15 abril 2014

A VISITA ÀS IGREJAS

Saibam os meus caros confrades que prossigo a investigação das fontes de Saramago para a escrita de Memorial do Convento. Eu sei que estas ou outras coisas parecidas estão em exposição na Casa dos Bicos, lugar a cuja porta passo frequentemente, e, talvez por isso, nunca tenha lá entrado para ver a dita exposição. Portanto, estou por conta própria.
O meu problema é que ainda não passei do admirável relato do médico e naturalista suíço Charles Fréderic de Merveilleux, Memórias Instrutivas sobre Portugal (1723-1726).
Merveilleux esteve várias vezes entre nós, a convite do rei Magnânimo. Este encomendara-lhe uma história natural de Portugal, o que o fez viajar pelo país profundo, tendo chegado a ir à serra da Estrela.
As suas impressões de Lisboa são do máximo interesse. Já que estamos na semana da Páscoa, vejam-se estas:
“A visita às igrejas durante a semana santa faz, num só dia, mais cornudos do que na vida habitual durante todo o ano. As mulheres têm a liberdade de andar pelas ruas durante toda a noite, apenas embuçadas nos seus mantos negros; os galãs disfarçam-se com trajos de mulher e misturam-se na multidão. Os maridos tomam a precaução de fazer acompanhar suas mulheres por escravas que eles julgam fiéis à honra dos seus senhores. Essa fidelidade, porém, não está à prova dos presentes que recebem dos galãs, acabando por serem essas mesmas escravas que conduzem as beldades a casa dos seus amantes.”
Queiram comparar com a prosa do nosso Nobel, terceiro capítulo, salvo erro:
“(…) talvez que o costume de deixar que as mulheres corram as igrejas sozinhas na quaresma, contra o uso do resto do ano, que é tê-las em casa presas, salvo se são populares com porta para a rua ou nesta vivendo (…), talvez que o dito costume mostre, afinal, quanto é insuportável a quaresma, que todo o tempo quaresmal é tempo de morte antecipada, aviso que devemos aproveitar, e então, cuidando os homens, ou fingindo cuidar, que as mulheres não fazem mais que as devoções a que disseram ir, é a mulher livre uma vez no ano, e se não vai sozinha por não o consentir a decência pública, quem a acompanha leva iguais desejos e igual necessidade de satisfazê-los, por isso a mulher, entre duas igrejas, foi encontrar-se com um homem, qual seja, e a criada que a guarda troca uma cumplicidade por outra, e ambas, quando se reencontram diante do próximo altar, sabem que a quaresma não existe e o mundo está felizmente louco desde que nasceu.”

14 abril 2014

BLIMUNDA, A SENHORA PEDEGACHE E OS SEDUTORES PARISIENSES

 
Blimunda na fachada da residência lisboeta de Pilar e José Saramago. Painel de azulejos de ROGÉRIO RIBEIRO (1930-2008). Foto obtida hoje.
 
 
Excertos de O Portugal de D. João V visto por três forasteiros, relato do médico naturalista CHARLES FRÉDERIC DE MERVEILLEUX.
 
«Vem aqui a ponto falar da Pedegache, mulher não só extraordinária mas também muito sedutora. Por forma alguma tinha aspecto de uma bruxa, embora pelos seus encantos fosse muito bem capaz de embruxar um homem. Confesso que não me atrevo a explicar o dom que ela tinha de ver o corpo humano, bem como o dos animais, por dentro e outrossim o interior da terra a uma grande profundidade, e creio bem que seriam vãos os esforços de todos os filósofos juntos para explicar este fenómeno.
(...)
Julgou-se a princípio que andava ali obra do demo, mas depois de um exame rigoroso abandonou-se tal suspeita, contentando-se todos em admirar um dom tão extraordinário acerca do qual as luzes da inteligência humana não alcançavam explicação que satisfizesse.
(...)
Admiro-me muito que a Academia de Ciências de Paris não tenha aceite o oferecimento que lhe fez o senhor Pedegache de conduzir sua mulher a França, mediante um abono de mil escudos para os gastos de viagem e estabelecimento de uma pensão de cem luíses de ouro graciosamente garantida pelo rei, se os talentos de sua mulher ficassem bem comprovados. Resignou-se, porém, facilmente com a recusa, reflectindo em que, sendo sua mulher muito formosa, além de bastante comunicativa e os franceses muito dados à sedução do belo sexo e não existindo para eles obstáculo à satisfação dos seus desejos, teria constituído uma imprevidência expor-se ao perigo que corre em Paris todo o marido de uma mulher encantadora.»


11 abril 2014

UM "LEGO" DO SÉCULO XVIII

De Roma enviaram ao rei uma "maquette" da Basílica de S. Pedro que, embora executada em pequena escala, ocupa um salão onde também existiam todos os modelos e raridades da cidade eterna. Os seus embaixadores gastaram nestas bagatelas o que bastava para erigir uma magnífica catedral.

--- O Portugal de D. João V visto por três forasteiros, relato do médico naturalista CHARLES FRÉDERIC DE MERVEILLEUX, "Memórias instrutivas sobre Portugal, 1723-1726", Lisboa, Biblioteca Nacional, 1989, p. 188.

Quase tão grande como Deus é a basílica de S. Pedro de Roma que el-rei está a levantar. É uma construção sem caboucos nem alicerces, assenta em tampo de mesa que não precisaria ser tão sólido para a carga que suporta, miniatura de basílica dispersa em pedaços de encaixar, segundo o antigo sistema de macho e fêmea, que, à mão reverente, vão sendo recolhidos pelos quatro camaristas de serviço.

--- JOSÉ SARAMAGO, Memorial do Convento.

07 abril 2014

"Memorial do Convento" de José Saramago, 30 de Abril às 21h00

  O meu Memorial!

Edição de Novembro de 2002, comemorativa do vigésimo aniversário da primeira edição (Outubro de 1982) do "Memorial do Convento" de José Saramago, ilustrada com pinturas de José Santa Bárbara, que se incluem no ciclo "Vontades. Uma leitura de Memorial do Convento"

DOMENICO SCARLATTI - SONATA PARA CRAVO


DOMENICO SCARLATTI (1685-1757), em Lisboa nos anos de 1720 e 1721 como professor de música da infanta Maria Magdalena Bárbara Xavier Leonor Antónia Josefa de Bragança, filha de D. João V, futura rainha consorte de Espanha.
 
"Ao fim de uma hora levantou-se Scarlatti do cravo, cobriu-o com um pano de vela, e depois disse para Baltasar e Blimunda, que tinham interrompido o trabalho, Se a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão chegar a voar um dia, gostaria de ir nela e tocar no céu, e Blimunda respondeu, Voando a máquina, todo o céu será música, e Baltasar, lembrando-se da guerra, Se não for inferno todo o céu."
 
JOSÉ SARAMAGO, Memorial do Convento
 

06 abril 2014

AMEDEO MODIGLIANI

Sobre o oportuno comentário de Leal de Góis, aí num "post" de há poucos dias, trago à colação esta tentativa poética de um tal "Disperso Escrevedor".
O poetastro viu o nu de Modigliani não há 40 anos, mas há apenas 9; e não ficou 15 minutos calado, falou em 16 versos:

Toco o teu corpo impudentemente puro
deformação expressiva
em almofadas de luminosos cetins
de escarlates sedas
e deixo-me ir na corrente líquida dos olhos
na embriaguez dos lábios
as mãos cheias do volume dos seios
Tacteio os músculos finos dos braços
dobrados em delta
sinto o anel da cintura
o recorte lume das ancas
a massa pujante das coxas
Repouso no centro do corpo
onde
o triângulo púbico
é um trapézio de Vénus
 
D.E.
 
 
Peço que o desculpem, o homem não sabe fazer melhor. A publicação original pode ser vista aqui:


05 abril 2014

AS IRRELEVANTES MEMÓRIAS (I)

ANTÓNIO QUADROS, Auto-retrato
 
Lourenço Marques, assim se chamava, pérola do Índico ou coisa parecida, foi lá que me encontrei com João Pedro Grabato Dias, na verdade António Quadros, pintor (1933-1994), também conhecido pelos falsos nomes de Frey Ioannes Garabatus e Mutimati Barnabé João, corria o anno Domini 1972, o Outono floria a sul do Equador, e toda a esperança era ainda possível. O encontro deu-se numa livraria, como convinha, livros que apareciam e desapareciam numa fugacidade austral de fazer suar os poros dos trópicos. As acácias rescendiam nas avenidas e eu pouco sabia da vida, estado em que, felizmente, ainda me mantenho.
 
MÁRTIRMONIAL, MATRIARMORIAL, MATRIHORMONAL
 
Cavalheiro distinto, e modesto,
com alguma cultura, em pousio,
de boagnífica família e lavradio
passável, lutador ambidextro
 
com ursos superiores, bastante lesto
nas também duas pernas, de assobio
em coisas musicais e sem fastio
ou outro desarranjo; ainda intesto
 
por falta de vagares ou vícios; vivo
em jogos de sala e outro desporto
procura jovem fêmea com lascivo
 
andar, dotada quanto a dote e a dotes
glúteas nalgas de alevantar um morto
e, se possível, algo que decote.
 
JOÃO PEDRO GRABATO DIAS, Sonetos de Amor e Circunstância e uma Canção Desesperada, Lourenço Marques, edição do autor, 1970, p. 44.
Nº 1 dos Cadernos de Poesia Caliban, de 1971, de que João Pedro Grabato Dias e Rui Knopfli foram coordenadores, e edição de autor, de 1970, dos Sonetos de Amor e Circunstância.


04 abril 2014

AMMAIA, A RECONSTITUIÇÃO POSSÍVEL



Cidade romana de Ammaia, situada na freguesia de S. Salvador de Aramenha, concelho de Marvão, tão escassa hoje de ruínas, estaleiro que foi, por séculos, de pedras aparelhadas a comporem outras cidades, outras construções. Abrigos outros dos mesmos anseios, paixões, sofrimentos e esperanças. Muitas e diferentes gerações e uma mesma humanidade. Situada no Parque Natural da Serra de S. Mamede, aprofundar um pouco a história deste sítio, leva ao reconhecimento de muitas referências que já são nossas, na Comunidade, por motivos ou motivações: Portalegre, a casa de José Régio; a Ponte de Alcântara; Leite de Vasconcelos e o Museu Nacional de Arqueologia... Para além de tudo o que se possa acrescentar, a partir desta notável reconstituição. Veja-se, por exemplo, o modelo de porta da cidade, que tudo leva a crer fosse o mesmo de Lisboa, com cujo desenho nos deparamos no pavimento de uma rua, algures em Alfama...

EDWARD HOPPER (1882-1967), Room in New York
 
EM FRENTE DO MAR
 
Pergunto a mim próprio em que noite nos perdemos?,
que desencontro nos levou de um a outro lado das
nossas vidas? e que caminhos evitámos para que os nossos
passos se não voltassem a cruzar? Mas as perguntas que
te faço, hoje, já não têm resposta. Sento-me contigo,
nesta mesa da memória, e partilho o prato da solidão. Tu,
na cadeira vazia onde te imagino, sacodes o cabelo com
um aceno de ironia. E dou-te razão: as coisas podiam
ter sido de outro modo. Não te disse as palavras que
esperaste; e havia o mar, com as suas ondas, nessa tarde
em que me puxaste para longe da cidade, como se
a noite não nos obrigasse a voltar, quando o horizonte
se apagou à nossa frente. Depois disso, nenhuma
pergunta tem resposta. O que é absurdo há-de continuar
absurdo, como o horizonte não se voltou a abrir,
trazendo de volta os teus olhos que me pediam que
os olhasse, até que a noite me impedisse de o fazer.
 
NUNO JÚDICE, O Estado dos Campos (2003)


03 abril 2014

HAH!

AMEDEO MODIGLIANI (1884-1920), Nu Deitado

Há a mulher que me ama e eu não amo.
Há as mulheres que me acamam e eu acamo.
Há a mulher que eu amo e não me ama nem acama.

Ah essa mulher!

Tu eras mais feliz, Apollinaire:
montado num obus, voavas à mulher.
Tu foste mais feliz, meu artilheiro:
tiveste amor e guerra.

Eu andei pra marinheiro,
mas pus óculos e fiquei em terra.

Upa garupa na mulher que me acama,
que a outra é contigo, coração que bem queres
sofrer pelas mulheres...

ALEXANDRE O´NEILL, De ombro na ombreira (1969)

 ALEXANDRE O´NEILL (1924-1986)
GUILLAUME APOLLINAIRE (1880-1918)

02 abril 2014

MEMORIAL DO CONVENTO

Dando início a um novo ciclo, desta feita conduzidos, não já pela peregrinação de Oríon no firmamento, mas por outros astros, tendo esta leitura em comum com a anterior o facto de nos remeter para dimensões que vão para além da História. Dimensões que, na realidade, vão para além de nós mesmos, e assim nos ampliam, ao infinito do possível essencial, da vida e da morte. 

Ficamos com Saramago, para já:

“A minha ideia, quando concebi o Memorial do Convento estava limitada à construção do convento e é depois que verifico que nessa mesma época um padre tinha a ideia de fazer uma máquina de voar. Então este facto modificou-o completamente… A partir daí, o romance tinha que ser diferente, completamente diferente. E toda a oposição entre o que cai e o que sobe, entre o pesado e o leve, o que quer voar e o que impede que voe; toda essa relação entre liberdade e autoridade, entre invenção e convenção, ganha uma dimensão que antes não estava nos meus propósitos e que modifica completamente o romance. Com essa figura que está entre os dois mundos, o que significa que está num terceiro, o mundo mais próximo da natureza, isto é, do ser natural, se é que existe. Acho que não existe. Todos somos seres culturais, por um olhar, por um entendimento, conseguimos ir mais fundo que a superfície das coisas. E isso, esse aspecto complexo, é o que impede que o Memorial seja lido em linha recta, porque exige constantemente outras leituras e outras interpretações.”

José Saramago

01 abril 2014

NO DIA DAS MENTIRAS

“Abomino a mentira, porque é uma inexactidão.” – Ricardo Reis, segundo Álvaro de Campos.

Ricardo Reis, pelo traço de Almada
 
Há frases repentinas, profundas porque vêm do profundo, que definem um homem, ou, antes, com que um homem se define, sem definição. Não me esquece aquela em que Ricardo Reis uma vez se me definiu. Falava-se de mentir, e ele disse: « Abomino a mentira, porque é uma inexactidão.» Todo o Ricardo Reis – passado, presente e futuro – está nisto.

-- ÁLVARO DE CAMPOS, “Notas para a recordação do meu mestre Caeiro”, publicado no nº 30, de Janeiro-Fevereiro de 1931, da revista presença. Também em FERNANDO PESSOA, Textos de Crítica e de Intervenção, Lisboa, Ática, 1980, p. 271.
 

30 março 2014

ORÍON E A SUA ESTRELA BETELGEUSE, “PORTAL DA CASA DE DEUS”


Avistadas ontem, por uns quantos de coração limpo, no regresso de Miranda do Corvo (1º aniversário do Clube de Leitura local).
“Jacob deixou Bersabeia e partiu para Harã. Chegou a certo lugar e resolveu passar ali a noite, porque o Sol já se havia posto. Jacob pegou numa pedra do lugar, colocou-a sob a cabeça, e adormeceu. Teve então um sonho: Uma escada erguia-se da Terra e chegava até ao Céu, e os anjos de Deus subiam e desciam por ela.”
Génesis, 28:10-12
 
“Não asseguro que avistassem no firmamento as sete estrelas de Oríon, conhecendo-se como raro cintilam elas diante dos que vagueiam no negrume do próprio coração.”
 
MÁRIO CLÁUDIO, Oríon
 

 

 
MIRANDA DO CORVO, distrito de Coimbra, região Centro, sub-região Pinhal Interior Norte. Foral de 1136, dado por D. Afonso Henriques, ainda príncipe do Condado Portucalense. Orago: São Salvador.



 


28 março 2014

D. SIMOA GODINHO, A DAMA NEGRA DA ILHA DOS ESCRAVOS






Introdução à apresentação de Fernando Lopes, na sessão de hoje da Comunidade de Leitores de SDR, a propósito de Oríon, um livro que abre muitas janelas, como já se percebeu. Também esta. Aproveitemos.
Autoria de imagens e conteúdos: Fernando Lopes 


"ORíON", DE MÁRIO CLÁUDIO, E ALGUNS CASAMENTOS REAIS

 D. Leonor de Áustria
D. Catarina de Áustria
 
“Corria o ano da Graça de mil quinhentos e vinte e nove, sendo Rei de Portugal D. João III, aquele infeliz soberano que vira a noiva dilecta consorciada com o que o gerara.”
 
MÁRIO CLAÚDIO, Oríon , 1ª edição, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2003, p. 102.
 
D. Leonor de Áustria (1498-1558), irmã de Carlos V, foi prometida desde muito cedo ao infante D. João, herdeiro de D. Manuel I.
Porém, tendo enviuvado pela segunda vez, tomou-a para si o rei Venturoso (casamento em 1518). Diz-se que pretendeu reforçar os laços da coroa portuguesa com a poderosa casa de Áustria. A sua filha D. Isabel foi prometida a Carlos V e ao que viria a ser D. João III foi-lhe dada, em substituição daquela que o pai lhe arrebatara, D. Catarina de Áustria (1507-1578), outra irmã do imperador. A acreditar nos retratos, pode ver-se quem ficou a ganhar.


27 março 2014

O "TCHILOLI" DE SÃO TOMÉ (3)


Quem ler a Tragédia do Marquez de Mantua, de Baltasar Dias (não é muito extensa, cerca de quarenta páginas em versos de sete sílabas), percebe que a questão que nela se coloca é a da relação entre poder e justiça. O poder para ser forte terá de ser justo.
O filho do imperador Carlos Magno, D. Carloto, comete um crime, um homicídio, na pessoa do sobrinho do Marquez de Mantua, de nome Valdovinos, com o intuito de se apoderar da viúva, Sybilla.
Provado o crime, devia o imperador esquecer os laços de família e condenar o filho ou, ao contrário, fazer tábua rasa das queixas dos ofendidos e proteger o seu sucessor? Como grande soberano, exerceu cegamente a justiça, e D. Carloto foi degolado.
O que é curioso é que esta peça, levada por senhores de engenho e  dignitários para as ilhas equatoriais, foi sendo subvertida, ao longo dos tempos, pelos naturais que a representavam. A introdução de bastantes passagens apócrifas, subordinadas ao sentimento local, distanciam-na hoje do texto original do poeta madeirense.
A questão que se colocava ao povo santomense antes da independência era a iniquidade do poder colonial, pelo que representar uma peça cujo tema central era o exercício de um poder não iníquo constituía, em certo sentido, uma forma de resistência. Ainda que depois da independência tenha o Tchiloli evoluído, acentuando-se os signos e referências dos valores africanos, desde sempre que só parcialmente  foi  tributário da cultura lusa e europeia. O colonialismo não percebeu isso, parece.
 
Nota: Sobre o nome “Tchiloli”, diz Christian Valbert no seu estudo: “On ne connait pas l’ origine de ce mot”.
 

O "TCHILOLI" DE SÃO TOMÉ (2)


O "TCHILOLI" DE SÃO TOMÉ (1)

Sobre o "Tchiloli" de São Tomé (referido no post anterior da nossa camarada Amélia), veja, quem estiver interessado, este texto: Le Tchiloli de São Tomé. Un exemple de subversion culturelle, de Christian Valbert. Faz parte das actas do colóquio sobre Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, Paris, 28 de Novembro a 1 de Dezembro de 1984. Edição do Centro Cultural Português de Paris da Fundação Calouste Gulbenkian.

BALTAZAR DIAS PELAS ILHAS





Este livro de Mário Cláudio, Oríon, é um autêntico cesto de cerejas. Tendo surgido a ideia de o ler a propósito de D. Simoa Godinho, dama a vários títulos enigmática, sobre a qual contamos ficar a saber algumas coisas interessantes, através do Fernando Lopes, da Associação Cultural Espaço e Memória, revelou-se Oríon motivo de muitas e variadas pesquisas extra, sobretudo para aqueles que dispõem de tempo e saber para as prosseguirem.
A propósito de Baltazar Dias, o poeta cego madeirense do século XVI, através da ficção que Mário Cláudio não hesita em tecer à volta de personagem com o mesmo nome, jogral da donatária da Ilha do Príncipe, aproveitamos para evocar a cultura popular, que, pela tradição, transporta até hoje elementos vivos daquela literatura de cordel.
Na exposição (CCB) África- Visões do Gabinete de Urbanização Colonial (1944-1974), encontrámos este testemunho, fotografia tirada nos anos 40 ou 50, da representação anual da Tragédia do Marquês de Mântua... e que faz hoje  parte do património cultural de S. Tomé e Príncipe.

http://stomepatrimonio.blogspot.pt/2008/03/tchiloli.html

26 março 2014

BALTASAR DIAS E O ABECEDÁRIO DA MULHER VIRTUOSA: D de Devota à Virgem; H de Humilde a seu marido; Z de Zelosa da honra

BALTASAR DIAS, poeta cego, oriundo da ilha da Madeira, viveu entre os últimos anos do reinado de D. Manuel e os primeiros do de D. Sebastião, cerca de 1515 a 1560. D. João III outorgou-lhe o privilégio da impressão e venda das folhas volantes com que ganhava a vida, estabelecendo penas para os usurpadores da sua propriedade intelectual.
Mário Cláudio, no romance Oríon, apresenta-o em São Tomé, deslumbrando  colonos e africanos com a representação de autos e tragédias, nomeadamente a Tragédia do Marquez de Mantua e do Emperador Carlos Magno. Ficção pura a passagem do madeirense pelas ilhas do Equador, o que estes romancistas inventam!
A obra de Baltasar Dias divide-se em autos de devoção, tragédia, romances e trovas. Segundo alguns autores, é um continuador da escola de Gil Vicente, um homem do Renascimento com uma concepção ainda medieval da arte.
Tem duas obras satíricas, Malícia das Mulheres e Conselhos para Bem Cazar. É-lhe atribuída uma carta escrita a uma senhora que queria aprender a ler. Reza assim:
 
«Señora:
«Agora me derão hum recado da parte de V.M. em que me pedia lhe mandasse hum ABC, feito de minha mão, que queria aprender, porq se acha triste, quando vê senhoras de sua qualidade, q na Igreja rezão por livros & ella não. (…) V.M. deve (…) deixar o desejo de saber ler, pois já he cazada, & passa de vinte annos de idade. Porem se este conselho não lhe parece bom ou ainda que o he, se não satisfaz por obedecer a seu rogo , fazendo o que me pede, lhe mando aqui com esta hum ABC, que V.M. aprenda de cór, & sabido levemente com ajuda de Deos, aprenderá o mais que lhe for necessário.
«O qual, he que o A quer dizer que seja Amiga de sua caza; & o B, Bem quista da vizinhança; & o C, Caridosa com os pobres; & o D, Devota da Virgem: & o E, Entendida em seu ofício; & o F, Firme na fé; & o G, Guardadeira da fazenda; & o H, Humilde a seu marido; & o I, Inimiga de mixiricos; & o L, Leal; & o M, Mança; & o N, Nobre; & o O, Onesta; & o P, Prudente; & o Q, Quieta; & o R, Regrada; & o S, Sezuda; & o T, Trabalhadora; & o V, Virtuosa; & o X, Xpâa [sic]; & o Z, Zelosa da honra.
«E quando tiver tudo isto anexo a si, que lhe fiquem proprios, crea que sabe mais letras que todos os philosophos. E porque confio em V.M. que os experimentará os achará certo, nam me alargo; mais rogo a nosso Senhor a tenha de sua mão, & a mim me dê graça com que o sirva até o fim.»
 
Obra consultada: BALTASAR DIAS – Autos, Romances e Trovas, Lisboa, IN-CM, 1985

À VOLTA DE "ORÍON"

Parte da oração de Valdovinos, sobrinho do Marquez de Mantua, antes de expirar -- uma pérola:

Salve, Senhora benigna,
madre de misericórdia,
paz da nossa grã discórdia,
dos pecadores mezinha,
vita dulce e concórdia,
spes nostra, a ti invocamos,
salva-nos de escuras trevas,
a ti, Senhora, chamamos
desterrados filhos de Eva,
a ti, Virgem, suspiramos,
a ti gemendo e chorando
em aqueste lacrimoso
vale sem nenhum repouso,
sempre, Virge, a ti chamamos
que és nosso prazer e gozo.

BALTASAR DIAS - Autos, Romances e Trovas, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985, p. 324.

25 março 2014

"CONSOLAÇÃO ÀS TRIBULAÇÕES DE ISRAEL"


27. Portugal Ano 5253.
Quando mandaram os mininos
aos lagartos.

DEPOIS desta assi temerosa fortuna e tempestade,
não tardou outra sobre mi muito maior, porque
desejando este rei achar alg~ua razoada ocasião de
avexar-me, mandou saber se havia entrado mais
gente no reino que aquelas das seis centas casas
como fora o acordo, e como quer que a pressa
com que de Castela saíam estes corridos filhos
meus não lhe deu lugar a entrar por conto nem
esperar algum a ser o derradeiro, acharam-se mor
número; todos estes que sobejaram disse El-rei
que lhe ficavam cativos e escravos seus, porque
como a taes os podesse magoar a sua vontade, e
esecutar neles sua má tenção, e não bastando
quererem-se resgatar pelo preço que os mais
haviam entrado nem per outro algum, havendo-
-se por minha desventura descuberto naquele
tempo a ilha de São Tomé, cujos moradores eram
lagartos, serpes e outras muito peçonhentas bichas
e deserta de criaturas racionaes, onde desterravam
os malfeitores que à morte eram já obrigados per
justiça, em sua companhia quis também que entrassem
as inocentes criaturas de todos estes judeos,
cujos paes parece que ante o juizo divino eram
condenados.
Chegada esta infelice e miserável hora em que se
havia ~ua tão fera crueldade de esecutar, vereis
ensanguentar os rostos com as mãos as coitadas
madres que dos braços lhe tiravam seus filhos de
até tres anos, depenar as barbas os honrados velhos
porque lhe arrebatavam suas entranhas de ante os
olhos, e as mal afortunadas criaturas levantar seus
vivos gritos té o céo, vendo-se afastar tão despiadosamente
de seus amados padres em idade
assi tenra e lastimosa. Lançavam-se aos pés de El-
-rei alg~uas, cramando que ao menos as deixassem
ir acompanhar seus filhos, e nem inda a isto sua
piadade se inclinava. Entre estas houve ~ua mai que,
considerada a horrenda e nova crueza sem mestura
de alg~ua misericórdia a seus cramores, arrebatando
seu filho nos braços da alta nao, dentro no tempestuoso
mar se lançou e fundio com a sua única
criatura abraçada.
(…)

SAMUEL USQUE, Consolação às Tribulações de Israel, edição de Ferrara, 1553.

24 março 2014

CRÓNICA DE D. JOÃO II

CAPÍTULO LXVIII
 
Ida dos moços que foram judeus à ilha de São Tomé
 
E no ano de mil quatrocentos e noventa e três, em Torres Vedras, deu el-rei a Álvaro de Caminha a capitania da ilha de São Tomé de juro e herdade; e porque aos judeus castelhanos que em seus reinos dentro do termo limitado não saíram mandou tomar por cativos, segundo a condição da entrada, todos os meninos e moços e moças pequenas que tinham, depois de os mandar tornar todos cristãos, os enviou à dita ilha com o dito Álvaro de Caminha, por tal que sendo apartados terem razão de serem melhores cristãos e haver por isso causa de a ilha ser melhor povoada, como por este respeito o foi em grande crescimento.



23 março 2014

A Senhora de Rocamador

Notre Dame de Rocamadour ou a Virgem Negra. Pode visitar-se no Santuário de Rocamadour na Vallée de la Dordogne, em terras gaulesas.

Isto a propósito de Benjamim

“ …E precisavam os francos que tão luminoso se estendia o arrebol que rodeava o rapaz que os tolheu um misto de respeito e de pânico, igual ao que costumavam experimentar na sua nação em face do rosto sombrio da Senhora de Rocamador…”

In Oríon  de Mário Cláudio

22 março 2014

Ai os pés ...

A rainha de Sabá perante Salomão - Johann Friedrich August Tischbein (1750-1812, Holanda)

"... Se na donzela não fixava eu os olhos, atentava no rasto dos seus pés, marca tão perfeita, tão perfeita que nem a Rainha de Sabá na areia do deserto, e a caminho do palácio de Salomão ..."

Assim fala Abel, a apresentar-nos Perpétua...

in "Oríon" de Mário Cláudio


21 março 2014

A propósito da Primavera, da Poesia e de Oríon

"Alegoria da Primavera", Sandro Boticelli
A primeira namorada, tão alta
que o beijo não alcançava,
o pescoço não alcançava.
nem mesmo a voz a alcançava.
Eram quilómetros de silêncio.

Luzia na janela do sobradão.
"Orion", Carlos Drummond de Andrade

DIA DA POESIA É QUANDO UM HOMEM QUISER

GAIO VALÉRIO CATULO (Verona, 84 a. C. – Roma, 54 a. C.)
Vivamos, minha Lésbia, e nos amemos.
Sem que o que digam murmurantes velhos
Importe para nós mais que uma palha.
Podem morrer e renascer os sóis.
A nós, quando se apaga a breve luz,
Noite é perpétua que dormir havemos.
Oh dá-me beijos mil, depois um cento,
Depois mais outros mil, e um outro cento,
Depois ainda outros mil, e mais um cento.
Depois, quando os milhares forem já muitos,
Erraremos a conta, a não saibamos,
Para que a inveja não nos leve a mal,
Sabendo quanto foi de beijos dado.

Versão de JORGE DE SENA, obtida aqui: http://viciodapoesia.com/2013/04/03/beijos-mil-o-poema-v-de-catulo/

20 março 2014

ADOLPHE-WILLIAM BOUGUEREAU (1825-1905), Jovem defendendo-se de Cupido
 
NAS ERVAS
 
Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura,
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso,
descer aos flancos, enterrar
 
os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta
 
aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão
 
porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
de fogo descer à neve,
 
abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho –
a glande leve.
 
EUGÉNIO DE ANDRADE, Variações Sobre um Corpo, antologia de poesia erótica contemporânea, Porto, Editorial Inova, pp. 37 e 38.


19 março 2014

"HISTÓRIAS DE POUCAS PALAVRAS"

Tenho andado em viagens à volta do meu quarto: limpando o pó, arredando móveis, arrumando livros. E é neste frenético sair de mim que topo com o livrinho da nossa amiga Cristina Leimart. Estava entalado entre o Moby Dick, de Melville, e o Guide des Caresses, de um tal Pierre Valinieff, texto especioso e raro que não recomendo a pessoas decentes.
Como bem notam, o opúsculo tem um cordel, mas não é literatura de cordel. As histórias de Cristina Leimart são simples e bonitas como as flores do bosque. Do bosque da ficção, diria Umberto Eco.
A dedicatória, de 2009, está escrita a tinta roxa. Interrogo-me sobre o simbolismo do colorido e sou levado a pensar que não deve augurar nada de bom. Para mim, claro, não para ela.
--- CRISTINA LEIMART, Histórias de Poucas Palavras, Lisboa, Apenas Livros, 2009.

A BELEZA, SIMPLESMENTE

MUSEU DO LOUVRE, 02/2014

Mais as imagens que as palavras, apenas com duas notas: uma, para a emoção de (re)ver Miguel Ângelo nas esculturas inacabadas dos "escravos", revelando, a propósito, toda a pujança da beleza (masculina, tal como ele próprio preferia); a outra observação refere-se a Anne-Louis Girodet de Roussy-Trioson: o nome sugere que se poderia tratar de uma pintora... puro engano. Os alvores do romantismo despontam pelas mãos e mentes masculinas...