01 agosto 2018

Há sempre um lado bom!







Ainda a propósito dos percalços relativos à realização da última sessão da Comunidade, que felizmente acabou em bem e agradecendo mais uma vez os esforços levados a cabo pelos responsáveis da Biblioteca, houve um lado bom, que ainda em tempo apetece destacar. Como a Biblioteca abriu só para a CL, foi possível regressar ao nosso espaço de eleição, à sala principal de leitura. Optimamente instalados, com melhores condições acústicas e rodeados daquilo que desde 2007 nos leva àquele espaço: os livros! É a leitura que nos move e são os livros que nos juntam. Esperamos continuar a ter a oportunidade de, na última Sexta-feira de cada mês, voltar sempre àquele local. Os livros, nunca nos faltam ...

26 julho 2018

Actualização - Sessão de amanhã, 27 de Julho

Caros Leitores

Informo que devido a esforços suplementares por parte dos responsáveis da  Biblioteca de SDR, foram ultrapassadas as dificuldades para amanhã, 27 de Julho, pelo que vamos conseguir realizar a sessão deste mês na Biblioteca. 

Contamos convosco, como habitualmente!

Sessões (forçadamente) suspensas

Por questões logísticas e de segurança, a Biblioteca de SDR, não nos pode disponibilizar o espaço habitual nos meses de Julho e Agosto. Assim, ficam suspensas as nossas Sessões nestes dois meses. 

Como amanhã temos um jantar marcado, a que muitos já aderiram, podemos sempre "salvar" o livro de Julho e discutir as Viagens ao longo do repasto!

Para Agosto, quem sabe conseguimos organizar um encontro, nalgum jardim simpático? Podemos pensar no assunto...

Como sou optimista, espero que a normalidade possa ser retomada no mês de Setembro ....

11 julho 2018

As Viagens de Marco Polo - 27 de Julho - 21h00


A abrir

"Aqui começa o livro do Senhor Marco Polo de Veneza, que se chama "Milhão", o qual conta muitas novidades de Tartária e das três Índias e de muitos outros países..."

in "As Viagens de Marco Polo" - edição de bolso Europa-América

03 julho 2018

UM OLHAR SOBRE O NOVO MUNDO


Depois da leitura do intenso Philip Roth em A Mancha, que nos leva, entre outras mil reflexões, a questionar o nosso (re)conhecimento europeu de uma América do Norte  real e histórica, eis uma oportunidade para ouvir (e viver) uma interpretação desse Novo Mundo, com a Sinfonia de Dvořák... No Largo já nosso conhecido, dia 12, 21.30h... Mas com aquele intervalo de espera que sabemos.

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Concerto para Oboé e Orquestra

Antonín Dvořák (1841-1904)
Sinfonia n.º 9 ("Novo Mundo")

Durante a primavera e o verão de 1777, Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) ocupou-se com a escrita do Concerto para Oboé em Dó maior, K. 314 que ofereceu ao famoso oboísta italiano Giuseppe Ferlendis. Com três andamentos cuja duração não excede 20 minutos, este concerto, um dos mais importantes no repertório de oboé, foi dado como perdido durante quase 150 anos, tendo sido redescoberto em 1920 pelo maestro Bernhard Paumgartner. A Sinfonia n.º 9 em Mi menor, op.95, mais popularmente conhecida por Sinfonia do Novo Mundo, foi composta por Antonín Dvořák (1841-1904) em 1892 durante a sua estadia nos Estados Unidos quando o compositor foi convidado a fundar o Conservatório Nacional de Música, precursor da atual Juilliard School of Music. Esta sinfonia com quatro andamentos, a última de Dvořák, foi estreada com estrondoso sucesso no Carnegie Hall de Nova Iorque em 1893. As críticas, altamente elogiosas, definiram a obra como sendo uma nobre composição de proporções heróicas, inspirada na beleza dos espirituais negros e em canções das plantações. Contudo, e segundo palavras do próprio compositor, a sua intenção foi apenas escrevê-la de acordo com o espírito das melodias nacionais norte-americanas.

24 junho 2018

Poeta do mês de Junho - Joaquim Pessoa

(Joaquim Pessoa)
Há pequenas aves que têm raízes nas palavras,
essas palavras que não ficam arrumadas com decência
na literatura,
palavras de amantes sem amor, gente que sofre
e a quem falta o ar quando faltam as palavras.
Quando digo o teu nome há uma ave que levanta voo
como se tivesse nascido o dia e uma brisa
encarcerada nas amêndoas se soltasse para a impelir
para o mais frio, para o mais alto, para o mais azul.
Quando volto para casa o teu nome vai comigo
e ao mesmo tempo espera-me já
numa casa construída com dois nomes,
como se tivesse duas frentes,
uma para a montanha e outra para o mar.
Por vezes dou-te o meu nome e fico com o teu,
espreito então pelas janelas de onde
se vêem coisas que nunca antes tinha visto,
coisas que adivinhava mas que não sabia,
coisas que sempre soube mas que nunca quis olhar.
Nessas alturas o meu nome é o teu olhar,
e os meus olhos são justamente a pronúncia do
teu nome que se diz com um pequeno brilho molhado,
um som pequeno como um roçagar de asas
dessas aves que constroem o ninho na folhagem da fala
e criam raízes fundas nas palavras vulgares
que os vulgares amantes engrandecem
quando falam de amor.

Joaquim Pessoa in “GUARDAR O FOGO, cento e quatro inéditos e uma antologia"

09 junho 2018

LA BELLE DAME SANS MERCI

Ilustração de JOHN WILLIAM WATERHOUSE para o enigmático poema de JOHN KEATS.
Assim se vai fazendo a leitura de A Mancha Humana, de PHILIP ROTH. Uma mulher fogosa e um decrépito professor aposentado; a dama impiedosa e o cavaleiro ajoujado de anos: «Sou um homem de 71 anos com uma amante de 34, o que me incapacita, na comunidade de Massachussetts, de instruir seja quem for. Tomo Viagra, Nathan. Aí está  La Belle Dame sans Merci. Devo toda esta turbulência, toda esta felicidade, ao Viagra.» Aqui chegados, quem é esse Nelson Primus, advogado insípido que ainda não viu nada do mundo, para procurar cercear a sensual turbulência do classicista Coleman Silk? Leitura feita até às primeiras páginas do capítulo 2, "Jogo de Esquiva". Veremos o que nos reserva o adiantado da obra.



04 junho 2018

"A Mancha Humana" de Philip Roth, 29 Junho às 21h00


Ao acaso

" ... Nada dura e, todavia, nada acaba, também. E nada acaba precisamente porque nada dura..." 

in "A Mancha Humana" de Philip Roth

29 maio 2018

MÁRIO DE CARVALHO

O autor de "Casos do Beco das Sardinheiras", "A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho" e "Ronda das Mil Belas em Frol" tem novo livro de contos. O título é extraído de um poema de Mário Cesariny, podendo ler-se na sinopse da contracapa: « Um marido recalcitrante ludibriado pela esposa defunta; um casal num jantar de amigos, elas amigas íntimas dele; um recém-viúvo percorrendo a lista das suas conquistas mais assíduas (...)» Aqui, ao dar com as palavras «lista» e «conquistas», como que me soou uma campainha de alarme: veio-me à memória aquela epígrafe das "Belas em Frol" retirada do libreto de "Don Giovanni", de Mozart: « Osservate, leggete con me.» 
Listas e conquistas à parte, este é, provavelmente, um livro a propor para as leituras de 2019.`

21 maio 2018

03 maio 2018

DANDO CONTINUIDADE AO "ELOGIO..."

Para fazer o retrato íntimo de certos personagens e das suas relações especiais (para não as classificar de outro modo, fazendo juízos de valor), Vargas Llosa socorre-se da arte, de obras de arte sugestivas, que servem de mote ao desenvolvimento de algumas ideias (perniciosas?). Claro que, na sequência de "O Elogio da Madrasta", também vamos encontrar, desta feita, um artista cuja obra talvez não seja muito divulgada... pelos motivos que vamos descobrir! Mas sobre esse artista poderemos voltar a falar mais tarde. Por enquanto, quero partilhar a experiência de ter visto e fotografado ao vivo, na National Gallery em fevereiro último, uma das obras evocativas da nossa primeira leitura, "O Elogio...". Lembram-se?





01 maio 2018

"Os Cadernos de Dom Rigoberto" de Mário Vargas Llosa - 25 de Maio às 21h00


Estão preparados para voltar a encontrar Dom Rigoberto, Dona Lucrécia e Fonchito?

E não se esqueçam que a sessão termina com a poesia de Bocage...

02 abril 2018

"O Deus das Pequenas Coisas", de Arundhati Roy - 27 de Abril às 21h00


Abri o livro ao acaso e este parágrafo despertou-me a atenção:

" ... Pequenos acontecimentos, coisas vulgares, destruídas e reconstituídas. Investidas de novo significado. Subitamente tornam-se nos ossos descorados de uma história..."

in "O Deus das Pequenas Coisas", de Arundhati Roy

13 março 2018

FILOMENA MARONA BEJA

A escritora de "A Cova do Lagarto", "O Eléctrico 16", "Franceses, Marinheiros e Republicanos...", "Um Rasto de Alfazema" e "Avenida do Príncipe Perfeito" na Biblioteca Municipal de São Domingos de Rana. Sábado, 24 de Março, às 16 horas.


11 março 2018

"Enseada Amena" de Augusto Abelaira, 23 de Março às 21h00


A abrir

"Só agora Ana Isa dá por isso: o casaco de lã que, momentos antes, ao sentar-se muito cansada naquele banco da Avenida, pôs de lado ao alcance da mão, poderia parecer (a olhos estranhos) que guardava um lugar. Para um amigo? Uma amiga? Por exemplo (ideia que não lhe passou pela cabeça): um lugar para o Osório - o Osório que nesse preciso instante a observa, o Osório que duas ou três vezes já, nos últimos anos, a tem visto aqui ou ali, sentada ou a andar, e não vai ter com ela, o que é (ele bem o sabe) uma fuga..."

"Enseada Amena" de Augusto Abelaira

05 fevereiro 2018

"Nem Todas as Baleias Voam" de Afonso Cruz, 23 de Fevereiro às 21h00

Sinopse (na Wook)

Em plena Guerra Fria, a CIA engendrou um plano, baptizado Jazz Ambassadors, para cativar a juventude de Leste para a causa americana. É neste pano de fundo que conhecemos Erik Gould, pianista exímio, apaixonado, capaz de visualizar sons e de pintar retratos nas teclas do piano. A música está-lhe tão entranhada no corpo como o amor pela única mulher da sua vida, que desapareceu de um dia para o outro. Será o filho de ambos, Tristan, cansado de procurar a mãe entre as páginas de um atlas, que encontrará dentro de uma caixa de sapatos um caminho para recuperar a alegria. 


Entrevista ao autor aqui (blog literário da Wook)

12 janeiro 2018

Encontros inesperados

Teofilo Cubillas

"Teofilo Cubillas, o peruano sorridente. Isaltino de Jesus pasmou perante o poster e não queria acreditar. Era o Teofilo Cubillas a sorrir exactamente no mesmo poster que o Norte Desportivo oferecera aos portistas devotos nos idos anos setenta do século passado...............................
Durante décadas enquanto Isaltino discutia no gabinete do seu chefe as estratégias dos casos que investigavam, via um poster de Cubillas exactamente igual àquele, colado na parede com pedacinhos de fita-cola, acusando inúmeros rasgões, já sem pontas, cheio de vincos de mil dobras diferentes, motivadas por arquivamentos esquecido no tempo e com manchas de fumo, deixadas ali pelos charutos da praxe do inspector... "

in Capítulo cinco de "a máquina de fazer espanhóis", de Valter Hugo Mãe.

E quando menos se espera, damos de caras com os nossos conhecidos inspector Jaime Ramos e agente Isaltino de Jesus, com quem nos cruzámos em Novembro passado, no decorrer de "Um Crime Capital" de Francisco José Viegas. A ver vamos como se dão com os residentes do lar feliz idade...

06 janeiro 2018

O Escritor no seu Labirinto, 13 de Janeiro às 16h00


Mais uma conversa informal na nossa Biblioteca, no âmbito dos ciclos de encontros com escritores. No próximo Sábado às 16h00. 

05 janeiro 2018

"a máquina de fazer espanhóis" de Valter Hugo Mãe, 26 Janeiro às 21h00


" ... naquela tarde o carteiro chegou e encostou a bicicleta no lugar de sempre e foi ao encontro do américo que andava cima e baixo a passear os velhos, o carteiro entregou ao américo um molho de cartas onde estava a que eu falsificara cuidadosamente para a dona marta. levei umas horas a redigir aquela carta. não porque fosse longa, que não era, era breve como tudo, mas porque era importante que dissesse algo bem pensado, algo para lhe fazer um agrado, uma carta segura com garantias de fornecer alegria à velha calada..."

in "a máquina de fazer espanhóis" , capítulo nove "o tempo não é linear", de Valter Hugo Mãe

28 dezembro 2017

A FEBRE DE SENTIR

«Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu.»

14 dezembro 2017

INSANUS OU A INSÂNIA DO QUOTIDIANO

Insanus, de Carlos Querido, é um livro de contos editado em Julho deste ano pela Abysmo. Anteriormente, o autor publicara Salir de Outrora (2007), Praça da Fruta ( 2009), A Redenção das Águas (2013) e Príncipe Perfeito-Rei Pelicano, Coruja e Falcão (2015). Se o primeiro destes livros se apresenta como uma pesquisa em torno de documentos históricos relativos aos coutos do Mosteiro Cisterciense de Alcobaça, Praça da Fruta é uma narrativa cuja acção decorre nos nossos dias, remetendo embora para os marcos históricos fundamentais das Caldas da Rainha (em cuja região nasceu e reside o autor), enquanto os dois últimos livros são romances históricos em torno das figuras reais de D. João V e D. João II, ambas com ligações conhecidas ao burgo caldense.
O conto, género literário agora trabalhado pelo autor, radica «em ancestrais tradições culturais que faziam do ritual do relato um factor de sedução e de aglutinação comunitária» (Dicionário de Narratologia de Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes), processo bem patente em duas obras da tradição europeia: Decameron, de Boccaccio (séc. XIV), e Heptameron, de Margarida de Navarra (séc. XVI). É caracterizado pela concisão, brevidade e unidade de efeito (Allan Poe). Certa crítica realça-lhe a capacidade de criar uma atmosfera em detrimento da acção.
Os contos de Insanus não têm uma leitura linear e unívoca. Há a considerar uma história de superfície (em que o estranho ou o fantástico quase sempre imperam) e outra escondida, de segundo nível, a que não se acede directamente. Neste sentido, é compreensível que a epígrafe da colectânea tenha sido retirada de Edgar Allan Poe, autor de contos fantásticos e teorizador do género literário short story. São vinte e nove contos narrados na primeira e na terceira pessoa com as vozes das personagens fundidas no discurso do narrador. Tratando-se de contos curtos (entre duas a sete páginas), estabelece-se um relação próxima com o poema, o fragmento e até o sketch, tendo em conta o humor amargo que transparece em alguns deles. As marcas da ambiguidade e do inesperado estão presentes nas alusões aos universos paralelos e às dicotomias sombra/luz e mundo real/mundo fictício. A referência em diversos textos à figura da “Repartição”, opressora e castradora dos sonhos das personagens, sugere a dimensão do desejo irrealizado face ao desencanto da vida quotidiana, trazendo à lembrança o poema “O Funcionário Cansado”, de António Ramos Rosa, do livro Viagem através de uma Nebulosa (1960): «Sou um funcionário apagado / um funcionário triste / a minha alma não acompanha a minha mão» – da mesma forma que a sombra não acompanha o corpo da personagem do conto “Sombras”, antes se solta dele num registo paradoxal e inquietador.      
Não sendo possível abordar todos os textos da colectânea, referir-nos-emos de forma breve a “MitoLógico”, “Legião é o Meu Nome” e “Insanus”.
“MitoLógico” retoma a imagem do unicórnio de Júlio Pomar, pintura realizada em 1955 para o Café Central das Caldas da Rainha, já referida pelo autor em Praça da Fruta. Porém, a atenção do leitor é conduzida neste conto para a lição de Kafka, precisamente a que é dada em A Metamorfose. Com uma diferença assinalável: se o infeliz Gregor Samson não encontra forma de resolver a sua monstruosa transformação, acabando por morrer para alívio de toda a família, a inominada personagem de “MitoLógico” descobre talvez a salvação no relacionamento com a sua colega de curso. Neste sentido, apesar do final ambíguo, regista-se uma mensagem que diríamos de esperança. História de recorte fantástico, deve ser vista com mais propriedade na sua dimensão metafórica e simbólica. O género conto, pela concisão e brevidade, presta-se à transmissão de um conceito moral ou um exemplo. Vários títulos testemunham esta aptidão que lhe é normalmente reconhecida: Contos & Histórias de Proveito & Exemplo (Gonçalo Fernandes Trancoso), Novelas Exemplares (Cervantes), Contos Exemplares (Sophia). Em “MitoLógico” há indiscutivelmente uma história de proveito e exemplo: a do adolescente incompreendido pelos seus progenitores, o recurso a psicólogos para suprir as consequências da falta de amor, a necessidade de encontrar fora da família, entre os da sua idade, o amparo que lhe falta em casa. Há aqui, sob a narrativa de superfície, uma mensagem não explícita para o leitor desvendar. Aliás, a introdução da letra capital L no cerne do título, desintegrando a estrutura semântica do vocábulo e transformando-o no sintagma “mito lógico”, estabelece um paradoxo indiciador de que muito mais há a ler e a compreender para além da peripécia do aparecimento do corno na testa do protagonista.
“Legião É o Meu Nome” representa, de certa fora, um diálogo intertextual com o episódio do geraseno endemoninhado, segundo os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas. De que maneira pode aceitar um defensor dos direitos dos animais, como é o caso do protagonista do conto, o sacrifício da vara de porcos a que se acolheu, por vontade de Jesus, a legião de demónios? O conto questiona a mensagem dos evangelhos e a insensibilidade do Filho de Deus que deixou afogar no mar os indefesos animais. Marcos dá-nos conta do desespero dos próprios gerasenos perante aquele “massacre” de consideráveis consequências económicas (a vara tinha cerca de dois mil porcos), tendo suplicado a Jesus que abandonasse os seus territórios (Marcos, 5-17). Assim, a alusão ao hermético episódio dos evangelhos e a incompreensão dos pastores da Igreja (padre Serafim) perante a crise psíquica do protagonista traduzem-se numa crítica aos que, confundidos por princípios religiosos, abandonam os homens à solidão e ao sofrimento sem remédio. Aspecto interessante deste conto é o facto de a narração se efectuar em registo epistolar através de carta dirigida pelo protagonista à sua mulher, carta datada de Rilhafoles, 13 de Maio de 2013 ( curioso, tanto o local como a data), não faltando mesmo um post scriptum.   
Finalmente, “Insanus”,  o último conto que dá título à colectânea. Neste texto, segundo um efeito de mise en abyme, há um narrador que conta uma história sobre o autor-narrador dos vinte e oito contos antecedentes. Mais uma vez, estão presentes as alusões a lugares das Caldas da Rainha (fonte das Cinco Bicas) e da sua região (feira medieval de Óbidos). É na noite da cidade termal, entre o «cheiro tépido de cinza e enxofre», que ocorre a revolta das personagens contra o criador que lhes deu a vida (vida de cão, como se lê em diversos contos). É grande o rol das criaturas: «um tipo que cheira a cinza, um unicórnio, náufragos, suicidas, uma mulher que tem o corpo do marido a apodrecer em casa, um pistoleiro sem nome, dois pregadores, um surfista, etecetera, etecetera» – todas saídas das páginas do livro. Protestam as infelizes por não lhes ter sido dada uma existência decente, fazendo-as protagonistas de enredos tristes e desgraçados.  O autor-narrador sente-se culpado, tem dúvidas sobre a legitimidade das histórias e pensa em outras soluções que poderia ter encontrado para não fazer tão infelizes as suas criaturas. Tomado pelas dúvidas, talvez se tenha lembrado da conhecida frase de Nietzsche: «Não é a dúvida, mas a certeza que nos torna loucos»   ele que havia criado os seus contos ao abrigo de uma frase peremptória sobre a insânia:  I became insane, with long intervals of horrible sanity. E sente-se  aliviado quando por fim amanhece e as personagens contestatárias desaparecem «para cumprir os enredos que são os seus destinos».
Pela nossa parte, não tendo motivo para recear personagens de ficção, ficamos a aguardar com interesse os próximos contos de Carlos Querido.
 
 
 
 

10 dezembro 2017

Vichy em estilo vintage

 
 
 
 
 

Alguns postais ilustrativos das Termas de Vichy, que deixam perceber o ambiente de charme que se vive na história do Comissário Maigret ...

06 dezembro 2017

"Maigret nas Termas" de Georges Simenon, 29 de Dezembro às 21h00



"... 
- Reparaste no número de calistas e de ortopedistas?
- Se toda a gente andar tanto como nós... !"

"Então Monsieur Maigret têm-no tratado bem, em Vichy? Até se esmeraram em arranjar-lhe um belo crime ..."

Apontamentos de humor em "Maigret nas Termas" de Georges Simenon

30 novembro 2017

DO OUTRO LADO DO ESPELHO

Exposição na Galeria Principal do Museu C. Gulbenkian. O tema é o espelho na Arte. Organizado em função de algumas ideias, deixa-nos a pensar nas possíveis e ausentes extensões de tema tão aliciante, que não se esgota, bem longe disso, no quadro desta exposição, nem sequer se esgota, naturalmente, no quadro das artes visuais (ou plásticas?). Mas ali, logo no segundo espaço expositivo, depara-se-nos O Espelho de Vénus, de Sir Edward Burne-Jones, da coleção do fundador neste mesmo Museu.
Ilustra a ideia "Quem sou eu?"O Espelho Identitário, na senda do mito de Narciso. Mas esta obra, uma pintura tão expressiva, faz-nos evocar uma leitura, Adoecer, de Hélia Correia, que lemos em setembro, e a saga liderada pelos Pré-Rafaelitas.


26 novembro 2017

Das boas surpresas


Alexandre, ascensorista

"São cinco metros do rés-do-chão ao primeiro piso, quatro até ao segundo, outros tantos até ao terceiro. Por dia são mais ou menos setenta viagens completas (treze metros), cinquenta até ao segundo piso (nove metros) e trinta até ao primeiro (cinco metros). Cerca de mil e quinhentos metros a subir e os mesmos a descer. Três mil metros por dia, dez mil e quinhentos por semana, quase três mil e duzentos quilómetros verticais por ano (descontando os dias de pouca afluência)..."

in "Se Eu Fosse Chão", de Nuno Camarneiro

A sessão de sábado de "O Escritor no seu Labirinto" com o Nuno Camarneiro, deu-me a conhecer o escritor. E que boa surpresa que está a ser este "Se Eu Fosse Chão". Histórias soltas, de hóspedes que vão passando pelos diferentes quartos de um hotel e outras, que nos apresentam alguns dos seus funcionários.

25 novembro 2017

Plano de leituras 2018

"La liseuse" H. Matisse 1895

1º Trimestre - Escritores Portugueses

26 Jan - A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe
23 Fev - Nem todas as Baleias voam, de Afonso Cruz
23 Mar - Enseada amena, de Augusto Abelaira

2º Trimestre - Literatura do Mundo


27 Abr - O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy
25 Mai - Os cadernos de Dom Rigoberto, de Mario Vargas Llosa
29 Jun - Mancha Humana, de Philip Roth

3º Trimestre - Literatura de Viagens

27 Jul - Viagens, de Marco Polo
31 Ago - Na Patagónia, de Bruce Chatwin
28 Set - O caminho imperfeito, de José Luís Peixoto

4º Trimestre - Nuestros Desconocidos Vecinos

26 Out - A Velocidade da Luz, de Javier Cercas
30 Nov - O pintor de batalhas, de Arturo Pérez-Reverte
28 Dez - Crónica do rei pasmado, de G. Torrente Ballester

15 novembro 2017

CRIMES CAPITAIS

Primeiro foi o casal ilícito Magda Gomes da Luz e António Júlio dos Reis Lopes. Depois, o génio informático Illan Levan e a sua irmã Carolina. São muitos crimes juntos! Estou praticamente no fim da leitura, naquele ponto em que o inspector Jaime Ramos anda à procura de um jota. E que dizer da aparição do ex-ministro Carrilho? Não é que parece uma premonição das pulsões criminais da filosofante figura? Felizmente que nada se confirmou, era alguém que se mascarava de filósofo. Bem, não digo mais para não estragar a surpresa dos leitores.  
 

03 novembro 2017

"Um Crime Capital" de Francisco José Viegas, 24 de Novembro às 21h00

O suicídio (ou a falta dele) e aponte

"... A ponte do Freixo não Isaltino. Um suicídio a sério precisa de cenário, de ambiente, de um certo ar romântico. Ninguém vai suicidar-se da Ponte do Freixo. Daqui a uns anos não digo que não, mas por enquanto aquilo é muito betão. Um suicídio no Porto precisa de um bocadinho de história, de sombras, de folhas mortas e até de gente à volta...."

in "Um Crime Capital" de Francisco José Viegas

25 outubro 2017

Perspicácia, meus senhores, perspicácia…

imagem da net

E quem é que a partir da observação de umas simples lunetas, consegue chegar a estas conclusões? Elementar meu caro Watson! Mr. Holmes, é claro!

“ … Deve procurar uma mulher de bom porte, elegantemente vestida, com um nariz bastante largo e os olhos juntos. Com a pele franzida, expressão inquisidora e provavelmente também um pouco corcunda. Parece que visitou um oculista, duas vezes pelo menos, durante os últimos dois meses, e, visto que as suas lentes são de considerável graduação e os oculistas não são muitos, não será muito difícil localizá-la” …

in "A Aventura da Luneta de Ouro" 

11 outubro 2017

"As Aventuras de Sherlock Holmes" de Arthur Conan Doyle - 27 de Outubro às 21h00


Então vamos lá testar os nossos dotes de detectives e o nível da nossa argúcia.

Em apreciação:

A Aventura dos Seis Napoleões
A Aventura da Escola da Abadessa
A Aventura da Luneta de Ouro
A Aventura de Abbey Grange
A Aventura dos Bonecos Dançantes
A Aventura da Casa Vazia
A Aventura da Ciclista Solitária

Todos incluídos no livrinho acima...

25 setembro 2017

JOHN RUSKIN EM "ADOECER"

John Ruskin, o influente crítico inglês, pintado por Millais junto das quedas de água dos Trossachs. Na verdade, o retrato só seria apurado em Londres, meses mais tarde. «Foi o trabalho mais odioso que fiz», confessou John Millais. Era no ano de 1854, o da anulação do casamento do crítico com a sua esposa Euphemie. Casamento não consumado. Entre a senhora Ruskin e Millais corria «uma linguagem eloquente», todos os sabiam. A inteligência e a carne têm destas coisas, não tentemos explicá-las.
 
 

22 setembro 2017

WILL YOU WALK INTO MY PARLOUR?

Uma das muitas referências literárias contidas em Adoecer, de Hélia Correia, é a do poema The Spider and the Fly, de Mary Howitt (1799-1888), sobre uma aranha que convida uma ingénua mosca a visitar a sua teia: «Will you walk into my parlour?» Exemplo do método usado pelos sedutores para atingirem os seus objectivos, a referência surge na parte da narrativa em que Lizzie permanecia “aprisionada” na teia de Chatham Place e Gabriel, por imperativos da  criação artística, partira para casa de William Bell Scott em Newcastle. «A aranha do poema é masculina», diz-se no texto de Hélia e vê-se na imagem.

20 setembro 2017

RED HOUSE, Bexleyheath, England



Significativa para a história da Arquitetura e do Design, a "Red House", situada em Bexleyheath, foi projetada em co-autoria pelo arquiteto Philip Webb e William Morris, fundador do movimento "Arts and Crafts". Construída em 1860, surgiu do desejo de Morris de viver numa casa rural, fora do ambiente insalubre de Londres, e corresponde às ideias que defendia, inspiradas num certo medievalismo, mas sustentando um retorno ao essencial, aos materiais primitivos e ao artesanato, como reação à prevista uniformização industrial, mas sobretudo ao gosto dominante, eivado de ecletismo e falho de caráter.  Morris, assim como Ruskin (um dos muitos personagens de "Adoecer", de Hélia Correia) e seus seguidores, são considerados pioneiros do Movimento Moderno (Nicolaus Pevsner). Também aqui pontua o paradoxo, tema que não cabe agora tratar.
Alguns artistas pre-rafaelitas,  protagonistas de "Adoecer" , nomeadamente Dante Gabriel Rossetti (e Edward Burne-Jones) colaboraram na decoração da casa de William Morris, subsistindo ainda pinturas murais deste último.
Atualmente, a casa está transformada em museu e centro de atividades:
https://www.nationaltrust.org.uk/red-house

12 setembro 2017

CRANBOURN ALLEY, 1850

 
O primeiro trabalho de Lizzie Siddal como modelo foi para o quadro de Walter Deverell inspirado em Twelfth Night, de W. Shakespeare, cena IV do segundo acto. A figura de Lizzie (Viola) surge à esquerda, disfarçada de rapaz, não passando despercebido o ruivo dos cabelos. No livro Adoecer, de Hélia Correia, é narrado o processo de recrutamento da jovem aprendiza de modista de chapéus, futura musa da Irmandade Pré-Rafaelita.
 
 

08 setembro 2017

“Adoecer” de Hélia Correia – 29 de Setembro às 21h00



Sinopse

“Havia nela como que uma falha que provinha talvez da exaustão e da deficiência alimentar, dando-lhe um ar furtivo, de gazela, que fez cair as apresentações. 

Lizzie passou para detrás da porta abandonada que servia de biombo e regressou vestida de rapaz. Apanhara o cabelo sobre a nuca. Mostrava as pernas e isso produzia um curioso efeito assexuado. Gabriel adiantou-se e começou a ocupar-se da figura que faltava, não nos papéis de esboço, mas na tela. As personagens masculinas já se achavam muito avançadas. Ele posara para bobo. Os pré-rafaelitas provocavam situações de entreajuda em que existia, a par de exibição, sinceridade.
Deverell e Millais arrefeciam, de pé, imóveis e a perder entusiasmo. Viam em Lizzie a rapariga magra e de feições irregulares que até então não tinham visto. A narrativa de Walter, que avassalara o próprio narrador, deixava de exercer influência e a temperatura dos seus corpos ressentia-se. Esfregavam os braços, percebendo toda a impiedade do Inverno. Observavam Rossetti e Miss Sid que estavam sós, naquilo que talvez fosse o encontro do pintor com o modelo. Porém sentiam desconforto, como se presenciassem uma cena íntima. 
Lizzie, que mantivera a posição sem vacilar nos dias anteriores, vergava as costas, inclinada para o chão. Era um abatimento poderoso sob o qual circulava alguma glória. John Everett Millais compreendeu a origem do fascínio de Miss Sid. Tinha um corpo selado na tragédia, um apetite sacrificial. "Hei-de pintar esta mulher", pensou. Imaginava-a num cenário de narcisos. Não sabia que estava a vê-la morta.”


16 agosto 2017

O MAR DOS AÇORES

Ilha de S. Miguel, fotografia de Dezembro de 2015
 
O MEU MUNDO NÃO É DESTE REINO, capítulo 3, exemplo de uma das diversas alterações introduzidas pelo autor na edição de 2015:
«Cadete garantia, por um sofisma da sua mente complicada, que a cor do mar dos Açores era o branco. Porém, as crianças sustentavam que não existia nenhuma cor para definir a eternidade da água. A sua contínua convulsão, ao ser remexida pelos ventos invernosos da Ilha, com o branco da espuma a sobrepor-se à cinza do Inverno, fazia com que o mar se assemelhasse a uma contínua e laboriosa sucessão de ninhos de répteis em movimento flutuante sobre as cristas das águas. Mais parecia uma paisagem picotada a pontos brancos, em toda a extensão visual. » ------- 8ª edição, revista e reescrita pelo autor.
«Cadete garantia, por uma espécie de sofisma da sua mente complicada, que o mar dos Açores era branco. Porém, as crianças sustentavam que nenhuma cor deste mundo podia definir a eternidade da água, porquanto essa contínua convulsão aproximava o seu aspecto não da saliva das cobras e dos seus ninhos, mas da humidade sem cor de qualquer réptil. Era um mar de rodilhas, um mar asmático, de lixívia em tecidos puídos e sem obra, e a sua magríssima água, rochosa e salina, expelia para a terra uma respiração de sono sem pálpebras.» ------- edições anteriores.
 

07 agosto 2017

CAIU UM AVIÃO!

«JOÃO-MARIA ESTAVA DE CÓCORAS, FAZENDO CACA NO QUINTAL, QUANDO TUDO ACONTECEU. PERCEBEU, PRIMEIRO, QUE UM RUÍDO SEMELHANTE AO DESMORONAR DAS FRAGAS NUMA PEDREIRA crescia de longe ao seu encontro e vinha sobrepor-se à sonatina das ondas e ao tráfego agoirento das cagarras.»  --- JOÃO DE MELO, O Meu Mundo não É deste Reino, Capítulo 13, Edição Visão / D. Quixote, Julho de 2003.
Agora dirão as leitoras tratar-se de mais um exemplo de literatura escatológica. Imagino a justa indignação, as leituras da Comunidade destravadas pelas vertentes lívidas do mau gosto. Por acaso, até é um fragmento importante do imaginário da Ilha: o acidente do Lockheed L-749-79-22 Constellation, vôo Paris-Nova Iorque, em 28 de Outubro de 1949. Deu-se no Pico da Vara e nele morreram 48 pessoas, entre elas, figuras notórias à época, o pugilista Marcel Cerdan, a violinista Ginette Neveu e o seu irmão Jean Neveu, pianista.
Leia-se que é um belo capítulo do livro.

01 agosto 2017

"O Meu Mundo Não é Deste Reino" de João de Melo - 25 de Agosto às 21h00.


Sinopse

João de Melo apresenta-nos uma crónica dos prodígios que fazem a história de uma comunidade rural perdida algures nos Açores. Narrativa mítica, sem cronologia, que começa in illo tempore (em português arcaizante) e prossegue seguindo o fio das ocorrências fantásticas (a chuva dos noventa e nove dias, o dia em que os animais choraram, o dia em que se viu a outra face do sol, a morte e ressurreição de João Lázaro) e das vidas de personagens excessivos e arquetípicos (um padre venal, um regedor hercúleo e despótico, um curandeiro e um santo) que povoam um lugar perdido nas brumas do tempo, no outro lado da ilha, progressivamente devolvido à comunicação com o mundo.

Ding, ding, ding .... chamada à ordem!


Isto de conduzir um rebanho, mesmo de bons e interessados leitores nem sempre é coisa fácil! A paixão pelas leituras e o entusiasmo do momento, leva-nos muitas vezes àquela característica tão própria dos lusitanos que é falarmos todos ao mesmo tempo e, por vezes, a Babilónia instala-se antes que demos por isso. Mas na última sessão, onde discutimos o muito elogiado "Cântico Final" de Vergílio Ferreira, eis que surge uma bela campainha, para ajudar na condução dos trabalhos. Chegou discreta e elegante, mas certamente vai vibrar e fazer-se ouvir energicamente sempre que a ocasião o justifique. Bem vinda Miss Ding, Ding....


25 julho 2017

EXISTENCIALISMO E LITERATURA

«Só meditando profundamente no que significa a morte, é que nós poderemos ver bem o que com ela se perde e o valor disso que se perde. Por outro lado, a morte é uma prefiguração do que de limite, de fim, preside a todos os actos da vida, já que a cada instante nós estamos de algum modo a realizar actos irremediáveis. A meditação da morte não é pois um fim, mas um meio. Meio de valorizarmos a vida, meio de assim mesmo respeitarmos a vida nossa e alheia, meio de reflectirmos sobre o irremediável do que formos fazendo, meio, em suma, de encararmos a sério esse facto extraordinário que é a vida do homem.»
--- VERGÍLIO FERREIRA, "Existencialismo e literatura".
 
 
 
 

24 julho 2017

"CÂNTICO FINAL", MEDITAÇÃO SOBRE A MORTE

Francisco de Goya, Fuzilamentos de três de Maio de 1808
Abriu a revista, e Mário sofreu uma ataque de agonia. Era uma reportagem sobre fuzilados de uma revolução num país distante: fotografia de um dos condenados bebendo o cálice de rum; fotografia do instante do fuzilamento («como um quadro de Goya» - dizia o repórter).
--- VERGÍLIO FERREIRA, Cântico Final, cap. X.
 

17 julho 2017

AS EGAP-EXPOSIÇÕES GERAIS DE ARTES PLÁSTICAS EM "CÂNTICO FINAL"

Diário da Manhã, órgão oficioso da União Nacional salazarista, na sua edição de 9 de Maio de 1947

Uma das perspectivas de Cântico Final, de Vergílio Ferreira, é a que se prende com o debate sobre arte que nos anos do pós-guerra teve lugar entre os intelectuais e artistas portugueses. No seio da corrente neo-realista, preparavam-se as grandes polémicas dos anos cinquenta, de que as referências aos críticos Ramiro e Rebelo se constituem como uma evidente alusão ficcional. De interesse, a referência a uma das Exposições Gerais de Artes Plásticas (talvez a de  1947), certames que agregavam artistas independentes – leia-se, não vinculados às iniciativas do SPN/SNI – procedentes de diversas orientações estéticas, do neo-realismo ao abstracionismo. Em que corrente se integraria o “Galo” do protagonista Mário?
Cerca de cem artistas, não só de diversas tendências estéticas mas de diferentes ramos da arte estiveram presentes na I Exposição, a de 1946. Ao princípio, o poder constituído não desconfiou de nada; depois é que se deu conta do que ali se preparava de subversivo.  As EGAP realizaram-se anualmente de 1946 a 1956, com excepção de 1952, ano em que a Socidade Nacional de Belas-Artes se encontrava encerrada  pela PIDE.

12 julho 2017

ONDAS DO MAR DE VIGO

7-7-2017, Estação de Vigo-Guixar, a apanhar o comboio para Oporto com o jogral MARTIM CODAX no pensamento.
 
CANTIGA D´AMIGO
 
Ondas do mar de Vigo,
se vistes  meu amigo!
e ai Deus, se verrá cedo!
 
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
e ai Deus, se verrá cedo!
 
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
e ai Deus, se verrá cedo!
 
Se vistes meu amado
por que ei gram cuidado!
e ai Deus, se verrá cedo!
 


11 julho 2017

"Cântico Final" de Vergílio Ferreira - 28 de Julho - 21h00

A abrir:

“Por uma manhã breve de Dezembro, um homem subia de automóvel uma estrada de montanha. Manhã fina, linear. O homem parou um pouco, enquanto o motor arrefecia, e olhou em volta, fatigado. Aqui estou. Regressado de tudo. Pelo vale extenso até a um limite de neblina, viam-se aqui e além indícios brancos de aldeias, brilhando ao sol. Que dia é hoje? Pelos campos perpassava uma alegria estranha, talvez do sol e daquele fundo silêncio a toda a volta, sem uma voz repentina das que sobem e vibram nas manhãs de trabalho. E de súbito lembrou-se: para o fundo do vale, ouviu o dobre dos sinos do Freixo. Manhã de domingo, manhã de infância, sinos de outrora…”


In “Cântico Final” de Vergílio Ferreira