01 fevereiro 2016

"Esteiros" de Soeiro Pereira Gomes - 26 Fevereiro às 20h30*



"Gineto, Gaitinhas, Malesso, Maquineta, tantos outros, são os operários-meninos dos telhais à beira dos esteiros do Tejo. Sujeitos à dureza do trabalho quando o conseguem arranjar, vadiando ou roubando para comer durante o resto do tempo, apesar de tudo - sonham." 

* Se é na Biblioteca de SDR ou não, logo se vê. O que sabemos é que lá estaremos, seja onde for!

30 janeiro 2016

GAIBÉUS E GAIBÉUAS

A primeira reunião da nossa Comunidade de Leitores teve lugar na biblioteca a 23 de Fevereiro de 2007. Quase há nove anos! E sempre foi assim, em cada última sexta-feira do mês, salvo pontuais alterações determinadas por feriados e pontes. 
Ontem, encontrámo-nos no restaurante “Flor do Bairro” da mui nobre freguesia de São Domingos de Rana. Assim teve de ser. Falámos de Gaibéus, de Alves Redol e do Neo-Realismo (Neorrealismo, segundo o Novo Acordo Ortográfico).
«Não há livro de instruções para salvar a vida; só a Literatura se aproxima desse imenso livro.» – disse Lídia Jorge, em 2014, no festival “Escritaria” de Penafiel. É por isso que não desistimos.  

21 janeiro 2016

IMPUREZA

Quando uma mulher tiver a sua menstruação, ficará impura durante sete dias. Quem tocar nela ficará impuro até à tarde. O lugar em que ela se deitar ou sentar, enquanto está impura, ficará impuro.
 
Levítico, 15,19 -20
 
«Aquele vai deitando o olho às curvas tostadas das pernas das mulheres, descompostas pelo poder dos troncos no lameiro.
Safo de fadigas, belisca-lhes com a vista o capitel das pernas. A saia de baixo de uma delas está rasgada e tem manchas de sangueira pisada.
O capataz afasta a vista e sente ganas de a mandar desferrar.
            – Ora o raio!...
Dá a volta na maracha para se afastar dela, mas o rancho descreve agora uma linha sinuosa, a procurar jeito ao trabalho, e a saia rasgada fica de novo à sua frente.
Já lhe parece que todas as saias de mulheres se rasgaram e têm manchas de sangueira pisada.»
 
Gaibéus, capitulo “Arroz à foice”

19 janeiro 2016

O CULTIVO DO ARROZ

Ao lermos Gaibéus, de Alves Redol, talvez não seja tempo perdido conhecermos o trabalhoso processo do cultivo do arroz. Embora em registo actual, aqui fica este link da Junta de Freguesia de Borda do Campo, concelho de Figueira da Foz. Não é Ribatejo, mas para o efeito serve.
 

18 janeiro 2016

O odor moribundo das espigas ...

 
(imagens da net)

“…Morre no ar o odor das espigas loiras cortadas e das flores crescidas à babugem. Fica o cheiro acre dos corpos molhados pela rudeza da labuta. Como, por toda a lezíria, se agigantam os alugados que se curvam a brandir as foices. Tudo se amesquinha ali junto deles, que têm necessidades de mendigos…”

in "Gaibéus" de Alves Redol

08 janeiro 2016

"Gaibéus" de Alves Redol, 29 de Janeiro, 20h30


Antes do início

“Êste romance não pretende ficar na literatura
como obra de arte.
Quer ser, antes de tudo, um documentário
humano fixado no Ribatejo.
Depois disso, será o que os outros entenderem.”

Depois do fim

"Erratas

As que a revisão deixou passar, o leitor as corrigirá"

Primeiro livro da colecção "Livros Proibidos" do Público

04 janeiro 2016

AINDA A PROPÓSITO DE "A RELÍQUIA"






Enquanto procurava, nas Obras Completas de Ferreira de Castro o volume que contém as novelas A Missão e O Senhor dos Navegantes, deparou-se-me um outro volume, designado Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, que recolhe relatos de viagens, incluindo Egito e Palestina. Na página em que abri o livro, li: "Aproximamo-nos de Jerusalém. Aumentam, nas encostas, os grupos de oliveiras; a paisagem, porém, é cada vez mais árida, mais parda, mais triste." Segue-se a descrição da cidade, primeiro vista de longe, do Monte das Oliveiras, "é um aglomerado negroso, lá ao fundo, com a sua história, a sua lenda, o seu drama humano de ontem, de hoje e de sempre". Depois, "desde as suas velhas muralhas, rasgadas, aqui e além, por imponentes portas, às ruas estreitas e sinuosas, tudo é obscuro, requeimado, ora castanho, ora pardo, ora pardo, ora castanho, ora negro...". A pouca animação de cor é dada, segundo o autor, apenas pelo vestuário dos muçulmanos e turistas que povoam e circulam incessantemente pelas vielas estreitas, encimadas de arcos, onde os carros não cabem, e pelos produtos e artefatos das lojas. Alonga-se um pouco mais F.C. na descrição da cidade, antes de falar do Santo Sepulcro, que "é, naturalmente, o monumento que maior curiosidade levanta no forasteiro, crente ou céptico seja ele." Reconhecemos, então, passo a passo, na descrição, o templo que é composto de múltiplos espaços, articulados uns e completamente desarticulados outros, mas que pulula de vida, entre o fluxo de curiosos, a chusma de peregrinos de todas as nações, que circulam entre o "monte" da crucificação e a capela central do Sepulcro, "sob a grande cúpula". Diz o autor que "não cabem no recinto tumular mais de três pessoas...", o que provoca, tal como hoje, as maiores confusões.
Pensei então: aqui está talvez o tipo de descrição que o Eça não queria fazer, pelo menos na obra que pretendia produzir como uma espécie de homenagem à forte impressão causada por Jerusalém e também pelo Cairo, tal como ele indica ao redator do Diário de Notícias, na resposta ao convite para descrever os eventos da inauguração do Canal: "as festas de Suez estão para mim entre duas recordações--o Cairo e Jerusalém: estão abafadas, escurecidas por estas duas luminosas e poderosas impressões [...] ". Evidentemente, também nos podemos questionar se era A Relíquia a projetada obra... Continuando aquela missiva, diz Eça: "Talvez em breve diga o que é o Cairo e o que é Jerusalém na sua crua e positiva realidade, se Deus consentir que eu escreva o que vi na terra dos seus profetas". As crónicas solicitadas foram publicadas no "Folhetim" das edições do DN de 18 a 21 de janeiro de 1870, como "narração trivial, o relatório chato das festas de Port Said, Ismailia e Suez".
Voltando a Jerusalém e ao texto de F.C., temos uma outra descrição, que me veio avivar a memória e pensar que, naquelas paragens, de forma especial, o que conta sobretudo é a surpresa causada pelo insólito de muitas situações, o inesperado pouco convencional, o que não encaixa em modelos, seja de cidade em si, seja de costumes ou atitudes canónicas. A ideia também de que, apesar das mudanças, alguma coisa permanece sempre, algo de imperscrutável, de indizível. 
O caso particular, referido por F.C. é, já no Monte das Oliveiras, o que na época era designado " Túmulo da Virgem" e de que me recordo como a Igreja da Dormição da Virgem, nome que pode não corresponder à realidade. Foi, para mim, um daqueles sítios inesquecíveis, e deixo-vos aqui passos da descrição feita pelo autor de Pequenos Mundos, como legenda livre das fracas fotografias que tirei na altura e registam a mesma perplexidade, apesar das pequenas diferenças.
"Desce-se e encontra-se, no extremo de um campo de oliveiras, [...] uma velha fachada, com porta em arco. Está aberta sobre negridão interior e exala um cheiro de cera e bafio.[...] A entrada dá para um pequeno patamar e logo começam os degraus, muitos degraus, dezenas de degraus que mergulham na escuridão. [...] cada vez o silêncio é maior e a humidade gela mais.[..] Voltamo-nos e vemos , lá em cima, muito alto, a porta por onde passámos, recortada agora pela luz exterior. [...] Por fim, a escada termina e encontramo-nos numa espécie de cripta lajeada [...]. Ali ardem algumas lâmpadas votivas. Mas a escuridade pode mais do que elas, pois mal se lobrigam os contornos da catacumba. Subitamente, das trevas surge uma figura. É um padre grego. A sua inesperada aparição neste ambiente sepulcral, dá-nos um calafrio; depois, ele conduz-nos a um velho sarcófago. Túmulo de Maria, diz a tradição ser".

Crónicas de Eça de Queirós em forma de carta, publicadas no Diário de Notícias, descrevendo as festas de inauguração do Canal do Suez, que se tinham realizado em 17 de Novembro de 1869 [online] Disponível em  http://www.arqnet.pt/portal/pessoais/eca_suez.html

CASTRO, Ferreira de-  Pequenos Mundos e Velhas Civilizações. Lisboa: Círculo de Leitores, 1986

31 dezembro 2015

Doze meses, doze livros e muitos encontros...

Últimos dias de Dezembro. Chegámos ao fim de mais um ano de leituras, com direito a jantar festivo e uma sessão que vai ficar como uma das nossas relíquias intemporais. Apesar de duas ou três ausências, a quem sentimos a falta, juntar 34 pessoas em torno de um romance do Eça, tão especial como é a A Relíquia, não pode passar sem registo. Os testemunhos de alguns e a sensibilidade de outros, deixaram-nos a todos mais ricos. Afinal é sempre bom quando chegamos "ao final do dia" e aprendemos algo de novo.


Mas não foi só em Dezembro que a magia aconteceu. O ano foi todo ele cheio de momento altos, começando logo a aquecer com o Fahrenheit 451, que para além do livro nos fez também rever o filme (abençoado YT), que nos levou a um passado recente de boas memórias para muitos. Não é um belo paradoxo, amantes de livros a ler algo sobre a queima dos mesmos? Para não perder o ritmo, com Fevereiro chegou Samarcanda e mais uma vez a magia do Oriente invadiu-nos os dias e os sonhos. Quem é que não gostaria de viajar pela rota da seda e pernoitar um dia num Caravançarai? 
Março trouxe-nos o bom humor e as aventuras de Varguitas e do seu folhetinesco A Tia Júlia e o Escrevedor. Quem não se lembra de Pedro Camacho, a sua chávena de chá e as suas excêntricas radio-novelas? 

Em Abril, mês de liberdade, a revolução soou bem alto com Franceses, Marinheiros e Republicanos. A presença da simpática escritora Filomena Marona Beja abrilhantou uma sessão, em que os cravos vermelhos tiveram lugar de destaque. Neste mês houve ainda tempo para alguns dos nossos rumarem até Vila Franca de Xira e entre sável frito, concertos e literatura houve também sonhos para o futuro. 


O mês de Maio, para além da Primavera trouxe também A Ronda da Noite, a escrita inigualável da Agustina e a pintura magistral de Rembrandt. Alguém ainda tentou trazer o o capitão Frans Banning Cocq e o tenente Willem van Ruytenburg à nossa sessão de leitura, mas eles não estavam para aí virados. Mais perderam! 


O Verão chegou com o mês de Junho e a Comunidade estendeu-se para fora de portas. Antes da análise de O Belo Adormecido, rumámos à outra margem e passámos um dia memorável por terras de Almada. O Parque da Paz deu-nos o ambiente perfeito para mais umas aventuras do nosso D. Quixote e Sancho Pança. Julho e Agosto já com sabor a férias, levaram alguns até Tomar e à belíssima festa dos Tabuleiros. As leituras trouxeram As Ondas e As Horas com a inquietude de Virgínia sempre presente. 


No doce Setembro viajámos pelo Palácio da Lua, que nos levou ainda a Tintin, a Júlio Verne e a Cyrano de Bergerac entre muitas outras associações. As Pupilas do Senhor Reitor, animaram Outubro com a sua ingenuidade e ruralidade, mas deixaram também no ar a seguinte pergunta: qual a ligação entre o Che Guevara, Demócrito e Heraclito? Com o ano a caminhar a passos largos para o fim, A Noite e a Madrugada estenderam-se pelo mês de Novembro e com elas percorremos os caminhos do contrabando. Afinal não somos nós próprios contrabandistas de leituras? 

Muitas outras coisas aconteceram nos intermeios tais como convívios de aniversário, teatro, passeios, visita aos moinhos de maré de Corroios e com um destaque muito especial, o apadrinhamento de mais uma Comunidade de Leitores, desta vez na Biblioteca Municipal José Saramago no Feijó, dinamizada pelo nosso Davide Freitas.


E assim entre as histórias da escrita, a amizade, os encontros e os momentos especiais deixamos este ano Velho e acolhemos o Novo, sempre em torno dos livros e do sonho que proporcionam ...

30 dezembro 2015

Plano de Leituras 2016

Ilustração de Lorenzo Mattotti

1º Trimestre – Neo-realismo na Literatura Portuguesa 

29 Janeiro, “Gaibéus”, de Alves Redol 
26 Fevereiro, “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes 
24 Março, “Casa na Duna”, de Carlos de Oliveira 

2º Trimestre – Literatura de Expressão Anglófona 

29 Abril, “O Adeus às Armas”, de Ernest Hemingway 
27 Maio, “Bonequinha de Luxo”, de Truman Capote 
24 Junho, “O Cavaleiro Verde”, de Iris Murdoch 

3º Trimestre – Literatura Russa

29 Julho, “Lolita”, de Vladimir Nabokov 
26 Agosto, “O Mestre e Margarita”, de Mikhail Bulgakov 
30 Setembro, “A Morte de Ivan Ilitch”, de Leon Tolstoi 

4º Trimestre – Literatura Brasileira

28 Outubro, “Budapeste”, de Chico Buarque 
25 Novembro, “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos 
30 Dezembro, “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, de Clarice Lispector 

22 dezembro 2015

E BELÉM TÃO PRÓXIMO...

A minha vez de desejar Boas Festas a todos, vai então com mais um desafio: Belém, já ali...


Nicolau de Canterene, Porta Axial, Mosteiro dos Jerónimos, sec XVI, https://pt.wikipedia.org/wiki/Mosteiro_dos_Jer%C3%B3nimos

18 dezembro 2015

25 novembro 2015

Os caminhos do contrabando


Rio Erges - Foto daqui
A abrir o Capítulo Segundo

"Raia de Espanha. Serranias azuis e violentas que se amaciam subitamente em olivais, campinas de trigo, planaltos de terra vermelha. Caminhos de  estevas, de fragas, onde o perigo sai dos barrancos e dos muros ou caminhos melancolicamente guarnecidos de plátanos, abrindo clareiras na mata de pinheiros mansos, de um verde calmo e opulento onde se escondem os celeiros das companhias agrícolas. Mas antes de os ganhões desempregados e os contrabandistas de profissão chegarem a essas terras têm de atravessar os baldios do seu país. Para cá das faldas desabrigadas, com o rio Erges, esmagado entre muralhas de granito, o casario nasce dos moinhos afogados nas enxurradas, sobe penosamente as margens das ribeiras, agacha-se à sombra das rochas e espraia-se  por fim  em aldeolas mesquinhas. Depois vem a planície, triste como um descampado, devassada pelo vento de Espanha, que satura o ar de poeira e solidão. Planície nua, crestada pelo sol que amadura as infindáveis searas de trigo..."

In "A Noite e a Madrugada" de Fernando Namora


18 novembro 2015

NA OUTRA BANDA

COMUNIDADE DE LEITORES DA BIBLIOTECA JOSÉ SARAMAGO, FEIJÓ-ALMADA. Este sábado, 21 de Novembro, às 15 horas. Animador: Davide Freitas.

09 novembro 2015

"A Noite e a Madrugada" de Fernando Namora - 27 Novembro, 20h30


Não a abrir, mas lá mais para a frente do primeiro capítulo:

"... Quando as galinhas começavam a postura, o mudo levantava-se muito cedo, com as cautelas e o alvoroço de um ladrão. Safava os ovos do galinheiro, escondendo-os nas abas enfunadas da blusa, e negociava-os com as criadas das casas ricas. Elas, apesar de enjoadas com o cheiro daquele corpo imundo, tinham de lhe apoiar as mãos sobre os ombros, apaziguando o terror do mendigo de que alguém o denunciasse ao sobrinho. Só deixava de fazer sinais de recato, quando sentia o apoio dessas mãos;..."

in "A Noite e a Madrugada" de Fernando Namora - Capítulo I

28 outubro 2015

JÚLIO DINIS, TRIPEIRO

= Porto, monumento a Júlio Dinis, foto de 6-9-2015 =
 
«Queria-se ele [João Semana] com a carne bem assada e o arroz no forno, açafroado - esses dois importantes elementos de gozo para os paladares portugueses; queria-se com o prato clássico da orelheira de porco e até com aquele outro prato, tão castiço como qualquer período de Fr. Luís de Sousa - prato que valeu aos Portuenses um epíteto gloriosamente burlesco;» --- As Pupilas do Senhor Reitor, capítulo 18.

22 outubro 2015

A BIBLIOTECA

A biblioteca – disse Borges em "A Biblioteca de Babel" –, sobreviverá à extinção da espécie humana. Estive ontem na Biblioteca Municipal dos Coruchéus, em Lisboa, e publiquei estas fotos no feicebuque, a execrável rede social niveladora de classes e estados de alma. Uma nossa amiga comentou que os Coruchéus é uma biblioteca com muitas actividades. Estou inteiramente de acordo, eu próprio tive a experiência disso.

16 outubro 2015

DEMÓCRITO E HERACLITO

Sobre o Demócrito que surge na primeira página das “Pupilas” – já aqui tratado por vagos intelectuais e conspícuas apreciadoras de arte – tenho nesse livrinho aí em cima um texto muito interessante: “Lágrimas de Heraclito defendidas em Roma pelo Padre António Vieira contra o riso de Demócrito (1674)”. Um cheirinho: «E se o fim destes dous filósofos (como verdadeiramente era) foi manifestar ao mundo o desconcerto do seu estado e persuadir aos homens o erro dos seus juízos, a desordem dos seus desejos e a vaidade das suas fadigas, também para este fim tinha muito maior razão Heraclito de chorar, que Demócrito de rir.» E outro: «é o homem risível, mas nascido para chorar; porque se a primeira propriedade do racional é o risível, o exercício próprio do mesmo racional e o uso da razão é o pranto.» --- Agora sim, acho que este blogue está a subir de nível.

12 outubro 2015

O Pároco da Aldeia (saloia)


‘É-lé Graviel’, disse este [o sacristão], por fim, com um sorriso. ‘Você hoje campou. O patrão é festeiro; fica o moinho a dormir! Hem? Galdere; não é assim? Mas c’os diabos! Não sei como não vieste cá dormir. Botas os olhos acolá para o arraial. Vês? Duas bolacheiras e a Tia Sezila com queijadas’” (13).
O Pároco da Aldeia” é um conto que terá sido escrito em 1844, reportando-se a narrativa a 1825, uma vez que é a data que figura no frontispício. Já José Leite de Vasconcellos o toma como retrato dos saloios (14), e tornou-se numa referência importante para a caracterização destes (15).
Poder-se-ia pensar que Alexandre Herculano era, ele próprio, de origem saloia. Mas não. O autor nasceu em Lisboa, em 1810. Numa primeira aproximação, um pároco de aldeia remete, em imaginação, para alguma zona de remota província, de preferência no norte do país. No entanto, correspondendo com uma exactidão que se diria milimétrica, às características até agora registadas das gentes saloias e da sua terra, incluindo a relação com a cidade, a acção decorre algures nos arredores de Lisboa. E se estes arredores, por mais próximos que lhe fossem, mantinham um cariz arreigadamente rural e provinciano, então poderá ser certo que para Herculano e para os alfacinhas de um modo geral, a província (também ao serviço do procurado bucolismo romântico) estava às portas da cidade.

É notável a força e o rigor que o autor imprime às personagens; mas também o carinho e humanidade com que as trata. São provavelmente inspiradas em figuras que conheceu, justamente no âmbito das relações que os citadinos mantinham com aqueles que desde tempos imemoriais teriam eles próprios apelidado de saloios.

In: Território e Identidade: Aspectos Morfológicos da Construção do Território e a Identidade Saloia no concelho de Cascais, tese de mestrado não publicada, p. 115

CHE

E aqui está o Che: corresponde?


DEMÓCRITO Vs HERACLITO?

Ora aí estão, a par, as duas faces da mesma moeda humana: umas vezes mais um que outro, quem se livra destes extremos, sempre em tensão? Por alguma razão foi o pintor levado a não pintar um sem o outro e eles lá estão, ao nosso dispor e disposição. Resta a dúvida quanto ao modelo do Demócrito...



09 outubro 2015

SVETLANA, MEU AMOR

 

Cansadas de apostarem em cavalos errados, as casas de apostas finalmente acertaram. O Murakami vai ter de continuar a correr sozinho - os ténis quase rotos.  Algum dia será, nem que seja na Eternidade... Por agora ficamos com uma mulher que conhece o estertor do "homem soviético". O que isso seja, não sei, não li o livro, mas vou procurar informar-me. 
Entretanto, estou a ficar farto disto, vou-me embora pra Pasárgada.
 
 

07 outubro 2015

JÚLIO DINIS e ALEXANDRE HERCULANO

«(...) Este romance das "Pupilas" é a realização dum pensamento filho das impressões que, desde a idade de doze anos, tenho recebido das sucessivas leituras  do "Pároco da Aldeia". O meu reitor não fez mais do que seguir, a passo incerto, as fundas pisadas que o inimitável tipo criado por V. Exa deixou na sua passagem.»
--- Da carta de Júlio Dinis para Alexandre Herculano - Porto, 7 de Abril de 1867.

06 outubro 2015

ESTA É IMPORTADA DO FEICEBUQUE - ORA AGUENTEM-SE LÁ, BLOGUEIROS!


HÁ TRÊS ANOS, apresentando na Gulbenkian  a antologia organizada por CLARA ROCHA  com o título A CANETA QUE ESCREVE E A QUE PRESCREVE – DOENÇA E MEDICINA NA LITERATURA PORTUGESA, disse João Lobo Antunes que os alunos de uma sua unidade lectiva na Faculdade de Medicina de Lisboa – qualquer coisa como "MEDICINA E LITERATURA" – desconheciam quase em absoluto a personagem João Semana de Júlio Dinis. Lembrei-me disto – que ouvi directamente do professor (não me foi contado) – , no momento em que re-re-re-releio As Pupilas do Senhor Reitor, romance parcialmente escrito em Ovar, numa casa rural que hoje está dentro da cidade, onde o autor presenciou  os amores ingénuos dos camponeses, as desfolhadas, a vida de aldeia. É romance fraquinho, têm-me dito. A opinião de Eça não era diferente, se avaliarmos pelo que deixou escrito na morte do grande escritor: “Viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve”. Que posso fazer? Deixar aqui algumas imagens de mestre Roque Gameiro (1864-1935) que ilustraram edições de As Pupilas com a certeza de que tão belas aguarelas não podem provir de um romance vulgar.
 

JÚLIO DINIS e OVAR

Estive no passado mês de Setembro em OVAR no festival literário que lá decorreu. Foi a oportunidade para conhecer a casa onde JÚLIO DINIS viveu durante algum tempo e onde escreveu "As Pupilas do Senhor Reitor". Aqui deixo as fotografias.

05 outubro 2015

Será isto?



Hendrick ter Brugghen. Democritus. 1628.

O rir dos Demócritos de que se fala aqui em baixo?


"As Pupilas do Senhor Reitor" de Júlio Dinis, 30 Outubro, 20h30


A abrir:

"José das Dornas era um lavrador abastado, sadio, e de uma tão feliz disposição de génio, que tudo levava a rir; mas desse rir natural, sincero, e despreocupado que lhe fazia bem, e não do rir dos Demócritos de todos os tempos - rir céptico, forçado, desconsolador, que é mil vezes pior do que o chorar..."

in "As Pupila do Senhor Reitor" de Júlio Dinis, I Capítulo