22 outubro 2014

25 de Outubro, 14h00, continuação da leitura de D. Quixote



Para um momento de boa disposição, a anteceder os que se aguardam para o próximo sábado. As leituras de D. Quixote têm-nos proporcionado momentos ímpares ...

15 outubro 2014

Chapéus de coco há muitos, mas este é único...



Charlie Chaplin: Modern Times (1936) - Titina

"Chapéus como aquele, pretos, redondos rígidos, Tereza nunca tinha visto senão no cinema. Charlie Chaplin usava sempre um. Sorriu por seu turno pegou no chapéu de coco e examinou-o demoradamente. Depois, disse:"Queres ficar com ele nas fotografias?""

in "A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Jundera

"A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Kundera, 31 de Outubro às 21h00


A abrir o capítulo nono

"Quando os amigos lhe perguntavam quantas mulheres tinha tido, respondia de forma evasiva e , se insistiam em saber, dizia: "Mais ou menos duzentas." Os invejosos afirmavam que estava a exagerar com certeza. Defendia-se dizendo: "Nem tanto como isso. Tenho relações com mulheres mais ou menos há vinte e cinco anos. Ora experimentem a dividir duzentos por vinte e cinco. Hão-de ver que dá mais ou menos oito mulheres novas por ano. Não são assim tantas.""

In "A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Kundera

06 outubro 2014

ESCRITARIA EM PENAFIEL 2014


"Não há livro de instruções para salvar a vida. Só a Literatura se aproxima desse imenso livro."

 "Nada justifica a gula do dinheiro."

 Lídia Jorge
 
 

04 setembro 2014

PARA 26/9: É LER OU RELER - SÓ NÃO VALE TRESLER

«Decididamente, era uma bela rapariga. Assim que ela acabasse a bucha, ele tomá-la-ia nos braços para a beijar na boca. Era uma resolução de tímido, uma ideia de violência que o engasgava um pouco. Aqueles fatos de rapaz, aquela jaqueta e aquelas calças sobre aquela carne de rapariga, excitavam-no e incomodavam-no. Estevão tinha engolido o último bocado. Bebeu do cantil, restituiu-lho para ela o despejar. Agora, era chegado o momento de operar; e estava deitando uma olhadela inquieta para o lado dos mineiros, ao fundo, quando uma sombra tapou a galeria.»
 
ÉMILE ZOLA, Germinal, tradução de Eduardo de Barros Lobo, Lisboa, Círculo de Leitores, 1983, p. 31.

24 agosto 2014

ONTEM, EM OEIRAS, NO PARQUE DOS POETAS: D. QUIXOTE "PASSEANDO PELA BRISA DA TARDE"

«E quis a minha boa sorte que o senhor D. João de Áustria acabasse de chegar a Génova e depois seguir para Nápoles para juntar-se à armada de Veneza, como depois o fez em Messina. Digo, por fim, que participei naquela felicíssima jornada, (…)»
-- Relato autobiográfico de MIGUEL CERVANTES (1547-1616), nos capítulos XXXIX, XL e XLI da Quarta Parte de “D. Quixote de La Mancha” I, relativo à sua participação na batalha naval de Lepanto (1571), travada entre os estados cristãos e o Império Otomano. – Uma história dentro da história do cavaleiro da triste figura.
 

22 agosto 2014

UM ADEUS PORTUGUÊS

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

 
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.


No Reino da Dinamarca (1958)

16 agosto 2014

SÁBADO, DIA 23, A PARTIR DAS 13.30 --- LEITURAS DE D. QUIXOTE NO PARQUE DOS POETAS


EU, QUIXOTE
Vejo o mundo com olhos que estão para além do mundo e,
por isso, não estranho a chacota dos que comigo se cruzam
nos caminhos da heróica demanda.
Áridas são as cores em todo o planalto da Mancha:
o ocre da terra, o amarelo seco das searas
atravessadas por rocins de vento e pó.
Como dizer, a esses que riem de mim, que o sonho
tem mais luzes que todas as que há no céu?  
Como falar-lhes de ideal e sonho
se nunca se elevaram um palmo acima da terra,
presos a ela por raízes de ferro e sombra?
Sim, eu sei, não há nenhuma senhora Dulcineia,
nem em Toboso nem em qualquer outro lugar da Mancha.
– Só o meu ideal a faz viver, grata imagem
de mulher e amante
guardada no coração dum cavaleiro andante.


16/8/2014
 

13 agosto 2014

DEPOIS DA LEITURA


Tartufo (1925), de F.W. Murnau, obra do cinema expressionista alemão que veremos ainda este mês -- em exibição rara -- no ANIM (Bucelas), Centro de Conservação da Cinemateca Portuguesa. O roteiro do filme é uma adaptação livre da peça de Molière.
Programa em preparação. 

12 agosto 2014

"O Tartufo" de Molière, 29 de Agosto - 21h00


Diz-se por aí que estamos em Agosto e que a maior parte de nós anda de férias, mas não se esqueçam que este também é mês de leitura teatral. Por enquanto apenas encontrei uma versão do livro em castelhano ...

29 julho 2014

LER A MANCHA

Revista "Ler", nº 67, Verão de 2005
 
«Não me incomoda ser um cavalo, sobretudo agora que posso pastar livremente, sem que já nada me atormente, a não ser a memória, pelas verdes pastagens da eternidade; do que eu nunca gostei, e ainda não gosto, é de cavaleiros andantes, ou antes, cavalgantes, pois quem realmente andava éramos sempre nós. Eu sei que, excepto nas corridas, quem faz a glória do cavalo é o seu cavaleiro. Se eu não tivesse tido como cavaleiro o senhor Quixote de la Mancha, ou Quixada ou Quesada, que até hoje não sei ao certo como diabo ele se chama, o meu nome teria sido esquecido por todos, antes mesmo de eu morrer.
Infelizmente não foi. (...)»
 
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, "Rocinante"

19 julho 2014

A redenção da leitura

 
Foi notícia: a Comunidade de Leitores da Biblioteca de Cascais, de São Domingos de Rana, deslocou-se às Caldas da Rainha no dia 13 de Julho. Este evento foi o corolário da leitura do livro "A redenção das águas", de Carlos Querido, e da participação, com o mesmo livro, na Feira do Livro de Lisboa deste ano.

Foi uma jornada memorável, com um ambiente de festa e com uma organização super cuidada e super recheada de história e de património.
A Comunidade não pode deixar de expressar um grande agradecimento ao apoio da Câmara Municipal das Caldas da Rainha e ainda, muito em particular, a todo o desvelo e carinho manifestados pelo Dr. Carlos Querido e sua esposa.
Esta aventura começou com um livro, e a literatura passou para a vida...

12 julho 2014

MIL E UMA NOITES

SCHEHERAZADE ou o poder das histórias narradas.
Na noite de ontem com Rimsky-Korsakov, Festival ao Largo, 5-dos nossos-5: «De la musique avant toute chose, / Et pour cela préfère l´Impair / Plus vague et plus soluble dans l´air, / Sans rien en lui qui pèse ou qui pose.» (Paul VERLAINE, "Art poétique").
 

10 julho 2014

Como a água que corre, de Marguerite Yourcenar, dia 25 de julho, pelas 21H





A abrir, em "Anna, Soror"...primeira novela do livro:

"Nascera em Nápoles no ano 1575, detrás das espessas muralhas do forte de Santelmo cujo governador era seu pai....."

Querem saber mais? Leiam! :)

07 julho 2014

NO ENTANTO EU SEI

no entanto eu sei que se conseguir escrever
um verso todas as noites um verso que seja
será suficiente para adiar o branco infinito da morte

AL BERTO, em "três poemas esquecidos"

06 julho 2014

"DOM QUIXOTE", DE RICHARD STRAUSS

Dom Quixote, de Richard Strauss, na noite de Poemas Sinfónicos do 6º Festival ao Largo. Orquestra Sinfónica Portuguesa com direcção de Emil Tabakov. Solista de violoncelo, Irene Lima, essa que aí se mostra com um belo vestido oferecido por Pilar del Rio. A fimbria do dito, informou o apresentador, está debruada com uma frase de O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Não deu para ver.

29 junho 2014

DULCINEIAS E QUIXOTES


Ontem, num parque da cidade, terminando a novela do Curioso Impertinente, capítulos XXXIV e XXXV da primeira parte. O circo do futebol, com os seus desmedidos sons, estava por perto. Prejudicou a leitura. Fora do programa, ainda deu para ver os penáltis.  

Ainda sobre «O Judeu»

Terminada que foi a nossa participada sessão de dia 27, atrevo-me a adaptar aqui algumas das ideias-chave expressas pelos nossos leitores, que julgo ter captado. Opinião quase unânime é que este «Judeu» não foi leitura fácil, dada a «espessura» do texto, o número de personagens, o seu pungente dramatismo e temática, as minuciosas indicações cénicas e o seu estilo «forte» e grandiloquente. De facto, arrisco-me a dizer que o tema é negro, como a capa da edição da Ática.



Santareno situa a sua obra na época de D. João V, rei absoluto e «Fidelissimus» da Igreja Católica Romana, época de contradições, como todas. O regime tridentino do séc. XVI vigora ainda sobre as consciências, discursos e acções, tendo como instrumento de eleição o famigerado Tribunal do Santo Ofício. E assim, a peça se inicia e encerra com a ameaça das suas fogueiras purificadoras do pecado, da heresia e do inimigo por excelência do cristão, o judeu. O judeu, ou antes o cristão-novo, o cristão que nunca abraçou verdadeiramente a religião vigente , o que judaíza em segredo, que mantém os ritos escondidos da «Velha Religião», será durante  cerca de três séculos o alvo mais visível (mas não o único, que a instituição era trabalhadora e empenhada) da Inquisição. E o pobre António José da Silva era cristão-novo (se é que poderia ainda denominar-se assim no séc. XVIII ). Quase toda a sua vida parece ter sido vivida sob o estigma da perseguição pela Inquisição, com prisões de grande parte da família. De facto, a peça situa-se cronologicamente entre 1726 (sua primeira prisão e auto-de -fé) e 1739 ( novo encarceramento, processo e execução). Santareno apresenta, entre estas duas balizas temporais e sob o pano de fundo da perseguição religiosa, as figuras e as histórias que marcam esse nosso séc. XVIII, do Magnânimo. Mas a marca essencial é a da opressão e do medo, corporizados no Santo Ofício, grato na sua função niveladora a um Estado, que quer governar sobre uma sociedade perfeitamente ordenada e sem «desvios», mal-grado as dúvidas morais de certos membros. Há certamente uma transposição simbólica entre este cenário e o do autor e do nosso país em 1966, data da peça. Vivia-se ainda sob o medo, a censura, o imobilismo, a opressão e o obscurantismo. E a denúncia e a delação continuavam a ser instrumentos dos regimes. 
D. João V  em 1729, por Jean Ranc, Museu do Prado

Mas a peça vive também de momentos mais leves: somos conduzidos pelo herege, exilado, velho amoroso, de pródigas façanhas, queimado pelo Santo Ofício à distância, Cavaleiro de Oliveira, espécie de coro, como no teatro clássico, relator irónico, ora sarcástico, ora nostálgico, indignado e desgostado, que da sua húmida Inglaterra, observa, comentando, o triste percurso do Judeu, que teima em viver e criar e das restantes personagens. E aparecem já espíritos «viajados», com outra visão que «beberam» do movimento iluminista europeu, cujo pensamento revolucionaria o Ocidente: Alexandre de Gusmão, D. Luís da Cunha, mentor de Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal , Conde de Oeiras e déspota iluminado, que neutralizaria a Inquisição , Luís António Verney...

Alexandre de Gusmão, 1695/1753
Luís António Verney, 1713/1792
D. Luís da Cunha, 1662/1749


De denotar que a obra encena «o teatro dentro do teatro»: é uma obra de um dramaturgo sobre outro dramaturgo, também perseguido e engloba excertos das peças de António José da Silva e os seus personagens, também personagens desta, ambos cuidadosamente adequados à estratégia de Santareno. Assim se  ilustra a crítica ao poder real no O Anfitrião, à justiça na Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança, quando este último se torna governador na Ilha dos Lagartos, ao ensino escolástico na Esopaida, e à própria condição dos actores, tendo como pretexto As Guerras de Alecrim e Manjerona. Contudo, estes momentos das alegres peças do Judeu, são curtos momentos luminosos no negrume do tema da peça, que  pode ser tomada como um um libelo contra a escuridão que oprime a alegria,a juventude e a criação. E a liberdade de consciência.
Tantos foram os portugueses cristãos-novos que partiram durante séculos para uma Europa mais tolerante, sob os céus brumosos, mas livres e tolerantes do Norte, que, na época,  «Judeu» era quase sinónimo de «Português». Éramos o que esconjurávamos. Afinal somos todos «judeus».



António José da Silva, 1705/1739