23 janeiro 2015

Fahrenheit 451, o filme


"Fahrenheit 451" de François Truffaut

Tentei encontrar o filme completo, mas não consegui! Se alguém souber de algum link que se acuse! Adoraria vê-lo ...

17 janeiro 2015

"O LEOPARDO"

Lembram-se de termos visto o filme - vai para três ou quatro anos - no CCB? Como o tempo passa! Agora temos o livro na Comunidade de Leitores de Cascais, dia 22.
http://www.cm-cascais.pt/evento/comunidade-de-leitores-com-helena-vasconcelos-0
Até lá o "nosso" Fahrenheit 451 pode esperar.

12 janeiro 2015

"Fahrenheit 451", Ray Bradbury, 30 janeiro - 21 H


Fahrenheit 451 - a temperatura a que um livro se inflama e consome...
"Queimar era um prazer"
"Era um prazer muito especial ver as coisas arderem, vê-las calcinar-se e mudar."

As coisas, eram livros...
Lembram-se da Julie Christie, neste filme?



05 janeiro 2015

O TEMPO RECONSTRUÍDO








É com uma sensação de vertigem que se percorre, hoje, a Casa dos Bicos. Toda ela é uma metáfora daquilo que, para Gabriel Garcia Marquez é o fundamento da escrita e da vida: a Memória. Tropeçamos desde logo na muralha, nas muralhas, aliás, em palimpsesto, re-escritas, re-inscritas no solo, em épocas sucessivas, continuidade assim desnudada do pano ribeirinho que adivinhamos no traçado urbano linear, na persistência de portas, em arcos, escadas e passagens. Revisitados, que interrogamos sempre, na busca do discurso oculto destes vestígios materiais, que são, eles mesmos, Memória colectiva, mas também memórias pessoais e de grupo, à imagem das Pequenas Memórias, na lição de José Saramago, que nos atende no piso superior.
 Ali, há um trabalho literário, por vezes também ele em palimpsesto, como a muralha, em baixo; mas há sobretudo uma vida, vertida em Memória, que complementa e ilumina a palavra escrita, porque lhe traça as origens, desvenda o labor, em investigação, hesitações, correcções; também desistência e incompletude. Do que é feita uma Obra Literária. Do que é feita uma Obra de Arte. Do que é feita uma Vida, que passou a pertencer-nos. 

Lisboa, 3 de Janeiro de 2015, dia de deambulação urbana.

31 dezembro 2014

ADENDAS CULINÁRIAS

Nesta época festiva, em que enchemos literalmente a carne e o espírito com as belas «comezainas» natalícias e de outras festividades, além de literárias, ( e esta última obra que lemos é um bom exemplo disso, plena de seiva, cor, vivacidade, vida e morte, beleza e putrefacção, tons do Caribe, mas agora não vinha ao caso. Sou eu a derivar.) , estava eu ontem a regurgitar todas estas festas e sabores e eis que me dá para pegar na obra A Mesa dos Reis de Portugal. Já não bastava o enfartamento e abundância e vou reincidir. Ora, o que interessa é que encontrei duas referências que podem interessar a duas ilustres leitoras, senhoras de apreciáveis dotes culinários. Para a Bia, vão as referências a «beilhós de arroz» (serão antepassadas das filhoses? mas de arroz...) do Livro de Cozinha de D. Maria, uma neta de D. Manuel; para a Amélia, são referidas no contexto de troca de receitas entre senhoras da sociedade do séc. XVI, «(...) as apreciadas almojávenas, tortas fabricadas com massa de farinha e queijo ou requeijão, de origem mourisca.»
Dos mouros para a sociedade peninsular, desta para a colonial americana e aqui estão elas, com o chocolate vindo das Américas, copiosamente bebido em Espanha e menos em Portugal desde o séc. XVII, adaptado ao gosto europeu, sem especiarias picantes, mas com açúcar. A sofisticada «mousse», essa, parece datar do séc. XIX.
E com estas reais sugestões desejo a todos um belo ano com belas leituras e correspondentes iguarias.


Deixo-vos com um por do sol em Cartagena das Índias, onde estão uns invejáveis 28 graus....



Significado de Almojávena
f.
Espécie de belhó, de farinha e queijo.(Do ár. al-mojábana)



Almojávenas de D. Isabel de Vilhena:

«Tomem 3 partes de queijo, não muito fresco, e amassem-nas muito bem, misturando-lhes em seguida uma parte de farinha de trigo e três ovos inteiros; se o queijo for muito mole, misturem a ele as três gemas e apenas uma clara. Mexam e amassem tudo junto, de modo a formar umapasta homogênea. Façam então uma massa de pastel com farinha bem fina, um pouco de açúcar, manteiga e algumas gotas de água-de-flor. Depois de bem sovada, deixem esta massa descansar um pouco, abrindo-a depois com um rolo, em folhas bem delgadas. Cortem a massa com uma carretilha, dando-lhe feitio arredondado. Com os dedos levantem as pontas da massa, que fique como uma pequena torta. Em seguida arrumem o recheio de queijo nessas tortinhas, que são levadas a fritar em fogo brando, e em bastante manteiga, ou banha bem quente. Tenham o cuidado de não deixar cair a manteiga ou banha dentro do recheio. Assim que estiverem douradas tirem as almojávenas do fogo. Finalmente façam uma calda em ponto não muito alto e, sem deixar que esta ferva, passem por ela as tortinhas. Deixem-nas escorrer numa peneira e sirvam-nas polvilhadas com açúcar.»


BEILHÓS DE ARROZ:

«Cozinhem um pouco de arroz com leite, açúcar e uma pitada de sal, e ponham-no a esfriar.
Batam dois ovos separadamente, adicionem-lhes uma colher de farinha de trigo, misturando-os então ao arroz já frio.
Levem ao fogo uma frigideira com manteiga e, quando esta estiver bem quente, deitem-lhe a massa às colheradas.
Se os bocados se espalharem muito pela frigideira, enrolem-nos depois na farinha de trigo. Numa panela que já está no fogo, com calda bem grossa, vão-se deitando os bolinhos, que depois são postos a escorrer, numa peneira.
Servem-se polvilhados com açúcar e canela.
Da mesma maneira se fazem os beilhós de manjar branco, só que este deverá ser mais cozido, usando-se farinha de arroz, em lugar de farinha de trigo.»




30 dezembro 2014

12 meses passaram e com eles 12 livros e muito mais...

Ontem na última sessão do ano

Com o amor sofrido e prolongado no tempo, de Florentino Ariza, completámos na sessão de ontem, o ciclo de 2014. 
A escolha da Gabriel García Marquez e aquela que para muitos (e eu incluída) é a sua obra prima "O Amor nos Tempos de Cólera", foi a escolha perfeita para finalizar um ano intenso de leituras e tudo o mais que entendemos associar-lhe, como foi o caso de ontem em que recebemos pela mão dos nossos colegas Bia e David, o Manuel Diogo, membro fundador do grupo de jograis "U...Tópico" e que, no final de uma sessão que já ia, compreensivelmente  longa, nos maravilhou com uma selecção de poemas alusivos à época, interpretados de forma emotiva e cativante. Obrigada por isso!

53 anos, 7 meses, 11 dias e noites foi o tempo que Florentino Ariza levou a concretizar o seu amor por Fermina Daza!

A nossa Comunidade de Leitores em apenas alguns dos 365 dias de 2014, para além dos 12 livros que leu, de almoços, jantares, lanches e petiscos pelo meio, exposições, espectáculos musicais, festival ao largo, passeios por Lisboa e até uma ida ao futebol, muito mais conseguiu fazer... 
No final de Maio, fomos convidados a realizar uma sessão pública na Feira do Livro, que contou com a presença de um dos nossos escritores do ano Carlos Querido e que foi um sucesso.
Realizámos meia dúzia de encontros para a maratona de leitura conjunta do herói "D. Quixote dela Mancha".  A seu propósito, foi a Comunidade convidada a participar no dia da festa de todos os que falam espanhol, a 21 de Junho no Instituto Cervantes.
Algures em Julho e numa jornada memorável, seguimos as pegadas de D. João V e fomos redimir-nos às águas das Caldas da Rainha, ficando mais uma vez registada a enorme gentileza de Carlos Querido.
Na sequência da leitura de "O Tartufo", Agosto trouxe uma visita muito especial ao ANIM, que incluiu o visionamento da cópia única da Cinemateca da película do cinema mudo "Tartufo" de 1925, em 16mm.
Em Setembro e num rescaldo tardio do "Memorial do Convento", houve mais uma visita ao convento, seguida  de um dos maravilhosos concertos de Orgãos na Basílica de Mafra

Com 2015 à porta e uma Comunidade imparável e cada vez mais activa,  cá estamos preparados para aderir às aventuras que o novo ano nos traga!

05 dezembro 2014

"O Amor nos Tempos de Cólera", Gabriel García Márquez, 29 Dezembro - 21h00

Capa do livro "O Amor nos Tempos de Cólera", das Publicações Dom Quixote

"Era contra toda a razão científica que duas pessoas que mal acabavam de se conhecer, sem qualquer parentesco entre si, com personalidades diferentes, com culturas diferentes e até com sexos diferentes, se vissem comprometidas de um momento para o outro a viverem juntas, a dormirem na mesma cama, a partilharem dois destinos que talvez estivessem determinados em sentidos diferentes. Dizia" O problema do casamento é que acaba todas as noites depois de fazer amor e tem de se voltar a reconstruí-lo todas as manhãs antes do pequeno almoço..."

"O Amor nos Tempos de Cólera", de Gabriel García Márquez, Publicações Dom Quixote, pág 225

29 novembro 2014

LEITURAS DE 2015

1º Trimestre – Literatura do mundo

30 Janeiro – Fahrenheit 451, de Ray Bradbury
27 Fevereiro – Samarcanda, de Amin Maalouf
27 Março – A tia Julia e o escrevedor, de Mario Vargas Llosa

2º Trimestre – Literatura Portuguesa

24 Abril – Franceses, marinheiros e republicanos, de Filomena Marona Beja
29 Maio – A ronda da noite, de Agustina Bessa-Luís
26 Junho – O belo adormecido, de Lídia Jorge

3º Trimestre – Literatura do mundo

31 Julho – As ondas, de Virgínia Woolf
28 Agosto – As horas, de Michael Cunningham
25 Setembro – Palácio da lua, de Paul Auster

4º Trimestre – Literatura Portuguesa

30 Outubro – As pupilas do senhor reitor, de Júlio Dinis
27 Novembro – A noite e a madrugada, de Fernando Namora
18 Dezembro – A relíquia, de Eça de Queirós

20 novembro 2014

"O elefante evapora-se" de Haruki Murakami, 28 de Novembro às 21H

A abrir o conto: "Foi ao ler o jornal que fiquei a saber que o elefante da cidade tinha desaparecido sem deixar rasto. Nesse dia, como de costume, o meu despertador acordara-me às seis e treze. Uma vez a pé, fui à cozinha, fiz café e torrei pão, liguei o rádio na emissora norte-americana, abri o jornal em cima da mesa e comi as minhas torradas. Sou uma daquelas pessoas que tem por hábito ler o jornal de uma ponta à outra, a começar pela primeira página, por isso demorei o meu tempo até chegar ao artigo que falava do elefante desaparecido." 

17 novembro 2014

O efeito borboleta de umas "Lederhosen"


Devia ser em algo deste género que o Murakami pensou, quando se referia à hipótese de se imaginar um japonês vestido com umas "Lederhosen".
Nunca me passou pela cabeça que umas simples "Lederhosen" se pudessem transformar numa peça sinistra causadora de um divórcio ...

11 novembro 2014

CAVALOS DE CARTÃO

Já conhecíamos o cavalo de cartão de JOSÉ LUÍS PEIXOTO (Nenhum Olhar). O de LAURINDO  GÓIS está neste belo texto publicado no blogue A Curva dos Livros.

ETERNIDADE

Quando não sabia. Mas o cavalinho de cartão entrara um dia na história da sua vida. Quando deu por ele? E são muitos quando. Quando a  fotografia de contornos pesados e rigorosos do Amândio Fotógrafo lhe devolveu a imagem. Menino com cavalo, isso mesmo. A cara plena de espanto, o colete de veludo, obviamente macio, calção, camisa branca, meia branca, sapato de fivela. A condizer com qualquer coisa animal. A pata branca do cavalo, o selim igualmente branco, a luz nas ventas. O espanto, também. Cavalo…cavalo, o nome soou.

Mais tarde escreveria poemas dando-lhe prados maiores, veria cavalos correrem no grande ecrã, leria pinturas de cavalos em Júlio Pomar. Mas só mais tarde. O seu, de cartão e sonho quixotesco ficou agarrado ao minúsculo prado de madeira de pinho com rodízios. Quase um precipício.

Pediram-lhe que estivesse quietinho. Já  era, quietinho. E esteve mais. O momento era histórico. Sabia-o. Mas só sabia isso. Aquele era decididamente o momento. Susteve a respiração. Abriram-se-lhe instantaneamente duas luas de iluminação muito forte sobre o rosto. Ficou em décimos de segundo com as luas nos olhos. Disseram-lhe: “Já está”.


Foi a fotografia de menino com cavalo.  A única coisa verdadeiramente séria, certeira, que fez na vida. Interroga-se por vezes: fotografia? mas que é isso de fotografia? ainda não sabe. Gozou apenas aquele momento de menino-poeta-cavalo. Se a eternidade é. É aquilo: “já está”. E ele é, na marca do seu espanto aquele grão de eternidade.  

(Texto de Laurindo Góis)

30 outubro 2014

MILAN KUNDERA - A ARTE DO ROMANCE


«O romance conhece o inconsciente antes de Freud, a luta de classes antes de Marx, pratica a fenomenologia (a procura da essência das situações humanas) antes dos fenomenólogos. Que soberbas "descrições fenomenológicas" em Proust, que não conheceu nenhum fenomenólogo!». 

MILAN KUNDERA, A arte do romance, p. 47.


29 outubro 2014

LEIO, LOGO PENSO

«Um jovem sedutor disse-me um dia: "Casa quantas vezes quiseres, mas promete-me que só eu vou ser o teu amante". Ele estava a parafrasear Oscar Wilde, mas o seu apelo melancólico continha um desejo ardente: desejo de alguma estabilidade num mundo instável. Se o casamento já não dá essa estabilidade, então, talvez as aventuras amorosas a garantam.» -- ERICA JONG, O que querem as mulheres?, Capítulo 14, "O homem perfeito". 
Li ontem e logo pensei que tem muito a ver com aquele discurso sobre o peso e a leveza do ser. Desculpem se me enganei.

22 outubro 2014

25 de Outubro, 14h00, continuação da leitura de D. Quixote



Para um momento de boa disposição, a anteceder os que se aguardam para o próximo sábado. As leituras de D. Quixote têm-nos proporcionado momentos ímpares ...

16 outubro 2014

15 outubro 2014

Chapéus de coco há muitos, mas este é único...



Charlie Chaplin: Modern Times (1936) - Titina

"Chapéus como aquele, pretos, redondos rígidos, Tereza nunca tinha visto senão no cinema. Charlie Chaplin usava sempre um. Sorriu por seu turno pegou no chapéu de coco e examinou-o demoradamente. Depois, disse:"Queres ficar com ele nas fotografias?""

in "A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Jundera

"A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Kundera, 31 de Outubro às 21h00


A abrir o capítulo nono

"Quando os amigos lhe perguntavam quantas mulheres tinha tido, respondia de forma evasiva e , se insistiam em saber, dizia: "Mais ou menos duzentas." Os invejosos afirmavam que estava a exagerar com certeza. Defendia-se dizendo: "Nem tanto como isso. Tenho relações com mulheres mais ou menos há vinte e cinco anos. Ora experimentem a dividir duzentos por vinte e cinco. Hão-de ver que dá mais ou menos oito mulheres novas por ano. Não são assim tantas.""

In "A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Kundera

06 outubro 2014

ESCRITARIA EM PENAFIEL 2014


"Não há livro de instruções para salvar a vida. Só a Literatura se aproxima desse imenso livro."

 "Nada justifica a gula do dinheiro."

 Lídia Jorge
 
 

04 setembro 2014

PARA 26/9: É LER OU RELER - SÓ NÃO VALE TRESLER

«Decididamente, era uma bela rapariga. Assim que ela acabasse a bucha, ele tomá-la-ia nos braços para a beijar na boca. Era uma resolução de tímido, uma ideia de violência que o engasgava um pouco. Aqueles fatos de rapaz, aquela jaqueta e aquelas calças sobre aquela carne de rapariga, excitavam-no e incomodavam-no. Estevão tinha engolido o último bocado. Bebeu do cantil, restituiu-lho para ela o despejar. Agora, era chegado o momento de operar; e estava deitando uma olhadela inquieta para o lado dos mineiros, ao fundo, quando uma sombra tapou a galeria.»
 
ÉMILE ZOLA, Germinal, tradução de Eduardo de Barros Lobo, Lisboa, Círculo de Leitores, 1983, p. 31.

24 agosto 2014

ONTEM, EM OEIRAS, NO PARQUE DOS POETAS: D. QUIXOTE "PASSEANDO PELA BRISA DA TARDE"

«E quis a minha boa sorte que o senhor D. João de Áustria acabasse de chegar a Génova e depois seguir para Nápoles para juntar-se à armada de Veneza, como depois o fez em Messina. Digo, por fim, que participei naquela felicíssima jornada, (…)»
-- Relato autobiográfico de MIGUEL CERVANTES (1547-1616), nos capítulos XXXIX, XL e XLI da Quarta Parte de “D. Quixote de La Mancha” I, relativo à sua participação na batalha naval de Lepanto (1571), travada entre os estados cristãos e o Império Otomano. – Uma história dentro da história do cavaleiro da triste figura.
 

22 agosto 2014

UM ADEUS PORTUGUÊS

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

 
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.


No Reino da Dinamarca (1958)

16 agosto 2014

SÁBADO, DIA 23, A PARTIR DAS 13.30 --- LEITURAS DE D. QUIXOTE NO PARQUE DOS POETAS


EU, QUIXOTE
Vejo o mundo com olhos que estão para além do mundo e,
por isso, não estranho a chacota dos que comigo se cruzam
nos caminhos da heróica demanda.
Áridas são as cores em todo o planalto da Mancha:
o ocre da terra, o amarelo seco das searas
atravessadas por rocins de vento e pó.
Como dizer, a esses que riem de mim, que o sonho
tem mais luzes que todas as que há no céu?  
Como falar-lhes de ideal e sonho
se nunca se elevaram um palmo acima da terra,
presos a ela por raízes de ferro e sombra?
Sim, eu sei, não há nenhuma senhora Dulcineia,
nem em Toboso nem em qualquer outro lugar da Mancha.
– Só o meu ideal a faz viver, grata imagem
de mulher e amante
guardada no coração dum cavaleiro andante.


16/8/2014
 

13 agosto 2014

DEPOIS DA LEITURA


Tartufo (1925), de F.W. Murnau, obra do cinema expressionista alemão que veremos ainda este mês -- em exibição rara -- no ANIM (Bucelas), Centro de Conservação da Cinemateca Portuguesa. O roteiro do filme é uma adaptação livre da peça de Molière.
Programa em preparação. 

12 agosto 2014

"O Tartufo" de Molière, 29 de Agosto - 21h00


Diz-se por aí que estamos em Agosto e que a maior parte de nós anda de férias, mas não se esqueçam que este também é mês de leitura teatral. Por enquanto apenas encontrei uma versão do livro em castelhano ...

29 julho 2014

LER A MANCHA

Revista "Ler", nº 67, Verão de 2005
 
«Não me incomoda ser um cavalo, sobretudo agora que posso pastar livremente, sem que já nada me atormente, a não ser a memória, pelas verdes pastagens da eternidade; do que eu nunca gostei, e ainda não gosto, é de cavaleiros andantes, ou antes, cavalgantes, pois quem realmente andava éramos sempre nós. Eu sei que, excepto nas corridas, quem faz a glória do cavalo é o seu cavaleiro. Se eu não tivesse tido como cavaleiro o senhor Quixote de la Mancha, ou Quixada ou Quesada, que até hoje não sei ao certo como diabo ele se chama, o meu nome teria sido esquecido por todos, antes mesmo de eu morrer.
Infelizmente não foi. (...)»
 
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, "Rocinante"