19 março 2015

SEM TÍTULO

AS NOSSAS LEITORAS que façam uma pausa no Varguitas (livro que, por boas razões, ainda nem comecei a ler) para apreciarem esta bela figura de homem que eu respiguei de um exemplar de 1933 da revista Cinéfilo. Manoel de Oliveira, como é sabido, fez de "jeune premier" no celebradíssimo A Canção de Lisboa, de Cottinelli Telmo, um arquitecto que, além de outras coisas, sabia fazer filmes. Enfronhado que tenho andado na investigação destas matérias, talvez nem chegue a ler o livro para a sessão de dia 27. Lá terei de figurar, então, na coluna negra da impiedosa estatística daquela nossa querida amiga... Paciência, se não puder falar do livro programado, falo de Elogio da Madrasta, do mesmo autor, uma obra muito mais educativa.

18 março 2015

Simplesmente Maria


Tesourinhos deprimentes, extraídos da internet: quem se lembra da rádio novela "Simplesmente Maria"? 

Simplesmente Maria era um folhetim que passou na Rádio Renascença, ao longo de 500 episódios (ena tantos...), entre Março de 1973 e Novembro de 1974, transpondo, por isso, o tempo da Revolução do 25 de Abril de 1974. 

Cada episódio ia para o ar depois do almoço, entre as 13:30 e 14:30 horas, mais coisa menos coisa.
A história deste folhetim radiofónico, uma espécie de telenovela sonora, girava à volta de amores e desamores da figura central, uma jovem criada chamada Maria.
Era uma história de "faca e alguidar", muito característica das novelas mexicanas.
Certo é que folhetim prendeu literalmente a atenção de milhares e milhares de portugueses (mulheres em particular) durante quase dois anos. Após o almoço, as mulheres da altura, quase todas domésticas, ficavam de ouvido colado ao aparelho de rádio e lenço na mão para enxugar as lágrimas. Era uma hora "solene" tudo parava para não se perder pitada dos diálogos e discussões da Maria com o Alberto, o Tony, filha da Maria, do Estevão e todos os outros. Só visto...ou melhor...só ouvido. Depois, eram as conversas à volta do assunto, as opiniões e os palpites quanto ao rumo da história. Situação parecida, só se verificaria uns poucos anos mais tarde (1977) com a telenovela brasileira "Gabriela", a primeira a passar na RTP.

A popularidade era tal que, a par da versão radiofónica, era publicada semanalmente a versão em revista, a chamada fotonovela, com edição a cores, que se tornou assim muito popular, rivalizando com as famosas fotonovelas da Corin Tellado que nessa época eram devoradas pelas mulheres portuguesas.

03 março 2015

"A Tia Julia e o Escrevedor", de Mário Vargas Llosa, 27 Março, 21h00


"A Julia Urquidi Illanes a quem tanto devemos eu e este romance" - dedicatória do autor

A abrir:

"Nesse tempo remoto, eu era muito jovem e vivia com os meus avós numa quinta de paredes brancas da Rua Ocharán, em Miraflores. Estudava em San Marcos, Direito, creio, resignado a mais tarde ganhar a vida com uma profissão liberal, ainda que, no fundo, tivesse gostado mais de chegar a ser um escritor. Tinha um trabalho de título pomposo, salário modesto, apropriações ilícitas e horário elástico: director de Informação da Rádio Pan-americana. Consistia em recortar as notícias interessantes que apareciam nos jornais e maquilhá-las um pouco para que fossem lidas nos noticiários. A redacção, sob as minhas ordens, era um rapaz de cabelo empastado e amante de catástrofes chamado Pascual. Havia noticiários de hora a hora, de um minuto cada, excepto os do meio-dia e das nove, que eram de quinze, mas nós preparávamos vários ao mesmo tempo, de modo que eu andava muito na rua, a tomar cafezinhos na Colmena, às vezes ia às aulas, ou então estava nos escritórios da Rádio Central, mais animados que os do meu trabalho..."

in "A Tia Julia e o Escrevedor" de Mário Vargas Llosa

CLUBE DE LEITURA DO MUSEU FERREIRA DE CASTRO

Esta a leitura de sexta-feira 6, 18 horas, no Museu Ferreira de Castro. Capa de Carlos César Vasconcelos sobre fragmento de La débacle (1892), de Theodore Robinson.

25 fevereiro 2015

CARAVANÇARAI bis bis


As nossas leitoras versadas em Garrett, Santarém, Joaninha, Carlos & Cª Lda. que recordem o capítulo XXXII das “Viagens”, de como o protagonista, barão a haver, adormeceu num caravançarai e acordou na beatitude de uma cela do Convento de S. Francisco.
«Quando acordou já se não viu no vasto caravançarai daquele confuso hospital, mas num pequeno quarto arejado, limpo, quase confortável que em tudo parecia cela de convento, menos na boa cama em que jazia o doente, e na extremada elegância do enfermeiro que o velava.»

No capítulo II já havia ficado a seguinte passagem:

«Estamos em Vila Nova e às portas do nojento caravançarai, único asilo do viajante nesta, hoje, a mais frequentada das estradas do reino.»
Para o Garrett, como se vê, isto de caravançarais era manjar de pequeno-almoço.
Entretanto, aproveito para divulgar o "SONETO DO CARAVANÇARAI" de um poeta de Porto Alegre, cidade onde já dormi umas proveitosas noites, por acaso em nenhum caravançarai mas num hotel de quatro estrelas longe das rotas das caravanas:
«Mais do que um porto, ó minha donzela, / O teu seio é um caravançarai / Onde rebrilha a mais tranquila estrela.»
Muito bonito. Não consigo imaginar como seria o seio da donzela.
SONETO DO CARAVANÇARAI
Eu sou poeta, e tenho em meu ofício
O leve fardo de cantar em verso
O amor sereno que há nesse universo
Sem que se faça dessas letras vício.

Por isso canto, e há nesse bulício
O suave toque que me tem converso;
Fico a teus pés, mas sem orgulho, imerso
Pois que senão seria um só suplício...

Mais do que um porto, ó minha donzela,
O teu seio é um caravançarai
Onde rebrilha a mais tranqüila estrela

Que mansa, quando a caravana vai,
Um doce brilho em teu olhar revela:
Renasce o amor e enfim a noite cai.
© FRANCISCO SETTINERI
In poesiaportoalegria (blog)
Link: http://goo.gl/I1cjS

NA JORDÂNIA, A 300 Km DO IRAQUE...

Eis então um Caravançarai do deserto, como uma fortaleza e que foi em tempos local de paragem, abrigo, repouso; local de encontro, de trocas de mercadorias e de ideias, muito mais que uma simples estalagem ocidental.


20 fevereiro 2015

Caravançarai

"Caravançarai" significa literalmente em persa "palácio de caravanas".
O termo caravançarai designava um tipo de estabelecimento de tipo hoteleiro (pousada ou estalagem) que se encontrava sobretudo no Médio Oriente, Ásia Central e Norte de África, mas também existiu um pouco por todo o Mediterrâneo e na China, que se destinava a mercadores viajantes. Geralmente esses estabelecimentos também tinham funções de armazém ou entreposto comercial e situavam-se à beira de estradas, embora também fosse comum existirem em áreas comerciais de cidades, sendo usual nestes casos que fossem também mercados. Os caravançarais tinham uma função importante no apoio aos fluxos comerciais, proporcionando um local seguro onde os comerciantes em viagem, frequentemente estrangeiros, podiam descansar tendo as suas mercadorias e gado em segurança, e eram uma peça fundamental da extensa rede de rotas comerciais.

De Samarcanda (página 264, da edição Difel), pode ler-se:
“Os nossos viajantes andam demasiado apressados nos nossos dias, impacientes de chegar, de chegar a todo o custo, mas não é só ao fim do caminho que se chega. A cada etapa chegamos a algum lado, a cada passo podemos descobrir uma face oculta do nosso planeta, basta olhar, desejar, acreditar, amar.”

Hoje, que não temos caravançarais activos, podemos criar espaços, no nosso caminho, sem pressa, para olhar, desejar, acreditar, amar…e também para ler e comunicar.
Estaremos nós, em cada sessão da Comunidade de Leitores de S.D.Rana, num caravançarai de cultura, e não sabemos? (esta, é para ti, João J )

Aqui fica a imagem de um caravançarai, na Turquia. Se se aplicarem, talvez vejam alguém conhecido, algures na Anatólia, Turquia, em Outubro de 2011…


E podem apreciar melhor ouvindo esta música de Kitaro, com o título, justamente, de Caravançarai:

12 fevereiro 2015

Samarcanda, um outro olhar

Amin Maalouf, nascido em 1949, em Beirute, tem as suas origens familiares nas culturas árabes muçulmanas e cristãs do Líbano, esse pedaço da Terra, onde a guerra sempre se cruzou com as migrações de povos e um intenso tráfego comercial. Vive desde 1976, em Paris, fugindo de um palco de guerra civil onde as lutas nos campos religioso e politico, são ainda uma realidade. A sua fluência em árabe e o conhecimento profundo da História do Médio Oriente, faz dele um embaixador privilegiado de uma cultura que seduz, interpela e para a qual o ocidente olha e muitas vezes não compreende.
Não sendo historiador, toda a sua obra literária vai beber no Oriente, a inspiração, a linguagem poética e a luz que o tornam tão lido e traduzido em todo o mundo. 
Quem ler Samarcanda, mergulha num universo poético e carregado de simbolismo, onde vemos as personagens moverem-se em cenários de lutas pelo poder, conhecimento, intrigas de haréns, assassinatos políticos e sectarismos que espalham o terror. A vida humana parece ficar ao sabor de vontades mesquinhas ou sublimes. Pelo meio uma história de amor, que nos toca e cujo final trágico nos coloca perante o estatuto tão diversificado que a mulher sempre desempenhou na cultura árabe islâmica. 
Samarcanda remete-nos para a Rota da Seda, a cultura persa e turca, o poeta, astrónomo e filósofo Uma-I Khayyãm (1048-1132) e para a seita dos assassinos e o seu refúgio de Alamut. 
O Islão, já estava dividido entre os seguidores de Omar, companheiro do Profeta Maomé (sunitas) e Ali, genro do Profeta (xiitas). Do ramo xiita, surgia com violência a facção Ismaelita. Corria o século XII e na Europa, preparavam-se as cruzadas. Na Península Ibérica, o Califado de Córdova, desmembrava-se em pequenos reinos, as Taifas. No espaço onde surgirá Portugal, Afonso Henriques, nasce em 1109.

O livro, Umar-i Kahayyãm “RUBAÃ’IYAT”, única tradução directa do original persa para português, da autoria de Halima Naimova, nascida no Tajiquistão, república da ex- URSS e minha professora na Universidade Católica.
O prefácio do livro:

Terá sido neste relato belíssimo que Oscar Wilde, se inspirou para escrever o final do conto O Gigante Egoísta? Foi o primeiro livro que li. Gosto de imaginar que sim!

“…A criança sorriu para o Gigante e lhe disse:

- Você me deixou, certa vez, brincar em seu jardim, e hoje você irá comigo para ao meu jardim que é o Paraíso.

Naquela tarde, quando as crianças chegaram correndo, encontraram o Gigante morto, deitado debaixo da árvore, todo coberto por flores brancas.”

O meu amigo Joaquim Castilho, viajante incansável, que já esteve em Samarcanda, permitiu o acesso a:

E ao filme:

Manuela Correia- Membro da Comunidade de Leitores

08 fevereiro 2015

Samarcanda




Iluminura persa



Samarcanda, cidade das encruzilhadas de rotas e impérios, de «(...) densos vergéis e cristalinos riachos. Depois, aqui e além, o arremesso de um minarete de tijolo, uma cúpula cinzelada de sombra, a brancura de um muro de belvedere. E, à beira de um lago, acobertada pelos chorões, uma banhista nua que expunha a sua cabeleira ao vento abrasador.» Amin Maalouf, Samarcanda, p. 21.
Entre reis mongóis e e príncipes seljúcidas que ascendem como uma onda, para se desfazerem em pó, entre belas cidades, onde o sol  faz refulgir os azulejos esmaltados e os amantes se escondem nos jardins perfumados, seguimos o sábio Omar Khayam:


Azulejo de Kashan
Que homem jamais transgrediu a Tua Lei, diz-me!
Uma vida sem pecado, que gosto tem ela, diz-me!
Se punes pelo mal o mal que eu fiz,
Qual a diferença entre ti e mim, diz-me!

O nosso livro transporta-nos para uma diferente cultura, para o fascinante e encantado Oriente, que tem captado as imaginações ocidentais (o tal Orientalismo tão criticado por Edward Said, como estereótipo prejudicial à região). Pode ser que Said tenha razão, mas o encanto provém também da admiração por uma cultura com um passado florescente.


Kashan, nicho de oração, finais do séc. XIII. Museu Gulbenkian, Lisboa



Samarcanda (?) pintura do séc. XIX Vasily Vereshchagin, 
Ispaão- Praça de Naqsh Jahan  de Pascal Coste , início do séc. XIX

Bucara- muralhas

Horoscope of Prince Iskandar, grandson of Tamerlane, the Turkman Mongol conqueror.

Bowl with prince on horseback, Seljuq period (1040–1196), 12th–13th century. Metropolitan Museum , N. Y.




05 fevereiro 2015

"Samarcanda", Amin Maalouf, - 27 de fevereiro - 21 H

 
A abrir:

"No fundo do Atlântico, há um livro. É a sua história que eu vou contar.
Talvez lhe conheçais o desenlace, os jornais relataram-no na época, algumas obras mencionaram-no desde então: quando o Titanic se afundou, na noite de 14 para 15 de Abril de 1912, ao largo da Terra Nova, a mais prestigiosa das vítimas era um livro, exemplar único dos robaiyat de Omar Khayyam, sábio persa, poeta, astrónomo."

"E agora passeia o teu olhar por sobre Samarcanda! Não é deveras rainha da Terra? Altiva, acima de todas as cidades, e nas mãos dela os seus destinos?" 

Edgar Allan Poe (1809-1849)

02 fevereiro 2015

BREVES REFLEXÕES SOBRE O LIVRO DE JANEIRO



Primeiro era o fogo. «Queimar era um prazer.» Queimar  capas e contra-capas, as lombadas,as folhas, com jactos de fogo, até se estilhaçarem nos 451 graus Fahrenheit ou nos correspondentes 232,75 graus Celsius. Queimar esses poderosos inimigos do sossego humano: livros, livros com conteúdo, literatura! Assim é a sociedade futura na utopia pessimista que nos apresenta Ray Bradbury. Uma sociedade totalitária, em constante guerra,tecnologicamente avançada, mas que esqueceu as humanidades, que mantém os seus cidadãos na ignorância e num bem estar fictício, alimentado pela tirania dos audiovisuais, pelo culto do prazer,  do efémero e superficial , da excitação, da velocidade   (apenas falta o consumismo desmedido).


Tudo para evitar o conhecimento (a filosofia) e a reflexão (causa de melancolia, que importa a todo o custo evitar).  O ensino tornou-se um sistema de normalização enlatado. As pessoas devem ser entretidas; os laços entre elas, apenas os indispensáveis. Quem não se harmoniza com este cenário é suprimido; os bombeiros, são agora, mercê dos avanços técnicos da construção, instrumentos de purga de tudo o que é indesejável, numa espécie de eliminação purificadora pelo fogo, estando à cabeça os sediciosos livros.

«Saber o porquê das coisas», ver a natureza como ela é, usufruir dela com tempo e manter laços humanos, é o que Clarisse McClellan se atreve, desviando do caminho da «normalidade» o bombeiro Montag, que se descobre isolado e infeliz e se atreve a olhar para dentro de si e para o abismo do proibido: os livros que deve queimar e extinguir. Há quem prefira arder com eles... Na agitação em que se descobre  afirma à sua vazia e alheada mulher, Mildred: «Não temos necessidade que nos deixem sossegados. Temos necessidade de sermos seriamente incomodados de vez em quando

Encetando uma via de interrogação interior, nada o resgatará: nem as cinzas de afeição por Mildred, nem o terror inspirado pelo tenebroso e letal cão-polícia mecânico, nem as tentativas de doutrinação do capitão Beatty, que faz a apologia do mundo em que vivem e da razão porque se o deve aceitar e desistir de pensar, citando toda uma plêiade de autores, que contradizem o seu discurso. Mas o que se impõem é que « Os filmes, a rádio, os magazines, os livros foram nivelados, normalizados sob a forma de pasta de bolo.»; o intelectual é o inimigo a abater,« a protecção da paz de espírito» é o imperativo. Trabalho e distracção; evitar ofensas e disputas, agradar a gregos e a troianos e ainda a mais alguns, para que o ritmo social se mantenha e a verdade do estado de guerra constante seja apenas uma espécie de mau sonho distante.
Faber, o velho professor de literatura, junto de quem Montag procura apoio, revela que o livro em si nada significa. A sua importância e perigo residem na sua qualidade, ao retratar  os pormenores e questões da vida; na possibilidade que dá de reflexão,  de assimilação com tempo e a partir daí da acção em consciência. Podem, de resto, revelar-se meros enfeites de estante, objectos de valor e afecto, produtos indesejáveis e subversivos ou mesmo instrumentos de redenção.

Montag, irremediavelmente convertido/subvertido, tenta guardar dentro de si os livros do «Eclesiastes» e do «Génesis», para que a parábola da peneira e da areia, não se concretize. De perseguidor passa a perseguido. Juntar-se-á aos ostracizados da cidade, nas margens do rio e na senda do velho caminho de ferro.  Com eles, ao longe, verá a destruição da cidade pela guerra cirúrgica e inexorável. E recupera a memória dos seus sentimentos perdidos.

Serão eles, os renegados,que agora,  transmitirão o que sobrou de uma civilização aos que restam, para a sua reconstrução até uma nova destruição, mas onde as sementes sempre persistirão. «E nas duas margens do rio nascia uma árvore da vida dando doze vezes frutos e um cada mês; e as folhas dessa árvore serviam para curar nações.»

E segundo o velho intelectual exilado,Granger, o que fica da vida de alguém?Deixar algo que toque os outros. Um livro,uma história contada, um filho amado, um acto de amor e afeição, um jardim acarinhado. Tudo o resto, será uma procura absurda de felicidade.

23 janeiro 2015

Fahrenheit 451, o filme


"Fahrenheit 451" de François Truffaut

Tentei encontrar o filme completo, mas não consegui! Se alguém souber de algum link que se acuse! Adoraria vê-lo ...

17 janeiro 2015

"O LEOPARDO"

Lembram-se de termos visto o filme - vai para três ou quatro anos - no CCB? Como o tempo passa! Agora temos o livro na Comunidade de Leitores de Cascais, dia 22.
http://www.cm-cascais.pt/evento/comunidade-de-leitores-com-helena-vasconcelos-0
Até lá o "nosso" Fahrenheit 451 pode esperar.

12 janeiro 2015

"Fahrenheit 451", Ray Bradbury, 30 janeiro - 21 H


Fahrenheit 451 - a temperatura a que um livro se inflama e consome...
"Queimar era um prazer"
"Era um prazer muito especial ver as coisas arderem, vê-las calcinar-se e mudar."

As coisas, eram livros...
Lembram-se da Julie Christie, neste filme?



05 janeiro 2015

O TEMPO RECONSTRUÍDO








É com uma sensação de vertigem que se percorre, hoje, a Casa dos Bicos. Toda ela é uma metáfora daquilo que, para Gabriel Garcia Marquez é o fundamento da escrita e da vida: a Memória. Tropeçamos desde logo na muralha, nas muralhas, aliás, em palimpsesto, re-escritas, re-inscritas no solo, em épocas sucessivas, continuidade assim desnudada do pano ribeirinho que adivinhamos no traçado urbano linear, na persistência de portas, em arcos, escadas e passagens. Revisitados, que interrogamos sempre, na busca do discurso oculto destes vestígios materiais, que são, eles mesmos, Memória colectiva, mas também memórias pessoais e de grupo, à imagem das Pequenas Memórias, na lição de José Saramago, que nos atende no piso superior.
 Ali, há um trabalho literário, por vezes também ele em palimpsesto, como a muralha, em baixo; mas há sobretudo uma vida, vertida em Memória, que complementa e ilumina a palavra escrita, porque lhe traça as origens, desvenda o labor, em investigação, hesitações, correcções; também desistência e incompletude. Do que é feita uma Obra Literária. Do que é feita uma Obra de Arte. Do que é feita uma Vida, que passou a pertencer-nos. 

Lisboa, 3 de Janeiro de 2015, dia de deambulação urbana.

31 dezembro 2014

ADENDAS CULINÁRIAS

Nesta época festiva, em que enchemos literalmente a carne e o espírito com as belas «comezainas» natalícias e de outras festividades, além de literárias, ( e esta última obra que lemos é um bom exemplo disso, plena de seiva, cor, vivacidade, vida e morte, beleza e putrefacção, tons do Caribe, mas agora não vinha ao caso. Sou eu a derivar.) , estava eu ontem a regurgitar todas estas festas e sabores e eis que me dá para pegar na obra A Mesa dos Reis de Portugal. Já não bastava o enfartamento e abundância e vou reincidir. Ora, o que interessa é que encontrei duas referências que podem interessar a duas ilustres leitoras, senhoras de apreciáveis dotes culinários. Para a Bia, vão as referências a «beilhós de arroz» (serão antepassadas das filhoses? mas de arroz...) do Livro de Cozinha de D. Maria, uma neta de D. Manuel; para a Amélia, são referidas no contexto de troca de receitas entre senhoras da sociedade do séc. XVI, «(...) as apreciadas almojávenas, tortas fabricadas com massa de farinha e queijo ou requeijão, de origem mourisca.»
Dos mouros para a sociedade peninsular, desta para a colonial americana e aqui estão elas, com o chocolate vindo das Américas, copiosamente bebido em Espanha e menos em Portugal desde o séc. XVII, adaptado ao gosto europeu, sem especiarias picantes, mas com açúcar. A sofisticada «mousse», essa, parece datar do séc. XIX.
E com estas reais sugestões desejo a todos um belo ano com belas leituras e correspondentes iguarias.


Deixo-vos com um por do sol em Cartagena das Índias, onde estão uns invejáveis 28 graus....



Significado de Almojávena
f.
Espécie de belhó, de farinha e queijo.(Do ár. al-mojábana)



Almojávenas de D. Isabel de Vilhena:

«Tomem 3 partes de queijo, não muito fresco, e amassem-nas muito bem, misturando-lhes em seguida uma parte de farinha de trigo e três ovos inteiros; se o queijo for muito mole, misturem a ele as três gemas e apenas uma clara. Mexam e amassem tudo junto, de modo a formar umapasta homogênea. Façam então uma massa de pastel com farinha bem fina, um pouco de açúcar, manteiga e algumas gotas de água-de-flor. Depois de bem sovada, deixem esta massa descansar um pouco, abrindo-a depois com um rolo, em folhas bem delgadas. Cortem a massa com uma carretilha, dando-lhe feitio arredondado. Com os dedos levantem as pontas da massa, que fique como uma pequena torta. Em seguida arrumem o recheio de queijo nessas tortinhas, que são levadas a fritar em fogo brando, e em bastante manteiga, ou banha bem quente. Tenham o cuidado de não deixar cair a manteiga ou banha dentro do recheio. Assim que estiverem douradas tirem as almojávenas do fogo. Finalmente façam uma calda em ponto não muito alto e, sem deixar que esta ferva, passem por ela as tortinhas. Deixem-nas escorrer numa peneira e sirvam-nas polvilhadas com açúcar.»


BEILHÓS DE ARROZ:

«Cozinhem um pouco de arroz com leite, açúcar e uma pitada de sal, e ponham-no a esfriar.
Batam dois ovos separadamente, adicionem-lhes uma colher de farinha de trigo, misturando-os então ao arroz já frio.
Levem ao fogo uma frigideira com manteiga e, quando esta estiver bem quente, deitem-lhe a massa às colheradas.
Se os bocados se espalharem muito pela frigideira, enrolem-nos depois na farinha de trigo. Numa panela que já está no fogo, com calda bem grossa, vão-se deitando os bolinhos, que depois são postos a escorrer, numa peneira.
Servem-se polvilhados com açúcar e canela.
Da mesma maneira se fazem os beilhós de manjar branco, só que este deverá ser mais cozido, usando-se farinha de arroz, em lugar de farinha de trigo.»




30 dezembro 2014

12 meses passaram e com eles 12 livros e muito mais...

Ontem na última sessão do ano

Com o amor sofrido e prolongado no tempo, de Florentino Ariza, completámos na sessão de ontem, o ciclo de 2014. 
A escolha da Gabriel García Marquez e aquela que para muitos (e eu incluída) é a sua obra prima "O Amor nos Tempos de Cólera", foi a escolha perfeita para finalizar um ano intenso de leituras e tudo o mais que entendemos associar-lhe, como foi o caso de ontem em que recebemos pela mão dos nossos colegas Bia e David, o Manuel Diogo, membro fundador do grupo de jograis "U...Tópico" e que, no final de uma sessão que já ia, compreensivelmente  longa, nos maravilhou com uma selecção de poemas alusivos à época, interpretados de forma emotiva e cativante. Obrigada por isso!

53 anos, 7 meses, 11 dias e noites foi o tempo que Florentino Ariza levou a concretizar o seu amor por Fermina Daza!

A nossa Comunidade de Leitores em apenas alguns dos 365 dias de 2014, para além dos 12 livros que leu, de almoços, jantares, lanches e petiscos pelo meio, exposições, espectáculos musicais, festival ao largo, passeios por Lisboa e até uma ida ao futebol, muito mais conseguiu fazer... 
No final de Maio, fomos convidados a realizar uma sessão pública na Feira do Livro, que contou com a presença de um dos nossos escritores do ano Carlos Querido e que foi um sucesso.
Realizámos meia dúzia de encontros para a maratona de leitura conjunta do herói "D. Quixote dela Mancha".  A seu propósito, foi a Comunidade convidada a participar no dia da festa de todos os que falam espanhol, a 21 de Junho no Instituto Cervantes.
Algures em Julho e numa jornada memorável, seguimos as pegadas de D. João V e fomos redimir-nos às águas das Caldas da Rainha, ficando mais uma vez registada a enorme gentileza de Carlos Querido.
Na sequência da leitura de "O Tartufo", Agosto trouxe uma visita muito especial ao ANIM, que incluiu o visionamento da cópia única da Cinemateca da película do cinema mudo "Tartufo" de 1925, em 16mm.
Em Setembro e num rescaldo tardio do "Memorial do Convento", houve mais uma visita ao convento, seguida  de um dos maravilhosos concertos de Orgãos na Basílica de Mafra

Com 2015 à porta e uma Comunidade imparável e cada vez mais activa,  cá estamos preparados para aderir às aventuras que o novo ano nos traga!

05 dezembro 2014

"O Amor nos Tempos de Cólera", Gabriel García Márquez, 29 Dezembro - 21h00

Capa do livro "O Amor nos Tempos de Cólera", das Publicações Dom Quixote

"Era contra toda a razão científica que duas pessoas que mal acabavam de se conhecer, sem qualquer parentesco entre si, com personalidades diferentes, com culturas diferentes e até com sexos diferentes, se vissem comprometidas de um momento para o outro a viverem juntas, a dormirem na mesma cama, a partilharem dois destinos que talvez estivessem determinados em sentidos diferentes. Dizia" O problema do casamento é que acaba todas as noites depois de fazer amor e tem de se voltar a reconstruí-lo todas as manhãs antes do pequeno almoço..."

"O Amor nos Tempos de Cólera", de Gabriel García Márquez, Publicações Dom Quixote, pág 225

29 novembro 2014

LEITURAS DE 2015

1º Trimestre – Literatura do mundo

30 Janeiro – Fahrenheit 451, de Ray Bradbury
27 Fevereiro – Samarcanda, de Amin Maalouf
27 Março – A tia Julia e o escrevedor, de Mario Vargas Llosa

2º Trimestre – Literatura Portuguesa

24 Abril – Franceses, marinheiros e republicanos, de Filomena Marona Beja
29 Maio – A ronda da noite, de Agustina Bessa-Luís
26 Junho – O belo adormecido, de Lídia Jorge

3º Trimestre – Literatura do mundo

31 Julho – As ondas, de Virgínia Woolf
28 Agosto – As horas, de Michael Cunningham
25 Setembro – Palácio da lua, de Paul Auster

4º Trimestre – Literatura Portuguesa

30 Outubro – As pupilas do senhor reitor, de Júlio Dinis
27 Novembro – A noite e a madrugada, de Fernando Namora
18 Dezembro – A relíquia, de Eça de Queirós

20 novembro 2014

"O elefante evapora-se" de Haruki Murakami, 28 de Novembro às 21H

A abrir o conto: "Foi ao ler o jornal que fiquei a saber que o elefante da cidade tinha desaparecido sem deixar rasto. Nesse dia, como de costume, o meu despertador acordara-me às seis e treze. Uma vez a pé, fui à cozinha, fiz café e torrei pão, liguei o rádio na emissora norte-americana, abri o jornal em cima da mesa e comi as minhas torradas. Sou uma daquelas pessoas que tem por hábito ler o jornal de uma ponta à outra, a começar pela primeira página, por isso demorei o meu tempo até chegar ao artigo que falava do elefante desaparecido." 

17 novembro 2014

O efeito borboleta de umas "Lederhosen"


Devia ser em algo deste género que o Murakami pensou, quando se referia à hipótese de se imaginar um japonês vestido com umas "Lederhosen".
Nunca me passou pela cabeça que umas simples "Lederhosen" se pudessem transformar numa peça sinistra causadora de um divórcio ...

11 novembro 2014

CAVALOS DE CARTÃO

Já conhecíamos o cavalo de cartão de JOSÉ LUÍS PEIXOTO (Nenhum Olhar). O de LAURINDO  GÓIS está neste belo texto publicado no blogue A Curva dos Livros.

ETERNIDADE

Quando não sabia. Mas o cavalinho de cartão entrara um dia na história da sua vida. Quando deu por ele? E são muitos quando. Quando a  fotografia de contornos pesados e rigorosos do Amândio Fotógrafo lhe devolveu a imagem. Menino com cavalo, isso mesmo. A cara plena de espanto, o colete de veludo, obviamente macio, calção, camisa branca, meia branca, sapato de fivela. A condizer com qualquer coisa animal. A pata branca do cavalo, o selim igualmente branco, a luz nas ventas. O espanto, também. Cavalo…cavalo, o nome soou.

Mais tarde escreveria poemas dando-lhe prados maiores, veria cavalos correrem no grande ecrã, leria pinturas de cavalos em Júlio Pomar. Mas só mais tarde. O seu, de cartão e sonho quixotesco ficou agarrado ao minúsculo prado de madeira de pinho com rodízios. Quase um precipício.

Pediram-lhe que estivesse quietinho. Já  era, quietinho. E esteve mais. O momento era histórico. Sabia-o. Mas só sabia isso. Aquele era decididamente o momento. Susteve a respiração. Abriram-se-lhe instantaneamente duas luas de iluminação muito forte sobre o rosto. Ficou em décimos de segundo com as luas nos olhos. Disseram-lhe: “Já está”.


Foi a fotografia de menino com cavalo.  A única coisa verdadeiramente séria, certeira, que fez na vida. Interroga-se por vezes: fotografia? mas que é isso de fotografia? ainda não sabe. Gozou apenas aquele momento de menino-poeta-cavalo. Se a eternidade é. É aquilo: “já está”. E ele é, na marca do seu espanto aquele grão de eternidade.  

(Texto de Laurindo Góis)