01 setembro 2015

"Palácio da Lua" de Paul Auster, 25 Setembro - 20h30


"Foi no Verão em que o Homem caminhou pela primeira vez na Lua.
Eu era muito jovem nessa altura, mas não acreditava que viesse a haver um futuro. Queria viver perigosamente, pegar em mim e levar-me tão longe quanto possível e, depois, quando lá chegasse, logo veria o que me aconteceria."

In "Palácio da Lua" de Paul Auster

31 agosto 2015

Palavras para que vos quero

Com o sentido de dinamizar o blog, criámos em tempos a série "Palavras para que vos quero" com o objectivo de publicar pequenos textos dos membros da nossa Comunidade. Durante algum tempo foram sendo publicados alguns com esta etiqueta, mas depois a ideia foi caindo aos poucos. Assim lembrei-me de lançar o desafio: vamos ressuscitar o tema? Os nossos leitores que tenham textos que gostassem de ver por aqui, podem enviar para mim que eu publico.

Edvard Munch - Tavern in St. Cloud, 1890

O despertar

Acordou lentamente com a cabeça a querer explodir. Demorou a perceber onde estava. Tentou abrir os olhos e o sol que entrava pela janela atingiu-o violentamente como se de um raio se tratasse. A rigidez por baixo do seu corpo fê-lo perceber que não estava na cama. Dolorosamente abriu os olhos e viu que estava no chão da sala, com uma das pernas apoiada no sofá. Apesar do silêncio em casa ser absoluto, sentiu que devia ser tarde pelos barulhos exteriores. Ouvia-se o piano da vizinha do lado e gritos de crianças a brincar no jardim da frente. Levantou-se cambaleando ainda com os efeitos do álcool a fazer-se sentir. Ao passar na entrada viu que a cozinha estava vazia e dirigiu-se para os quartos, percebendo rapidamente que estava sozinho. Quando espreitou o quarto do filho pareceu-lhe que alguma coisa estava errada, tendo a confirmação quando entrou no seu quarto. Alguns dos objectos tinham desaparecido de cima da cómoda, as portas do roupeiro estavam abertas e faltavam roupas. As roupas da sua mulher. Sentiu o estômago a contrair-se. Correu de novo para o quarto do filho, agora totalmente desperto. A maior parte dos brinquedos tinham desaparecido, os armários praticamente vazios, tudo com o aspecto de ter sido esvaziado à pressa. Correu à casa de banho e também ali faltavam escovas, boiões e outros objectos pessoais. No escritório, a secretária da sua mulher parecia ter sido varrida pelo vento, faltava o portátil e havia papeis, lápis e clips espalhados, como se ela tivesse feito uma recolha rápida das coisas mais básicas, numa imensa pressa de partir. Sentiu um vómito súbito e fez um esforço para o controlar. Voltou à sala e só então percebeu a desordem na mesma. Duas cadeiras estavam caídas, havia revistas pelo chão e a jarra com flores habitualmente em cima da mesa grande tinha caído com a água a manchar a superfície. Fez um esforço para se lembrar do que tinha acontecido na véspera, mas o cérebro ainda estava cheio de nuvens pesadas. Foi à cozinha e o caos era total, havia louça partida, bancos caídos, comida espalhada pelo chão e …. sangue, manchas de sangue na porta do frigorífico. Sentiu-se gelar. Cambaleou e teve que se apoiar no balcão para não cair. A imagem da mulher a ser violentamente atirada contra o frigorífico fez-se nítida na sua mente. Lembrou-se do grito e do seu olhar de infinita surpresa antes de cair desamparada no chão. Recordou-se de a ter pontapeado numa fúria incontrolável e quando ela ficou quieta e enrolada sobre si mesma dirigiu-se à sala e simplesmente apagou. E agora estava sozinho. O que tantas vezes lhe passara pela cabeça acontecera. O álcool tinha-o levado longe demais e fizera-o perder o controlo. Olhou para cima do frigorífico e viu a fotografia do filho, a rir numa gargalhada feliz, de olhos grandes e expressivos. Agarrou a moldura, apertando-a contra o peito e desmoronou, caindo por terra. As lágrimas brotaram num soluço incontrolável, percebendo que tinha perdido o que de melhor a vida lhe dera. A raiva contra si próprio inundou-o fazendo-o bater a cabeça repetidas vezes no chão. Ao mesmo tempo começou a sentir uma nova força a crescer dentro de si. Ia lutar contra o maldito vício, ia recuperar a sua família e o seu trabalho. Poderia levar meses, anos, mas iria conseguir. E começou lentamente a levantar-se ...

Custódia (Abril 2009)

10 agosto 2015

"As Horas" de Michael Cunningham, 28 de Agosto, 20h30


"Ainda falta comprar flores. Clarissa finge-se exasperada (embora goste de fazer recados deste género), deixa Sally a limpar a casa de banho e sai apressada, prometendo voltar dentro de meia hora.

Isto passa-se na cidade de Nova Iorque. No fim do século XX.

A porta do vestíbulo abre-se para uma manhã de Junho tão bonita e limpa que Clarissa se detém no limiar como se deteria à beira de uma piscina, a admirar a água cor de turquesa beijando os azulejos, as redes líquidas de sol oscilando no fundo azul ..."

in "As Horas" de Michael Cunningham, capítulo "Mrs. Dalloway"


05 agosto 2015

«AS ONDAS» DE VIRGÍNIA WOOLF-FLUXO DE CONSCIÊNCIA


 
                             

«O romance “As Ondas” abandona a estrutura tradicional e a narrativa do romance Inglês que vigorava desde Henry Fielding (XVIII). Em vez de narrar de fora as acções dos personagens, Virginia Woolf entra nas suas mentes e relata os seus pensamentos e percepções, enquanto eles ocorrem.Virginia Woolf forma os personagens de dentro para fora, e uma das preocupações do romance é o modo como as personalidades e sensibilidades são formadas pela relação com os outros. Os seis personagens estão interligados de tal forma que os tempos vividos por eles são os mesmos e a memória é deflagrada por algo que presenciam conjuntamente, ou por uma situação semelhante pela qual todos estejam a viver, não havendo por isso personagem principal. Como exemplo, aponta-se o momento em que vão à escola pela primeira vez, e cada um dos personagens apresenta a sua visão da situação, ao descrever e analisar o que estão a viver. As informações sobre as situações são dadas aos poucos, subjectivamente, de acordo com as percepções e os sentimentos individuais.

Ao invés de resumir para nós o que os personagens vêem , pensam e fazem , relatando a partir do exterior , ou arrumar os pensamentos dos personagens em padronizadas frases claras , Woolf tenta dar ao leitor a impressão de como é estar dentro da cabeça dos personagens. Em cada narrador/personagem , temos uma combinação de pensamentos, sensações , memórias , descrições , acções e falas, e devemos separar por nós mesmos o que é puramente "interno" e o que é uma combinação de "interno" e "externo". O monólogo interior, que internaliza o conceito de fluxo de consciência, apresenta a sequência de pensamentos de um personagem em actividade sempre contínua e marcada por influências externas e internas, como sentimentos e sensações presentes e passadas, ou a expressão racional de uma ideia. Essa técnica narrativa, ao explorar o movimento da consciência e capturar o pensamento no momento mesmo de sua concepção, traz inúmeras possibilidades associativas e uma imagem mais realista da psicologia.

O conceito de fluxo de consciência (stream of consciousness) , foi desenvolvido por William James em “Princípios de Psicologia” (1890), em que explica a consciência como um fluxo contínuo ao estabelecer relações entre eventos presentes e passados, num movimento ininterrupto de sentimentos, impressões, percepções e pensamentos. Associado à narrativa woolfiana, esse conceito transforma-se em técnica narrativa.

Percebe-se, então, como toda a estrutura do romance está baseada no movimento das ondas, que podem representar, também, a própria técnica narrativa do fluxo de consciência, ou seja, o próprio movimento do pensamento das personagens, num ir e vir incessante e infinito.»

Por Davide Freitas, 30 de Julho de 2015

03 agosto 2015

Virginia Woolf's Suicide letter to Leonard Woolf As Horas, 2002





Entrando em Agosto,  fazendo a ligação entre o livro do mês passado e o deste mês de veraneio, aqui fica um excerto do filme (a carta e o suicídio de Virgínia Woolf) «As Horas» de 2002, realizado por Stephen Daldry.O mesmo que conferiu o Óscar de melhor actriz a uma irreconhecível Nicole Kidman, adaptação do livro com o mesmo título de Michael Cunningham, vencedor do Prémio Pulitzer de 1999. Diálogo aberto entre obras e o irresistível apelo da adaptação cinematográfica (intertextualidades, Manuel?). Pesos muito pesados para este Verão, mas que prometem.





22 julho 2015

A última carta a Leonard

Leonard e Virgínia

"Querido, tenho certeza de que estou enlouquecendo de novo. Sinto que não podemos passar por outra daquelas terríveis fases. E desta vez não ficarei curada. Começo a ouvir vozes, e não posso me concentrar. Assim, estou fazendo o que me parece melhor. Você me deu a maior felicidade possível. Não creio que duas pessoas pudessem ser mais felizes até chegar esta doença terrível. Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando a sua vida e que sem mim você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Está vendo, nem consigo mais escrever adequadamente.

Não consigo ler. O que quero dizer é que devo a você toda a felicidade da minha vida. Você foi absolutamente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso — e todo mundo sabe. Se alguém pudesse me salvar, teria sido você. Perdi tudo, menos a certeza da sua bondade. Não posso mais continuar estragando sua vida. Não creio que duas pessoas tenham sido mais felizes do que nós fomos."

Encontrei a carta nesta página. Vale a pena ler o ensaio de Euler de França Belém.

10 julho 2015

[Quarta, 16 de Setembro] [1931]
Ah, mas esta manhã sou como uma abelha na flor da hera - não consigo escrever de tanto prazer. O John diz [sobre As Ondas] : «Mas adorei, adorei de verdade, e impressionou-me profundamente, fiquei assombrado pelo que conseguiu fazer com um método inteiramente novo... Parece-me que só existe uma parede finíssima a separar a poesia de um romance como o seu. Você consegue aliar a velocidade da prosa à intensidade da poesia.»

09 julho 2015

IMPRESSÃO, SOL NASCENTE

CLAUDE MONET (1872), óleo sobre tela, 48 cm x 63 cm, Museu Marmottan
 
«Um disco de fogo ardeu no rebordo do horizonte e o mar à sua volta tornou-se um esplendor de ouro.» --- VIRGINIA WOOLF, As Ondas.
Começo a leitura, hoje, com um fio de impressionismo atravessado nos olhos.


21 junho 2015

LEITURA DO D. QUIXOTE EM ALMADA

Fotos: o livro, vista parcial do grupo, leitura pura e instalação com v de vitória
Fala do cónego para o cura no capitulo XLVII: «Nunca vi um livro de cavalarias que faça um corpo de fábula inteiro com todos os seus membros, de maneira que o meio se harmonize com o princípio, e o fim com o princípio e o meio; mas compõe-nos com tantos membros que mais parecem ter a intenção de formar uma quimera ou um monstro que formar uma figura proporcionada.»
Compare-se esta passagem de “D. Quixote” com Horácio, “Arte Poética”, 1-8: «Se um pintor quisesse juntar a uma cabeça humana um pescoço de cavalo e a membros de animais de toda a ordem aplicar plumas variegadas, de forma que terminasse em torpe e negro peixe a mulher de bela face, conteríeis vós o riso, ó meus amigos, se a ver tal espectáculo vos levassem? Pois crede-me, Pisões, em tudo a este quadro se assemelharia o livro, cujas ideias vãs se concebessem quais sonhos de doente, de tal modo que nem pés nem cabeça pudessem constituir uma só forma.»


18 junho 2015

ASSOBIO NA NOITE





Assobio na noite, o terceiro conto de O Belo Adormecido de Lídia Jorge, nossa leitura de junho. Referência, aparentemente desgarrada, a Caravaggio, a propósito, é certo, de estudos que o protagonista, Prof. Reinaldo Mateus (a gente pensa logo em Reynaldo dos Santos...), teria desenvolvido, sobretudo no seu quinto livro, cuja matéria versava sobre o famoso pintor lombardo.
E digo referência desgarrada, por me escapar o possível nexo que a escritora, de alguma forma críptica (pelo menos para mim), terá estabelecido com o desenrolar da história.
Assim, surgem, ao longo dos primeiros quatro parágrafos, três pontos que parecem importantes e dos quais se poderia esperar um papel estruturante da narrativa ou então, que eles se constituíssem como chaves de uma interpretação. Ora, a sensação final que colhi da leitura do conto foi a de um certo "desperdício", no sentido destas expetativas, legítimas ou não. É como se a autora nos deixasse pendurados nestas mesmas expetativas, optando por uma certa descontinuidade, de propósito ou não.
Esses pontos são os seguintes: (i) o sonho recorrente, no qual surge (ii) uma faca, que ele identifica como sendo a de Caravaggio, objeto mítico, no qual estaria gravada (iii) uma frase: Onde não há esperança, não há medo.
A partir de uma pesquisa mínima e de alguma reflexão percebe-se, em primeiro lugar, a riqueza argumentativa e bases de discussão contidas naqueles três pontos. Depois... fico à espera dos contributos de quem também não achar o assunto despiciente...

11 junho 2015

"O Belo Adormecido" de Lídia Jorge, 26 Junho - 20h30


No mês em que entramos no solstício de Verão, temos seis contos da Lídia Jorge para descobrir. O mais longo é o que dá o nome ao livro e conta a história de um encontro entre uma actriz já madura e um rapaz adolescente. 

Avancemos então para mais uma aventura literária …

07 junho 2015


NESTAS AREIAS, escreveu-se a história de Paulina e Brandão. Amores infelizes.
Na colina sobranceira, o edifício do Lazareto.
Artes de fotografia a ver passar a regata.
Outras leituras.

 

03 junho 2015

A VER ALMADA(S)











Átrios de Honra (?) das Gares Marítimas de Alcântara e Rocha do Conde de Óbidos (o Palácio respetivo a pontuar a encosta, atual Cruz Vermelha).Os fabulosos painéis de Almada Negreiros, ali à mercê da nossa vista, deleite estético, observação em busca de contextos, motivos, símbolos, intenções do artista. Composições, de maravilhosas (A Nau Catrineta...) a denunciantes (ou apenas descritivas?) de situações sociais, o mundo do trabalho duro à beira rio, a dor da despedida no embarque. Várias realidades, um mesmo mundo, aquele que o Estado Novo queria ver plasmado nas primeiras imagens que o estrangeiro captasse, ao desembarcar na capital, sendo também estas das últimas a fixar para quem partia...
Os painéis que abrem, para nós, estas janelas no Tempo e na Memória, não conseguem distrair-me completamente de uma outra vista, que o sol modela na Outra Margem: ao Almada contrapõe-se Almada, Al-Madan, fortaleza sobranceira ao Tejo de aurífero areal, lendário ou não. Eis as vistas.

31 maio 2015

PARQUE DA PAZ, DA AMIZADE, E TUDO O RESTO É LITERATURA


Depois de “A Ronda da Noite”, a visita a Almada, Parque da Paz, lugar da leitura do Engenhoso Fidalgo no próximo dia 20. Saibam os Quixotes e as Dulcineias - já agora também os Sanchos -, que o recanto está escolhido, não muito longe dessa sugestão de pórticos e calçada romana que aí se apresenta na segunda fotografia.
São 60 hectares de relvados, caminhos e lagos onde a paz é possível. E há porcos que passeiam pela trela com os donos, e há o rio de azul não distante e sombras que se iluminam em frente de muros falantes. Poesia.
 

20 maio 2015

E AGORA, UMA COISA COMPLETAMENTE DIFERENTE!

Quem, de entre os participantes da aventura por Alfama, na senda de A História do Cerco de Lisboa, não se lembra do café-bazar ZAZOU? Recordo que foi uma pausa agradável; que quase tomámos posse do espaço. Espaço que parecia feito à medida de alguma futura tertúlia... (não estou certa, mas julgo que o D. Quixote veio depois...).
O que acontece é que uma amiga nossa, artista plástica de renome, Júlia Ventura, tomou conta do negócio (o nome agora é Houria), que pretende rentabilizar como local de encontro, num registo mais solto, ainda a auscultar a procura, oferecendo sobretudo um ambiente de bar/ café acolhedor, com um recanto oriental...mas cheio de caráter. Claro que me lembrei logo de NÓS!
Aberto desde o dia 15 deste mês, temos mais um espaço alternativo para o que der e vier (também para uns copos, para quem quiser! E vem aí o Sto António!).



                              Café - Bazar Houria, Calçada do Correio Velho, nº 7, Lisboa

19 maio 2015

E VENHAM MAIS DOIS

A Humilhação na Comunidade de Leitores da Biblioteca Casa da Horta (Cascais), 21 de Maio às 18:30. O Instinto Supremo apresentado por Sérgio Luís de Carvalho em mais uma sessão comemorativa de "Ler Ferreira de Castro 40 anos despois": 22 de Maio às 19:00 no MU.SA, Sintra. Com tudo isto a ronda da noite segue em marcha lenta.

15 maio 2015

A companhia militar do capitão Frans Banning Cocq e o tenente Willem van Ruytenburg

No ano passado, encontrei o capitão Frans Banning Cocq e o tenente Willem van Ruytenburg, em Amesterdão.
Convidei-os para a nossa sessão de leitura de maio.
A resposta foi "nim", coisas de holandeses.
Eu tentei, bem podem ver...


09 maio 2015

"A Ronda da Noite" de Agustina Bessa Luís, 29 de Maio-20h30


Maio é mês de rondas nocturnas. Pela pena  de Agustina, inspirada no pincel de Rembrandt, acompanhamos a vida de Martinho Nabasco e a sua perpétua ronda da noite (como diz a Paula aqui mais abaixo)...

04 maio 2015

DO RETRATO DO AUTOR E DA SUA BEM AMADA

Momentos que se fixam no decorrer dos tempos curtos: o autor e sua amada
Rembrandt, esboço, 1633

Saskia van Uylenburgh (1612-1642), esboço «A minha noiva de três dias » ,1630

Saskia como Flora-1635
Rembrandt, 1634

Rembrandt, 1640


Saskia com uma flor vermelha, 1641





Saskia , 1635






Rembrandt 1661
Rembrandt , 1643