle, por mais incrível que pareça,
há quem tenha conseguido fotografar
a tenebrosa aparição de um espectro.

Nada disto afligia Molly na noite
daquele Natal de setenta e oito
quando se divertia com os amigos
num inócuo castelo da Escócia.

À hora em que os fantasmas saíam, vogando
descoloridos sob os tectos das casas,
e o vento gemendo nas highlands
crivava de inquietação
os dedos líquidos dos lochs,
ela ria-se das sombras pálidas dos mortos,
dançando nua sobre uma mesa de snooker.

08 dezembro 2010

Nessun Dorma em Amesterdão de McEwan



“…A Comissão considerada de gostos medíocres pelo meio musical, ansiava acima de tudo, por uma sinfonia da qual se pudesse extrair pelo menos uma melodia, um hino, uma elegia para o caluniado século que findara que pudesse ser incorporada nos eventos oficiais, tal como nessun dorma o fora, num campeonato de futebol…” in Amesterdão de Ian McEwan.

04 dezembro 2010

HERBERTO HELDER - "O AMOR EM VISTA"

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.


Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.


Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.


(…)

É apenas um fragmento do poema. Alguém o terá de ler para nós, por completo, numa próxima tertúlia.

Palavras para que vos quero (4)

Desabafo!

Faz frio.
Sinto-o no corpo
e na alma...
Faz frio.
Procuro o conforto
de um agasalho
ou de um abraço...
Faz frio.
Desejo o calor
de uma lareira
ou de um corpo...
Faz frio.

Porto, Dezembro 2010

02 dezembro 2010

"AMSTERDÃO" de Ian McEwan

Li ontem o primeiro capítulo e entristeceu-me a morte prematura da heroína. Pergunto-me: qual é a diferença entre os homens que amaram Evelyn Cotton e os amantes de Molly Lane?  Verei isso depois, mais sobre a data da sessão da nossa Comunidade: quinta-feira, 16 de Dezembro                                

01 dezembro 2010

Palavras para que vos quero (3)

Texto de CRISTINA LEIMART, publicado no blogue "Emoções Básicas"

O fim



Começo pelo fim.

Começo ciente de não saber dizer, do fim, onde começa ou onde acaba. Começo confusa como em criança, diante do primeiro livro sem bonecos, ao ouvir "Agora nada de ires ver o fim.."

O fim? Qual fim? Salto a capa do livro, cheio de personagens que ignoro, jogadas em enredos que sobrevoo a jacto directamente das palavras do adulto para uma busca desenfreada: Ah não é para ler o fim?

Procuro-o numa curiosidade urgente, com critério e coragem, atrás do sofá pequeno disposto de esguelha junto à janela da sala de visitas. Procuro-o nessa tarde nesse livro sem capa, título ou princípio, como depois noutros livros com e sem bonecos. Procuro-o noutras tardes, noutras idades e cidades, nos meus cantos preferidos das casas onde vivi e, enquanto vivi longe, em cantos alheios onde não me perdia nem me escondia. Procurei-o, por acaso e sem autorização, nos livros de amigos, de namorados e conhecidos. Nas histórias dentro da minha história, o tempo levou-me à procura já não dos fins, mas de exemplos que desmontassem a certeza daquele princípio de leituras, num livro ainda folheado confusamente aos últimos pingos de luz do dia:

"Agora nada de ires ver o fim" é o cuidado adulto mais infantil. Ninguém corre o risco de anular o magnetismo da leitura galgando sofregamente direito ao fim. Não saberíamos onde poisar essa pegada de gigante enjoado do presente. Não há pontaria capaz de acertar no fim à distância. Não estão inventados gps para os desfechos.

Não podemos saber se o fim está na última página ou na última frase. Ou nas duas últimas frases. Ou a partir do início do último capítulo. Talvez na primeira linha da primeira página, ou algures a meio do volume, se o autor aposta em anacronias? Não sabemos, às vezes o autor sabe, eu não sei.

Eu sei que o pano cai quando passo a mão pela contracapa. Sei que a ficha técnica já desliza lentamente quando reclino a cabeça para trás e desfoco o olhar. Mas para ouvir o último suspiro da história eu não tenho hipótese de usar uma tele. Eu sou o batedor. Tenho de aceitar a lentidão da imagem revelando-se na penumbra de laboratório fotográfico, ou sujeitar-me ao embate de um fim salteador num troço do caminho quando menos espero.

De uma forma ou de outra, estamos seguros. Não há perigo de frisarmos o sagrado fio da história com a brasa da impaciência.

Num livro (e na vida, tão nossa como tão pouco nossa, o que nada interessa aqui), nunca sabemos onde começa, por isso não sabemos onde está, o fim. A única certeza é a surpresa.

29 novembro 2010

"O BOM INVERNO" de JOÃO TORDO


Sábado, 27 de Novembro, na Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana: - as nossas indefectíveis leitoras Dulce Teixeira e Maria Amélia Cabrita apanhadas em "flagrante de livro".

28 novembro 2010

PLANO DE LEITURAS PARA 2011

Literatura da memória colonial
Janeiro - Jornada de África de Manuel Alegre
Fevereiro - Mayombe de Pepetela
Março - Memória de Elefante de António Lobo Antunes
Grandes autores da Literatura Portuguesa
Abril - A Queda de Um Anjo de Camilo Castelo Branco e
            O Fidalgo Aprendiz de D. Francisco Manuel de Melo
Maio - Eurico, o Presbítero de Alexandre Herculano
Clássicos da Literatura Estrangeira:
Junho - Madame Bovary de Gustav Flaubert
Julho - O Estrangeiro de Albert Camus
Crónicas e autobiografias
Agosto – Uma Crónica da Pesca do Bacalhau de Joaquim Rebordão Leitão
Setembro - O Mundo à Minha Procura, 1º volume, de Ruben A.
Vamos ao teatro

Outubro - Hamlet de William Shakespeare
Ficção científica
Novembro - Solaris de Stanislaw Lem
Natal
Dezembro - Contos de Natal de Charles Dickens
= As sessões realizam-se na última sexta-feira útil de cada mês =

22 novembro 2010

Os Carvalhos de Ryme

“…. A South Cottage era uma miniatura. Mal dava para uma pessoa mas para Hugh era perfeita. Encontrava-se no fim do arvoredo e estava rodeada pela colecção de carvalhos. Hugh conhecia o Quercus cerris, o Quercus rubra, o Quercus coccinea, o Quercus ilex e aí parava, maldizendo os limites da sua sabedoria, que o impediam de isolar e saber o nome das outras setenta e uma espécies de carvalhos existentes no seu recanto….” In Os Homens que amaram Evelyn Cotton



 Por ordem: Quercus ilex, Quercus coccinea, Quercus rubra, Quercus cerris

Gosto muito de carvalhos e também eu, por vezes, mal digo o meu conhecimento por saber tão pouco sobre eles.
O livro está a ser uma surpresa muito boa. Conhecer os homens da vida de Evelyn e o amor resignado (será?) que o narrador tem por ela, leva-me por caminhos curiosos que desbravo com um agrado inesperado…

20 novembro 2010

"OS HOMENS QUE AMARAM EVELYN COTTON"

Acabei de ler. Cito uma passagem do narrador na parte final do livro: Descrevo todos os pormenores deste amor estereotipado, mas, quanto mais falo sobre ele, mais me convenço de que é pouco provável que o amor exista. Amor é uma palavra abrangente e muito cómoda que utilizamos para disfarçar as razões complicadas que nos levam a querer o apoio de outra pessoa. Não digo que me identifique a cem por cento com esta perspectiva do amor, mas lá que me pôs a pensar, pôs. Digam coisas, ou será que se reservam para a sessão?

10 novembro 2010

Palavras para que vos quero (2)

O DESCONCERTO DOS AMANTES


Serena está deitada de costas na cama, a cabeça sobre as mãos numa nudez irrepreensível que me magoa os sentidos. Recorta-se a linha do corpo contra o cetim da colcha, o prodígio dos seios, a pele muito branca, o tufo de sombra dos pêlos púbicos. Faz-me mal vê-la assim, como um nu deitado de Modigliani fora do tempo e do espaço, sorrindo e entreabrindo as coxas como se se preparasse para os delírios do amor. Pela persiana que não está completamente fechada entra no quarto uma fresta da luz da tarde… Mas nada disto que vejo tem existência real. Serena não está comigo, deixou-me há muito tempo. Saiu de casa dominada por um inesperado desencantamento, e dela conservo na memória estas imagens que projecto como holograma no espaço vazio do meu quarto. Vejo-a sempre assim desde o dia da sua partida. Todos os dias.
Não foi paixão, disse-me, não passou tudo de uma grande admiração que me tomou, uma errada percepção de sentimentos, um turbilhão de ideias desordenadas. Pensava ser amor, mas afinal era apenas deslumbramento. Cegou-me a tua luz, fragilizei-me, mas agora que habituei os olhos a esse fulgor já sou capaz de compreender a verdadeira expressão do que sinto.
Subo a persiana e encho o espaço do quarto de claridade. Serena volta-se de bruços, como se a luz e o ar quente da tarde lhe causassem incómodo ou apenas quisesse subtrair o rosto à observação dos meus olhos. Vejo-lhe as ancas e o anel da cintura, os ombros estreitos, o torneado das nádegas e das pernas.
Já não te sinto, disse-me, não consigo viver com este afecto mudo, como se me bastasse o teu olhar para saber que me amas.
Senta-se na borda da cama e faz tenção de começar a vestir-se. Toma as roupas que jazem em desalinho sobre o cadeirão. Enfia os braços nas mangas da camisa, veste as calças. Está agora de pé, virada para mim, a camisa desabotoada, os cabelos soltos caindo sobre os ombros. Apetece-me tocar-lhe nos seios… Mas não adianta pensar nisso. Serena não está aqui e o que vejo não passa de uma ilusão amarga que se meteu no meu quarto e me faz sofrer.
Só me desejas pela minha beleza, disse-me, nunca foste capaz de me ler a alma. Para ti não passo de um corpo e de um sexo.
É verdade que te desejo pela tua beleza, sim, a beleza é o pão dos olhos, não sei viver sem ela. Mas não me peças que te fale de amor. São redundantes todos os discursos amorosos, são frágeis as palavras quando nos propomos explicar os sentimentos. As palavras são sons, apenas sons, signos inconsequentes que não suplantam a eloquência dos olhos, o toque das mãos.
Serena acaba de se vestir. Passa a escova pelos cabelos olhando-se no espelho. Sai do quarto, e eu oiço bater a porta que dá para a escada. Sinto-me asfixiar dentro do espaço fechado. Chego à janela que se abre para o precipício da rua e vejo-a sair. Olho-a, sigo os seus passos pela calçada. Sinto-me cansado. Respiro profundamente bebendo a grandes sorvos a aragem quente. E encho-me da luz da tarde até cegar, como um pássaro doido voando no abismo.

= Publicado no blogue "Disperso Escrevedor" em 3/6/2006 =

06 novembro 2010

A (NOSSA) NOITE DO ORÁCULO - Paul Auster

Sessão da Comunidade de Leitores de SDR de 29 de Outubro de 2010

Se eu tivesse que explicar a alguém de fora, de forma detalhada (e não parcial, como costumo fazer sempre que tenho de apresentar a Comunidade), o que somos, entre outras informações, teria de referir o facto de todas as sessões resultarem diversamente e, por vezes, saldarem-se por inesperadas surpresas.

Diria que, pelo menos para mim, esta foi uma dessas, pois uma leitura que me deixou uma certa perplexidade (para não dizer desilusão), foi largamente compensada pela riqueza e variedade de pontos de vista resultantes da partilha dos participantes.

E porque nem sempre é fácil sintetizar as ideias que ali, à volta da mesa, se vão debicando entre uma bolacha e uma pinga de chá, resolvi, desta vez, fazer um pequeno exercício, que acaba por ser muito pessoal, já que passa por uma escolha, e pelas limitações dos registos efectuados.

Assim, pessoalmente, o que me cativa mais é o resultado do debate, as reflexões, extrapolações, sínteses e ideias novas que vão ali tomando forma e, às tantas, já não são deste ou daquele, mas nossas; o livro e a leitura são-no enquanto tal, mas também são objectos de apropriação— bastas vezes nos demos conta do nosso papel activo de leitores.

Ora o nosso Oráculo, que para mim não prenunciava nada de especial (embora estivesse na expectativa), deu origem a um interessante debate e, sobretudo, à emergência de algumas questões importantes, o que passo a sintetizar.

- Da leitura resultou em parte a sensação de que tudo era muito real; as histórias contadas como realidades umas dentro das outras, em que o quotidiano tinha um papel tão importante, que quase nos sentimos parte da trama.

- O que poderá parecer (a mim pareceu-me) uma composição de episódios sem grande ligação num conjunto sem coerência, revela afinal potencialidades inesperadas. Uma delas é a confiança, como valor que percorre toda a narrativa, sendo até o suporte do desenrolar das relações entre os protagonistas, incluindo o narrador (deste com a Grace, com o chinês, com Ed, etc).
Outro aspecto decorrente daquela aparente falta de remate das várias histórias que o autor põe em andamento sem lhes dar um final convencional, é o deixar muitas questões em aberto, remetendo para uma reflexão acerca da poética do inacabado, com tanta relevância na arte e no pensamento.

- A importância do sentido... porque, como diz o João, uma narrativa contém sempre uma promessa de sentido: neste caso, este seria, para o narrador, o amor pela mulher, o querer a todo o custo ficar com ela, que justifica tudo o que ele ultrapassa, num respeito exacerbado pela individualidade de Grace, na ignorância assumida do seu passado.
Por outro lado, a ideia, interessantíssima, de que o amor não se esgota, ainda que partilhado, e Grace está no epicentro do amor, entre dois homens que a amam. Como colocar esta questão, que é de ambiguidade, face aos preconceitos vigentes quanto a amor e fidelidade?

- Também se fala de sentido, quando se percebe que, na relação do narrador com a história de Bowen (por sua vez baseada na de Dashiel Hamett), também a ele lhe ia caindo em cima uma grande viga ou gárgula, simbolizada pela revelação da infidelidade de Grace! Ao contrário das histórias referidas, ele vai conseguir ultrapassar a questão e manter a sua primeira vida, dando expansão aos afectos (é essa a mensagem final do livro).
Um paralelo interessante é possível traçar entre o destino do protagonista de D.H.— que se limita a reconstruir uma vida familiar idêntica à que tinha, caindo na mesma rotina— e Nick Bowen, que acaba fechado num bunker, num beco sem saída (que é a própria vida, faça-se o que se fizer?).

- A possível premonição da escrita, o seu poder de antecipação, de predição (daí o Oráculo?)... O autor apresenta vários encadeamentos de coincidências. Quantas vezes nos acontecem também? Isso significa, de acordo com a desconstrução do tempo do autor, que cada um tem em si o passado e o presente, estando a cada instante grávido do futuro e, mais concretamente, “escrever é fazer as coisas acontecerem no futuro”?
A verdade é que são preocupações deste teor que levam o autor a destruir o Caderno Português e todo o seu conteúdo narrativo.

- Dir-se-ia também que um certo automatismo vai de par com a busca de sentido para a vida; trata-se de aspectos que não controlamos, como a inspiração (de onde vem, como interpretar o facto de os artistas se sentirem compelidos a produzir, como um sortilégio?); a força do acto criativo— usar a inspiração ou ser usado, na simbiose final entre matéria e universo, que é a obra de arte?

- Na desconstrução, patente na estrutura do texto, o autor põe a descoberto também as dificuldades do escritor, que, como homem comum, se defronta com problemas (de falta de inspiração?), e não consegue acabar o romance.
Neste caso, o autor parece ter recusado algumas saídas, que ocorrem ao leitor, como, por exemplo, tudo se tratar de um sonho de alguém em estado de coma. (Pelo contrário, o acto de escrever no caderno, pode concretizar um percurso de recuperação, uma autêntica profilaxia...).

Conclusão: já lemos todos os tipos de romances, dos românticos aos realistas e mesmo surrealistas... A Noite do Oráculo, que à partida apresenta algumas quebras de normas (reprodução da lista telefónica de Varsóvia como memorial; as notas de rodapé, com esclarecimentos importantes), aponta outra possibilidade, vindo ao encontro do leitor— qual o destino dos personagens, quais os desfechos? Tudo encerra uma grande liberdade, valor que vem de par com todos os já apontados e se inscreve na questão essencial que é a busca de sentido e a noção da fragilidade da vida, com a conclusão de que a confiança e o amor são preciosos, e que a vida é um milagre que se tem de agradecer.

04 novembro 2010

Os homens que amaram Evelyn Cotton – 26 de Novembro às 21h00

(não encontrei uma foto da capa portuguesa com tamanho adequado para publicação)
A abrir:
“Estou apaixonado por Evelyn Cotton há vinte e quatro anos e quatro meses menos oito dias. Fizemos amor duas vezes. A primeira foi há vinte e três anos. A segunda foi ontem. Será que isto faz desta uma história triste e de mim uma figura cómica?”

31 outubro 2010

Em redor dos livros

A famosa “Shakespeare and Company” (foto minha, Paris Dez 2008)
Navegando um pouco pela net, dei de caras com este site, que tem algumas fotografias muito interessantes de belas livrarias e bibliotecas no mundo, não faltando na primeira categoria, a lindíssima Lello no Porto. Um regalo para os olhos ....

27 outubro 2010

Palavras para que vos quero (1)

Edward Hopper “Morning Sun” 1952
Um dia de cada vez
Acordou cedo, muito antes do despertador tocar e ficou ali a pensar na vida. Anos de luta, com um espírito optimista. Sempre à espera que as coisas tendessem a melhorar. Um dia percebeu que não seria assim, mas o contrário. A situação iria degradar-se aos poucos. E começou a sentir aquilo. Chegou devagarinho. Um pouco de ansiedade aqui, uma certa angústia ali, a inércia a instalar-se. Tentava resistir-lhes, mas era tão difícil. Tudo em si pedia o contrário. Uma voz dizia-lhe que se deixasse ir. Era um ser humano, não podia resistir sempre. Era compreensível, afinal corria tudo tão mal. Mas lá no fundo um sentimento inato resistia. Não te entregues. Sabes que és fundamental na vida deles. Precisam de ti. Não importa que não entendam. Não têm culpa disso, tu sabes. É mais forte do que eles. Lembra-te dos momentos bons. Do abraço inesperado, do carinho no olhar, no agradecimento infantil. E lá vinham mais umas forças e mais um dia passava. E então compreendeu. Seria sempre assim, um dia de cada vez. Hoje melhor, amanhã menos bom.  Viver intensamente os bons momentos e esquecer rapidamente os maus. Sempre tinha sido assim e assim sempre seria. Não havia motivo para mudar. A vida era tão curta. Levantou-se, abriu a janela e ficou uns minutos a olhar o horizonte. Uma bola de fogo subia lentamente nos céus. A aurora trazia um turbilhão de cores indescritíveis, violetas, rosas, laranjas. Mais um magnífico nascer do sol. Sentiu-se feliz perante tanta beleza. E lá foi viver mais um dia de cada vez…
(Custódia - Maio de 2008)

25 outubro 2010

O Falcão de Malta

A propósito de “A noite do oráculo”, deparamo-nos com a referência a Dashiell Hammett e ao seu livro mais famoso “O Falcão de Malta”, onde a história de Flitcraft dá origem ao romance que Sidney Orr começa a escrever no célebre caderno português de cor azul. Nunca li a história do tesouro pelo qual vale a pena matar, nem segui as pegadas de Sam Spade, o detective empenhado na resolução do mistério. Mas como gosto de policiais e mistérios, vou tentar encontrar por aí, nos alfarrabistas e feiras de livros usados, uma edição da velhinha colecção Vampiro…

23 outubro 2010

"MEMÓRIAS DO CÁRCERE"


Hoje, sábado, sentei-me às nove horas da manhã com as “Memórias do Cárcere” de Camilo. A luz do sol, que não era coada por ferros, entrava-me com generosidade pela janela da sala. Havia boas condições para a leitura. O exemplar que comecei a folhear é de uma edição da Parceria A. M. Pereira, comemorativa da inauguração, em 2001, do Centro Português de Fotografia na Cadeia da Relação do Porto. Uma edição de luxo, em excelente papel e com belíssimas manchas gráficas, também com muitas fotografias.
(Abro aqui um parêntesis para dar uma palavra de incentivo àquela leitora que anda a contas com os “Mistérios de Lisboa”. Garanto que se lhe toma o gosto, vai passar ao “Livro Negro de Padre Dinis”, à “Bruxa do Monte Córdova", sei lá…).
E prossigo: “Memórias do Cárcere”, Cadeia da Relação do Porto – esse edifício de estética desornamentada e geometrizante que os historiadores de arte inscrevem no ciclo da arquitectura Port Wine de inspiração inglesa. Lá se alojou Camilo por duas vezes: uma num curto período de vinte e um dias, em Outubro de 1846, por causa do rapto da jovem Patrícia Emília; outra, de 1 de Outubro de 1860 a 16 de Outubro de 1861, um ano e alguns dias, pelo crime de adultério com D. Ana Plácido, crime do qual viria aliás a ser absolvido em julgamento público.
Parece que não teve um regime prisional muito severo. Beneficiava de saídas quase diárias para ir ao médico e aproveitava-as para passear pelo centro do Porto; era visitado pelo senhor D. Pedro V (aquele para quem Alexandre Herculano escrevera a História de Portugal - ad usum delphini); estava amparado por um baú de livros que impressionou o rei e, sobretudo, tinha disposição para trabalhar, para escrever.
Acabei de ler o “Discurso Preliminar”, uma peça que precede as narrativas dos casos criminais que o autor encontrou naquela casa de perseguidos da justiça . Há neste exórdio uma passagem de hilariante erudição: a referência, a propósito de se ter alojado, quando andava em fuga, na estalagem da Joaninha de Guimarães, a várias Joanas e Joaninhas históricas ou literárias. Termina com uma alusão à mais execrável de todas: E que me dizem duma Joana, que teve o desaforo de fingir-se homem, e subir na jerarquia eclesiástica até fazer-se papa, e denominar-se João VIII?! A esta hora estava este João canonizado, se Joana, quando ia em procissão, não dá à luz do dia e dos círios um robusto menino! Ora vejam por que mãos tem andado a tiara de S. Pedro! Na segunda edição do livro, admitiu ser esta história uma fábula engenhada pelos protestantes, porém, nem por isso a retirou do texto.
Bem, continuemos a leitura.

22 outubro 2010

Mistérios de Lisboa

Ainda (e sempre) no encalço de Camilo, surge a notícia da estreia de um filme baseado no seu romance “Mistérios de Lisboa”.
O filme que tem mais de quatro horas de duração (um verdadeiro épico portanto) pareceu-me, por tudo o que já li e vi, interessante e apetecível. No entanto e dado que passará no próximo ano na RTP numa série de 6 episódios, creio que vou aguardar por essa altura. É que passar 4 horas numa sala de cinema é obra…

Espreitem aqui o trailer oficial

21 outubro 2010

Um pouco sobre o autor do mês


Imagem daqui

Paul Auster é um escritor de topo no panorama norte-americano, também conceituado e reconhecido em todo o mundo. Em Portugal, que visita com alguma regularidade, tem um público fiel. Os seus romances têm habitualmente personagens centrais solitárias, em torno das quais se constroem histórias sempre consistentes mas também algo complexas. O acaso está muitas vezes presente e o que inicialmente é real acaba mergulhado em fantasia.
Para além da escrita e entre outras coisas, Auster dedica-se também ao cinema, tendo rodado em Portugal em 2006 parte do filme "The Inner Life of Martin Frost".

Para mais sobre Mr. Paul Auster espreitem este blog relativo ao autor.

20 outubro 2010

A propósito do Palácio de Papel

A foto vem daqui e é interessante ler o pequeno artigo que a acompanha. Ou de como fazer um bom aproveitamento, da publicidade gratuita proporcionada por uma boa história
Custódia C.C.

A Noite do Oráculo - 29 de Outubro, 21h00

Até que ponto é que um caderno português pode influenciar a vida de um escritor? Mergulhe-se na leitura da Noite do Oráculo para se encontrar a resposta.
Auster oferece-nos aqui uma história dentro de histórias, um livro dentro de livros. Mistura-se a realidade com o imaginário, com muitas reflexões pelo meio.
Sinopse: No dia 18 de Setembro de 1982, após vários meses de recuperação de uma doença quase fatal, o escritor Sidney Orr entra numa papelaria de Brooklyn e compra um bloco de notas azul de fabrico português. Nos nove dias que se seguem, Sidney vai viver sob a influência do livro em branco, preso num universo de arrepiantes premonições e de acontecimentos desconcertantes, que ameaçam destruir o seu casamento e minar a sua confiança na realidade.
Custódia C.C.

02 setembro 2010

Fanny Owen

"Francisca" de Manoel de Oliveira, actores Diogo Dória e Mário Barroso
O nosso amigo acordara bem humorado. Não havendo ali quem me guardasse o cavalo, disse-me José Augusto que o trouxesse para o quarto. Ora, o quarto estava na plana do corredor, ao rés da rua e não era a primeira visita semelhante que recebia. Entrou o cavalo para o quarto, enquanto José Augusto se vestia, e a dona da casa, acordada pelo pisar estrondoso do irracional, dizia de lá que éramos todos a mesma gente.
Camilo Castelo Branco, "Duas Horas de Leitura"