16 novembro 2011

CABRAL DO NASCIMENTO - Homem de ilha e de continente

Funchal, 14 de Novembro de 2011 - Elementos da Comunidade de Leitores no dia da sessão sobre Cabral do Nascimento

Devo dizer que não li muito de Cabral do Nascimento. A obra em que mais me detive, praticamente a única, foi no Cancioneiro de 1943, constituída por quarenta e oito poemas em que emergem os grandes eixos temáticos da sua lírica: a fugacidade do tempo; a condição do homem esmagado entre o passado e o futuro; a Ilha como prisão de quem anda à solta, as grades líquidas que tolhem e projectam o poeta para o circulo alto das palavras e dos sentimentos, porque, como diz com desconcertante simplicidade, o mar ficava no horizonte; e a vida, supremo bem que não se domina, abelha de Ferreira de Castro em Eternidade e borboleta da “Canção Dorida” em Cancioneiro.
Escreveu Maria Mónica Teixeira que Cabral do Nascimento sentiu como um homem de ilha e de continente. Portanto, foi um poeta do chão inteiro da língua portuguesa, língua que começou a formar-se nos cancioneiros medievais que ele tão bem conhecia e amava, sabendo nós, desde Fernando Pessoa, que a língua é a única pátria possível dos poetas.
Perguntava-me uma jornalista madeirense, momentos antes de iniciarmos a sessão, se eu achava que Cabral do Nascimento devia ser estudado nas escolas. Respondi-lhe que sim, pensando embora que o esquecimento é nuvem negra que se abate sobre os poetas e que nos tempos sem alma em que vivemos talvez nem o próprio Camões tenha o seu lugar garantido nos compêndios.

11 novembro 2011

SOLARIS - UM MAR DE EMOÇÕES

Donatas Banionis e Natalya Bordarchuc em Solaris (1972) de Andrei Tarkovsky

Um filme belíssimo de que muito gostei. Solaris – um mar de emoções atravessado pelas sombras fúlgidas de Cervantes, Tosltoi e Dostoievski. Neutrinos e átomos – a dialéctica do reencontro do amor.

E de seguida… a Madeira de Machim e Ana de Arfert.


02 novembro 2011

CABRAL DO NASCIMENTO: mais poesia




CANTIGA

Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.



Cancioneiro, 1943; Cancioneiro, 1963
In Cancioneiro, 1976

A Comunidade vai à Madeira...

... em busca de Cabral de Nascimento, o Poeta que, da palavra, fez a sua ferramenta. Biografia aqui.
Cabral do Nascimento por Abel Manta, descaradamente roubado ao Disperso Escrevedor

O Faroleiro

Apenas este ilhéu é que é pequeno
O resto é tudo grande: o tédio, a vida,
O dia enorme, a noite mais comprida,
E o mar, calmo ou feroz, rude ou sereno;

O tempo, esse narcótico veneno,
A dor, essa letárgica bebida,
O desejo, essa voz enrouquecida,
E a saudade, o distante e branco aceno.

Tudo profundo, imenso, na amplidão,
Eterno quási na desolação
E sobrenatural na solidão.

A luz vermelha a reflectir-se além…
Nenhum vapor que vai, nenhum que vem…
Farol e faroleiro - e mais ninguém

29 outubro 2011

24 outubro 2011

SER OU NÃO SER

Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.

Até quando? Até quando?

Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.

Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.

MANUEL ALEGRE

23 outubro 2011

MÁRIO CESARINY/ You Are Welcome to Elsenor

O MANEQUIM

Quando Hamlet, Grã Senhor predestinado,
Ressuscitou em mim sua Loucura,
Quis eu, para o trazer de braço dado,
Modernizar-lhe o espírito e a figura:

Pondo-lhe um riso frígido e afiado
Nos lábios retorcidos de amargura,
Modelei-o num fraque bem talhado
Que lhe vincasse os gestos e a estatura.

Depois lhe abri o enigma da Ironia
Para que a sua atroz melancolia
Calçasse luvas… e ostentasse o ar fino.

Hoje, ó meu Grande! ó Príncipe de todos!
Já te posso exibir: Tens belos modos,
E sofres… mas consoante o figurino.

JOSÉ RÉGIO, Biografia

18 outubro 2011

Ser ou Não Ser



O célebre monólogo, numa excelente interpretação do actor brasileiro Daniel Oliveira...

08 outubro 2011

SÉCULO DAS LUZES...

Abro um espaço para referir a leitura, ontem, no Museu Ferreira de Castro, do romance A Religiosa de Diderot. A escolha da obra foi de um prezado elemento da nossa Comunidade que na altura própria disse o que tinha a dizer de tão discutido texto.
Levei o meu livrinho, comprado em 1972 ou 1973, cuja fotografia aqui deixo sobre um lavor em renda de uma tia que já está na Eternidade. Admire-se o belíssimo rosto de Anna Karina, a religiosa do filme de Jacques Rivette no ano já distante de 1966.
Diderot e Grimm, filhos de Belial, lá levaram ao engano o bondoso marquês de Croismare, o qual creditou como verdadeira uma história inventada por aqueles refinados malandros. Diga-se lá que de uma brincadeira não pode sair uma obra séria.

(O romance La religieuse começou a ser redigido por Diderot em 1760. Em Outubro de 1780 iniciou-se a sua publicação na revista Correspondance littéraire.)

07 outubro 2011

28 setembro 2011

AMORES CANINOS

A cadela cocker spaniel da E.C. no jardim da Casa das Palmeiras

O Mundo à minha procura, pp. 188-191.

27 setembro 2011

A PIETÁ MAIS BONITA DA NOSSA ESTATUÁRIA

Fotografia tirada em Amarante em 7 de Setembro de 2011. Já não me recordava de que Ruben A. falava disto.

(...) de Amarante, onde era mais raro irmos, misturávamos o olhar para aquelas velharias da praça onde só mais tarde vim a descobrir a Pietá mais bonita da nossa estatuária, ali em plena esquina da ponte - de lá trazíamos as lérias e os foguetes.

O Mundo à minha procura, p. 127.

Casa Andresen



Mas a simetria no Campo Alegre era uma simetria ampliada, um máximo de simetria, tanto no tamanho e altura do edifício, como nas suas janelas e portas. Acima daquilo só a loucura. E a casa, para quem conhecer de íntimo a sua extraordinária história - que não cabe nas páginas de uma autobiografia  - vacilou sempre com os seus personagens numa espécie de loucura humana que lembra em flagrante a Casa dos Manons na Electra de Eugene O´Neill. Nos limites da loucura arquitectónica sentia-se que qualquer coisa de demente teria de habitar aquele casarão.

RUBEN A. - O Mundo à minha procura, Lisboa, Assírio & Alvim, volume I, 2ª edição, 2000, pp. 77 e 78.

24 setembro 2011

"NUNCA NADA É INVENTADO"

Esta casa desmesurada, cheia de gente mas também cheia de lugares vazios e quartos desabitados e fechados, cheia de vozes, silêncios, ressonâncias, mistérios, medos e encantações e assombros aparece assim como o jardim o parque o pinhal e a quinta em muitos os poemas e contos que ao longo dos anos escrevi. É a casa de Hana do conto “Saga”, o jardim do Rapaz de Bronze. E, múltipla, a casa é também “um dos palácios do Minotauro” de que falo num dos meus poemas. É igualmente esta a casa que o meu primo Ruben A. descreve no seu livro O mundo à minha procura: uma óptima descrição, tão exacta e veemente que poderá parecer inventada. Mas nunca nada é inventado.
(Sophia de Mello Breyner Andresen – Excerto de um texto autobiográfico inédito, in Paula Morão, “Nunca nada é inventado”, COLÓQUIO/Letras nº 176, Janeiro/Abril de 2011.)

23 setembro 2011

A QUINTA DO CAMPO ALEGRE

Ruben A. com a prima Sophia e Isabel da Nóbrega, 1958
(fotografia de Biblioteca Nacional Digital, http://www.purl.pt/)

A infância e adolescência, passou-a Sophia na quinta portuense do Campo Alegre, adquirida pelo seu avô Andresen no final do século XIX. "Um território fabuloso", assim a evocaria mais tarde a própria autora. É claro que um exíguo quintalejo pode ser, para uma criança, um território fabuloso. Mas não era bem o caso. Uma parte do que dele resta é hoje o Jardim Botânico do Porto. "Era tão grande a Quinta dos Andresen que o filho primogénito, João Henrique [pai de Sophia], administrador das minas de S. Pedro da Cova, não precisava de galgar os muros para atirar à caça de arribação", escreve Fernando Assis Pacheco, num belo texto intitulado "Sophia, a vida tirada a limpo", que a "Visão" publicou em 1995.
Um dos costumes da casa, como recorda o escritor Ruben A., primo de Sophia, nos seus volumes autobiográficos, era o de se organizar, pelo Natal, um espectáculo protagonizado pelas crianças da família. Foi justamente uma destas celebrações que originou o primeiro contacto de Sophia com a poesia. Tinha três anos e ainda não sabia ler, mas uma criada, desgostosa por ver a menina excluída do elenco de artistas, ensinou-a a recitar "A Nau Catrineta".

(Excerto de um texto de Luís Miguel Queirós)

09 setembro 2011

O Mundo à Minha Procura – 30 de Setembro às 21h00


Busto de Ruben A. no Jardim Botânico do Porto

A propósito desta sua autobiografia, Ruben A. afirmou o seguinte, numa entrevista dada em 1965, ao Diário Popular: "O Mundo à Minha Procura representa uma necessidade urgente de arrumar a minha vida sentimental, de ver a novela que dentro do meu ser transporto. A forma autobiográfica é a mais pura do romance, a criação permanente de um estado de espírito que traz presentes os fantasmas que se acolheram no sótão da sensibilidade”.

Dos três volumes que compõem a obra, vamos ler o primeiro e encerrar o capítulo “Crónicas e Autobiografias” no final deste mês.

30 agosto 2011

BOSCH E A RETÓRICA DO DESEJO





Na visita que se impunha ao MNAA, com a intenção de revisitar o Tríptico de Hieronimus Bosch — As Tentações de Sto Antão (c.1500), desta feita em destaque, pela presença de outras duas obras congéneres, aproveitei para, mais demoradamente, me perder no labirinto daquelas paisagens de ficção delirante.

“Esta exposição, realizada em parceria com o Museu Groeninge (Bruges, Bélgica), coloca o Tríptico das Tentações de Santo Antão do MNAA criticamente em confronto com o Tríptico do Juízo Final e o Tríptico das Provações de Job, ambos da colecção do museu de Bruges”.

Estas duas obras serão, uma, provavelmente da mesma escola e a outra de um continuador da sua inventiva. Do confronto que nos é proposto, ressalta naturalmente a superioridade do “nosso” Bosch, uma obra espantosa que ninguém sabe como veio parar a Portugal, a Lisboa, mais propriamente. Mesmo que nos pareça atraente pensar que foi pela mediação de Damião de Góis.
Podemos, no entanto, considerar que este confronto seria um pouco diferente se tivéssemos, por exemplo, O Jardim das Delícias, do Museu do Prado, ou outra pintura igualmente emblemática do mesmo autor, nomeadamente entre as que, para além desta, Filipe II de Espanha (I de Portugal), terá coleccionado e encomendado a Hieronimus Bosch. É aliás interessante notar a surpresa que o rei manifesta a suas filhas (Cartas para Duas Infantas Meninas: Portugal na Correspondência de D. Filipe I a suas Filhas, 1581-1583), descrevendo a grandiosidade e sobretudo as figurações, pantominas e espectáculos, que a procissão anual de Corpus Christi, em Lisboa, incluía. Ele lamenta que os filhos não possam também apreciar vários aspectos originais da procissão, incluindo os diabos, que lhe recordam as figuras de Bosch.
Podemos então pensar que o rei identificava na procissão o mesmo espírito que o fascinava no imaginário que o pintor lhe proporcionava: espírito que marcava talvez um fim de época— o artista traduzia, libertando-os através da obra de arte, os medos, o pavor do desconhecido, que a Idade Média preservava, evitando enfrentá-los.
É como se descobrisse (e nós com ele) que, afinal, o verdadeiro desconhecido mora dentro de cada um e é revelado pela expressão possível da luta insana entre os desejos e a sua realização, entre os desejos e a sua repressão. Sendo que nada disto é humanamente controlável e manifesta-se sempre como um mundo às avessas, eventualmente produto de lucubrações oníricas, lá, onde o inconsciente se revela. Por isso reina uma intensa confusão, como uma perda generalizada de identidade— o pobre santo, no centro da turbulência, parece quase resignado.
A dualidade escatológica, Bem e Mal, Paraíso e Inferno, presente nas três obras, resulta realisticamente misturada, porque aquelas duas faces estão tão interligadas, que uma começa onde a outra parece não ter acabado. Exactamente como na vida. Mesmo que se nos deparem horizontes, comuns aos três Trípticos, de promissoras auroras, a que se sucedem incendiados entardeceres apocalípticos, e as situações a que correspondem— o desejo, a tentação, a luta interior, a superação ou a queda, e a respectiva iconografia, que é como quem diz, os seus demónios. E, enquanto o Juízo Final apresenta um ensaio de redenção, iconograficamente marcado pela centralidade do Cristo Pantocrator, o que encontramos seguramente nestas obras é um discurso pictórico, ficção aberta a muitas leituras; fábula, alegoria, delírio metafórico, lugar comum de muitos imaginários, obra sem data. Para usufruir Hoje.

27 agosto 2011

UM ESCRITO BACALHOEIRO

Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, - excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho, e no justo amor do bacalhau de cebolada.

(Eça de Queiroz, de uma carta a Oliveira Martins)