COM OLHOS DE LER
Blogue da Comunidade de Leitores da Biblioteca de S. Domingos de Rana - Cascais - Portugal
25 Janeiro 2012
24 Janeiro 2012
O TANGO
O Tango
Jorge Luis Borges
Onde estarão? Pergunta a elegia
Sobre os que já não são, como se houvesse
Uma região onde o Ontem pudesse
Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.
Onde estará (repito) esse selvagem
Que ergueu, em tortuosas azinhagas
De terra ou em perdidas plagas,
A seita do punhal e da coragem?
Onde estarão aqueles que passaram,
Deixando à epopeia um episódio,
Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,
Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?
Procuro-os na lenda, na apagada
Brasa que, como uma indecisa rosa,
Conserva dessa chusma valorosa
De Corrales e Balvanera um nada.
Que escuras azinhagas ou que ermo
Do outro mundo habitará a dura
Sombra daquele que era sombra escura,
Muranã, essa faca de Palermo?
E esse Iberra (tenham dele piedade
Os santos) que na ponte duma via,
Matou o irmão, Ñato, que devia
Mais mortes que ele, ficando em igualdade?
Uma mitologia de punhais
No esquecimento aos poucos se desgasta.
E dispersou-se uma canção de gesta
Em sórdidas notícias policiais.
Há outra brasa, outra candente rosa
Dos seus restos totais conservadores;
Aí estão os soberbos matadores
E o peso da adaga silenciosa.
Embora a adaga hostil ou essa adaga,
O tempo, os dispersassem pelos lodos,
Hoje, p’ra além do tempo e da aziaga
Morte, no tango vivem eles todos.
Na música prosseguem, na mensagem
Das cordas da viola trabalhosa,
Que tece na toada venturosa
A festa, a inocência da coragem.
Vejo a roda amarela circular
Com leões e cavalos, oiço o eco
Desses tangos de Arolas e de Greco
Que vi bailar no meio da vereda,
Num instante que emerge hoje isolado,
Sem antes nem depois, contra o olvido,
E que tem o sabor do que, perdido,
Perdido está mas foi recuperado.
Os acordes conservam velhas cousas:
Ou a parreira ou o pátio ancestral.
(E por trás das paredes receosas
O Sul tem uma viola, um punhal.)
O tango, essa rajada, diabrura,
Os trabalhosos anos desafia;
Feito de pó e tempo, o homem dura
Menos que a leviana melodia,
Que é tempo somente. O tango cria
Um passado irreal, real embora.
Recordação que não pôde ir-se embora
Morta na luta, algures na periferia.
Jorge Luis Borges in Poemas Escolhidos. Edição bilingue. Selecção e Trad. Ruy Belo.Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.43-47
Jorge Luis Borges
Onde estarão? Pergunta a elegia
Sobre os que já não são, como se houvesse
Uma região onde o Ontem pudesse
Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.
Onde estará (repito) esse selvagem
Que ergueu, em tortuosas azinhagas
De terra ou em perdidas plagas,
A seita do punhal e da coragem?
Onde estarão aqueles que passaram,
Deixando à epopeia um episódio,
Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,
Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?
Procuro-os na lenda, na apagada
Brasa que, como uma indecisa rosa,
Conserva dessa chusma valorosa
De Corrales e Balvanera um nada.
Que escuras azinhagas ou que ermo
Do outro mundo habitará a dura
Sombra daquele que era sombra escura,
Muranã, essa faca de Palermo?
E esse Iberra (tenham dele piedade
Os santos) que na ponte duma via,
Matou o irmão, Ñato, que devia
Mais mortes que ele, ficando em igualdade?
Uma mitologia de punhais
No esquecimento aos poucos se desgasta.
E dispersou-se uma canção de gesta
Em sórdidas notícias policiais.
Há outra brasa, outra candente rosa
Dos seus restos totais conservadores;
Aí estão os soberbos matadores
E o peso da adaga silenciosa.
Embora a adaga hostil ou essa adaga,
O tempo, os dispersassem pelos lodos,
Hoje, p’ra além do tempo e da aziaga
Morte, no tango vivem eles todos.
Na música prosseguem, na mensagem
Das cordas da viola trabalhosa,
Que tece na toada venturosa
A festa, a inocência da coragem.
Vejo a roda amarela circular
Com leões e cavalos, oiço o eco
Desses tangos de Arolas e de Greco
Que vi bailar no meio da vereda,
Num instante que emerge hoje isolado,
Sem antes nem depois, contra o olvido,
E que tem o sabor do que, perdido,
Perdido está mas foi recuperado.
Os acordes conservam velhas cousas:
Ou a parreira ou o pátio ancestral.
(E por trás das paredes receosas
O Sul tem uma viola, um punhal.)
O tango, essa rajada, diabrura,
Os trabalhosos anos desafia;
Feito de pó e tempo, o homem dura
Menos que a leviana melodia,
Que é tempo somente. O tango cria
Um passado irreal, real embora.
Recordação que não pôde ir-se embora
Morta na luta, algures na periferia.
Jorge Luis Borges in Poemas Escolhidos. Edição bilingue. Selecção e Trad. Ruy Belo.Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.43-47
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Poesia
20 Janeiro 2012
À descoberta de Borges
Confesso que não
me está a ser nada fácil ler o “Ficções”. Embora sejam contos razoavelmente
curtos e independentes uns dos outros, surge-me uma grande dificuldade de
concentração neste universo fantasioso de imaginação ilimitada e tenho que
recorrer a constantes pesquisas para compreender muitas das mensagens.
Não sendo
nenhuma “estudiosa” de literatura, mas apenas uma apreciadora em termos mais
lúdicos do que técnicos, apercebi-me de que tinha que conhecer melhor o
escritor (de quem só conhecia um pouco de poesia). Acabei por conseguir emprestado,
este pequeno livrinho da autoria de María Esther Vásquez, que é um verdadeiro
tratado sobre Borges.
O escritor, que tinha uma memória absolutamente fabulosa, utilizava o seguinte:
O escritor, que tinha uma memória absolutamente fabulosa, utilizava o seguinte:
“Método de Trabalho
Borges tem uma
maneira de trabalhar insólita. Dita cinco ou seis palavras, que iniciam uma
prosa ou o primeiro verso de um poema, e manda-as ler imediatamente. O
indicador da sua mão direita acompanha, sobre o dorso da mão esquerda, a leitura,
como se percorresse uma página invisível. A frase é relida uma, duas, três,
quatro, muitas vezes, até que encontra a continuação e dita mais cinco ou seis
palavras. A seguir manda ler tudo o que está escrito, Como dita com pontuação,
deve ler-se dizendo-a. Relê-se esse fragmento, que acompanha o movimento das
suas mãos, até que chega à frase seguinte. Cheguei a ler uma dúzia de vezes uma
passagem de cinco linhas. Cada uma
dessas repetições é precedida das desculpas de Borges, que, de certo modo, se
atormenta muito com os supostos incómodos que provoca à sua escriba. Acontece
assim que, após duas ou três horas de trabalho, consegue-se uma página que já
não carece de correcções. Mas pode acontecer, quando se trata de notícias ou
prólogos, que previna antes der começar “Vamos escrever de qualquer modo e
depois corrigimos”. Neste caso, já pensou e repensou a forma que conferirá aos
três ou quatro conceitos que vai exprimir. De um modo geral esse, “escrever
de qualquer modo” é relido e corrigido, mas não com a minúcia atrás indicada,
porque na realidade, ele tinha quase tudo memorizado antes de ditar…”
In “Eu, Borges – Imagens, Memórias, Diálogos” de María Esther Vásquez
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Jorge Luis Borges,
Livro do mês
12 Janeiro 2012
10 Janeiro 2012
LEITURAS DO MÊS
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Jorge Luis Borges,
María Kodama
06 Janeiro 2012
AGORA QUE VAMOS LER BORGES...
MORTOS QUE ESTÃO VIVOS*
(…) É puro sofrimento amoroso o que atormenta o estupendo gigante, quer ele lá saber se passam ou não passam o cabo as portuguesas naus.
José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis
Jorge Luís Borges está sentado num banco de jardim no Alto de Santa Catarina, diante da estátua do Adamastor, naquela posição que lhe é bem conhecida: o tronco erguido, a cabeça levantada, as mãos apoiadas no cabo da bengala. Tem do seu lado esquerdo Ricardo Reis, que segura a maleta de médico, desconhecendo-se se guarda nela os instrumentos da arte de Hipócrates ou se a usa para acomodar os seus escritos de poeta: odes sáficas e alcaicas, que o mesmo é dizer feitas à maneira de Safo e de Alceu, génios gregos, inspiradas nas musas Lídia, Cloe e Neera; Marcenda, outra musa, viria mais tarde. À direita do argentino senta-se uma figura menos conhecida: Herbert Quain, irlandês, autor do livro The god of the labyrinth, edição de 1933, um romance policial no género dos de Agatha Cristhie.
Por que razão se juntaram neste local tão extraordinárias personagens, é matéria que o narrador não sabe explicar. Sabe que, embora mortos, vieram os três por caminhos de vivos, por estradas e aeroportos, andando nas ruas, apanhando transportes públicos, pois não são fantasmas de atravessar paredes ou de esvoaçar sob lençóis, muito menos de arrastar correntes. São espectros civilizados, que se movem pacificamente entre os viventes, sem nenhum estrépito, poupando-os a todo o assombro ou tribulação. Borges veio de Genebra, do cemitério de Plainpalais; Reis do claustro do Mosteiro dos Jerónimos, em cujo túmulo lhe dá guarida Fernando Pessoa; Quain de Roscommon, na Irlanda. O banco onde se sentam ostenta um letreiro com um prudente aviso: PINTADO DE FRESCO. Ainda bem, assim não se sentará nenhum passante onde já estão acomodados estes viajantes do tempo. E depois, não consta que se agarre a tinta à roupa dos que já não são, como se neste lugar o Ontem pudesse ser o Hoje, o Ainda, o Todavia, tudo segundo o que pode ser lido e relido no citado Borges, poema "O Tango".
- Ó Fernando António – disse Borges, quebrando um silêncio que ameaçava tornar-se perturbador – alegro-me que tenha vindo. É sempre bom poder falar consigo.
- Por favor não me chame Fernando António – objectou Ricardo Reis vivamente incomodado – sabe bem que não tenho nome de santo da Cristandade, graças a Deus que sou ateu.
- Você é um cómico, meu caro Fernando – insistiu Borges – essa sua mania de se mascarar, essa sua ideia peregrina de nos fazer crer que é sempre o outro e nenhum… Homem, assuma-se! Agora que está morto e bem morto liberte-se de vez do labirinto em que se meteu em vida.
Ricardo Reis remexeu-se nervosamente na tábua do assento.
- Labirinto deve ser consigo e com a sua escrita. Não foi você que inventou essa figura de papel que está aí desse lado, o pretenso autor do livro The god of the labyrinth? Olhe que cheguei a pensar, quando o li já no Cemitério dos Prazeres, que a obra tinha existência real.
- Meu caro Fernando, tenha cuidado com o que diz, olhe que o Herbert é muito sensível. Ainda bem que ele não compreende o português.
- Volto a dizer-lhe que não me chamo Fernando. O meu nome é Ricardo Reis, nasci no Porto em 1887, estudei medicina, estive exilado no Brasil por ser monárquico, morri em Lisboa em 1936.
- Ó Fernando – tornou Borges – que eu saiba o único heterónimo que você matou foi o Alberto Caeiro, em 1915, coitado, um homem ainda tão novo, apenas com vinte e seis anos de idade. Não me consta que tenha dado um fim ao Reis, ou mesmo ao Campos.
Proferira estas palavras com sarcasmo, deixando enervado o poeta das Odes.
- Leia Saramago, o meu último biógrafo, e verá. Se calhar não leu, não podemos ler tudo… Ou será despeito seu por nunca ter recebido o Nobel? Ah!, agora me lembro, você é cego. Os cegos não lêem, embora, caso curioso, possam ser directores de bibliotecas… De bibliotecas cegas, foi você que o disse… No entanto, pelo que sei, não lhe faltaram os olhos dos outros para fazer as suas leituras.
Borges acolheu com bonomia as alfinetadas de Ricardo Reis. Dirigiu o rosto na direcção da estátua do Adamastor, pensativo, como se escrutinasse nas gavetas do tempo uma memória antiga. Trocou umas palavras incompreensíveis com Herbert Quain, possivelmente em algum dialecto celta, e virando-se para Ricardo Reis falou assim:
- Uma coisa acho extraordinária em si, meu caro Fernando. Bem, não será a única, mas é uma delas, e muito importante, que sempre me deu que pensar. É que você tenha tido a pretensão de se constituir em émulo de Camoens.
- Camões – emendou Ricardo Reis, já conformado com o nome que Borges lhe dava.
- Eu digo Camoens. Nunca assimilei convenientemente o vosso vocalismo nasal. Sabe bem que a minha língua materna é o inglês. O castelhano veio mais tarde, e, diga-se, é bem pobre em sons vocálicos… Mas adiante: você escreveu a Mensagem como quem escreve Os Lusíadas do século XX. Falou do Bandarra, não esqueceu o Conde D. Henrique nem D. Tareja, mas sobre Camoens nem uma palavra. A isso chamo eu uma desfiguração da História, como o seu biógrafo Saramago muito bem assinalou. Além disso, há uma diferença de reconhecimento entre as duas obras: o grande épico recebeu por Os Lusíadas uma tença anual de quinze mil réis, modesta, é certo, mas atribuída pelo rei de Portugal; você, com a sua Mensagem, não foi além de um prémio de segunda categoria do Secretariado de Propaganda Nacional de António Ferro, um intelectual que era funcionário do regime fascista e grande admirador de Salazar. Depois, lembrei-me disto há pouco, você nem fala do Adamastor, aquele que está ali em pedra. Camoens dedica-lhe vinte e quatro oitavas no canto V, tanto como cento e noventa e dois versos; você na Mensagem alude a um Mostrengo, e resolve o assunto de uma penada, em três estrofes de nove versos. Ora o seu Mostrengo nada tem a ver com o Adamastor do nosso grande épico. Digo nosso, repare bem, porque também eu tive nas veias o sangue português. Não sei se sabe, mas sou descendente dos Borges de Torre de Moncorvo. Até tenho uns versos feitos aos meus antepassados:
Nada o muy poco sé de mis mayores
Portugueses, los Borges: vaga gente
Que prosigue em mi carne, oscuramente,
Sus hábitos, rigores y temores…
- Já conheço, escusa de se dar ao trabalho de continuar – atalhou Ricardo Reis.
Borges levantou-se, e um pouco inseguro, batendo com a bengala a procurar orientação, foi até junto da estátua do Adamastor. Deteve-se ali durante uns minutos – se é que é possível falar de minutos, de horas ou de segundos para exprimir o tempo dos que não existem –, a boca entreaberta de admiração, os olhos vagos postos na massa de pedra do Gigante, como se não vissem nada e pressentissem tudo. Era aquela a visão do estatuário: o Adamastor apaixonado, sofredor, que revelara a Vasco da Gama o seu amor pela ninfa Thétis, o sentimento não correspondido. Não serve ao amor de uma ninfa a fealdade de um gigante – verdade tardiamente entendida pelo titã. E foi assim que tendo surgido assustador sobre a minúscula nau, figura robusta e válida, como diz o Épico, pressagiando naufrágios e perdições de toda a sorte, se apartou de ante os olhos do Gama em medonho choro, esmagado pelo sofrimento de quem não é servido pelo amor.
Quando voltou para o seu lugar no banco, junto dos companheiros, estes conversavam em inglês sobre o modelo de desenvolvimento da Irlanda, país pobre que se tornou rico, que sofreu a crise e começou a recuperar, e que bem poderia ser um exemplo para Portugal.
- Só quem amou poderia falar assim do Adamastor – disse Borges. Mas nem Reis nem Quain, enredados na sua conversa, entenderam o que queria dizer.
Calaram-se finalmente quando o ouviram recitar um poema:
A LUIS DE CAMOENS
Sin lástima y sin ira el tiempo mella
Las heroicas espadas: Pobre y triste
A tu patria nostálgica volviste,
Oh capitán, para morir en ella
Y con ella. En el mágico desierto
La flor de Portugal se habia perdido
Y el áspero español, antes vencido,
Amenazaba su costado abierto.
Quiero saber si aquen de la ribera
Última comprendiste humildemente
Que todo lo perdido, el Occidente
Y el Oriente, el acero y la bandera,
Perduraria (ajeno a toda humana
Mutación) en tu Eneida lusitana.
Foi então que um vento inopinado tomou conta das copas das árvores. No banco em frente foram pelo ar as folhas de um jornal que era lido por dois idosos. Saltou o boné da cabeça de uma criança. Brilharam as coxas duma rapariga sob a saia esvoaçante. Um sem-abrigo que fumava uma beata engasgou-se com o fumo e teve um ataque de tosse. Dois namorados que se beijavam junto à grade do miradouro vieram abrigar-se no bar do jardim. Num automóvel estacionado no largo disparou-se o sistema de alarme. E houve quem visse dois grandes rectângulos de papel elevarem-se no céu sobre as casas que descem para o rio.
Borges está agora sozinho no banco. Um dos idosos a quem o vento arrebatara o jornal, tocou no braço do companheiro e disse:
- Está ali um tipo que parece cego. Olha, vai levantar-se… Vamos perguntar-lhe se precisa de ajuda para atravessar a rua.
Diga-se porém que nada do que o idoso viu pode ser considerado seguro. De resto, nem é seguro que ali tivessem estado os dois idosos, e que o vento lhes tivesse levado o jornal, e que houvesse um banco de jardim com um letreiro a avisar que estava pintado de fresco. E que nele se tivessem sentado aqueles três viajantes do tempo, vindos de tão díspares lugares não se sabe porquê e para quê.
* Escrito em 2006. Agora revisto e actualizado.
04 Janeiro 2012
A Comunidade na Agenda Cultural de Cascais
A Agenda Cultural de Cascais dedica-nos duas páginas no nº 54, relativo a Janeiro e Fevereiro 2012.
Na rubrica "Ideias com cultura" e sob o título Com olhos de ler, é feita a apresentação da Comunidade, incluindo uma carta do nosso ilustre Mentor e Coordenador Manuel Nunes.
Na rubrica "Ideias com cultura" e sob o título Com olhos de ler, é feita a apresentação da Comunidade, incluindo uma carta do nosso ilustre Mentor e Coordenador Manuel Nunes.
A Comunidade fica orgulhosa e agradece o destaque!
Para ler aqui!
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Comunidade em Destaque
31 Dezembro 2011
MEMÓRIAS DO ANO
António Lobo Antunes. Fotografia de Pedro Loureiro
O livro de prosas enviesadas, relutantes, com um vago sabor a hortelã-pimenta e a ácaros fritos em óleo de palma, chega-nos pela mão duma leitora que de tanto lidar com números, experiências aleatórias, variáveis discretas e contínuas, funções de distribuição normais e hipergeométricas, resolve vir desassossegar um círculo mastigante de tias de Cascais, de senhores idosos suspirantes por damas de quarenta anos, de jovens e menos jovens um bocado à rasca, desses que se passeiam pela Avenida com todo o peso da filosofia ocidental às costas pedindo a demissão de governantes socráticos, também dos platónicos e dos aristotélicos.
– Nem com as tuas cartas fiquei, meu amor, voaram-me da gaveta como rolas enfáticas defenestradas duma gaiola a que se soltaram as barras de arame decrépito. Conservo apenas algumas fotografias metidas em álbuns castanhos de lombadas gravadas a falso ouro: uma em que te vejo na piscina de Malange, o volume dos teus seios a intimidar o frágil tecido sintético do maillot; outra na marginal de Luanda, lambendo um cone de gelado de manga, o carocha estacionado na berma e a menina brincando sob quarenta graus de desvario tropical. Não sei se te perdi ou se fui eu que me perdi.
Quem trouxe o livro para círculo tão selecto não imaginou os olhos doridos de quem está habituado a chamar as perspectivas e as linhas de fuga pelos seus nomes próprios, os olhos derramados sobre os paradoxos da escrita, qual parábola de Zenão de Eleia, qual discurso cavaquista numa qualquer cerimónia de tomada de posse, como se visse voar para fora do quadro os namorados flutuantes do aniversário de Chagall ou descobrisse um nu deitado de Modigliani risivelmente convertido em peça de arte efémera; nem imaginou o poeta que não leu o livro, o poeta que aliás nunca lê os livros (Ler é maçada, estudar é nada. Grande é a poesia, a bondade e as danças… Mas o melhor de tudo são as crianças. O mais que isto é Jesus Cristo, que não sabia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca…), o poeta ouvindo como dísticos ou haicai japoneses as sombras breves das demoradas impressões dos leitores; e muito menos a devoção bramânica, obcecada e lírica de quem agarra as palavras como quem cruza as pernas e se entrega aos iogas libertadores da vida dispersa de todos os dias; tampouco imaginou o atrevimento do escrevente aguado, que escreve mais do que pensa, e que às vezes até escreve aquilo que não pensa, o que quer dizer que erra mais do que acerta, verdade infeliz e crua como um ovo estrelado com a gema derramada no óleo da frigideira.
– Não me sobrou uma peça de roupa tua, meu amor. Teria desejado um sutiã, uma liga de meia, um casto lenço de cabeça, desses a que também chamam bioco e que te fazia o rosto tão bonito, ou os juvenis soquetes que usavas naquele dia em que nos beijámos sob uma acácia florida, depois desfeita à morteirada, em 1975, por um pelotão das fapla empanturrado de funje e cuca. Que afagador passa hoje a mão pela linha terna do teu seio? Que jóquei feliz te agarra as crinas de égua domada, disposta aos mais incríveis saltos nas barreiras do amor? Minha querida jóia, minha querida mulher, GTS, meu amor perdido, porque te perdi?
Obrigado, leitora das funções de distribuição normais e hipergeométricas, obrigado ó Lobo, obrigado ó Antunes. Só é lobo quem lhe veste a pele, só é Nunes quem não pode ser Antunes, obrigado pelo livro e pelas leituras possíveis, obrigado pelo chá, obrigado pelos bolinhos.
Memória da guerra colonial, dizem eles. Mais, muito mais!
(Texto lido na sessão de Março - Memória de Elefante de António Lobo Antunes)
Memória da guerra colonial, dizem eles. Mais, muito mais!
(Texto lido na sessão de Março - Memória de Elefante de António Lobo Antunes)
29 Dezembro 2011
Relato [...]: 4ª e última Jornada
Correndo o risco quase impensável de se atrasar para a ceia em casa do sobrinho, Mr Scrooge ainda se demorou um pouco a explicar o favor que pretendia.
- Amigos, o tempo urge: quando os Sinos de Ano Novo baterem as onze badaladas, serão visitados pelo Espírito Poético, e é nessa altura que há-de ser forjado o novo desenlace da minha história, mais a contento da minha maneira de ser e para que eu possa ter acesso à tranquilidade eterna. Basta que se mantenham atentos e cumpram tudo o que o Espírito vos inspirar. E agradecendo, sumiu-se no ar, perante a estupefacção geral.
Seguiu-se um grande rebuliço, pois se aproximava a hora esperada: Mrs Cratchit procurava as velas mágicas de Natal no fundo de todas as gavetas, com Bob Cratchit atrás, a refilar contra a falta de ordem naquela casa; Merry-Jo trauteava um fado que nunca tinha ouvido; Mc Charles ensaiava umas notas um tanto esganiçadas na sua gaita-de-foles, sob os protestos da mulher; as três amigas, com a tesoura de recortes de Carlile, iam cortando em todos os personagens dos contos de C.Dickens, e por pouco não estragavam irremediavelmente as histórias.
Quanto ao poeta Laurence, nem se fala: com a atrapalhação, tinha-se perdido por completo, e folheava desesperadamente os livros, que já não reconhecia, sem encontrar nenhum dos poemas anteriormente escolhidos. Parecia bruxedo!
Foi então que, vindas não se sabe de onde, as notas do carrilhão começaram a bater as onze badaladas, as luzes apagaram-se, as velas acenderam-se por si mesmas, os livros de poesia do poeta ergueram-se sozinhos no ar batendo as folhas, bem como todos os poemas avulsos escolhidos e o poema proposto por M. Dikens; e, perante o pasmo generalizado, cada livro ou folha com o poema mais adequado, foi poisar nas mãos de quem o devia ler! O Espírito Poético tinha chegado. A partir daí tudo correu lindamente: as vozes, mesmo as mais fanhosas, declamaram como se fossem de anjos e, no final, Mc Charles fez soar de forma divinal a sua gaita-de-foles.
Quando a sessão acabou o Espírito Poético ainda pairou por ali algum tempo, mas ninguém percebeu de que forma teriam contribuído para a salvação de Mr Scrooge.
Só no Natal seguinte, quando os temas da Quadra voltaram a ser notícia é que os nossos amigos da sessão poética compreenderam o que tinha acontecido: havia agora uma nova versão do Cântico de Natal, a partir de um manuscrito original, descoberto em Chatham, no Condado de Kent. O final desta versão era um pouco diferente do anterior: o que ressaltava era sobretudo um maior comedimento na mudança de atitude de Scrooge; alguns críticos até adiantavam que correspondia a um maior realismo, demonstrando que a redenção, tal como a utopia romântica a concebe, não existe. Enfim, não cabe aqui descrever a tremenda conjuntura polémica que se gerou à volta do novo Conto, envolvendo, de críticos literários a historiadores da revolução industrial e teóricos neo-marxistas.
A verdade é que, entre outros aspectos, se encontrava no texto uma descrição da ceia em casa de Fred, o sobrinho de Mr Scrooge, com a presença de Meg e Richard, provenientes do conto The Chimes. Sabendo que os dois queriam casar, mas não tinham meios suficientes, Fred, com a sua bondade natural, tinha resolvido ajudá-los e convencer o tio a participar. No entanto, depois de alguma discussão e cedências por parte do prestamista, este tinha acedido, não a dar, mas a emprestar-lhes o dinheiro para a compra da casa e... imagine-se, para os electrodomésticos - anacronismo este que lançou a maior confusão na comunidade científica.
(Finished)
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Conto de Natal
28 Dezembro 2011
Relato [...]: 3ª Jornada
- Pois bem! - Suspirou Scrooge - lamento vir assim interferir na vossa noite de Natal, mas a verdade é que depois de muito ter reclamado junto de C. Dickens - já explico porquê -, soube que ele tinha enfim decidido convocar um Espírito mais conciliador e racional, o Espírito Poético, precisamente aquele que hoje ficou de aparecer na vossa sessão, assim que se dispuserem a recebê-lo, conforme me constou no cibercafé do Espaço Sideral.
- Sim, ouvimos até dizer que ele se predispunha a rescrever a sua história, disse Miss Carlile, a filha do casal, que entretanto já se tinha recomposto do espanto, e se sentia, diga-se em abono da verdade, um tanto atrapalhada, pois ainda não tinha acabado de ler o conto.
- Felizmente, C. Dickens criou-me sincero e frontal, e estas são qualidades que não cheguei a perder, apesar de tudo o que ele me fez passar e das atitudes radicais para que por fim me empurrou...
Aqui, já um tanto agastado, pois apreciava sobremaneira o autor, interrompeu-o o dono da casa:
- Mas, desculpe, tudo o que aconteceu depois das visitas dos Espíritos pareceu ser resultado exclusivo de decisões suas. Aliás, do que sei, por muitas gerações e actualmente, a sua mudança de atitude tem sido um manancial de lições de humanidade, de generosidade... E a inspiração...
- Ora aí está, a inspiração! - Scrooge não resistiu a interromper - e faz ideia do que eu, humilde prestamista de Londres até 1853, tenho sofrido, por causa dos protestos?
Entretanto, o poeta tinha emergido de debaixo da mesa e, mais à vontade, expressou a perplexidade estampada nas expressões dos presentes:
- Que protestos?
Quando o notável visitante se preparava para debitar as suas explicações, tocou a campainha da porta... Eram o casal Mc Charles, Merry-Jo, Etel Light e, logo a seguir, apareceu Airlet, muito afobada, porque se tinha perdido às voltas na Rotunda do Cemitério...
Passada uma primeira fase de natural estranheza em vista do inesperado conviva, o qual era conhecido de jingeira, quer dizer, do Cântico de Natal, todos se dispuseram ao reatar da história entretanto interrompida.
- Encurtanto então razões, como dizia, há mais de um século que sofro as afrontas dos injustos protestos do patronato, porque viram no meu gesto de generosidade compulsiva em relação ao vosso antepassado, meu amanuense, a origem de todas as cedências à classe operária: vejam-se os aumentos de salários, os bodos, os feriados, logo seguidos da semana-inglesa, do fim-de-semana, das férias pagas, enfim... uma torrente de regalias que a mesma classe dos trabalhadores nunca achava suficientes e, também para os sindicatos e associações de classe, nunca deixei de ser o mau da fita...
Scrooge estava a par dos problemas actuais, porque realmente lhe sobrava tempo para ver todos os canais de notícias do mundo; por pouco não estalava uma discussão brutal com Mr Cratchit, aficcionado do tema da política, a propósito da crise do Euro.
Foi então que Ebenezer Scrooge, até aí distraidíssimo com a conversa, reparou nas horas, se sobressaltou e, desculpando-se por ter de se ausentar sem participar na famosa sessão poética, explicou que não podia faltar à ceia de Natal na casa do seu sobrinho Fred.
Adiantou ainda que aquele tinha convidado, para a festa de Natal, um casal pobre que ele achava merecer ajuda... E Scrooge tremia só de pensar no montante da ajuda... Ainda por cima não os conhecia, pois vinham de outra estória... Tinha também um grande favor a pedir, antes de abalar...
- Sim, ouvimos até dizer que ele se predispunha a rescrever a sua história, disse Miss Carlile, a filha do casal, que entretanto já se tinha recomposto do espanto, e se sentia, diga-se em abono da verdade, um tanto atrapalhada, pois ainda não tinha acabado de ler o conto.
- Felizmente, C. Dickens criou-me sincero e frontal, e estas são qualidades que não cheguei a perder, apesar de tudo o que ele me fez passar e das atitudes radicais para que por fim me empurrou...
Aqui, já um tanto agastado, pois apreciava sobremaneira o autor, interrompeu-o o dono da casa:
- Mas, desculpe, tudo o que aconteceu depois das visitas dos Espíritos pareceu ser resultado exclusivo de decisões suas. Aliás, do que sei, por muitas gerações e actualmente, a sua mudança de atitude tem sido um manancial de lições de humanidade, de generosidade... E a inspiração...
- Ora aí está, a inspiração! - Scrooge não resistiu a interromper - e faz ideia do que eu, humilde prestamista de Londres até 1853, tenho sofrido, por causa dos protestos?
Entretanto, o poeta tinha emergido de debaixo da mesa e, mais à vontade, expressou a perplexidade estampada nas expressões dos presentes:
- Que protestos?
Quando o notável visitante se preparava para debitar as suas explicações, tocou a campainha da porta... Eram o casal Mc Charles, Merry-Jo, Etel Light e, logo a seguir, apareceu Airlet, muito afobada, porque se tinha perdido às voltas na Rotunda do Cemitério...
Passada uma primeira fase de natural estranheza em vista do inesperado conviva, o qual era conhecido de jingeira, quer dizer, do Cântico de Natal, todos se dispuseram ao reatar da história entretanto interrompida.
- Encurtanto então razões, como dizia, há mais de um século que sofro as afrontas dos injustos protestos do patronato, porque viram no meu gesto de generosidade compulsiva em relação ao vosso antepassado, meu amanuense, a origem de todas as cedências à classe operária: vejam-se os aumentos de salários, os bodos, os feriados, logo seguidos da semana-inglesa, do fim-de-semana, das férias pagas, enfim... uma torrente de regalias que a mesma classe dos trabalhadores nunca achava suficientes e, também para os sindicatos e associações de classe, nunca deixei de ser o mau da fita...
Scrooge estava a par dos problemas actuais, porque realmente lhe sobrava tempo para ver todos os canais de notícias do mundo; por pouco não estalava uma discussão brutal com Mr Cratchit, aficcionado do tema da política, a propósito da crise do Euro.
Foi então que Ebenezer Scrooge, até aí distraidíssimo com a conversa, reparou nas horas, se sobressaltou e, desculpando-se por ter de se ausentar sem participar na famosa sessão poética, explicou que não podia faltar à ceia de Natal na casa do seu sobrinho Fred.
Adiantou ainda que aquele tinha convidado, para a festa de Natal, um casal pobre que ele achava merecer ajuda... E Scrooge tremia só de pensar no montante da ajuda... Ainda por cima não os conhecia, pois vinham de outra estória... Tinha também um grande favor a pedir, antes de abalar...
(Tenham paciência, já não falta tudo)
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Conto de Natal
27 Dezembro 2011
Relato que se faz e apresenta da sessão que teve lugar poético em casa dos Cratchit, na noite de Natal do Ano da Graça de 2011: 2ª jornada
Na verdade, a campainha tocava de uma forma diferente, inaudita, como se fossem os sinos de um carrilhão ao longe, entoando jingle bells, jingle bells... Bob Cratchit franziu o sobrolho e perguntou à mulher:
- Estamos à espera de alguém tão cedo? A esta hora os convidados do Natal Poético ainda estão a desenvencilhar-se das espinhas do bacalhau... Quem será?
- Bem, não sei, o melhor é ir ver...
- Quem é? Perguntou Mrs Cratchit, depois de, confiadamente, ter accionado o trinco.
Ninguém respondia, mas uma estranha figura deslizou, sim, deslizar é o termo, através do portão entreaberto, e aproximou-se da porta, sendo dificilmente reconhecível à luz fraca do exterior.
Mrs Cratchit não é de se assustar, mas o caso estava a tornar-se, no mínimo, estranho.
Foi então que ela reprimiu um grito: era Mr Scrooge, só podia ser! Eram os chinelos mal enfiados nos pés, uma indumentária que combinava casaca e pijama, mas, sobretudo, o inconfundível barrete de dormir com a borla caída às três pancadas sobre o nariz adunco, que o denunciavam.
Se de fantasma ou espectro se tratava, tinha um aspecto bastante sólido e real; estava bem conservado, pensou Mrs Cratchit.
- Mas, senhor, o que faz aqui, a estas horas, tão deslocado do seu tempo e da sua cidade? Perdeu-se nos Circuitos Eternos? O que procura?
- Minha cara senhora, mil perdões pelo incómodo: esta não é por acaso a casa de Bob Cratchit, o meu empregado?
- Cratchit, sim, é o apelido de família... Mas entre, que está frio aí fora, e o senhor não está agasalhado – ainda apanha uma gripe!
Enquanto lhe dava passagem e indicava o caminho para a sala, onde o lume crepitava na lareira, ia pesando a quanto o espírito do Natal obriga, pois se via na contingência de acolher quem lhe batesse à porta, ainda que fosse- que arrepio!- um espectro!
Quando entraram na sala, uma corrente de ar gelado varreu o espaço e quase apagava o lume. Mas o acolhimento que todos dispensaram a Mr Scrooge, em atenção à sua edificante história, recentemente relembrada, rapidamente repôs o ambiente familiar.
- Edificante, dizem vocês? Bah! Scrooge quase vociferava, apoplético, quando alguém o sugeriu, mais para fazer conversa que outra coisa.
- Ó Sr Scrooge, por favor, deixe de pairar por aí, que nos faz vertigens, disse Bob Cratchit, sempre muito pragmático. Sente-se aqui à mesa connosco, e desembuche, que todos já perceberam que está mesmo a precisar!
Entretanto, convém referir que nem todos encaravam com tanta fleuma o estranho visitante. O poeta Laurence, aqui para nós, tremia como varas verdes, prenúncio de um ataque de taquicárdia, e aproveitou a desculpa de tratar dos poemas celtas por escolher, para se enfiar por debaixo da mesa (onde ainda assim podia ouvir a história que Ebenezer Scrooge se preparava para contar...).
(Recomendação: não perca o próximo episódio)
Na verdade, a campainha tocava de uma forma diferente, inaudita, como se fossem os sinos de um carrilhão ao longe, entoando jingle bells, jingle bells... Bob Cratchit franziu o sobrolho e perguntou à mulher:
- Estamos à espera de alguém tão cedo? A esta hora os convidados do Natal Poético ainda estão a desenvencilhar-se das espinhas do bacalhau... Quem será?
- Bem, não sei, o melhor é ir ver...
- Quem é? Perguntou Mrs Cratchit, depois de, confiadamente, ter accionado o trinco.
Ninguém respondia, mas uma estranha figura deslizou, sim, deslizar é o termo, através do portão entreaberto, e aproximou-se da porta, sendo dificilmente reconhecível à luz fraca do exterior.
Mrs Cratchit não é de se assustar, mas o caso estava a tornar-se, no mínimo, estranho.
Foi então que ela reprimiu um grito: era Mr Scrooge, só podia ser! Eram os chinelos mal enfiados nos pés, uma indumentária que combinava casaca e pijama, mas, sobretudo, o inconfundível barrete de dormir com a borla caída às três pancadas sobre o nariz adunco, que o denunciavam.
Se de fantasma ou espectro se tratava, tinha um aspecto bastante sólido e real; estava bem conservado, pensou Mrs Cratchit.
- Mas, senhor, o que faz aqui, a estas horas, tão deslocado do seu tempo e da sua cidade? Perdeu-se nos Circuitos Eternos? O que procura?
- Minha cara senhora, mil perdões pelo incómodo: esta não é por acaso a casa de Bob Cratchit, o meu empregado?
- Cratchit, sim, é o apelido de família... Mas entre, que está frio aí fora, e o senhor não está agasalhado – ainda apanha uma gripe!
Enquanto lhe dava passagem e indicava o caminho para a sala, onde o lume crepitava na lareira, ia pesando a quanto o espírito do Natal obriga, pois se via na contingência de acolher quem lhe batesse à porta, ainda que fosse- que arrepio!- um espectro!
Quando entraram na sala, uma corrente de ar gelado varreu o espaço e quase apagava o lume. Mas o acolhimento que todos dispensaram a Mr Scrooge, em atenção à sua edificante história, recentemente relembrada, rapidamente repôs o ambiente familiar.
- Edificante, dizem vocês? Bah! Scrooge quase vociferava, apoplético, quando alguém o sugeriu, mais para fazer conversa que outra coisa.
- Ó Sr Scrooge, por favor, deixe de pairar por aí, que nos faz vertigens, disse Bob Cratchit, sempre muito pragmático. Sente-se aqui à mesa connosco, e desembuche, que todos já perceberam que está mesmo a precisar!
Entretanto, convém referir que nem todos encaravam com tanta fleuma o estranho visitante. O poeta Laurence, aqui para nós, tremia como varas verdes, prenúncio de um ataque de taquicárdia, e aproveitou a desculpa de tratar dos poemas celtas por escolher, para se enfiar por debaixo da mesa (onde ainda assim podia ouvir a história que Ebenezer Scrooge se preparava para contar...).
(Recomendação: não perca o próximo episódio)
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Conto de Natal
26 Dezembro 2011
Relato que se faz e apresenta da sessão que teve lugar poético em casa dos Cratchit, na noite de Natal do Ano da Graça de 2011: 1ª jornada
Passada a epítome das festas, com a celebração familiar do Natal, repartido ou não entre a noite e o dia propriamente dito, sempre à volta de muitas vitualhas apropriadas à tradição e de não menos alcoólicos néctares, é tempo de cumprir a promessa de narrar, aqui, para que fique registado nos anais imorredoiros deste prestimoso blogue, a crónica da sessão dita poética, inspirada pelo respectivo Espírito que, como é do conhecimento universal, surgiu da síntese feliz que C. Dickens resolveu em boa hora fazer dos três Espíritos de Natal, num rasgo genial de re-escrita do seu Conto.
Convém dizer que a sessão em casa dos Cratchit, na sala pobremente guarnecida, mas especialmente preparada para o acontecimento, foi precedida de alguns preparativos: em primeiro lugar, havia o convite ao poeta Laurence, o qual tinha ficado com a incumbência de seleccionar material alusivo à Quadra; depois, foi pedido a M. Dikens um poema por ele escolhido, para ser incluído na sessão e também integrar a ementa da consoada dos que não pudessem estar presentes em casa dos Cratchit.
Era expectável que este evento pudesse ajudar a renovar o próprio Espírito do Natal, cansado e erodido por tanta repetição: sempre a mesma fórmula sócio-familiar, em crescendo de aborrecimento, com o mesmo tipo de filmes televisivos, publicidade e mais publicidade; cheio de luzes pisca-pisca, de ausência tácita de denúncia e de protestos de bondade faz-de-conta-que-é-para-sempre.
Um pouco depois da hora aprazada, apresentou-se, na casa de St George Avenue, devidamente enfarpelado, o poeta Laurence, a tempo de participar do repasto natalício, o qual, por um deslocamento geográfico do epicentro da estória, não constaria nunca de ganso assado, podendo, remotamente, incluir peru recheado, mas constaria sim, impreterivelmente, de bacalhau com todos, como manda uma tradição de origens vagamente vislumbráveis, relacionadas com um gosto local enraizado a partir da prática gastronómica de muitas sextas-feiras quaresmais, (ou qualquer outro motivo à escolha de melhores investigadores).
Voltando à vaca fria, que é como quem diz, ao bacalhau cozido, à ceia de Natal, acolitado aquele por tinto de Portalegre, temos à volta da mesa a família Cratchit em versão reduzida (não porque tivesse acontecido algum mal ao Tim ou a qualquer outro membro, note-se) e o poeta, que faz as delícias da dona da casa por tão bem se bater com a refeição.
Mal tinham os comensais engolido a terceira dose de sobremesa, retine a campainha da porta... Olá! Será gente ou será espírito?
...
(Nota: a continuar com mais episódios só se houver adesão de leitores)
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Conto de Natal,
Espírito de Natal
23 Dezembro 2011
19 Dezembro 2011
CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 6 )
Charles Dickens estava então decidido a rescrever a história de Ebenezer Scrooge. Sabia que o protagonista não havia gostado do Espírito do Natal Passado, e ainda menos do Espírito do Natal Presente com o seu despesismo e ostentação, e do Espírito do Natal Futuro nem era bom falar. Sobretudo, estes espíritos tinham-no assustado e induzido a praticar acções que não obedeciam à sua racionalidade de homem de negócios.
O escritor lembrou-se de substituir estes três espíritos por um único de valor acrescentado a que chamou Espírito do Natal Poético, e deitou mãos à obra. A decisão era arriscada, pois não se sabia ao certo como reagiria Ebenezer Scrooge. Porém, se quisermos falar segundo uma espécie de linguagem hoje muito usada por políticos e jornalistas nas suas intervenções mediáticas, diríamos que o escritor tinha muito bem definido o seu caderno-de-encargos, não empurrou-os-problemas-com-a-barriga, e fez de forma exemplar o seu trabalho-de-casa.
Um Espírito do Natal Poético como este, capaz de transfigurar o habitual conformismo da quadra, exigia de Charles Dickens a criação de uma personagem de recorte humano que representasse os novos valores que vinham do alto. Foi assim que surgiu na sua imaginação de artista o poeta Laurence, detentor de uma compilação de poemas natalícios que ia das canções dos remotos bardos celtas até à moderna poesia da estética pré-rafaelita.
E então, coisa extraordinária, vamo-nos deparar com a festa da noite de Natal em casa de Bob Cratchit, toda ela preenchida com leituras de poemas alusivos à quadra festiva. O poeta Laurence, convidado pela senhora Cratchit, sorria com indisfarçável satisfação para as filhas do casal, as meninas Belinda e Martha, e até o pequeno Tim, com a sua vozinha de criança débil, se dispôs a recitar um poema:
Christmas is coming,
The geese are getting fat
Please put a penny
In the old man's hat
If you haven't got a penny
A ha'penny will do;
If you haven't got a ha'penny
Then God bless you!
Coisa maravilhosa, ver assim irmanadas pelo poder da poesia de Natal pessoas de tão diversas índoles e disposições anímicas!
A nova fórmula do conto agradou a Ebenezer Scrooge, pelo que deixou de apoquentar o autor com as suas diatribes de personagem ressabiada. Diz-se, embora não haja certezas disso, que o Espírito do Natal Poético atravessava, como todos os espíritos poéticos, grandes dificuldades financeiras. Ebenezer Scrooge ter-lhe-á emprestado dinheiro a altos juros, pois o prestamista não perdia a oportunidade de fazer um bom negócio, até com os espíritos.
E pronto, é o fim da continuação-de-um-conto-de-Natal. Ainda bem que tudo acabou em bem e que o escrevente pode agora encerrar a loja e ir à sua vida sem mais delongas. UM BOM NATAL PARA AS QUERIDAS LEITORAS.
THE END
Alverca upon Tagus, December, 2011
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Conto de Natal
18 Dezembro 2011
CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 5 )
Tranquilizem-se as benévolas leitoras que esta continuação-de-um-conto-de-Natal não está longe de chegar ao fim. Não é que não houvesse matéria para prolongar a história por mais alguns meses – sei lá, até por alturas de Quinta-feira de Endoenças ou do feriado do Corpus Christi, que aliás já não será feriado, por intervenção oportuna e saneadora das potências estrangeiras que agora governam o país. Acontece porém que o escrevente tem de ir tratar da sua vidinha, ausentando-se por tempo incerto para parte se calhar igualmente incerta, o que o impede de ficar aqui agarrado à escrita, debitando diariamente os episódios como se fosse esse o seu ofício e não tivesse mais nada para fazer. Tenha-se em conta que o ecrã do computador não é o mundo e que, como diz o outro, há mais vida para além do défice, ou, aliás, desculpe-se o lapsus linguae, mais vida para além das teclas.
Sendo assim, não entremos em detalhes sobre a conversa, ou desconversa, entre Charles Dickens e Ebenezer Scrooge, e atentemos na seguinte letter inédita encontrada no espólio do grande escritor inglês:
December, 27 th, 1843
My Dear Friend,
I write some lines to tell you a project I have in view. Projecto de concretização urgente, diga-se, que terei de concluir até ao final do ano, dado o risco que corro de assistir à implosão trágica e irreversível de alguns dos meus apreciados contos de Natal.
Acontece, My Dear Friend, que uma bizarra personagem por mim criada, Mr. Scrooge – deves estar a ver quem é, um agiota da city que enriqueceu à custa da ruína alheia –, se revoltou contra a minha pessoa por não concordar com o curso da história que inventei para ele. Esta atitude foi desencadeada pela intervenção do espectro do castelo de Elsenor, uma referência em má hora introduzida no meu conto, que tendo adquirido foros de personagem veio desassossegar o citado Mr. Scrooge.
É claro que tive de lhe dar um raspanete – esta expressão tão informal não é minha, por ela peço desculpas, mas de uma simpática leitora que a adoptou e eu, por graça, agora a uso. Só que a dita personagem esperneou que nem um frango de capoeira na degola, que não havia direito, que não estava para aturar os espíritos que o assediavam, e que tratasse eu de dar uma nova orientação à história porque se não o fizesse ou se queixava ao sindicato ou se passava para outra história com armas e bagagens, que isto de concertação social entre autor e personagens era uma prática adquirida, não fizesse eu como um certo governo de um país aliado, quase dois séculos mais tarde, que se dispôs a aumentar o horário de trabalho em meia hora diária e nem se dignou ouvir os parceiros sociais sobre o assunto.
Estás a ver a questão: eu que sempre fui pelas ideias socialistas de Saint-Simon e de Proudhon, que até cheguei a ler um tal Marx que na altura ninguém sabia quem era, que exultei com a prosa de um certo João Baptista de Almeida Garrett, que andou aqui pela ilha, fugido aos reaccionários do seu país – pobre país, aliás, que nem se regenerou com o sangue que lhe injectámos da nossa estirpe dos Lencasters – e que escreverá esta coisa fabulosa - E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? -, pois eu, que sou um homem de ideias avançadas, que sempre estive do lado dos humilhados e ofendidos como um Dostoieveski de língua inglesa, sou obrigado a dar abrigo às reivindicações dum agiota e a pactuar com a usura para que a minha literatura sobreviva e os meus leitores me possam ler.
O projecto que resolvi empreender foi, agora o digo, o de rescrever a história de Mr. Scrooge. Verás como, My Dear Friend.
Best regards.
Ever faithfully
Charles Dickens
Charles Dickens
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Conto de Natal
16 Dezembro 2011
CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 4 )
A cultura literária de Ebenezer Scrooge era praticamente nula, como decerto já compreendeu a leitora atenta e acostumada a leituras sábias, e até o leitor, espécime naturalmente básico que se dedica aos livros por fraquezas da idade ou carências várias de que nem é bom aqui falar. Assim, se desconhecia a personagem de Hamlet e a do seu imortal criador, como poderia o prestamista saber a que episódio histórico se referia o Sr. Fish com aquela inescrutável apóstrofe latina. Falassem-lhe de juros e rendas, de letras de câmbio e de saques à vista, de papéis do tesouro e obrigações, e outro galo cantaria!
Porém, não se pense que o tu-quoque-Brute-fili-mi! que o antigo escolar do college de Oxford lhe atirara de chofre, assim como quem manda uma pedra bicuda à cabeça duma criança pequena, era de todo despropositado. Vejamos: anda uma personagem a passear de história em história, desfigurando as narrativas, subvertendo o labor do autor empírico que as gerara com um determinado sentido e propósito – ora o que é isto senão matar o pai que dá a vida e o pão à prole? Um Brutus, era aquilo em que Ebenezer Scrooge se havia tornado. O Sr. Fish sabia do que falava, pois também ele já havia sentido, por mais de uma vez, o mesmo desejo, denso e penetrante como o smog londrino, de dar um pontapé na altivez de Sir Joseph Bowley e partir à descoberta de outra história em que pudesse ser mais feliz como personagem. Mas adiante, deixemos estes considerandos, que não há meio de se chegar ao que interessa.
Em poucos minutos, enquanto Sir Joseph Bowley perorava perante o atónito Toby Veck sobre a necessidade de reprimir a criminalidade em Inglaterra e as vantagens de se entrar no ano novo com as contas pessoais devidamente saldadas, Ebenezer Scrooge era esclarecido sobre a história do príncipe Hamlet da Dinamarca. O Sr. Fish levou tão a peito as suas explicações que acabou também por falar dos Capuletos e dos Montecchios, ilustres famílias de Verona, e do mouro Otelo e de Desdémona, gente bem conhecida em Veneza, de tal forma que o bom do prestamista, aturdido com tanta sabedoria, pretextou assuntos de serviço no seu escritório e passou-se rapidamente para a história que por direito autoral lhe pertencia.
Chegou ao escritório no preciso momento em que o empregado Bob Cratchit acabava de copiar, com os vagares que lhe são conhecidos, a acta dum acordo de credores da firma Coal & Shipments Ltd., de Tower Street, nº 5. Mas logo estacou, assustado, perante o quadro que se lhe deparava: sentado à sua secretária, levemente inclinado sobre ela como quem trabalha, a barbicha hirsuta e o cabelo dividido por um risco ao lado que o projectava para o alto como duas excrescências peludas, aproveitando o tempo para retocar alguns capítulos de “Oliver Twist”, Charles Dickens, him himself, aguardava calmamente pela sua chegada.
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Conto de Natal
15 Dezembro 2011
CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 3 )
Há que dizer desde já, procurando responder a observações de algumas perspicazes leitoras, que o espectro do castelo de Elsenor não aparece nesta história por mero acaso nem por simples capricho do seu autor. Autor é (autor)idade, como muito bem se sabe, sucedendo que não lhe cabe explicar ou prestar satisfações a quem quer que seja, apenas dar a ler ou a tresler, e cada um ou cada uma que se arranje como muito bem puder, se não gostar da comida que deixe na borda do prato, que aquilo que uns não querem estão outros mortinhos por saborear – haja vista aquele caso do jantar de bucho no conto “Os Sinos de Ano Novo”. Só que, condescendendo com a curiosidade manifestada, por vir de quem vem e não de pessoas quaisquer, aproveita o autor para esclarecer que o espectro do castelo de Elsenor aparece neste texto, digamos, por arrasto, visto fazer parte da história de Scrooge logo desde a segunda página da mesma, não sendo de estranhar, pois, que vendo tantos fantasmas à volta do desgraçado protagonista, ele próprio que já ali estava preparado para o que desse e viesse como uma espécie de fantasma residente, se tenha disposto a entrar também em cena. O que isto tem a ver ou não com o Natal, é o lado para que melhor dorme este autor.
Dito isto, e já lá vai quase metade do fascículo de hoje, saiba-se que o espectro do castelo de Elsenor, pronunciadas que foram aquelas suas últimas palavras, desapareceu, súbita e inexplicavelmente, da presença de Ebenezer Scrooge. Ora o prestamista, que nunca tinha ouvido falar de Hamlet nem do dito castelo, ficou a arder de curiosidade, sem possibilidade de saber mais sobre a assombração que o visitara, a qual, depois do terror inicial que lhe causara, até começara a despertar-lhe alguma simpatia. A sua primeira ideia foi a de que poderia ser a alma penada de algum importante senhor das highlands da Escócia, região do reino com bastantes castelos assombrados e grande cópia de espectros dentro deles. Seria, não seria?
Como nenhuma personagem da sua história lhe parecia à altura de o esclarecer, resolveu procurar o Sr. Fish, secretário de Sir Joseph Bowley no conto “Os Sinos de Ano Novo”, conto que estava ali à mão de semear no mesmo livro da história em que ele é protagonista. À pesca do Sr. Fish, fisgou-o naquela parte do conto em que ele está na biblioteca a receber a carta do recadeiro Toby Veck. Pediu licença para lhe falar à parte, alegando ser assunto de família.
- Scrooge, meu velho! – exclamou o Sr. Fish mal o viu, aproveitando logo para pedir notícias de Charles Dickens, o criador de toda aquela gentalha, ao que Ebenezer Scrooge disse nada saber, que até estava um bocado ressentido por causa da caterva de espíritos que ele tinha criado para a sua pessoa, mas que, enfim, tudo tinha já passado, e que ultimamente até havia conhecido um espírito interessante, que se dizia pai de um tal Hamlet e pairava habitualmente num castelo chamado de Elsenor, que ele não sabia onde ficava, mas que agora ardia de curiosidade por saber.
O Sr. Fish deitou-lhe um olho de goraz sabichão, entendido, conhecedor das fossas abissais da alma das personagens, e disse num latim frouxo e arrastado, mal aprendido no curso de bacharel que não chegara a concluir em Oxford:
- Tu quoque, Brute, fili mi !
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Conto de Natal
14 Dezembro 2011
CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 2 )
Foi só ao fim de um certo tempo, o suficiente para que Ebenezer Scrooge sentisse aumentar de forma incontrolável a dor de barriga e se visse na situação humilhante de lhe escorrer pelas pernas uma massa grossa entre o líquido e o pastoso constituída por aquilo que muito bem se imagina, que a assustadora aparição resolveu falar.
– Desgraçado onzeneiro que nunca entrarás na barca santa do auto de Gil Vicente! Fica a saber, infeliz, que não tenho nada a ver com o fantasma do teu sócio - boa encomenda era ele! -, nem com os três espíritos grotescos que te visitaram. Não pertenço a esse mundo de vãs assombrações, mas sim ao dos que sofreram a perfídia, o crime, o roubo dos bens terrenos e do aconchego familiar. A minha mágoa, que uma triste vingança não logrou remediar, arrasta-me pelo mundo como um morto-vivo. Não te acenarei com natais de farta-brutos nem com a felicidade terrena, que não existe, não te procurarei emendar, pois já não tens emenda, quero apenas que saibas algumas coisas e que as possas transmitir a quem estiver a tempo de ainda se servir delas.
O prestamista, apavorado, sondou a porta da sala avaliando as possibilidades de se escapar, mas num momento, tão minúsculo como a cabeça dum alfinete, viu a sua vida toda desde pequenino, e isso fê-lo deter-se. Dir-se-ia que um olho mágico lhe nascera na cara ou que lhe era dado contemplar o aleph de Borges, embora não tivesse consciência de nada disso, coisas que estavam para além do seu tempo e da sua compreensão. Molhado e sujo como um rato de esgoto, mastigava a saliva amarga e tremia do corpo e da alma, mais assustado que Jonas dentro da barriga da baleia ou que Daniel na cova dos leões.
Sim, via a jovem Belle, a quem se ligara por um compromisso antigo, e que o deixara no caminho da vida abandonando o “sonho inútil” de seguir com ele. Certo, ela teria as suas razões, mas faltara-lhe força para se impor e contribuir para a sua transformação como homem. Lentamente, à medida que via mais episódios da sua vida, o temor regredia e uma relativa tranquilidade começava a instalar-se na sua pessoa. A influência deste quarto espírito levava Ebenezer Scrooge a ver os factos do seu passado de maneira diferente, a tomar como certo que nenhum homem vale por si só, sendo fruto das suas tendências e das tendências de todos os que o rodeiam. Porque falhara a sua relação com Belle? Vivia agora uma vida tranquila e sem história, ainda que com uma filhinha querida, na companhia do marido, rindo-se das suas singularidades de prestamista velho e avarento. E atreveu-se a questionar a assombração.
– Sabes, espírito? Desde que me apareceste já passei de um estado de completo terror à compreensão de algumas coisas importantes. Quem és tu, afinal?
O espírito pareceu tornar-se maior como uma sombra que cresce da própria sombra até encher por completo todo o espaço em que se concentra. Mas já não era assustador. E disse:
– Sou o único espírito verdadeiro a que o teu criador se referiu no conto que escreveu. Sou o espírito do pai de Hamlet, o espectro do castelo de Elsenor.
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13 Dezembro 2011
CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 1 )
Ebenezer Scrooge, prestamista da praça de Londres no tempo da rainha Vitória, sempre acreditara nas potencialidades dos mercados financeiros, na mão invisível que dirige a economia, nas vantagens de poupar dinheiro e nas virtudes do juro que Santo Agostinho tão injustamente vilipendiara. Porém, assediado em vésperas de Natal por três espíritos perversos, modificou inopinadamente a sua forma de pensar, acabando por oferecer um peru de elevado preço ao seu empregado Bob Cratchit – um calaceiro que se deixava dormir sobre a carteira de amanuense enquanto copiava com infinito vagar, ao ritmo fatigado da sua pena de pato, as desassossegantes frases do mister de agiota : “Aos tantos dias do mês tal, do ano tal, pagará por esta minha única via de letra, a mim ou à minha ordem, a quantia de tal e tal e tal.”
Ainda que embarcado nesta onda de abro-as-mãos-e-dou-o-que-tenho-e-tu-não-tens, Ebenezer Scrooge, que não era parvo, ia meditando nas consequências para o negócio da sua inesperada fraqueza natalícia. Espíritos persuasores e desavergonhados, aqueles três que o haviam visitado – pensava. Mal sabia ele que com o oferenda do peru ao seu empregado, instituíra entre o patronato o hábito das broas, mais tarde conhecido pelo nome prosaico de subsídio de Natal, remunerações tão estapafúrdias e perigosas que os governos dos séculos seguintes se veriam obrigados a legislar no sentido de as moderar ou até acabar com elas. Mas adiante.
Ebenezer Scrooge, passados os efeitos da emoliente catequese dos três espíritos, já meditava naquilo que agora se sabe e em mais umas quantas coisas – como, por exemplo, a melhor forma de fazer a penhora duma casa cujo proprietário tinha as rendas do empréstimo em atraso ou a conveniência de preparar novas aplicações em papéis da dívida pública –, quando de um canto da sua sala, por detrás de uma cómoda de nogueira velha em que guardava as modestas roupagens, lhe surge, enorme e tenebroso, o vulto de um quarto espírito.
– Quem és tu? – perguntou com uma grande secura de boca, sentindo comichões nos artelhos e um forte congestionamento abdominal.
O espírito fez-se bronco, fingindo que não ouvia, e Ebenezer Scrooge pôde ver-lhe o cenho carregado e feio, a fímbria da túnica dez centímetros acima do soalho, sem pés que se notassem, e as mãos lívidas como nuvens que lhe saíam das mangas largas e ilusórias.
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Conto de Natal
12 Dezembro 2011
Respondendo a um auto desafio, com a condescendência do autor e esperando mais episódios, aqui vai uma continuação:
O CONTO DE NATAL CONTINUA
Enquanto atravessava a Rua do Ouro, por entre a azáfama de mais um Natal, recordava, sim, esse episódio já longínquo, as dúvidas que ainda o assaltaram, antes que acabasse a magia do período anual da solidariedade que também a ele envolvia.
Passadas quase duas décadas, muitas coisas tinham acontecido, mas não conseguia deixar de evocar algumas impressões que o tinham marcado naquela altura, nem ele sabia exactamente porquê e lhe surgiam agora, como um eco intemporal.
Bem, diga-se em abono da verdade que, passadas as primeiras sensações, depois de sair, um tanto atordoado, da zona do hospital, onde se tinha dirigido para dar sangue, fazendo o que considerava a boa acção de uma vida, caiu em si, e reflectiu mais maduramente sobre a situação em presença.
Desde logo, apercebeu-se que as dúvidas quanto ao seu estado efectivo de saúde talvez não fossem de desprezar, pois apesar de ser novo e se sentir no auge do vigor físico, os riscos que tinha corrido de contrair H.I.V. ou outra doença sexulamente transmissível, eram reais, e conforme as horas daquele mesmo dia se passavam, entre as deslocações na cidade e os deveres programados, a dúvida insidiosa crescia no seu subconsciente, e um pensamento insistente tomava forma: e se...? Sim, havia uma voz contraditória que se sobrepunha à estouvadice instalada, ao resultado prático de uma filosofia de vida que tinha como móbeis principais os desejos, a vontade, os gostos, os interesses exclusivamente pessoais, num registo de egocentrismo carinhosamente cultivado, dir-se-ia até, cultivado com requintes, em rotinas inalteráveis que dificilmente se compaginavam com as de outras pessoas. Acontecia sobretudo que, mau grado, estas dúvidas começavam a minar aquela barreira de segurança e certezas que tão cuidadosamente tinha construído para si mesmo.
Recordava o quanto tinha ficado contrariado por se sentir como que excluído da participação solidária do espírito natalício, para logo a seguir voltar à preocupação exclusiva consigo mesmo.
Enquanto descia as escadas da estação do Metro e, como um autómato, passava as barreiras para as plataformas, reflectia sobre o pouco que, na realidade, tinha mudado na sua vida.
Havia, no entanto, mais qualquer coisa, sim, havia uma consciência diferente de si mesmo, uma capacidade de auto-distanciamento que a idade proporciona (nem tudo se perde). Até parecia que o Natal era uma época propícia a descobertas inéditas. Foi então que o zunir do rodado ritmado, acelera-desacelera do comboio lhe trouxe uma pergunta insistente: que sentido, que sentido, que sentido? Ao mesmo tempo pensava, que tolice, isto não são os sinos do Ano Novo!
Relanceando o olhar pela carruagem, apercebeu-se da indiferença mole que rastejava pelas superfícies encardidas e se colava à roupa, às malas e mochilas, à pele dos passageiros e apeteceu-lhe gritar, na certeza de que ninguém o ouviria: a minha vida é de uma monotonia atroz!
A seu tempo, tinha deliberadamente trocado compromissos pessoais, afectivos, quiçá familiares, pela liberdade concreta de uma vida de quase isolamento. Perguntava-se agora que liberdade era essa, cujo preço eram horas a mais a sós consigo e com o seu vazio interior. Alguma coisa de essencial lhe tinha escapado, nas escolhas que julgara fazer; o que tinha, apenas o devolvia sempre a si mesmo, numa espiral depressiva, e isso era mais doloroso de admitir que aquela incapacidade de dar sangue de há duas décadas atrás.
O CONTO DE NATAL CONTINUA
Enquanto atravessava a Rua do Ouro, por entre a azáfama de mais um Natal, recordava, sim, esse episódio já longínquo, as dúvidas que ainda o assaltaram, antes que acabasse a magia do período anual da solidariedade que também a ele envolvia.
Passadas quase duas décadas, muitas coisas tinham acontecido, mas não conseguia deixar de evocar algumas impressões que o tinham marcado naquela altura, nem ele sabia exactamente porquê e lhe surgiam agora, como um eco intemporal.
Bem, diga-se em abono da verdade que, passadas as primeiras sensações, depois de sair, um tanto atordoado, da zona do hospital, onde se tinha dirigido para dar sangue, fazendo o que considerava a boa acção de uma vida, caiu em si, e reflectiu mais maduramente sobre a situação em presença.
Desde logo, apercebeu-se que as dúvidas quanto ao seu estado efectivo de saúde talvez não fossem de desprezar, pois apesar de ser novo e se sentir no auge do vigor físico, os riscos que tinha corrido de contrair H.I.V. ou outra doença sexulamente transmissível, eram reais, e conforme as horas daquele mesmo dia se passavam, entre as deslocações na cidade e os deveres programados, a dúvida insidiosa crescia no seu subconsciente, e um pensamento insistente tomava forma: e se...? Sim, havia uma voz contraditória que se sobrepunha à estouvadice instalada, ao resultado prático de uma filosofia de vida que tinha como móbeis principais os desejos, a vontade, os gostos, os interesses exclusivamente pessoais, num registo de egocentrismo carinhosamente cultivado, dir-se-ia até, cultivado com requintes, em rotinas inalteráveis que dificilmente se compaginavam com as de outras pessoas. Acontecia sobretudo que, mau grado, estas dúvidas começavam a minar aquela barreira de segurança e certezas que tão cuidadosamente tinha construído para si mesmo.
Recordava o quanto tinha ficado contrariado por se sentir como que excluído da participação solidária do espírito natalício, para logo a seguir voltar à preocupação exclusiva consigo mesmo.
Enquanto descia as escadas da estação do Metro e, como um autómato, passava as barreiras para as plataformas, reflectia sobre o pouco que, na realidade, tinha mudado na sua vida.
Havia, no entanto, mais qualquer coisa, sim, havia uma consciência diferente de si mesmo, uma capacidade de auto-distanciamento que a idade proporciona (nem tudo se perde). Até parecia que o Natal era uma época propícia a descobertas inéditas. Foi então que o zunir do rodado ritmado, acelera-desacelera do comboio lhe trouxe uma pergunta insistente: que sentido, que sentido, que sentido? Ao mesmo tempo pensava, que tolice, isto não são os sinos do Ano Novo!
Relanceando o olhar pela carruagem, apercebeu-se da indiferença mole que rastejava pelas superfícies encardidas e se colava à roupa, às malas e mochilas, à pele dos passageiros e apeteceu-lhe gritar, na certeza de que ninguém o ouviria: a minha vida é de uma monotonia atroz!
A seu tempo, tinha deliberadamente trocado compromissos pessoais, afectivos, quiçá familiares, pela liberdade concreta de uma vida de quase isolamento. Perguntava-se agora que liberdade era essa, cujo preço eram horas a mais a sós consigo e com o seu vazio interior. Alguma coisa de essencial lhe tinha escapado, nas escolhas que julgara fazer; o que tinha, apenas o devolvia sempre a si mesmo, numa espiral depressiva, e isso era mais doloroso de admitir que aquela incapacidade de dar sangue de há duas décadas atrás.
11 Dezembro 2011
POEMETO EM PROSA PARA UM ANO NOVO
Pedes aos deuses que te favoreçam; ao destino, que te poupe; ao acaso, que te seja propício; e até pedes aos teus irmãos ainda mais pobres que te ajudem!
Só a ti próprio não pedes esmola, mendigo!
Porque não pedes esmola a ti próprio? Verias que és muito mais rico do que julgas.
JOSÉ RÉGIO, Colheita da Tarde
10 Dezembro 2011
UM POEMA DE NATAL de Fernando Pessoa
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
FERNANDO PESSOA, Poesias, Edições Ática
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
FERNANDO PESSOA, Poesias, Edições Ática
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Poemas de Natal
UM CONTO DE NATAL de Alexandre O´Neill
A ideia de há muito que o andava a desassossegar. Depois dos primeiros ensaios de auto-apoucamento, Valério conseguiu um primeiro grande resultado: meter-se todo, todinho, numa das pernas (por sinal, a esquerda) do par de calças de sarja que comprara nas Confecções Nilo por trezentos convidativos escudos. Com voz-de-dentro-de-calça chamou a mulher:
- Ó Quinhas anda ver!
levou um susto ao dar com uma perna de calça sustentando-se em pé sem, aparentemente, homem lá dentro. Logo se refez para fingir que não era capaz de o encontrar:
- Mas onde é que se teria metido meu Lèrinho!
- Aqui, sua estúpida! – desabafou-abafou a voz de Valério.
Quinhas continuava a brincadeirinha apalpando a perna vazia e bichanando:
- Lèrinho, Lèrinho!
Quando Valério, por fim, se libertou da perna da calça e retomou o seu (natural) ascendente, trocaram prazenteiramente insultos como só os casais muito unidos sabem trocar.
Quinhas seguira os exercícios de auto-apoucamento de Valério. Este começara a enovelar-se pelos cantos da casa: passara de seguida aos gavetões da cómoda e acabara por ser encontrado numa das gavetas da mesa da cozinha. Dessa feita, Quinhas gritara. É que Valério saltara lá de dentro e avantajara-se brandindo aos urros um facalhaz.
- Que horror, querido, pareces um cossaco! – dissera Quinhas que, no autocarro dessa manhã, lera nas Selecções um artigo dum biólogo americano sobre cossacos.
E, então, solenemente, como só os casais muito amigos sabem fazer, combinaram logo ali que Valério, por mais apoucado e encafuado que estivesse, não pregaria sustos daqueles à sua Quinhas. E beijocaram-se, prazidos. Os exercícios de auto-apoucamento de Valério tinham um fim: preparar a grande surpresa para o Necas, quando ele viesse a férias pelo Natal. E vai daí – como o tempo corre! – o Necas veio. Valério considerou o filho com apreensão. Valeria a pena a surpresa? Necas estava tão grande! Aquela sombra no beiço, aquela voz do peito pontuada de estridulações…
- Ora, o Necas é ainda tão criança! – sossegou-o Quinhas.
Criança que era, o Necas só muito raramente acordava no meio do sono com as movimentações tardias que naquela casa estavam a ser o teor diário. Mas na véspera do Natal, o silêncio foi inesperadamente tão grande que o Necas passou toda a noite numa excitação que nem te digo. Coisas de crianças, coisas da quadra?
Ao levantar-se, pés nus, para ir ver o sapatinho, o Necas já ia a bordo dos patins que a mãe lhe prometera. Quando deu com o pai, apoucado, a acenar-lhe amigavelmente da amurada do sapato, Necas fugiu a procurar no regaço de Quinhas a verdadeira dimensão do seu horror:
- Sa…Sa…Saiu-me o…o… o pai no sa…sa…sapato! – soluuuuçava o órfão de vivo. E a mãe, ultrapassada pela reacção do Necas, consolava-o como ia podendo, prometendo-lhe que o pai voltaria a crescer, a crescer.
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Contos de Natal
09 Dezembro 2011
SESSÃO DE DEZEMBRO - "Contos de Natal" de Charles Dickens
Piero di Cosimo (1462-1521), "Madona com Menino Jesus lendo", óleo sobre madeira, Museu de Belas Artes de Estocolmo.
Contrariamente ao que se chegou a admitir, a sessão de Dezembro terá lugar , como é habitual, na última sexta-feira do mês, dia 30, que também é a última do ano. Que o leitor da imagem vos inspire.
04 Dezembro 2011
01 Dezembro 2011
PALAVRAS PARA QUE VOS QUERO
Não é só o Charles Dickens que tem contos de Natal...
Aqui vai um conto de Natal deste escriba, escrito em 2006 e agora revisto e corrigido (se é que tem correcção possível!) para publicação neste exigente blogue:
UM CONTO DE NATAL
Aqui vai um conto de Natal deste escriba, escrito em 2006 e agora revisto e corrigido (se é que tem correcção possível!) para publicação neste exigente blogue:
UM CONTO DE NATAL
Assediava-o um inusitado desejo de praticar o bem, de amar o próximo como a si mesmo, de se abrir a rasgos de generosidade em relação a indigentes e outros desprotegidos da sorte. Quem o conhecia – amador da sua pessoa acima de todas as coisas – só podia atribuir tal modificação ao espírito do Natal, ao ambiente da quadra festiva que se vivia. Os ornamentos das ruas, os apelos à paz e ao amor feitos em baladas cheias de emoção que a rádio e as instalações sonoras das superfícies comerciais com tanta insistência difundiam, contribuíam para reforçar os laços de solidariedade entre os homens, para fazer despertar os tesouros da fraternidade, e enchiam-lhe o coração de bons sentimentos e benévolas disposições. Depois de todo um ano em que atraiçoou amizades, atropelou direitos, mentiu e guerreou, era extraordinário sentir o maravilhoso estado de alma que nele se manifestava!
Naquele Natal, a maior das boas acções que tinha projectado praticar era a de fazer uma dádiva de sangue. Havia tantos acidentes na estrada, tantas pessoas internadas dependentes de transfusões e, por outro lado, como os serviços de saúde não cessavam de informar, tanta falta de sangue de todos os tipos, que estava firmemente disposto a tornar-se um dador benévolo.
Foi assim que numa manhã da semana que antecedia o Natal, transbordando de amor pelo próximo, rumou ao serviço de recolha de sangue do hospital da sua área. Tirou a senha, esperou pelo atendimento, e não demorou muito a sentar-se diante de uma jovem médica, bonita e inquiridora.
- Idade?
- 29 anos.
- Estado civil?
- Solteiro.
- Sofre de alguma doença crónica?
- Não.
- Alguma vez teve relações sexuais com homens?
Aturdiu-se com esta pergunta.
- Sim ou não? – insistiu ela.
- Não!
- Alguma vez utilizou drogas por via endovenosa?
- Não!
- Quantos parceiros sexuais teve nos últimos seis meses?
Aqui hesitou na resposta. Não se importava nada de declinar o número de mulheres com quem praticara sexo nos últimos tempos. Afinal até era daqueles que tomavam nota na agenda de cada vez que uma nova experiência lhe acontecia. Não fazia segredo das suas conquistas e tinha sempre aberta, para quem quisesse ver, a sala dos troféus. Mas incomodava-o que a questão lhe fosse colocada de forma tão neutra e profissional por uma jovem médica de rosto atraente e, sobretudo, que ela não tivesse juntado ao radical da palavra “parceiros” o morfema de género feminino “a” adequado à sua condição de heterossexual. Mas lá respondeu, enfatizando a palavra “parceiras”. A médica então perguntou:
- Usou sempre preservativo?
Meteu a mão na consciência, até estava com vergonha de responder, mas logo se abriu perante a insistência dela. E foi aí que as coisas começaram a complicar-se. Tinha tido não uma, mas várias relações de risco, o que não quadrava com os padrões comportamentais definidos para a aceitação de sangue dos dadores. Ainda por cima fizera uma tatuagem nas costas, adorno corporal que pareceu não agradar à médica.
- Bem, para já não podemos aceitar o seu sangue. Vamos ter de fazer análises e o senhor terá de aguardar pelos resultados.
Esmagado pela rejeição, tartamudeou umas palavras de súplica: que não havia nada de mal com o seu sangue, que era um homem saudável, que aceitassem a dádiva e logo fariam as competentes análises, veriam como era sangue de primeira qualidade, sem nenhum problema.
- E pensa o senhor que o hospital pode dar-se ao luxo de gastar bolsas de recolha e demais consumíveis com sangue que poderá não estar em condições? Até parece que não conhece o rigor das restrições orçamentais! – Isto disse a médica enquanto aprontava uma seringa para realizar uma colheita de análise.
Saiu cabisbaixo, infeliz. Ainda passou pela salinha anexa para comer umas bolachas e beber um cálice de vinho do Porto. Estava mesmo a precisar.
Dispusera-se a cumprir uma boa acção que pudesse integrá-lo de forma plena na onda de fraternidade da quadra natalícia, e era impedido de o fazer por um sumaríssimo inquérito que lhe descobrira uma tatuagem nas costas e uns quantos episódios de sexo inseguro. Francamente, já não se podia viver o espírito do Natal!
Dispusera-se a cumprir uma boa acção que pudesse integrá-lo de forma plena na onda de fraternidade da quadra natalícia, e era impedido de o fazer por um sumaríssimo inquérito que lhe descobrira uma tatuagem nas costas e uns quantos episódios de sexo inseguro. Francamente, já não se podia viver o espírito do Natal!
No caminho para casa ia meditando, pesaroso, na melhor forma de ultrapassar aquele revés. Distribuir comida aos sem-abrigo do bairro? Dar esmola para as obras de caridade da igreja? Comprar uma caixa de postais de boas-festas da Unicef? Alguma solução teria de encontrar para concretizar os seus desejos de amor pelo próximo, e não poderia passar daqueles poucos dias que ainda faltavam para a festa do nascimento do Menino Jesus. É que depois já seria tarde: a seguir ao Natal, voltaria certamente a estar muito preocupado consigo e com os seus projectos pessoais.
29 Novembro 2011
Contos de Natal - CHARLES DICKENS - 16 de Dezembro
"O Natal do Senhor Scrooge" e "Os Sinos de Ano Novo" - contos de Natal de Dickens. Podem ser lidos na Colecção Mil Folhas do Público. O título Balada do Natal (Editorial Gleba) corresponde ao primeiro daqueles contos.
AINDA A SESSÃO DA MADEIRA
Notícia e comunicações dos membros da Comunidade em:
www.bprmadeira.org/site/index.php/noticias/1234-aconteceu
www.bprmadeira.org/site/index.php/noticias/1234-aconteceu
24 Novembro 2011
IMAGENS DO OCEANO DE SOLARIS II
Algumas outras criações do oceano, as quais são muito mais raras e de duração muito variável, separam-se por completo do corpo que as gerou. As primeiras descobertas destas “independentes” foram consideradas – erradamente, como mais tarde se provou – restos de criaturas que vivem nas profundezas do oceano. (…) Nas saliências rochosas de uma ilha aparecem ocasionalmente estranhos corpos semelhantes a focas, estendidos ao sol ou arrastando-se preguiçosamente até voltarem a fundir-se com o oceano.
LEM, Stanislaw - Solaris, Mem Martins, Publicações Europa-América, 2003, p. 134.
22 Novembro 2011
18 Novembro 2011
"SOLARIS" de Stanislaw Lem - 25 de Novembro, 21 horas
Estou a ler com interesse este romance do subgénero ficção científica que é o nosso livro do mês. Acabei de entrar no capítulo VI, “The Little Apocrypha”, encontrando uma referência cultural de vulto: nada mais nada menos que a Martinho Lutero (1483-1546), frade agostinho, professor de Sagradas Escrituras em Wittenberg (lembram-se de Hamlet?), intimado pela bula Exsurge Domini a retractar-se das suas noventa e cinco teses contra a virtude das indulgências concedidas pelo Papa aos contribuidores para as obras de reconstrução da Basílica de São Pedro.
Num diálogo entre Snow, um perito em cibernética da Estação Solaris, e Kris Kelvin, psicólogo chegado da Terra, pergunta o primeiro, aludindo à forma possível de o seu interlocutor afastar uma inquietante aparição que o obsidiava: “Tentou a corda, o martelo? Ou o tinteiro com boa pontaria, como Lutero?”.
Isto porque Lutero, num dos seus retiros espirituais, terá sido visitado pelo diabo que lhe entregou uma extensa lista dos seus pecados. O frade pecador examinou-a, mas num acesso de cólera contra o tentador arremessou-lhe um frasco de tinta vermelha que estava sobre a sua escrivaninha. Parece que o mafarrico terá metido o rabo entre as pernas e retrocedido sem delongas para as profundezas infernais.
Continuemos a leitura.
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Livro do mês,
Lutero
17 Novembro 2011
PLANO DE LEITURAS PARA 2012
1º trimestre
Janeiro – Ficções de Jorge Luís Borges
Fevereiro – Quando Nietzsche Chorou de Irvin D. Yalom
Março – A Brasileira de Prazins de Camilo Castelo Branco
2º trimestre – Autores portugueses contemporâneos
Abril – O Ouro dos Corcundas de Paulo Moreiras
Maio – O Bazar Alemão de Helena Marques
Junho – Quando o Diabo Reza de Mário de Carvalho
3º trimestre – Clássicos
Julho - Fedra de Eurípedes
Agosto – O Príncipe de Nicolau Maquiavel
Setembro – O Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão
4º trimestre – Autores brasileiros
Outubro – Seara Vermelha de Jorge Amado
Novembro – Perto do Coração Selvagem de Clarice Lispector
Dezembro – Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis
Nota: as sessões de leitura realizam-se na última sexta-feira de cada mês a partir das 21 horas.
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