24 maio 2011

"Eurico o Presbítero" - 27 de Maio às 21h00

LIMA DE FREITAS, painel de azulejos na Estação dos Caminhos de Ferro do Rossio. Evocação esotérica dum episódio de "Eurico, o Presbítero".

Há livros a que sempre voltamos, nem que seja para nos certificarmos de como estávamos errados naqueles tempos antigos em que lhes torcíamos o nariz. Eram as grandes secas dos programas escolares, os trechos das selectas literárias dissecados perante os mestres como se fossem partes de cadáveres numa mesa de anatomia.
Herculano disse de “Eurico” que não sabia como classificar o seu livro: romance histórico, lenda, ou crónica-poema. Tampouco isso o preocupava. O Romantismo foi um período de rupturas, de miscigenação dos géneros literários, de liberdade e libertação da linguagem poética. “Eurico” é um poema em prosa, dos mais belos livros que já se escreveram em língua portuguesa. Reli-o entre sábado e o dia de hoje, e não me saem dos olhos o povoado de Carteia, a sombra escura do Calpe, os alcantis dos Montes Cantábricos. Ler é encher os olhos de imagens, é viajar no espaço e no tempo.


Manuel Nunes... Dali para aqui ...

José Régio, FRATERNIDADE




FRATERNIDADE

Um dia, um meu irmão que tinha o que eu não tenho
— A vidente ignorância a que só Deus assiste—
Pegou dum grande, rude, grosso lenho,
Matéria bruta e viva, que resiste...

Vencendo-a, afeiçoou as fibras angulosas
A umas formas viris, tão puras como cruas;
Pôs-lhe um trapo nas partes vergonhosas;
Estiraçou-lhe os pés e as pernas nuas.

Dos ramos laterais do lenho primitivo,
A navalhadas, fez os braços que faltavam,
Toscos, mas com, lá dentro, sangue vivo,
E tumefactas mãos que se espalmavam.

E enfim, todo a tremer de amor e de receio,
Noutro bloco, moldou uma cabeça aflita,
Com pálpebras descidas até meio
E a boca a abrir num grito que não grita.

Tudo o que de cruel a vida lhe ensinara,
Mais o que tinha em si maior do que o destino,
Sem mesmo ele o saber, ganhou voz clara
No longo rosto esquálido e divino.

Dois troncos pôs em cruz e assim fez o madeiro;
Sobre eles ajuntou e cravejou tudo isto;
E aquilo que ontem era um castanheiro
Num altar figurou de Jesus Cristo

O tempo foi rolando... E os centos de anos viram
Rojar-se a multidão ante esse lenho, — santo
Só porque, sob a graça, o esculpiram
Umas humanas mãos em pó há tanto!

Quantas profanações, depois, não arrastaram
Por lôbregos saguões, recantos, corredores,
Esses membros que bispos incensaram,
Essa cabeça de Senhor das Dores!

Até que um dia, entrando a um sótão miserável,
Vou encontrar no chão, entre sucata, aquela
Mutilada cabeça inda admirável,
Por mutilada e vil não menos bela.

Juntei, juntei, tremendo, os restos de Jesus:
A sagrada cabeça, o busto carunchoso
E os braços despregados já da cruz,
Com mãos roídas como as dum leproso.

Mandei, mandei buscar essas mutilações!
Com elas me fechei no meu buraco, e o dia
Se me foi entre velhas orações,
Que eu nem sabia que inda sabia...

Às vezes, quando o ar parece que me foge,
Me falta Deus, ou espanta a nossa condição,
Como os fiéis de outrora, a seus pés, hoje,
Dobro o joelho trémulo no chão.

Nem restos de orações lhe rezo! Nada rezo.
Espero no silêncio e na opressão, curvado,
Que Jesus Cristo ao seu madeiro preso,
Tenha dó de mais um crucificado.

Das pálpebras que o tempo enegreceu, o olhar
Que entre elas se não vê, mas se adivinha e sente,
Me banha todo, então, como um luar,
E me diz que há Alguém ali presente.

Não!, já não fico só na minha solidão!
Já me não pesa tanto a minha própria cruz!
Já quase, quase sei (Jesus, perdão!)
Que tenho em ti como um irmão, Jesus.

Meus olhos, que a ruindade interior calcina,
Inundam-se-me então de bruma e de frescura,
E eu choro por nós todos, cuja sina
É sermos a imperfeita criatura...

E a graça que uma vez desceu dos altos céus
Às mãos do pobre artista incógnito, as benzeu,
E as fez fazer dum tosco lenho um Deus
Tão próximo de nós como do céu,

A pouco e pouco vem sobre a minha cabeça
(Como o calor do sol que enxuga os próprios lodos)
De modo que já nada há que me impeça
De ser feliz!, e irmão de tudo e todos.

José Régio – Mas Deus é Grande. Portugália Editora, 1970
Poema FRATERNIDADE, p. 95-99

19 maio 2011

Endovélico: Deus dos Lusitanos

O FALO DE MÁRMORE E AS TÁBUAS DE BRONZE DE VIPASCA

Nota:
Esta espécie de conto, escrito e publicado em blogue há vários anos, foi agora revisto, corrigido e aumentado sob influência de recente peregrinação por terras de Endovélico. Não se chegou a Vipasca, mas ficará para a próxima.


1

Lusciénio, filho dum liberto enriquecido com um negócio de azeites rançosos e vinhos adulterados – duas ânforas de água do Tibre por cada três de genuíno néctar –, estava destinado a uma promissora carreira no foro. O pai mandara-o aprender com os melhores mestres de Roma, estagiara na Grécia, e até se deixara seduzir pelas ideias de Epicuro antes de seguir por vias mais ajustadas às práticas forenses. Porém, por razões que até um narrador omnisciente não consegue determinar, foi obrigado a exilar-se na Lusitânia, província do Império onde chegou acompanhado de Gláucida, escrava líbia para todo o serviço.
Em Itália deixou Semprónia, a lasciva, mulher de carnes voluptuosas que no martírio das noites lhe secava as fontes seminais em indescritíveis delírios de sexo. Semprónia só lhe dava tréguas em três ou quatro dias do mês sob o efeito inelutável das regras fisiológicas. Era então que Lusciénio se recolhia em paz nos braços de Gláucida, vingando-se em beijos e carícias meigas dos imoderados festins da carne.
No cais do porto de Óstia, de onde saiu pelo mare nostrum na rota da Hispânia, deu pela presença da libidinosa Semprónia, um olhar de despeito e fúria ao vê-lo partir na companhia da escrava. Um arrepio atravessou-lhe o corpo como um sinal de alarme. Ia fresca a aragem do mar e Lusciénio levou a essa conta o inesperado estremecimento. O pior, porém, estava para acontecer…
Ao largo da costa de Saguntum, cinco dias e cinco noites levava já de mar a galera ágil, os remos chapinhando nas águas, as velas grávidas do cálido siroco, deu conta da reiterada falência do seu membro fálico. Tentara à segunda e à terceira noite; não insistira à quarta, que o mar estava bravo e o enjoo lhe tolhia o desejo. Mas à quinta noite, sob os olhos lúcidos das estrelas, puxou Gláucida para um desvão do convés e tratou de abater o jejum. Nada conseguiu! As carnes penianas, flácidas como alforrecas, não davam a mínima hipótese. Foi então que bebendo a grandes haustos o ar do mar enclavinhou as mãos no cordame da embarcação e chorou de desespero e raiva.

2

Lusciénio estabeleceu-se no couto mineiro de Vipasca, terra habitada por um povo tisnado e seco, tendo requerido para sua subsistência a exploração de cinco poços de cobre. Vipasca era um cemitério de escórias, uma terra penetrada de galerias e poços com toupeiras humanas dentro. O transporte do minério fazia-se sob escolta dos legionários para o porto fluvial de Myrtilis, seguindo daí para Ossonoba e Lacóbriga, onde era transbordado para embarcações de longo curso que logo partiam para as Colunas de Hércules, engolfando-se no Mediterrâneo. O Estado carregava os concessionários com pesados impostos, arrebatando uma boa parte do seu labor. Entre tanta adversidade, os banhos públicos constituíam o único refrigério na inclemência dum clima continental muito quente no Verão e assombrosamente frio no Inverno.
Lusciénio, porém, rapidamente se habituou à terra, à índole pachorrenta daqueles povos que se debruçavam sobre as searas com todos os vagares do mundo, cantando sempre dolentes modas, pedindo licença a uma perna para mexer a outra como se andassem cansados desde o princípio dos tempos, apascentando rebanhos de ovelhas e vigiando com os olhos dormentes as varas de porcos pretos focinhando a nutriente bolota sob os ramos dos chaparros. Habituou-se a apreciar a flora e a fauna locais, o olor e a luz das estevas em flor, o voo da abetarda e da cegonha. O sul da Lusitânia era uma terra de horizontes largos, de estranhos monumentos de pedra que se recortavam na paisagem, uns apontando os céus como dedos hirtos, outros em forma de templo na sua massa tosca, erguidos por antiquíssimos povos, muito anteriores aos celtas e cónios que a civilização de Roma ali viera encontrar.
Quando o procurador do couto mineiro informou o governo de Emerita Augusta da chegada do exilado, da concessão de cinco poços que acabava de requerer e do curriculum forense de que era detentor, além do rápido deferimento da matéria requerida recebeu taxativas instruções para que o mesmo fosse contratado como jurisconsulto ao serviço da administração local. E assim, a par da gestão das suas concessões mineiras, Lusciénio passou a trabalhar como legista no aperfeiçoamento dos regulamentos económicos e sociais de Vipasca.

3

Tudo parecia sorrir ao exilado jurisconsulto. O procurador, agradado com o douto desempenho das suas funções, recebia-o no triclínio da sua villa e era vê-lo recostado em ceias sumptuosas, em esquisitas degustações, comendo e bebendo do melhor, desde mariscos provenientes de Troia e Gades até vinhos da Bética e da Campânia. O minério que saía das suas concessões rendia-lhe bons proveitos. Gláucida floria de beleza na primavera da vida, até pensara dar-lhe a alforria e casar-se com ela. Só aquela disfunção eréctil não dava sinais de regredir.
Um centurião com quem costumava falar nas horas brandas do banho, ensinou-lhe uma receita obtida de um druida gaulês: misturar numa papa de favas feita com água do mar intestinos de atum e tâmaras do Egipto; juntar vinho doce e mel de abelhas; tomar uma hora antes da cópula. Experimentou, mas não deu resultado.
Alarmado com a persistência do desarranjo, resolveu tentar a medicina. Médicos não havia em Vipasca, seria necessário ir a Pax Iulia e consultar um qualquer aspirante a Hipócrates que por lá exercesse a arte. Consultou, mas não obteve a cura.
Foi então que decidiu recorrer à intercessão divina. Tinha-se espalhado por uma vasta região da Lusitânia o culto do deus Endovélico. De Ebora a Ossonoba, de Caetobriga a Myrtilis corria a fama daquela divindade salutífera que curava mais e melhor que o próprio Esculápio. Lusciénio rumou ao santuário do deus e prometeu a entrega votiva de um falo da altura de um homem, esculpido em mármore róseo, se lhe fosse restituído o poder viril. E, à cautela, tendo como provável que a causa do seu padecimento fosse feitiço da infame Semprónia, dirigiu preces a Prosérpina, deusa infernal, para que contrariasse o mal de inveja que lhe tinha sido feito.

4

Nunca se conseguiu apurar se graças a Endovélico ou a Prosérpina foi Lusciénio curado da sua aborrecida perturbação. A Posteridade descobrirá no local do santuário, nas proximidades de Alandroal, muitas aras e lápides com inscrições votivas, até uma cabeça da divindade esculpida em boa pedra, mas não haverá registo de qualquer falo de mármore, em tamanho natural ou da altura de um homem, o que poderá indiciar que o voto não foi cumprido por não ter sido recebida a graça.
Porém, nos escoriais da antiga Vipasca, hoje chamada Aljustrel, serão encontradas, em 1876 e 1906, duas tábuas de bronze contendo a legislação do couto mineiro. E isso, sim, deverá ter sido obra do letrado Lusciénio, filho dum liberto rico, exilado na Lusitânia por obscuros motivos, amante terno da escrava Gláucida e objecto sexual de Semprónia, mulher lasciva, invejosa e má.

16 maio 2011

Palavras para que vos quero!

Ler é saber afagar um livro, é saber festejar um livro!

Afagar e festejar, amizade e celebração, ler!

Ler é então entrar em relação com alguma coisa, com alguém e, nessa exacta medida, relacionar-se também consigo mesmo. Quem lê agarra assim a possibilidade de se conhecer melhor a si mesmo, cumprindo um dever, digamos, social. Porque quem se conhece aprende a fazer auto avaliação: sabe quando falar, ouvir, calar ou adiar uma intervenção; torna-se mais capaz de si mesmo e das situações. Mas também se torna melhor ouvinte, porque há sempre um puzzle por completar e ouvir o outro é tão preciso como pensar sozinho.

Lendo aprende-se melhor o valor do silêncio, sobretudo o silêncio interior, que se faz e cultiva para ouvir apenas a voz da leitura pela voz de quem lê.

O hábito, (também apelidado de vício ou compulsão pela reacção), a veneração da leitura, podem conferir saber e conhecimento; mas, sobretudo, podem dar a cada um a ideia da dimensão da sua ignorância, pois quem conhece alguma coisa apercebe do mesmo passo a vastidão do que nunca poderá abarcar, um mundo de livros fantásticos, uma vertigem de conhecimentos, de experiências e aventuras. (Para quem lê, entrar numa biblioteca é ficar doente).

Às vezes tenho pena dos livros, daqueles que atravessaram o tempo sem encontrar espaço — sem terem sido afagados, ou festejados — porque nunca foram editados, ou, tendo-o sido, passaram despercebidos (quem sabe se alguns não seriam obras de arte?).

Alguns livros bailaram por muito tempo na imaginação do escritor, ou do candidato a escritor, mas alguma coisa o impediu de nascer (escrever um livro e vê-lo sair do prelo deve corresponder a uma sensação idêntica à da mãe que dá à luz um filho); o livro é um filho que o escritor põe no mundo e, se os deuses lhe forem propícios, há-de crescer e transformar-se, não de forma material, mas virtual (não menos real por isso), pelas mãos dos intelectos leitores que o afagam, pela festa hermenêutica variada, colorida, desviada, que lhe hão-de dar outras asas, por isso outros voos, outras, desconhecidas e, por vezes insondáveis, ressonâncias... Agora imagine-se o que é na realidade um livro assim, lido, relido por gerações, a diferentes luzes, individuais e de contexto social e histórico, festejado enfim! Digo-vos que já não é um livro, senão um imenso caleidoscópio de livros, que se projecta no infinito do espaço, que ilumina o Além-Livro!

Dedico esta intempestiva prosa (que pretende ser glosa) aos meus queridos amigos, João e Manuel.

Maria Amélia


Este foi o comentário que a Maria Amélia deixou na caixa de comentários do post abaixo.
Vais desculpar-me minha Amiga, mas isto é demasiado precioso para ficar escondido numa caixa de comentários.
Custódia

Um passeio de Domingo … que começou no Sábado (1)

Há convites que são irrecusáveis e assim lá estivemos no Sábado à descoberta de José Régio, dos seus leitores e não só. Bem recebidos pelo Grupo de Leitores de Portalegre, a quem renovamos o nosso obrigado, muito temos para contar.
Vamos a isso, companheiros?
Deixo como mote a frase do nosso João: “ler é saber afagar um livro, é saber festejar um livro!”


Alguns registos do nosso encontro.

08 maio 2011

VILA NOVA E PORTALEGRE

Há um amigo que, ao que tudo indica, virá de Vila Nova, concelho de Miranda do Corvo e distrito de Coimbra, para se juntar ao grupo de leitores na sua visita a Portalegre.
Vila Nova é uma freguesia onde Miguel Torga exerceu medicina pouco depois de 1933, ano em que se licenciou. Na sua autobiografia romanceada, “A Criação do Mundo”, são referidas, sob o topónimo fictício de Sendim, as condições difíceis que rodearam esse exercício profissional, desde a fraca compensação material que obtinha à maledicência dos médicos instalados que não apreciavam a concorrência do novo colega.
Portalegre, por sua vez, é uma cidade do Alto Alentejo onde durante mais de trinta anos José Régio foi professor de liceu e escreveu o fundamental da sua obra.
Torga e Régio zangaram-se em 1930, aquando da cisão da revista "presença", e nunca mais fizeram as pazes.
Assim, não deixa de ser curioso que este nosso amigo – que felizmente não está zangado connosco! –, venha de Vila Nova para viajar com o grupo até Portalegre, como se fosse o espírito de Torga a vir ao encontro do de Régio numa reconciliação que nunca chegou a acontecer.
Diz-se que a literatura é imitação da vida com a criação que faz de mundos possíveis, mas eu, não discordando disso, acho que muitas vezes ela é mais que imitação, é a própria invenção da vida. Pode parecer coisa estranha e sem sentido, mas pensei nisto a propósito deste amigo que vem de Vila Nova para se juntar a nós numa viagem a Portalegre – cidade do Alto Alentejo cercada de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros.

06 maio 2011

O PLÁTANO DE PORTALEGRE

O célebre plátano de Portalegre, plantado em 1838. Quem tiver dúvidas do porte da árvore que vá lá vê-la ao pé.

03 maio 2011

"NADA MAIS E O CIÚME" DE GIL DUARTE - UMA LEITURA

Um romance de estreia é a oportunidade para avaliar as potencialidades dum escritor, a forma ágil ou menos ágil como passeia pelo bosque da ficção (Umberto Eco) e sentir o texto como possível programa de acção para trabalhos futuros.
Isto acontece com sinal positivo em “Nada Mais e o Ciúme” de Gil Duarte*, “um romance” – e não simplesmente “romance” – , tal como surge na capa a designação do género narrativo, o que desde logo sugere, pela anteposição do determinante, um trabalho de ensaio e experimentação.
No arco dum dia – a unidade de tempo da poética aristotélica –, entre o velório do corpo do professor E.C. Bernardo e o episódio tragicómico em que as suas cinzas são lançadas da janela dum prédio sobre os estendais de roupa dos vizinhos, um narrador homodiegético de nome Pedro rememora a história do professor, da mulher Luz Botelho e do filho Virgílio Bernardo, seu companheiro dos tempos do liceu e objecto de uma persistente paixão pessoal. Falando desta tríade familiar, Pedro fala sobretudo de si e do caminho que percorre até se tornar escritor. E, naturalmente, fala também do ciúme, o leitmotiv do romance.
Diz Francesco Alberoni que o ciúme se manifesta geralmente de três formas: a primeira, quando serve para alimentar o erotismo em relação à pessoa amada; a segunda, quando apesar do sofrimento que causa, ele é tolerável pelo ciumento; finalmente, na terceira forma, o ciúme é insuportável e provoca a ruptura, por vezes violenta, entre o amador e o ser amado. A primeira destas formas aplicar-se-á ao caso de Pedro com Virgílio, ainda que o erotismo de que aqui se fala seja algo de difuso e pouco transparente; a segunda ao caso de E.C. Bernardo com Dulce; e a terceira será o ciúme de Virgílio em relação a Dulce. Há também o ciúme que Leonor despertava em Virgílio, que não era o vulgarmente sentido pelos irmãos mais velhos na disputa do afecto dos pais, mas um ciúme abrangente, capaz de entender como ameaça todos os que se relacionavam com a sua irmã.
Sentimento ambivalente em que convergem muitas vezes o sofrimento e a agressividade, o ciúme pode manifestar-se de forma mais lata, como na competição por um lugar ou no esforço para preservar um qualquer bem que se possua. Foi o ciúme que fez de Pedro outro homem, que fez dele um escritor. Assim, Virgílio assume uma dupla importância na sua vida: desencadeador da sua condição de homossexual e força que o impeliu para a arte da escrita.
Partindo para uma analogia com os géneros do teatro clássico, E. C. Bernardo e Luz Botelho deixam por vezes a impressão de serem personagens de tragicomédia, narrativamente coerentes segundo os cânones do género, e só Virgílio se revela como figura trágica pura. Luz Botelho, poeta ou poetisa, com as suas prosaicas flatulências baixas, o seu espírito prático em dissonância com o mistério da poesia, pouco ou nada interpela o leitor; E. C. Bernardo, professor, pai sem vocação e marido não amado, tomado pela ideia de demonstrar matematicamente a ausência de movimento – qual Zenão de Eleia com os seus quatro paradoxos – , é uma personagem à beira do risível. Desta família a três, Virgílio é a única figura que infunde respeito e piedade. O diálogo que trava com Pedro é o que se produz entre o espírito e a alma: Pedro será a alma, Virgílio o espírito.
Uma palavra para Dulce, amante sucessiva do professor e do seu filho, em cuja personalidade é possível ver a projecção da Leonor que não vingou na narrativa. Leonor era uma menina birrenta e mal comportada, e Dulce é igualmente caracterizada por um mau comportamento, por uma mobilidade erótica e aventureira que fazia dela, segundo Luz Botelho, uma mulher em quem não se podia confiar. Devo ter sido o único ser vivo que ela nunca se deu ao trabalho de seduzir – diz o narrador. Mas Dulce não só seduzia, como se deixava seduzir, por vezes até em situações inesperadas e por pessoas aparentemente desinteressantes, como parece ter acontecido com o detective que investigava o desaparecimento de Virgílio e com o bizarro professor Ivo Moita. E. C. Bernardo, no entanto, viu nela uma pessoa extraordinária.
De assinalar também os topoi da viagem e da busca (ou demanda), tão caros à literatura, protagonizados por E. C. Bernardo e o narrador na desesperada procura de Virgílio, de certa forma uma representação metonímica da procura empreendida por Pedro em relação ao seu próprio eu.
“Nada Mais e o Ciúme” é uma obra aberta (de novo Umberto Eco) a partir da qual podem ser feitas várias leituras. Esta, centrada nas personagens nucleares da narrativa, é, por mais paradoxal que possa parecer, uma leitura possível.
O leitor, segundo a teoria da recepção, “rescreve” sempre os textos que lê porque eles o convidam a dar-lhes sentido, tornando-se desta forma uma espécie de co-autor dos mesmos. A verdade, porém, é que isto não acontece com todos os textos, mas apenas com aqueles que verdadeiramente o interessam.


* Gil Duarte é pseudónimo de José Pacheco, seguidor deste blogue.

CALISTO ELÓI / CALISTO MARCELINO

A propósito do nosso Calisto Elói, aqui fica este texto de CRISTINA LEIMART sobre outro Calisto:

(Publicado no blogue "Emoções Básicas" em 30 de Janeiro de 2011)


CALISTO MARCELINO


Desde as 9h15 que o seu pessoal o esperava para a primeira reunião após a notícia da nomeação. Mas o hábito de começar o dia a meio do dito não cede assim ao sabor dos despachos ministeriais. E eram 11h50 quando Calisto irrompe pela porta do gabinete alcatifado. Nesse momento já o concílio ia avançado na discussão de estratégias de base, mas para o nomeado a prioridade era outra:
- "Doutor Calisto Marcelino"... Não... "Doutor Covas de Marcelino"... "Doutor Calisto Covas"... Não, nem pensar. Atenção, atenção! - O homem raciocina à custa de uma estonteante e ininterrupta, quase desesperada, alternância de pequenos passos de avanço e recuo. Olha em redor para o pequeno grupo de pessoas distribuído informalmente pelo gabinete. - Ordem na sala, por favor.
Calisto Covas de Marcelino não estava nervoso, apenas medianamente eufórico. Anos de espera, acabado de dobrar os quarenta, e ei-lo que finalmente subia mais um degrau na hierarquia do poder público. Começara como jovem idealista da ecologia, mas rapidamente se submetera ao dinheiro fácil, às concessões aos interesses económicos e à vaidade pela fama. Com o primeiro montara uma empresa de consultoria em projectos ambientais, estudos de impacte, planos de ordenamento territorial e afins, que geria a par das suas funções como técnico superior do estado. Comentava-se que lhe chegavam às mãos projetos de clientes seus da privada, sobre os quais lhe competia emitir parecer técnico imparcial, situação nada incomum na nossa administração. Mas o importante era estarem-lhe reconhecidas capacidade de trabalho e força empreendedora, qualidades que se aleavam à sua tendência bajuladora para lhe granjearem um estado de graça inicial nas suas várias tentativas de carreira na função pública. Destas, algumas abruptamente interrompidas por um intriguismo compulsivo, retirava ele três novos items para a caixinha das experiências da vida: mais amizades femininas, mais oportunidades de euros não declaráveis e mais ocasiões para fingir bom perder. Mas a presente nomeação fazia tudo isso valer a pena.
- Atenção, pessoal, que isto é importante: é o nome pelo qual o país me vai conhecer daqui para a frente! - Abre os braços em demanda de atenção: - É um nome de guerra. Tem de soar bem, sobretudo soar e ressoar nos media. A aparência, só, não chega. Vocês têm consciência de como esta nomeação me aproxima da meta de secretário de estado, certo? Isto não é só para mim: subo eu, subimos todos. O país precisa de sangue novo, fresco, pá - Vira-se urgente para a assessora: - E eu preciso de dois apelidos. Estela, dois apelidos! Toda a gente que se preza faz-se apresentar por dois apelidos. O tempo dos José Matias e dos Carlos Sousa já foi.
Perpassa pelos belos olhos azuis de Estela Arnaud, desde a primeira hora contactada para assessora de imagem, um laivo de troça:
- Ó chefe, você perdoe-me, mas esse apelido da família da sua mãe não lembra ao diabo. De todo! "Covas", acha isto normal?
Nem todo o espírito de conveniência em agradar a um recém-nomeado pelo ministro da tutela evita o reverberar de risos na sala. Toma a palavra o assessor número dois, Urbano Martins, recrutado à pressa dos tempos da faculdade:
- E é que o teu nome próprio também não ajuda nada, pá, agora a sério!
Calisto sente a exasperação a subir e abre os braços como quem vai parar uma locomotiva. Afasta a franjinha, tique antigo.
- Agora que já se divertiram, posso contar com alguma destreza mental para me avançarem com uma solução? "Calisto" vem do fascínio da minha mãe pela história grega."Covas" é outra história antiga de um bisavô meu que... Eh pá, mas já nos estamos a desviar do assunto!
Os presentes entreolham-se. Com a matéria-prima disponível, será difícil parir um nome apresentável. E é o que lhe transmitem. E também que o nome, apesar de tudo, não se revela assim tão determinante no sucesso e no respeito ao detentor de um cargo público. É mais relevante uma certa atitude e... Calisto impacienta-se:
- Eh pá, calma! Eu quero fazer as coisas bem feitas. E se... Inventa-se um apelido do meio! Ávila, por exemplo. Quem é que vai saber se é verdadeiro ou não? - Alonga o olhar pelo poster com o delta do Nilo e ensaia: - Ávila Marcelino... "O doutor Calisto Ávila Marcelino será..."
- Ó chefe, isso não é possível! De todo! - Estela entesa-se no sofá de couro, com um sorriso desajeitado. - Ai eu vou fingir que não ouvi isto! Então na nomeação do diário da república já aparece o seu nome completo, é obrigatório. Vem aqui, olhe...
Num saudável gesto de curiosidade, o novo director arranca o exemplar da mão da colaboradora, deixando-se cair na cadeira de design moderno em pele e cromados. Afasta a franjinha. Arregaça as mangas da camisa como se o esperasse uma tarefa árdua. Está habituado a moldar a realidade à sua maneira, a cozinhar conveniências, a fabricar as verdades. Desagradam-lhe estes pequenos reveses logo na primeira manhã. E lê na olíqua, voz a meia haste, o conteúdo da nomeação:
- "Diário da República, 1.ª série, decerto-lei de 2009, 13 de Fevereiro, hmm tal tal, hmm, é nomeado, pelas suas notáveis qualidades de organização, capacidade de trabalho, ah!, experiência e bom relacionamento interpessoal, ah!, hmmm, etc etc, o licenciado Calisto-Covas-de-Marcelino, pois, cá está a porra, técnico superior do quadro deste ministério, sim sim sim sim, para provir o lugar de director da equipa técnica e de gestão da Paisagem Natural do Lago de Simboa, exacto, sim senhor, tal tal, este despacho entra em vigor no dia útil imediato ao da sua publicação, isso já sabe, assim e assado, o ministro do ambiente, recursos naturais e território ordenado, fulano..
Sopra ruidosamente, como que para afastar as evidências. O nome que lhe destinaram à nascença parece agora um beco sem saída repleto de ironias.
Vale-lhe o assessor, cheio de bom-senso:
- Calisto, o que não tem remédio é para esquecer. Depois estudamos umas manobras de marketing para compensar essa infeliz composição. - Contorcem-se-lhe as vísceras por baixo da camisa de popelina azul-clara, mas mantém a postura: - Fica Covas Marcelino, pronto. Sai assim no press-release e serve para os jornalistas à porta da cerimónia da tomada de posse. Alegra-te por não seres Covas Silva ou...
- ... ou Pereira... - participa Estela, já embrenhada no próximo ponto da agenda.
- ... ou Covas Lopes... - adianta a secretária, que ainda não entrara activamente na cena.
- ... ou Cov... - recomeça o assessor.
- Eh pá, vão à merda!
Felizmente nomeado mas infelizmente denominado, Calisto sai porta fora. Intempestivo e rosado, com a indiferença da secretária, para divertimento do assessor e apesar de Estela, inconformada:
- Urbano, você acha isto normal?!


= Texto de Cristina Leimart =