06 maio 2011

O PLÁTANO DE PORTALEGRE

O célebre plátano de Portalegre, plantado em 1838. Quem tiver dúvidas do porte da árvore que vá lá vê-la ao pé.

03 maio 2011

"NADA MAIS E O CIÚME" DE GIL DUARTE - UMA LEITURA

Um romance de estreia é a oportunidade para avaliar as potencialidades dum escritor, a forma ágil ou menos ágil como passeia pelo bosque da ficção (Umberto Eco) e sentir o texto como possível programa de acção para trabalhos futuros.
Isto acontece com sinal positivo em “Nada Mais e o Ciúme” de Gil Duarte*, “um romance” – e não simplesmente “romance” – , tal como surge na capa a designação do género narrativo, o que desde logo sugere, pela anteposição do determinante, um trabalho de ensaio e experimentação.
No arco dum dia – a unidade de tempo da poética aristotélica –, entre o velório do corpo do professor E.C. Bernardo e o episódio tragicómico em que as suas cinzas são lançadas da janela dum prédio sobre os estendais de roupa dos vizinhos, um narrador homodiegético de nome Pedro rememora a história do professor, da mulher Luz Botelho e do filho Virgílio Bernardo, seu companheiro dos tempos do liceu e objecto de uma persistente paixão pessoal. Falando desta tríade familiar, Pedro fala sobretudo de si e do caminho que percorre até se tornar escritor. E, naturalmente, fala também do ciúme, o leitmotiv do romance.
Diz Francesco Alberoni que o ciúme se manifesta geralmente de três formas: a primeira, quando serve para alimentar o erotismo em relação à pessoa amada; a segunda, quando apesar do sofrimento que causa, ele é tolerável pelo ciumento; finalmente, na terceira forma, o ciúme é insuportável e provoca a ruptura, por vezes violenta, entre o amador e o ser amado. A primeira destas formas aplicar-se-á ao caso de Pedro com Virgílio, ainda que o erotismo de que aqui se fala seja algo de difuso e pouco transparente; a segunda ao caso de E.C. Bernardo com Dulce; e a terceira será o ciúme de Virgílio em relação a Dulce. Há também o ciúme que Leonor despertava em Virgílio, que não era o vulgarmente sentido pelos irmãos mais velhos na disputa do afecto dos pais, mas um ciúme abrangente, capaz de entender como ameaça todos os que se relacionavam com a sua irmã.
Sentimento ambivalente em que convergem muitas vezes o sofrimento e a agressividade, o ciúme pode manifestar-se de forma mais lata, como na competição por um lugar ou no esforço para preservar um qualquer bem que se possua. Foi o ciúme que fez de Pedro outro homem, que fez dele um escritor. Assim, Virgílio assume uma dupla importância na sua vida: desencadeador da sua condição de homossexual e força que o impeliu para a arte da escrita.
Partindo para uma analogia com os géneros do teatro clássico, E. C. Bernardo e Luz Botelho deixam por vezes a impressão de serem personagens de tragicomédia, narrativamente coerentes segundo os cânones do género, e só Virgílio se revela como figura trágica pura. Luz Botelho, poeta ou poetisa, com as suas prosaicas flatulências baixas, o seu espírito prático em dissonância com o mistério da poesia, pouco ou nada interpela o leitor; E. C. Bernardo, professor, pai sem vocação e marido não amado, tomado pela ideia de demonstrar matematicamente a ausência de movimento – qual Zenão de Eleia com os seus quatro paradoxos – , é uma personagem à beira do risível. Desta família a três, Virgílio é a única figura que infunde respeito e piedade. O diálogo que trava com Pedro é o que se produz entre o espírito e a alma: Pedro será a alma, Virgílio o espírito.
Uma palavra para Dulce, amante sucessiva do professor e do seu filho, em cuja personalidade é possível ver a projecção da Leonor que não vingou na narrativa. Leonor era uma menina birrenta e mal comportada, e Dulce é igualmente caracterizada por um mau comportamento, por uma mobilidade erótica e aventureira que fazia dela, segundo Luz Botelho, uma mulher em quem não se podia confiar. Devo ter sido o único ser vivo que ela nunca se deu ao trabalho de seduzir – diz o narrador. Mas Dulce não só seduzia, como se deixava seduzir, por vezes até em situações inesperadas e por pessoas aparentemente desinteressantes, como parece ter acontecido com o detective que investigava o desaparecimento de Virgílio e com o bizarro professor Ivo Moita. E. C. Bernardo, no entanto, viu nela uma pessoa extraordinária.
De assinalar também os topoi da viagem e da busca (ou demanda), tão caros à literatura, protagonizados por E. C. Bernardo e o narrador na desesperada procura de Virgílio, de certa forma uma representação metonímica da procura empreendida por Pedro em relação ao seu próprio eu.
“Nada Mais e o Ciúme” é uma obra aberta (de novo Umberto Eco) a partir da qual podem ser feitas várias leituras. Esta, centrada nas personagens nucleares da narrativa, é, por mais paradoxal que possa parecer, uma leitura possível.
O leitor, segundo a teoria da recepção, “rescreve” sempre os textos que lê porque eles o convidam a dar-lhes sentido, tornando-se desta forma uma espécie de co-autor dos mesmos. A verdade, porém, é que isto não acontece com todos os textos, mas apenas com aqueles que verdadeiramente o interessam.


* Gil Duarte é pseudónimo de José Pacheco, seguidor deste blogue.

CALISTO ELÓI / CALISTO MARCELINO

A propósito do nosso Calisto Elói, aqui fica este texto de CRISTINA LEIMART sobre outro Calisto:

(Publicado no blogue "Emoções Básicas" em 30 de Janeiro de 2011)


CALISTO MARCELINO


Desde as 9h15 que o seu pessoal o esperava para a primeira reunião após a notícia da nomeação. Mas o hábito de começar o dia a meio do dito não cede assim ao sabor dos despachos ministeriais. E eram 11h50 quando Calisto irrompe pela porta do gabinete alcatifado. Nesse momento já o concílio ia avançado na discussão de estratégias de base, mas para o nomeado a prioridade era outra:
- "Doutor Calisto Marcelino"... Não... "Doutor Covas de Marcelino"... "Doutor Calisto Covas"... Não, nem pensar. Atenção, atenção! - O homem raciocina à custa de uma estonteante e ininterrupta, quase desesperada, alternância de pequenos passos de avanço e recuo. Olha em redor para o pequeno grupo de pessoas distribuído informalmente pelo gabinete. - Ordem na sala, por favor.
Calisto Covas de Marcelino não estava nervoso, apenas medianamente eufórico. Anos de espera, acabado de dobrar os quarenta, e ei-lo que finalmente subia mais um degrau na hierarquia do poder público. Começara como jovem idealista da ecologia, mas rapidamente se submetera ao dinheiro fácil, às concessões aos interesses económicos e à vaidade pela fama. Com o primeiro montara uma empresa de consultoria em projectos ambientais, estudos de impacte, planos de ordenamento territorial e afins, que geria a par das suas funções como técnico superior do estado. Comentava-se que lhe chegavam às mãos projetos de clientes seus da privada, sobre os quais lhe competia emitir parecer técnico imparcial, situação nada incomum na nossa administração. Mas o importante era estarem-lhe reconhecidas capacidade de trabalho e força empreendedora, qualidades que se aleavam à sua tendência bajuladora para lhe granjearem um estado de graça inicial nas suas várias tentativas de carreira na função pública. Destas, algumas abruptamente interrompidas por um intriguismo compulsivo, retirava ele três novos items para a caixinha das experiências da vida: mais amizades femininas, mais oportunidades de euros não declaráveis e mais ocasiões para fingir bom perder. Mas a presente nomeação fazia tudo isso valer a pena.
- Atenção, pessoal, que isto é importante: é o nome pelo qual o país me vai conhecer daqui para a frente! - Abre os braços em demanda de atenção: - É um nome de guerra. Tem de soar bem, sobretudo soar e ressoar nos media. A aparência, só, não chega. Vocês têm consciência de como esta nomeação me aproxima da meta de secretário de estado, certo? Isto não é só para mim: subo eu, subimos todos. O país precisa de sangue novo, fresco, pá - Vira-se urgente para a assessora: - E eu preciso de dois apelidos. Estela, dois apelidos! Toda a gente que se preza faz-se apresentar por dois apelidos. O tempo dos José Matias e dos Carlos Sousa já foi.
Perpassa pelos belos olhos azuis de Estela Arnaud, desde a primeira hora contactada para assessora de imagem, um laivo de troça:
- Ó chefe, você perdoe-me, mas esse apelido da família da sua mãe não lembra ao diabo. De todo! "Covas", acha isto normal?
Nem todo o espírito de conveniência em agradar a um recém-nomeado pelo ministro da tutela evita o reverberar de risos na sala. Toma a palavra o assessor número dois, Urbano Martins, recrutado à pressa dos tempos da faculdade:
- E é que o teu nome próprio também não ajuda nada, pá, agora a sério!
Calisto sente a exasperação a subir e abre os braços como quem vai parar uma locomotiva. Afasta a franjinha, tique antigo.
- Agora que já se divertiram, posso contar com alguma destreza mental para me avançarem com uma solução? "Calisto" vem do fascínio da minha mãe pela história grega."Covas" é outra história antiga de um bisavô meu que... Eh pá, mas já nos estamos a desviar do assunto!
Os presentes entreolham-se. Com a matéria-prima disponível, será difícil parir um nome apresentável. E é o que lhe transmitem. E também que o nome, apesar de tudo, não se revela assim tão determinante no sucesso e no respeito ao detentor de um cargo público. É mais relevante uma certa atitude e... Calisto impacienta-se:
- Eh pá, calma! Eu quero fazer as coisas bem feitas. E se... Inventa-se um apelido do meio! Ávila, por exemplo. Quem é que vai saber se é verdadeiro ou não? - Alonga o olhar pelo poster com o delta do Nilo e ensaia: - Ávila Marcelino... "O doutor Calisto Ávila Marcelino será..."
- Ó chefe, isso não é possível! De todo! - Estela entesa-se no sofá de couro, com um sorriso desajeitado. - Ai eu vou fingir que não ouvi isto! Então na nomeação do diário da república já aparece o seu nome completo, é obrigatório. Vem aqui, olhe...
Num saudável gesto de curiosidade, o novo director arranca o exemplar da mão da colaboradora, deixando-se cair na cadeira de design moderno em pele e cromados. Afasta a franjinha. Arregaça as mangas da camisa como se o esperasse uma tarefa árdua. Está habituado a moldar a realidade à sua maneira, a cozinhar conveniências, a fabricar as verdades. Desagradam-lhe estes pequenos reveses logo na primeira manhã. E lê na olíqua, voz a meia haste, o conteúdo da nomeação:
- "Diário da República, 1.ª série, decerto-lei de 2009, 13 de Fevereiro, hmm tal tal, hmm, é nomeado, pelas suas notáveis qualidades de organização, capacidade de trabalho, ah!, experiência e bom relacionamento interpessoal, ah!, hmmm, etc etc, o licenciado Calisto-Covas-de-Marcelino, pois, cá está a porra, técnico superior do quadro deste ministério, sim sim sim sim, para provir o lugar de director da equipa técnica e de gestão da Paisagem Natural do Lago de Simboa, exacto, sim senhor, tal tal, este despacho entra em vigor no dia útil imediato ao da sua publicação, isso já sabe, assim e assado, o ministro do ambiente, recursos naturais e território ordenado, fulano..
Sopra ruidosamente, como que para afastar as evidências. O nome que lhe destinaram à nascença parece agora um beco sem saída repleto de ironias.
Vale-lhe o assessor, cheio de bom-senso:
- Calisto, o que não tem remédio é para esquecer. Depois estudamos umas manobras de marketing para compensar essa infeliz composição. - Contorcem-se-lhe as vísceras por baixo da camisa de popelina azul-clara, mas mantém a postura: - Fica Covas Marcelino, pronto. Sai assim no press-release e serve para os jornalistas à porta da cerimónia da tomada de posse. Alegra-te por não seres Covas Silva ou...
- ... ou Pereira... - participa Estela, já embrenhada no próximo ponto da agenda.
- ... ou Covas Lopes... - adianta a secretária, que ainda não entrara activamente na cena.
- ... ou Cov... - recomeça o assessor.
- Eh pá, vão à merda!
Felizmente nomeado mas infelizmente denominado, Calisto sai porta fora. Intempestivo e rosado, com a indiferença da secretária, para divertimento do assessor e apesar de Estela, inconformada:
- Urbano, você acha isto normal?!


= Texto de Cristina Leimart =

25 abril 2011

THOMAR, TOMAR (I)

THOMAR, TOMAR (I)

Dia 17 de Abril de 2011, véspera do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, este ano com o tema Água: Cultura e Património. Em Lisboa, no Museu de Etnologia, havia de se falar em património intangível, mais propriamente a música: o protagonista era o Tejo, que é sempre um rio apercebido como mar, como plataforma líquida de partida, mas também de chegada, chegada de pessoas vindas de longe, ideias e coisas, novas e diferentes, que foram sendo acolhidas e assimiladas, na roda-viva das miscegenações e das sínteses culturais ao longo da História.
Em Tomar temos um rio, que não é o Tejo... mas temos um rio e água-viva, que deu a seu tempo energia a muitas e antigas indústrias.
Mas em Tomar também temos um admirável exemplo de sínteses artísticas, de uma época em que o governo do país não assentava arraiais só na capital, e a realeza tinha locais de estimação, de devoção, de preferência. D. Manuel, por exemplo, estimava esta cidade, este assentamento militar religioso para além da sua utilidade prática. Algo parecia atrair as atenções sobre este lugar, desde D. Afonso Henriques “acolitado pelo fundador de Tomar, o grão-mestre templário Gualdim Paes”; o Infante D. Henrique, assumindo o cargo de administrador da Ordem de Cristo; D. Manuel, “que procedeu a uma autêntica refundação da ordem” e do convento; D. João III, que adoptou o estaleiro de construção para brincar às arquitecturas... até ao próprio Filipe II de Espanha, que escolhe este sítio simbólico para realizar as Cortes em que é reconhecido rei de Portugal.
Ora não se pode falar em Tomar, sobretudo do complexo do castelo e convento, sem fazer uma referência, ainda que superficial e em primeiro lugar, a alguns aspectos da história dos Templários, continuada que foi em Portugal pela Ordem de Cristo. Em segundo lugar, honra seja feita aos verdadeiros construtores destas maravilhas: os arquitectos, os mestres, os pedreiros, os canteiros, que todos eles contribuíram, uns com a arte e o intelecto, outros com o esforço físico e o suor do corpo, tanto ou mais que a arte, pois não são de pedra estas cidade, mas de mãos.

Baseando-nos nas abordagens científicas do historiador de arte Paulo Pereira, longe de fanatismos e falsas certezas, mas desmistificadoras sem deixarem de ser imaginativas e sensíveis, fornecendo chaves de leitura, vale a pena destacar alguns aspectos menos divulgados, observações parciais e conclusões, sobremaneira interessantes para uma certa forma de olhar este património.

Temos então uma ordem religiosa e militar, a Ordem do Templo, que nos é apresentada como “um mito europeu”, “uma das lendas fundadoras da Europa”, o que, desde logo, nos remete para o universo da Memória Colectiva, assumindo um cariz unificador em relação a um vasto território, a Europa, convocando ao mesmo tempo também outras regiões— a Terra Santa em destaque, e remetendo também para outras culturas— marcam presença o Mediterrâneo nos seus contornos não-cristãos, o Oriente médio, a Arábia...

Teve a Ordem dos Templários origem, no século XII (fundada em 1118 por Hugues de Payens e outros cavaleiros, entre os quais talvez figurasse um português), num movimento de defesa e protecção dos peregrinos cristãos que se deslocavam à Terra Santa, “no quadro do estabelecimento do reino cristão de Jerusalém”, movimento que é também cavaleiresco e de perseguição do mito (o do Santo Graal).
A sua existência, de menos de cento e cinquenta anos, ficou marcada por uma memória de mistério e segredos nunca desvendados, e o processo, a forma abrupta e violenta da sua extinção (iniciada a 13 de Outubro de1307 por Filipe, o Belo), sugere um clima de intriga sombria, mas também de ódio e de receio, perante o crescimento de um poder (sobretudo bancário), que parecia imparável.

A sua extinção, “fantasma que assombra a cultura ocidental”, alimentou uma história mítica que, sobretudo desde o século XVIII, nunca mais deixou de produzir e reproduzir teorias esotéricas, hermetismos, práticas ocultistas, convocando o fundo obscuro de medo (tendo como epítome as teorias da conspiração), a Idade Média que mora no inconsciente colectivo e individual.
Também a literatura se tem vindo a apropriar desta temática— basta pensar em Umberto Eco (O Nome da Rosa; O Pêndulo de Foucault); e os saberes que a tradição, por via iniciática, têm transmitido de geração em geração, são objecto de estudo para muitos especialistas— de mística e gnose; da continuidade franco-maçónica; de iconografia e iconologia, etc.

Em Portugal, no contexto territorial de implantação de lugares templários, “Tomar, a sua sede, possui a categoria de grande centro, de centro do mundo e eixo desse mundo, situada sensivelmente no meio das terras de um território que se constitui num reino de fronteiras estáveis nos finais do século XIII— precisamente quando se dá a extinção da Ordem do Templo e lhe sucede, com um êxito inesperado, a Ordem de Cristo”. Para o autor, será o lugar mágico por excelência, o lugar dos lugares todos, quiçá o último reduto europeu do templarismo.

Depois da queda de S. João de Acre, em 1291, desaparece também o reino cristão de Jerusalém, e o papel militar dos Templários só vai manter-se em Portugal e Espanha, sendo provável que já por volta de 1125 combatessem no território do Condado Portucalense, continuando depois, em conjunto com outras ordens militares, a colaborar nas lides de conquista e reconquista, e no esforço de povoamento. Distinguem-se na conquista de Santarém, em 1147, já detentores de vastas áreas, na sequência de doações régias (com determinação das regras a que obedeceriam as suas actividades).
É nesta altura que Gualdim Paes se torna grão-mestre da Ordem, e são fundados os castelos de Pombal, Tomar e Almourol. Daqui em diante, em consonância com a coroa, os domínios e o poder económico da Ordem crescem sempre, mas um certo carácter “nacional” e a autonomia em relação à sede francesa, vêm condicionar o desenrolar do processo contra os Templários em Portugal. Aqui a instauração é lenta; apenas por obediência à bula papal se estabelece um tribunal que nada encontra de relevante para a condenação e, em 1309, é emitida uma sentença real que decide o regresso à coroa das possessões templárias, ficando estas, no entanto “reservadas”. Logo depois da extinção, D. Dinis funda a Ordem de Cristo, na qual são reconduzidas todas as pessoas aos seus cargos e consignados os bens da anterior organização, voltando pouco depois a sede a Tomar. Terá mudado apenas o nome e, de acordo com Paulo Pereira, a haver “projecto templário”, é em Portugal que ele se realiza, no patrocínio da expansão cristã pela Ordem de Cristo, através da empresa dos descobrimentos.

Tomar distingue-se entre os Altos Lugares Templários— Almourol, o paradigma dos castelos; castelos de Castelo Branco, Longroiva, Mogadouro e Penas Róias, Monsanto, Pombal, Soure, Castro Marim... para não falar em Monsaraz e Idanha-a-Velha. São muitas vezes lugares já sacralizados pelo paganismo, aqueles a que o processo de cristianização dá continuidade funcional e religiosa.

Enquanto a fundação da cidade, no sopé do monte, em zona de vale, terá a ver com um assentamento romano— talvez Sellium, município assinalado no Itinerário de Antonino do século III—, o castelo, situado no alto, em promontório, corresponde, quase certamente, à primeira ocupação humana do território; relacionado com o caminho de festo, mas também com uma posição estratégica de domínio e defesa, esta localização é retomada no período visigótico e de ocupação muçulmana, onde, ao abrigo das muralhas, terá florescido uma pequena povoação.

É neste mesmo lugar, preexistente, que, em 1160, no primeiro dia do mês de Março— mês de Marte, deus da guerra— Gualdim Paes, mestre-procurador da Ordem do Templo, lança a primeira pedra do castelo templário, determinando o desenvolvimento posterior da região, a partir da vila, que se expande ultrapassando as muralhas, logo no século XIII.
Na implantação deste castelo, na sua configuração, têm os estudiosos da Geomancia (ciência antiga, ligada à escolha dos lugares propícios à fundação de um edifício, conjunto edificado ou cidade) visto uma aplicação de “regras aritméticas, bases da ciência hermética dos Templários...”, descobrindo nas proporções gerais, na disposição-alinhamentos-angulação dos elementos principais, sobretudo a relação entre a Charola e os pontos marcantes da fortificação, referências ao carácter próprio da arquitectura sagrada. Nomeadamente, e a título de curiosidade, a especulação do autor citado, Maurice Guingand, leva-o a identificar, na planta invertida do castelo de Tomar, a configuração exacta de uma constelação, o Boeiro, traçando igualmente uma autêntica roda celeste a partir da convergência das constelações principais no centro da charola, coincidindo com alinhamentos em relação às torres das muralhas, facto que terá transformado esta construção “num observatório celeste”...

Relembrando Camilo


Camilo e Ana Plácido - Casa Museu de S. Miguel de Seide (Foto minha Maio 2010)

Os Amigos

Amigos, cento e dez, ou talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia:
Supus que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais!

Amigos, cento e dez! Tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia
Que, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente. Ceguei.
Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quasi rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego não nos pode ver.
- Que cento e nove impávidos marotos!

Camilo Castelo Branco

Quem se lembra da D. Cândida, nossa excelente anfitriã, a declamar este poema na sala de Camilo?

21 abril 2011

A Queda de um Anjo – Camilo Castelo Branco - 29 de Abril às 21h00

A abrir:
“Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda…” in "A Queda de um Anjo" de Camilo Castelo Branco.

Enquanto aguardamos a publicação da escriba Maria Amélia, sobre o nosso esotérico passeio a Tomar, ficam abertas as hostilidades para mais um mergulho no mundo Camiliano.

16 abril 2011

TOMAR

Charolinha, Mata Nacional dos Sete Montes, Tomar


Quem não ouviu contar histórias na infância ou delas não guardou na memória o seu maravilhoso irrepetível, pode ter crescido e se tornado gente, pode até ser pessoa válida e de bem, mas encontrar-se-á fatalmente amputado na sua plenitude imaginativa e criadora. Para nos tornarmos homens, é preciso que, em meninos, tenhamos aberto os olhos de espanto perante o canto de sereia das narrativas.
Garrett deixou-nos o testemunho do efeito que nele causaram as histórias da velha Brígida, criada que tinha todo o jeito e traça de bruxa, e era cronista-mor de feitiços e milagres:

(…) Suas longas histórias recontando
De almas brancas trepadas por figueiras,
De expertas bruxas de unto besuntadas
Já pelas chaminés fazendo víspere,
Já indo, às dúzias, em casquinha de ovo
À Índia de passeio numa noite…
E ai! se o galo cantou, que à fatal hora
Encantos quebram, e o poder lh’ acaba. (1)

Amanhã vou a Tomar em passeio com a Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana. Foi em Tomar que, em menino, ouvi as melhores histórias da minha vida: histórias de bruxas, de lobisomens e de almas penadas – histórias que não metiam medo e em que queria com toda a força acreditar. Acho que foram a base da minha formação e valeram tanto ou mais que todas as disciplinas e seminários da Universidade. Uma dívida que não paguei e só de uma forma conseguirei pagar: nunca esquecer quem me as contava.



(1) Dona Branca, canto terceiro, estrofe III.

15 abril 2011

Doces tentações em Tomar!

“Diz a lenda que as Fatias de Tomar eram o doce preferido dos freires do Convento de Cristo. Apesar dos ingredientes serem iguais a muita doçaria conventual, ovos e açúcar, o processo de confecção torna estes doces completamente distintos e com uma textura única, a que a calda confere sublime doçura...
As Fatias de Tomar são um dos muitos doces que podem ser provados até final do mês de Abril na mostra De Tomar e dos Conventos….” In site da CMTomar.
Este meu post não tem qualquer intuito tentador! É mesmo só a título informativo !!!

13 abril 2011

POUCA TERRA, POUCA TERRA, U-UUU!

É neste comboio, domingo às 07:48 em Santa Apolónia. Não esperem por mim, entro em Alverca do Ribatejo.

01 abril 2011

O AUTÓGRAFO

Está na página 101 do meu exemplar de Les Fleurs du Mal. Sobre o poema L' INVITATION AU VOYAGE.

19 março 2011

CRISTINA BRANCO

Lá estaremos, dia 31, no S. Luís, ao encontro do poema de Baudelaire na música de João Paulo Esteves da Silva:


L´INVITATION AU VOYAGE
Mon enfant, ma soeur,
Songe à la douceur
D´aller là-bas vivre ensemble!
Aimer à loisir
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble!

(…)

O vídeo em:

www.youtube.com/watch?v=tQTvatPNmSI

16 março 2011

Memória de Elefante –A. Lobo Antunes, 25 de Março às 21.00

 A abrir

“O hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de pasta de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante:
- A quotazinha da Sociedade, senhor doutor….”
António Lobo Antunes in “Memória de Elefante”

08 março 2011

TOMAR, em breve

Aqueduto dos Pegões, obra iniciada por Filipe Terzi, arquitecto-mor do Reino ao tempo de Filipe I.

22 fevereiro 2011

ETNIAS DE ANGOLA


Sem Medo: kikongo; Comissário, Chefe de Operações, Ingratidão do Tuga e Milagre: kimbundos; Ekuikui: umbundo; Lutamos: cabinda; Mundo Novo e Muatiânvua: destribalizados. [Personagens de Mayombe]

19 fevereiro 2011

Book - a revolução tecnológica !



Uma mão amiga fez-me chegar o link. Achei tão fantástico que não resisti a publicá-lo aqui. Na era das tecnologias, esta é uma preciosidade, como nós bem sabemos!

04 fevereiro 2011

Literatura da Memória Colonial

Sendo este o nosso tema do primeiro trimestre deste ano e em dia do 50º Aniversário do início da Guerra Colonial, deixo uma ligação ao DN e à forma como noticiou esse histórico 4 de Fevereiro de 1961.
Diz Pepetela ao abrir “Mayombe”, o nosso livro do mês:

"Aos guerrilheiros de Mayombe,
que ousaram, desafiar os deuses
abrindo um caminho na floresta obscura,
Vou contar a história de Ogun, o Prometeu africano..."

28 janeiro 2011

Fogo e ritmo (Jornada de África)

“Embondeiro” Neves e Sousa
Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura húmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços. 
Fogueiras
             dança
                      tantan
                              ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.

Ó vozes dolorosas de África!

Agostinho Neto -  in Jornada de África de Manuel Alegre

21 janeiro 2011

CRISTO E ENDOVÉLICO

Cabeça do deus Endovélico, século I d. C., mármore

Portalegre e a Casa-Museu de José Régio; S. Miguel da Mota (Alandroal) e o local onde estaria o santuário pré-romano do deus Endovélico.
Régio era um heterodoxo que coleccionava Cristos, mas só acreditava no Cristo humano, não no divino; e os Romanos eram uns ortodoxos que acreditavam em todos os deuses, até nos dos povos que iam submetendo.
Dará isto para uma passeata de Primavera?
Triste do desassossegado Bernardo Soares que só sabia viajar com a alma!

18 janeiro 2011

Ainda o João Tordo e o Bom Inverno



Entrevista da Geração C ao João Tordo, aquando da sua passagem pela Biblioteca, com a excelente apresentação do nosso mentor Manuel, ouvidos com prazer pela Comunidade de Leitores e não só.

17 janeiro 2011

"JORNADA DE ÁFRICA" II

--- Enviado pela Maria José. Acrescentei-lhe música e voz ----

Nambuangongo meu amor, de Manuel Alegre

http://delta4.no.sapo.pt/malegre17.html

"JORNADA DE ÁFRICA" I

----- Enviado pela Maria José ------

Abaixo el-rei Sebastião

É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

Manuel Alegre

16 janeiro 2011

Palavras para que vos quero...

Efeitos de uma tertúlia!
Com amor o fiz
Derramado depois

Em taça depositado
Pelas mãos de Amelie
Em amor de canela de novo o cobri
Sossego então, vozes, conversas, calor da lareira
Aromas, sabores, vinhos, sentidos 

Quietos
Suspensos ouvindo
Fraterna alegria

Pensamentos de um homem
Fragmentos de vida
Se de "L de D" ou dele, nem ele o sabia
Manuel em Pessoa assim nos dizia...

A inspiração da nossa Leitora Graça!

13 janeiro 2011

Uma coisa, traz a outra ...

Henri Matisse
No passado mês de Dezembro o Manuel (o nosso) trouxe-nos (aqui mais em baixo) este belo poema do Herberto Helder.  E agora, ao travar conhecimento com Sebastião, o protagonista da história do Manuel (o Alegre), deparamo-nos novamente com o poema de HH... deram por isso ?

05 janeiro 2011

"Jornada de África" Manuel Alegre - 28 de Janeiro - 21h00

A abrir:
“Estrada da Beira, Dezembro, mil novecentos e sessenta: é um dia cinzento, cai uma chuva miudinha, Lázaro Asdrúbal olha tristemente as águas barrentas do Mondego, que vêm da serra carregadas de destroços. Conseguiu finalmente falar com o Chefe, teve de esperar quase quinze dias, apesar da urgência. Veio de propósito de Luanda para o informar do levantamento que se prepara no Norte da Província. Agora tem de guardar a resposta só para si: «Deixe andar, é um sacrifício necessário, só assim poderemos contar com o apoio do país e do Ocidente.» Os óculos na ponta do nariz, os esses quase assobiados. Lázaro Asdrúbal não esquecerá a frieza, a secura e a determinação dos olhos de peneireiro com que o Chefe o fitou…”

04 janeiro 2011

CARTA DO PAI NATAL - publicada no blogue "Emoções Básicas" pela mão de Cristina Leimart

Carta do Pai Natal a um disperso escrevedor (Ao abrigo do direito de resposta e ainda a tempo do Dia de Reis)


Meu Caro Jovem
Perdoe-me a demora na resposta. Sucede que, polémicas à parte, continuo muito solicitado e andei ocupadíssimo, primeiro nas lides habituais, depois compensando a minha mulher pelas longas horas fora de casa.
Foi com profunda tristeza, alguma complacência e a máxima arterial a 170 que li e reli as suas desalentadas palavras. Vasculho na minha história, sondo de ponta a ponta a minha consciência, e não encontro passos merecedores de tamanha diatribe. Creio que apenas a sã irreverência, própria da juventude cinquentenária do meu amigo, justifica tal tratamento a um idoso como eu. Bem me avisou em tempos certa astróloga: por volta dos meus 115 anos, uma grande arrelia chegaria por correio e, de tão contundente, far-me-ia crescer (Ainda perguntei "Crescer mais?? Para quê? Mas ela lançou-me um olhar reprovador).
Sou pessoa sensível e magoaram-me algumas das suas farpas, quer as de natureza mais filosófica, quer as alusivas à minha aparência. Sem cerimónias, eis o que se me oferece dizer sobre as primeiras:
Mas agora tenho de levar a toda a hora com a lengalenga anti-consumo, a pretexto dos primórdios da minha existência? Por dá cá aquela palha, salta alguém a responsabilizar-me pela agressividade mercantil da marca que me inventou? É injusto e é absurdo.
Injusto, porque eu não tenho culpa das minhas origens. O meu amigo responde pelas suas? Não podemos arcar pela vida fora com o ónus das opções e acções dos nossos progenitores. Absurdo, pela questão dos prazos de validade: as alianças fazem-se e desfazem-se. No meu caso, mergulhei directamente do acto de criação para uma tarefa especificamente comercial, é verdade. Foi nos anos 30 do século passado. Mas onde é que isso já vai! Há que tempos ninguém me vê agarrado a um dístico de refrigerantes. É como um indivíduo divorciar-se e passada uma década ainda lhe falarem constantemente da ex-mulher. Desagradável. Ainda por cima são essas vozes de revolta mal dirigida que alimentam, nesta quadra e gratuitamente, o portentoso caudal de publicidade à referida marca, pois, como sabe, nos códigos do marketing o que importa é ser-se falado, bem ou mal.
Quanto a promover o consumismo: Eu? Eu, que só saio da toca duas ou três semanas em Dezembro? Então os outros onze meses do ano? Sou eu que canalizo milhares para formigarem pelos centros comerciais das vilas e cidades nos fins-de-semana de sol, nas tardes de primavera? (Dou este exemplo, por me constar que o seu país vai à frente nesse distinto passatempo).
E antes que lhe ocorra imputar-me as enormes desigualdades materiais das famílias, digo-lhe já que reclame noutra secção, com quem fez o mundo assim. Limito-me a entregar o que me mandam - sou apenas o estafeta. Abracei o projecto de distribuir prendas aos miúdos porque me identifiquei com ele. Comecei como mero assalariado, nunca subi na hierarquia, não pedi para ser a estrela do consumismo sazonal do ocidente, e há muito que opero na base do voluntariado responsável. Faço o melhor que posso.
Acredito ter conquistado, assim, o direito a uma existência autónoma, digna e íntegra. Não sou avalista de todas as palermices que inventam a meu respeito, mas sou alheio às réplicas da minha pessoa empoleiradas aí pelas varandas. Alguém, nesta época de twitters e facebooks, poderá assumir os usos indevidos da sua imagem globalizada? Se vamos a matutar nisso, será melhor eu pôr-me a despejar tranquilizantes pelas chaminés abaixo.
É verdade que já poderia ter arrumado as botas. Mas, por um simples erro de génese, vestia agora um fato de treino e enterrava a cabeça nas neves da Lapónia? Não. Como é ingénuo o meu amigo, ao pensar que me movem as comissões das grandes multinacionais. O meu intento é outro. É adiar o face-a-face com a solidão na velhice, é resistir ao medo terrível da inutilidade. Há muito que me sinto escorregando num plano untado a sebo de rena, inclinado a 30 graus sobre a fenda escura da morte. Esta sensação é comum na minha idade e até em pessoas mais novas. Passar a noite de Natal voando pelos céus, nas asas da imaginação, nossa ou de outros, é a minha forma de me agarrar a qualquer ressalto ou cavidade que encontre nessa supefície ímpia. É a minha forma de iludir um tempo que corre muitíssimo mais veloz do que me foi prometido no início da minha existência.
Quanto ao menino Jesus, nada contra. Nutro um carinho de avô por esse eterno bebé, e além disso há mercado para os dois. Tenho alguma vaidade por reunir o consenso entre as famílias que não se revêem nos episódios e personagens bíblicas, mas ninguém me ouvirá uma palavra menos cortês sobre a concorrência. Excessos de competição são desaconselhados na minha idade e esvaziam-nos de energia anímica. Já a quebra de popularidade do Pequeno no coração das pessoas, palpita-me que se deve, isso sim, à incorrigível soberba da massa católica, dos marechais aos soldados rasos.
Por fim: A minha fatiota. Que é que tem?? Eu gosto. O vermelho significa alegria e tonicidade, qualidades nada de desprezar num velho. Além disso, como sou forte, nem tudo me assenta bem. Efectivamente, já nasci com este índice de massa corporal, e ninguém se penaliza mais por isso. Não poderia adoptar uma tanga tipo Jesus, que praticamente nasceu nos trópicos, e também não estou para imitar o São Nicolau: o púrpura e o marfim não me favorecem e as vestes compridas travam-me os movimentos.
Dito tudo isto, meu jovem amigo, estou consigo no desalento perante um Natal esvaziado de sentido. Porém, na tresloucaria refinada que é Dezembro, eu não vejo tanto a ânsia de consumir e possuir - vejo mais a urgência das pessoas em quebrar a rotina a todo o custo, em encher os dias com objectivos palpáveis e próximos, passos e palavras especiais, ainda que frívolos e fugazes. O espírito até existe, mas agora é outro. Jesus cresceu. A humanidade está para lá de madura.
Deste, que afectuosamente o compreeende,

Pai Natal

01 janeiro 2011

Sorrir em dia de Ano Novo

A minha Alma, fugiu pela Torre Eiffel acima,
- A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões
- Fugiu, mas foi apanhada pela antena da T.S.F.
Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertzianas…
(Em todo o caso que belo fim para a minha Alma!...)
Mário de Sá Carneiro

26 dezembro 2010

As raparigas lá de casa

"Duas irmãs" - Fernando Botero
Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silencio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-se
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa.
Emanuel Félix, poeta açoreano
(poema extraído do livro «Habitação das Chuvas»)
Obrigado ao Helder, por nos ter enviado esta pequena (grande) preciosidade!

24 dezembro 2010

CARTA AO PAI NATAL

Ex.mo Senhor,
Devo dizer-lhe, em primeiro lugar, que não encontrará nesta carta as expressões afectuosas e de submissa pedinchice que está habituado a receber dos seus inúmeros admiradores espalhados por todo o orbe. De facto, não só não nutro qualquer simpatia pela rotunda e esdrúxula pessoa de V. Exa., como, por razões que adiante compreenderá, não me é permitido aceitá-lo como representante supremo desta época festiva em que nos habituámos a viver e a comemorar o nascimento do Filho de Deus.
Certamente se recordará que na meninice dos homens e mulheres que, neste país, têm hoje cinquenta e mais anos de idade, nunca a pessoa de V. Exa. era chamada para a entrega de prendas ou brinquedos na noite mágica de Natal. Tínhamos para isso uma figura bem mais credível e ajustada à quadra – o Menino Jesus – a quem não escrevíamos cartas, pois tratando-se de um recém-nascido não poderia naturalmente lê-las, mas a quem rezávamos de joelhos no chão, junto às chaminés de nossas casas, pedindo o carrinho de corda, o triciclo, a boneca de cartão ou os chocolates. A personalidade de V. Exa. era praticamente desconhecida das nossas infantis pessoas, só nos chegando notícia sua, eventualmente, através de algum postal de boas-festas remetido do eldorado americano por um qualquer parente ali emigrado.
Nestas últimas décadas, beneficiando da cumplicidade dos poderes constituídos, tem V. Exa. assumido a representação simbólica do Natal. Paulatinamente, como quem não quer a coisa, foi matando o Menino Jesus que sempre habitara os nossos sonhos de criança – um crime tão bárbaro e nefando como a própria morte do Jesus adulto – insinuando-se junto das novas gerações através de agressivas campanhas de publicidade organizadas pelas grandes multinacionais dos electrodomésticos, das consolas, dos jogos de computador e de toda a classe de brinquedos. V. Exa. vendeu a ternura do Natal aos capitalistas da SONY e da NITENDO, aos fabricantes de sonhos de latão e aos oragos anunciadores de promessas de felicidade descartável. Quem o quer ver é a enviar as suas legiões de clones para a porta das superfícies comerciais, incentivando o consumo desregrado, promovendo o endividamento das famílias e assediando as criancinhas com beijos babados de infame consumismo.
Acresce que a figura e os modos apresentados por V. Exa. são do mais grotesco que se pode imaginar. Ri de uma forma estúpida e desconchavada, veste um fato ridículo que mais parece a farpela dum palhaço, não faz a barba, há quem diga que cheira mal dos pés, e, suprema ironia, garantem-nos que desce pelas chaminés para distribuir as prendas e os brinquedos, quando, com a gordura que ostenta, nem pela porta da garagem seria capaz de passar. Depois, contam-nos que viaja num trenó puxado por renas, entre a Lapónia, sua terra de origem, e os lares de cada um de nós, quando é sabido que tal trenó não existe, é pura ficção para dar um toque de romantismo à sua existência árida, pois as únicas viagens que faz, sabemo-lo bem, fá-las de avião entre as grandes praças financeiras, controlando a evolução dos seus negócios e recebendo as chorudas comissões que lhe são atribuídas pelos fabricantes de brinquedos e de electrodomésticos de todo o mundo.
Não tenho dúvidas que, com V. Exa., o Natal, na sua pureza, está irremediavelmente perdido. Porque o Natal não pode ser este falso esplendor de bens de consumo, sabiamente regido pelos interesses do capitalismo industrial e financeiro. O Natal não pode ser este vazio de alma, este deserto de emoções em redor da mesa farta e de uma árvore, dita de Natal, reverberando luminárias espúrias contra a luz verdadeira da estrela de Belém. Não bastava ter V. Exa. arrancado o Menino Jesus do coração dos homens; era preciso também que os reduzisse, como escravos, a um mero instrumento dos seus desígnios de lucro e enriquecimento ilegítimo.
É por tudo isto e pelo mais que se não diz por ser verdade – cito aqui, de cor, o poeta da Pedra Filosofal – que lhe escrevo estas modestas mas inflamadas linhas, como vivo protesto de quem não se conforma com a ditadura materialista que V. Exa. representa.
Sem outro assunto de momento, e na esperança de topar o menos possível com as execrandas réplicas de V. Exa. que por aí pululam neste período natalício, subscreve-se,

Este que sinceramente o abomina,



(Publicado no blogue "Disperso Escrevedor" em 10 de Dezembro de 2006)

17 dezembro 2010

PROTEU - a propósito de alguém ter apodado de proteiforme a personagem Julian Garmony do romance "Amesterdão"


Deus marinho da mitologia grega, Proteu é filho de Poseidon e de Tétis. Tornou-se guardador dos rebanhos de seu pai, isto é, dos grandes peixes, das focas e dos monstros marinhos.
Este deus-pastor, segundo Eurípides, era rei da ilha de Pharos, no Egipto, onde foi construído o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Proteu tinha o dom da profecia e o poder de se metamorfosear para escapar aos perseguidores ou a quem o buscava para saber os acontecimentos futuros. Se alguém conseguisse vencer o medo perante as formas horríveis e terríveis que assumia, ele revelava a verdade, como sucedeu com Menelau, o rei de Esparta, que queria saber se e como podia voltar à sua terra, após a guerra de Tróia.
O Padre António Vieira, no Sermão de Santo António aos Peixes, na crítica ao polvo, recorda as transformações extravagantes desta figura mitológica quando diz "as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício."


(Infopédia da PORTO EDITORA - www.infopedia.pt/$proteu)

12 dezembro 2010

MOLLY LANE

Diz-se que em Culloden, lugar da carnificina
de que fala Hélia Correia em Lillias Fraser,
o fantasma dum guerreiro derrotado costuma
atravessar as noites com o seu lamento de sombra.

E em Tantallon Castle, por mais incrível que pareça,
há quem tenha conseguido fotografar
a tenebrosa aparição de um espectro.

Nada disto afligia Molly na noite
daquele Natal de setenta e oito
quando se divertia com os amigos
num inócuo castelo da Escócia.

À hora em que os fantasmas saíam, vogando
descoloridos sob os tectos das casas,
e o vento gemendo nas highlands
crivava de inquietação
os dedos líquidos dos lochs,
ela ria-se das sombras pálidas dos mortos,
dançando nua sobre uma mesa de snooker.

08 dezembro 2010

Nessun Dorma em Amesterdão de McEwan



“…A Comissão considerada de gostos medíocres pelo meio musical, ansiava acima de tudo, por uma sinfonia da qual se pudesse extrair pelo menos uma melodia, um hino, uma elegia para o caluniado século que findara que pudesse ser incorporada nos eventos oficiais, tal como nessun dorma o fora, num campeonato de futebol…” in Amesterdão de Ian McEwan.

04 dezembro 2010

HERBERTO HELDER - "O AMOR EM VISTA"

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.


Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.


Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.


(…)

É apenas um fragmento do poema. Alguém o terá de ler para nós, por completo, numa próxima tertúlia.

Palavras para que vos quero (4)

Desabafo!

Faz frio.
Sinto-o no corpo
e na alma...
Faz frio.
Procuro o conforto
de um agasalho
ou de um abraço...
Faz frio.
Desejo o calor
de uma lareira
ou de um corpo...
Faz frio.

Porto, Dezembro 2010

02 dezembro 2010

"AMSTERDÃO" de Ian McEwan

Li ontem o primeiro capítulo e entristeceu-me a morte prematura da heroína. Pergunto-me: qual é a diferença entre os homens que amaram Evelyn Cotton e os amantes de Molly Lane?  Verei isso depois, mais sobre a data da sessão da nossa Comunidade: quinta-feira, 16 de Dezembro                                

01 dezembro 2010

Palavras para que vos quero (3)

Texto de CRISTINA LEIMART, publicado no blogue "Emoções Básicas"

O fim



Começo pelo fim.

Começo ciente de não saber dizer, do fim, onde começa ou onde acaba. Começo confusa como em criança, diante do primeiro livro sem bonecos, ao ouvir "Agora nada de ires ver o fim.."

O fim? Qual fim? Salto a capa do livro, cheio de personagens que ignoro, jogadas em enredos que sobrevoo a jacto directamente das palavras do adulto para uma busca desenfreada: Ah não é para ler o fim?

Procuro-o numa curiosidade urgente, com critério e coragem, atrás do sofá pequeno disposto de esguelha junto à janela da sala de visitas. Procuro-o nessa tarde nesse livro sem capa, título ou princípio, como depois noutros livros com e sem bonecos. Procuro-o noutras tardes, noutras idades e cidades, nos meus cantos preferidos das casas onde vivi e, enquanto vivi longe, em cantos alheios onde não me perdia nem me escondia. Procurei-o, por acaso e sem autorização, nos livros de amigos, de namorados e conhecidos. Nas histórias dentro da minha história, o tempo levou-me à procura já não dos fins, mas de exemplos que desmontassem a certeza daquele princípio de leituras, num livro ainda folheado confusamente aos últimos pingos de luz do dia:

"Agora nada de ires ver o fim" é o cuidado adulto mais infantil. Ninguém corre o risco de anular o magnetismo da leitura galgando sofregamente direito ao fim. Não saberíamos onde poisar essa pegada de gigante enjoado do presente. Não há pontaria capaz de acertar no fim à distância. Não estão inventados gps para os desfechos.

Não podemos saber se o fim está na última página ou na última frase. Ou nas duas últimas frases. Ou a partir do início do último capítulo. Talvez na primeira linha da primeira página, ou algures a meio do volume, se o autor aposta em anacronias? Não sabemos, às vezes o autor sabe, eu não sei.

Eu sei que o pano cai quando passo a mão pela contracapa. Sei que a ficha técnica já desliza lentamente quando reclino a cabeça para trás e desfoco o olhar. Mas para ouvir o último suspiro da história eu não tenho hipótese de usar uma tele. Eu sou o batedor. Tenho de aceitar a lentidão da imagem revelando-se na penumbra de laboratório fotográfico, ou sujeitar-me ao embate de um fim salteador num troço do caminho quando menos espero.

De uma forma ou de outra, estamos seguros. Não há perigo de frisarmos o sagrado fio da história com a brasa da impaciência.

Num livro (e na vida, tão nossa como tão pouco nossa, o que nada interessa aqui), nunca sabemos onde começa, por isso não sabemos onde está, o fim. A única certeza é a surpresa.