23 junho 2015

SÃO JOÃO BAPTISTA

CARAVAGGIO, Salomé com a cabeça de S. João Baptista (1607), óleo sobre tela, National Gallery, Londres
 

SALOMÉ

Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo, 
Luz morta de luar, mais Alma do que a lua... 
Ela dança, ela range. A carne, alcool de nua, 
Alastra-se pra mim num espasmo de segredo... 

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas... 
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou... 
Tenho frio... Alabastro!... A minha Alma parou... 
E o seu corpo resvala a projectar estátuas... 

Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me, 
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto... 
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me: 

Mordora-se a chorar - há sexos no seu pranto... 
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me 
Na boca imperial que humanizou um Santo... 

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, Indícios de Oiro
 

21 junho 2015

LEITURA DO D. QUIXOTE EM ALMADA

Fotos: o livro, vista parcial do grupo, leitura pura e instalação com v de vitória
Fala do cónego para o cura no capitulo XLVII: «Nunca vi um livro de cavalarias que faça um corpo de fábula inteiro com todos os seus membros, de maneira que o meio se harmonize com o princípio, e o fim com o princípio e o meio; mas compõe-nos com tantos membros que mais parecem ter a intenção de formar uma quimera ou um monstro que formar uma figura proporcionada.»
Compare-se esta passagem de “D. Quixote” com Horácio, “Arte Poética”, 1-8: «Se um pintor quisesse juntar a uma cabeça humana um pescoço de cavalo e a membros de animais de toda a ordem aplicar plumas variegadas, de forma que terminasse em torpe e negro peixe a mulher de bela face, conteríeis vós o riso, ó meus amigos, se a ver tal espectáculo vos levassem? Pois crede-me, Pisões, em tudo a este quadro se assemelharia o livro, cujas ideias vãs se concebessem quais sonhos de doente, de tal modo que nem pés nem cabeça pudessem constituir uma só forma.»


19 junho 2015

Hoje na Casa da Achada – com a participação de António Pedro Pita e Maria João Brilhante – uma sessão sobre os prefácios de Mário Dionísio.  Destaco o prefácio a O Anjo Ancorado, de José Cardoso Pires, publicado pela primeira vez na edição de Maio de 1980 do Circulo de Leitores. Trata-se de um texto que fixa as perspectivas críticas do seu autor sobre a eclosão e o desenvolvimento do movimento neo-realista, analisando globalmente a obra do escritor e, naturalmente, O Anjo Ancorado.
Como é dito, “quando Cardoso Pires descobriu ser o que já era, a fase de eclosão do neo-realismo estava praticamente terminada.” Não só terminada, como começara já a da polémica interna em torno da questão da forma e do conteúdo: 1954, nas páginas da Vértice, Mário Dionísio contra António Vale – Álvaro Cunhal, ele mesmo.
Movendo-se pelo ensaio, pela short-story e pelo romance, José Cardoso Pires é para o prefaciador “antes de tudo e acima de tudo, um grande contador de histórias”. Porque “mesmo escrevendo ensaios, histórias conta.”
Reencontremo-nos então com este e outros prefácios do autor de A Paleta e o Mundo. É às 18 horas.

18 junho 2015

CARAVAGGIO (MICHELANGELO MERISI), Madona dos Palafreneiros (1605-1606), óleo sobre tela 229 x 211 cm, Galeria Borghese, Roma.

ASSOBIO NA NOITE





Assobio na noite, o terceiro conto de O Belo Adormecido de Lídia Jorge, nossa leitura de junho. Referência, aparentemente desgarrada, a Caravaggio, a propósito, é certo, de estudos que o protagonista, Prof. Reinaldo Mateus (a gente pensa logo em Reynaldo dos Santos...), teria desenvolvido, sobretudo no seu quinto livro, cuja matéria versava sobre o famoso pintor lombardo.
E digo referência desgarrada, por me escapar o possível nexo que a escritora, de alguma forma críptica (pelo menos para mim), terá estabelecido com o desenrolar da história.
Assim, surgem, ao longo dos primeiros quatro parágrafos, três pontos que parecem importantes e dos quais se poderia esperar um papel estruturante da narrativa ou então, que eles se constituíssem como chaves de uma interpretação. Ora, a sensação final que colhi da leitura do conto foi a de um certo "desperdício", no sentido destas expetativas, legítimas ou não. É como se a autora nos deixasse pendurados nestas mesmas expetativas, optando por uma certa descontinuidade, de propósito ou não.
Esses pontos são os seguintes: (i) o sonho recorrente, no qual surge (ii) uma faca, que ele identifica como sendo a de Caravaggio, objeto mítico, no qual estaria gravada (iii) uma frase: Onde não há esperança, não há medo.
A partir de uma pesquisa mínima e de alguma reflexão percebe-se, em primeiro lugar, a riqueza argumentativa e bases de discussão contidas naqueles três pontos. Depois... fico à espera dos contributos de quem também não achar o assunto despiciente...

A TUA BOCA ABERTA À SAUDADE DE UM / BEIJO

Volto sempre a JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA como quem procura a água e o sal que só a poesia dá.

DESAMOR

Abre a porta, desce,
mas quebra primeiro os vasos de
gerânios da tua solidão,
rasga a blusa, o xaile, a túnica de
seda da tua infinita espera,
porque ele não virá,
o príncipe cego das montanhas e,
agora que já não me amas,
só as gotas desta chuva sem fim
tocarão os teu cabelos,
a tua boca aberta à saudade de um
beijo.
Voltas para trás, compondo uma
madeixa,
e corres as cortinas,
amaldiçoando as trevas.

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA, Anjos Caídos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, p. 102.

17 junho 2015

ROUSSEAU, AS CONFISSÕES

É desta vez que vou levar isto do princípio ao fim. Lidas 121 de 617 páginas.
«Que a trombeta do juízo final soe quando ela bem entender; eu virei, com este livro na mão, apresentar-me diante do juiz supremo. Direi resolutamente: eis o que fiz, o que pensei, o que fui. Falei com a mesma franqueza do bem e do mal. Não calei nada que fosse ruim, nada acrescentei de bom; e se, por acaso, empreguei algum floreado sem interesse não foi senão para preencher alguma lacuna devida à minha falta de memória.» --- Livro I (1712-1719).
 
 

11 junho 2015

"O Belo Adormecido" de Lídia Jorge, 26 Junho - 20h30


No mês em que entramos no solstício de Verão, temos seis contos da Lídia Jorge para descobrir. O mais longo é o que dá o nome ao livro e conta a história de um encontro entre uma actriz já madura e um rapaz adolescente. 

Avancemos então para mais uma aventura literária …

07 junho 2015


NESTAS AREIAS, escreveu-se a história de Paulina e Brandão. Amores infelizes.
Na colina sobranceira, o edifício do Lazareto.
Artes de fotografia a ver passar a regata.
Outras leituras.

 

03 junho 2015

A VER ALMADA(S)











Átrios de Honra (?) das Gares Marítimas de Alcântara e Rocha do Conde de Óbidos (o Palácio respetivo a pontuar a encosta, atual Cruz Vermelha).Os fabulosos painéis de Almada Negreiros, ali à mercê da nossa vista, deleite estético, observação em busca de contextos, motivos, símbolos, intenções do artista. Composições, de maravilhosas (A Nau Catrineta...) a denunciantes (ou apenas descritivas?) de situações sociais, o mundo do trabalho duro à beira rio, a dor da despedida no embarque. Várias realidades, um mesmo mundo, aquele que o Estado Novo queria ver plasmado nas primeiras imagens que o estrangeiro captasse, ao desembarcar na capital, sendo também estas das últimas a fixar para quem partia...
Os painéis que abrem, para nós, estas janelas no Tempo e na Memória, não conseguem distrair-me completamente de uma outra vista, que o sol modela na Outra Margem: ao Almada contrapõe-se Almada, Al-Madan, fortaleza sobranceira ao Tejo de aurífero areal, lendário ou não. Eis as vistas.

31 maio 2015

PARQUE DA PAZ, DA AMIZADE, E TUDO O RESTO É LITERATURA


Depois de “A Ronda da Noite”, a visita a Almada, Parque da Paz, lugar da leitura do Engenhoso Fidalgo no próximo dia 20. Saibam os Quixotes e as Dulcineias - já agora também os Sanchos -, que o recanto está escolhido, não muito longe dessa sugestão de pórticos e calçada romana que aí se apresenta na segunda fotografia.
São 60 hectares de relvados, caminhos e lagos onde a paz é possível. E há porcos que passeiam pela trela com os donos, e há o rio de azul não distante e sombras que se iluminam em frente de muros falantes. Poesia.
 

20 maio 2015

E AGORA, UMA COISA COMPLETAMENTE DIFERENTE!

Quem, de entre os participantes da aventura por Alfama, na senda de A História do Cerco de Lisboa, não se lembra do café-bazar ZAZOU? Recordo que foi uma pausa agradável; que quase tomámos posse do espaço. Espaço que parecia feito à medida de alguma futura tertúlia... (não estou certa, mas julgo que o D. Quixote veio depois...).
O que acontece é que uma amiga nossa, artista plástica de renome, Júlia Ventura, tomou conta do negócio (o nome agora é Houria), que pretende rentabilizar como local de encontro, num registo mais solto, ainda a auscultar a procura, oferecendo sobretudo um ambiente de bar/ café acolhedor, com um recanto oriental...mas cheio de caráter. Claro que me lembrei logo de NÓS!
Aberto desde o dia 15 deste mês, temos mais um espaço alternativo para o que der e vier (também para uns copos, para quem quiser! E vem aí o Sto António!).



                              Café - Bazar Houria, Calçada do Correio Velho, nº 7, Lisboa

19 maio 2015

E VENHAM MAIS DOIS

A Humilhação na Comunidade de Leitores da Biblioteca Casa da Horta (Cascais), 21 de Maio às 18:30. O Instinto Supremo apresentado por Sérgio Luís de Carvalho em mais uma sessão comemorativa de "Ler Ferreira de Castro 40 anos despois": 22 de Maio às 19:00 no MU.SA, Sintra. Com tudo isto a ronda da noite segue em marcha lenta.

15 maio 2015

A companhia militar do capitão Frans Banning Cocq e o tenente Willem van Ruytenburg

No ano passado, encontrei o capitão Frans Banning Cocq e o tenente Willem van Ruytenburg, em Amesterdão.
Convidei-os para a nossa sessão de leitura de maio.
A resposta foi "nim", coisas de holandeses.
Eu tentei, bem podem ver...


09 maio 2015

"A Ronda da Noite" de Agustina Bessa Luís, 29 de Maio-20h30


Maio é mês de rondas nocturnas. Pela pena  de Agustina, inspirada no pincel de Rembrandt, acompanhamos a vida de Martinho Nabasco e a sua perpétua ronda da noite (como diz a Paula aqui mais abaixo)...

04 maio 2015

DO RETRATO DO AUTOR E DA SUA BEM AMADA

Momentos que se fixam no decorrer dos tempos curtos: o autor e sua amada
Rembrandt, esboço, 1633

Saskia van Uylenburgh (1612-1642), esboço «A minha noiva de três dias » ,1630

Saskia como Flora-1635
Rembrandt, 1634

Rembrandt, 1640


Saskia com uma flor vermelha, 1641





Saskia , 1635






Rembrandt 1661
Rembrandt , 1643