12 setembro 2012

ERASMO e DAMIÃO DE GÓIS

Damião de Góis (1502-1574), retrato a carvão por A. Dürer
 
" Leitor assíduo de Erasmo, Damião de Góis fez a sua aprendizagem do erasmismo directamente com o mestre. A posição privilegiada que ocupava no Norte da Europa, a sua inteligência e, segundo o próprio Erasmo, a sua simpatia, fizeram com que tivesse um contacto muito regular com o grande humanista e acabasse por consolidar uma amizade que lhe permitiu viver hospedado em sua casa por alguns meses. Erasmo mostrará com Damião de Góis sempre deferência; seja ao procurar que ele aprofunde os seus estudos de latim, seja ao aconselhar-lhe comedimento nas relações com o mundo reformado alemão. Góis será fiel a essa amizade em toda a sua vida. Logo depois de morrer o seu mentor humanista, fazendo uso do poder económico, Damião de Góis admitirá e interessar-se-á pela impressão da obra completa de Erasmo o que acabou por não conseguir. Mais tarde, perante os inquisidores, não desdirá das suas ideias e amizades e terá de defender-se pelos contactos que mantivera com Erasmo e com os reformadores, perigo que, no passado, Erasmo lhe antevira."
António Camões Gouveia, Sociedade e Cultura Portuguesas 2, Universidade Aberta.

05 setembro 2012

Elogio da Loucura, de Erasmo, sexta feira, 28 de setembro, às 21H


"O mundo é um palco e a vida um jogo de som e de fúria, representado por um louco"...eis a metáfora utilizada no início da Introdução deste livro, de Desidério Erasmo, objecto de análise na próxima sessão; nós ainda no caminho dos clássicos.

Deixo outra ideia: " A pior das loucuras é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de doidos"

Leitores de todos os livros, analisai-vos!

04 setembro 2012

AVISO À NAVEGAÇÃO

Quem for aos domingos para os lados de Belém, ali nos jardins quase fronteiros aos Jerónimos, tenha cuidado que pode topar com uma feira de velharias, livros, etc. e com exemplares preciosos como estes que lá adquiri a um preço tão baratinho, tão baratinho que até tenho vergonha de dizer. Este exemplar de Uma Gota de Sangue, 1º volume do ciclo romanesco A Velha Casa, de José Régio, é da 1ª edição de 1945.

30 agosto 2012

Viagem a Santarém

“…Nunca dormi tão regalado sono em minha vida. Acordei no outro dia ao repicar incessante e apressurado dos sinos da alcáçova. Saltei da cama, fui à janela, e dei com o mais belo, o mais grandioso e, ao mesmo tempo, mais ameno quadro em que ainda pus os olhos.
No fundo de um largo vale aprazível e sereno está o sossegado leito do Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se  cobre de água junto às margens, donde se debruçam, verdes e frescos ainda, os salgueiros que as ornam e defendem.  De além do rio, com os pés no pingue nateiro daquelas terras aluviais, os ricos olivedos de Alpiarça e Almeirim; depois, a vila de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas. De aquém a imensa planície dita do Rossio, semeada de casas, de aldeias, de hortas, de grupos de árvores silvestres, de pomares. Mais para a raiz do monte em cujo cimo estou, o pitoresco bairro da Ribeira, com as suas casas e as suas igrejas, tão graciosas vistas daqui, a sua cruz de Santa Iria e as memórias romanescas do seu alfageme…”
In “Viagens na Minha Terra” de Almeida Garett, Capítulo 28º
Foto minha de ontem, tirada da janela acima descrita, na Fundação Passos Canavarro
 
Foto minha do azulejo, que penso representar a Ponte da Asseca, no mercado de Santarém
Foto minha da Fonte da Joaninha, no Vale de Santarém
Ontem, um pequeno grupo desta Comunidade seguiu os passos de Garrett e foi de Lisboa a Santarém, não de barco e nem de azêmola, mas com o mesmo interesse e curiosidade.

14 agosto 2012

MANUEL TEIXEIRA-GOMES (Vila Nova de Portimão, 1860 - Bougie, Argélia, 1941)

Na embaixada de Londres

Era uma forte rapariga de seus quinze anos, com o desenvolvimento de mulher feita, embora vestindo saia curta; a tez levemente morena ou desse tom mate, que no Norte se contrapõe ao róseo nacarado das loiras e à luz meridional se capitularia, talvez, de alvura láctea; olhos imensos e pretos, da cor do cabelo que lhe caía, solto, sobre as costas, fartíssimo e ondeado como um velo de azeviche.

("Deus ex machina", Novelas Eróticas)


10 agosto 2012

UMA COMUNIDADE MUITO CANÓNICA


A imagem não é famosa, de fotocópia hoje tirada na BN. José Régio e Alberto de Serpa em Amarante, em pleno Verão de 1950. E logo sob o regaço daquela Pietá bem nossa conhecida. Ruben A. em O Mundo à Minha Procura chama-lhe a Pietá mais bonita da estatuária portuguesa. Lembram-se?

09 agosto 2012

Uma Comunidade muito canónica...*

 Agosto 2012, a poesia na Praça da Figueira

*Agarrando na constatação do nosso mentor aqui em baixo referida, cá está a prova do crime

"Mil anos há que busco a minha estrela
E os fados dizem que ma têm guardada;
Levantei-me de noite e madrugada,
Por mais que madruguei não pude vê-la ..."

Parte de um Soneto de Francisco Rodrigues Lobo

08 agosto 2012

SOBRE O CÂNONE LITERÁRIO

---------- Parte de um artigo de VASCO GRAÇA MOURA publicado hoje em www.dn.pt

Poucas ideias devem ter sido tão discutidas na teoria literária moderna como a de cânone. Posto em questão devido a ressentimentos de vária ordem, como sustenta Harold Bloom, ou por razões teóricas mais ou menos ligadas à Linguística ou às ideologias, o cânone aspira a englobar uma lista de autores e de obras consideradas modelos de perfeição, seja à escala nacional, seja à escala ocidental, seja à escala universal. A sua estabilização, sempre a entender em termos flexíveis e abertos a sucessivas incorporações, supõe a passagem do tempo, a filtragem pela consciência colectiva e a inserção em coordenadas civilizacionais, a existência e funcionamento de critérios de valor identitários e estéticos, uma tradição analítica de comentários e uma história cultural, e provavelmente uma tensão dinâmica com sucessivos contra-cânones.
Sem pretender entrar em discussões teóricas e sem negar que haja uma certa dose de flutuação necessária no próprio estabelecimento do cânone e dos seus contornos práticos, considerando o caso português (ou, se se preferir, o dos espaços em que se fala o português) as coisas podem resumidamente ser postas assim: deveria haver um conjunto de obras literárias escritas na nossa língua que todos teriam de conhecer.
No plano do ensino, isto parece de uma evidência elementar, mas tem andado mais ou menos esquecido. Ora, reduzida às suas linhas mais simples, esta é afinal a questão do cânone literário e da sua relevância para o currículo escolar, embora esse plano, por definição, acabe por ser transcendido, pois o cânone não é propriamente uma simples ferramenta para uso do ensino, mas antes um quadro de referências indispensáveis e um complexo de elementos literários respeitante ao sistema de valores e aos interesses culturais de uma dada sociedade: incorpora uma série de modelos cuja evidência paradigmática se recorta ao longo dos sucessivos tempos históricos e se impõe à mentalidade e à sensibilidade colectivas.
Na escola, a abordagem do cânone deve ser flexível e variada. Em Portugal, antigamente, havia para tal efeito excelentes instrumentos que iam dos cadernos literários da Seara Nova aos textos da editorial Comunicação e vários outros. Havia também selectas, crestomatias e antologias que apresentavam criteriosamente passagens mais ou menos extensas de obras que faziam parte do cânone. E havia, para quem estudava, a obrigação de saber dessas obras e mesmo de conhecer algumas delas na íntegra.
Dos cancioneiros medievais a Fernão Lopes, de Bernardim e Gil Vicente a Sá de Miranda e Camões, de Rodrigues Lobo e Francisco Manuel de Melo a Bernardes e Vieira, de Bocage, Garrett e Herculano a Camilo, Eça, Cesário, Antero e António Nobre, isto para dar só alguns exemplos flagrantes do século XIII ao século XIX, os alunos de Português tinham de contactar com toda uma série de autores e isso só lhes fazia bem. Visitavam lugares escolhidos da grande literatura escrita na sua língua e, a partir desses paradigmas, tinham de proceder a vários tipos de análise e de interpretação, enriqueciam o seu conhecimento do léxico e da gramática, aprendiam figuras de estilo, adquiriam uma certa compreensão histórica e contextualizada da obra de cada autor, aperfeiçoavam grandemente o conhecimento do português como língua materna e tornavam-se capazes de utilizá-lo melhor. (...)

---------- Gil Vicente, Rodrigues Lobo - leituras e representações recentes... Uma Comunidade muito canónica.

01 agosto 2012

Quem pediu FRANCISCO RODRIGUES LOBO?

VILANCETE

Disse Inês que me queria
No tempo que me enganava;
E eu queria, ela zombava.

Deu-me mostras e sinais
Que me amava de verdade,
Cativou minha vontade
Para assim querer-lhe mais;
Cuidei que eram naturais
Os extremos que mostrava,
E eu queria, ela zombava.

Era de mim tão contente
Que assim mesmo tinha inveja,
Que o que muito se deseja
Logo se crê facilmente;
Logo ela era tão diferente
Que em tudo o que me tratava
Eu queria, ela zombava.

Foi-me assim, zomba zombando,
Vencendo por graça e riso;
Sem nunca me amar de siso,
O siso me foi tirando;
Fiquei doido, como quando
Pelo amor, que me mostrava,
Eu queria, ela zombava.

Diziam-me os guardadores:
– Olha ora por ti, Joane,
Deixa Inês e não te engane,
Que ela tem outros amores. –
Cuidavam que eram melhores
Os que comigo tratava:
E eu queria, ela zombava.

Primavera (1601)

29 julho 2012

O Príncipe, de Maquiavel, sexta feira, 31 de Agosto, às 21H





Continuamos nos clássicos.
O mês de Agosto de 2012 vai ser diferente, com esta leitura que nos leva ao mundo do pensamento político.
"Aqueles que desejam conquistar o favor de algum príncipe costumam apresentar-se-lhe com os bens que mais prezam ou com aqueles que crê em dar-lhe maior prazer."
Este foi o legado de Nicolau Maquiavel ao Magnífico Lourenço de Médicis, e também ao mundo que se interessa por política.

27 julho 2012

A LAMENTAÇÃO DE PROCUSTO


A LAMENTAÇÃO DE PROCUSTO
I
Reconheço os crimes que cometi, o terror que espalhei pela Ática, infligindo aos viandantes os suplícios do leito. Via-os chegar exaustos ao cais do porto onde os esperava, queimados de vento e pó, as sandálias e as túnicas desfeitas,– de bom grado aceitavam a miragem de repouso que lhes prometia.
II
Confesso que sofria. Perturbava-me a impiedade dos deuses, o fogo sombrio da desigualdade nos olhos dos homens, o rápido fluir da vida sob as pontes do destino absurdo. Mas o mal que pratiquei nunca me concedeu a satisfação, nunca tive prazer em ver no rosto das vítimas o reflexo cruel do pavor sem limites: fiz apenas o que estava destinado fazer-se desde o princípio dos tempos.
III
Capturou-me Teseu numa vereda que levava a Elêusis. O dia era uma promessa de luz e havia no ar um cheiro brando a pinheiros. Eu tinha os olhos rasgados de viandantes e as mãos tolhidas de sangue.
IV
Morri no suplício do leito, mas os meus membros decepados, vivos em metáforas, atravessaram o martírio da História por séculos de luz e de trevas.
V
Bastava o frio castigo de Teseu e a mortalha de silêncio sobre o meu ser desprezível: a moeda ao barqueiro, o rio sem regresso. Teria descido em paz ao reino das sombras, aliviado dos meus crimes e da tirania dos deuses. Teria descansado, enfim, no leito do olvido.

MANUEL NUNES; DISPERSO ESCREVEDOR, SEXTA-FEIRA, FEVEREIRO 17, 2012

LER OS CLÁSSICOS


A  Iíada é o primeiro livro da literatura europeia e, sob certo ponto de vista, nenhum outro livro que se lhe tenha seguido conseguiu superá-lo— nem mesmo a Odisseia. Lida hoje, no século XXI depois de Cristo, a Ilíada mantém inalterada a sua capacidade esmagadora de comover e perturbar. As civilizações passam, mas a cultura sobrevive? É nesse sentido que parece apontar a mensagem deste extraordinário poema. Ler a Ilíada é reclamarmos o lugar que por herança nos cabe no processo de transmissão da cultura ocidental: cada novo leitor acrescenta mais uma etapa, ele mesmo um novo elo.

HOMERO- Ilíada. Trad. Frederico Lourenço, 2ª Ed. Lisboa: Livros Cotovia, p. 7 (da introdução)

23 julho 2012

OS MITOS (4)

Teseu castigando Procustes no seu próprio leito. Proveniência: decoração dum domicílio ateniense, cerca de 440-430 a.C. - Bristish Museum.

Um dos mais célebres feitos de Teseu foi a captura e morte de Procustes [ver fala de Hipólito no Acto I, Cena I de Fedra], um salteador da Ática que oferecia guarida aos viajantes e depois os submetia a uma perversa tortura: fazia-os deitar num leito que tinha em sua casa, e conforme os membros inferiores dos infelizes excedessem ou ficassem aquém das dimensões desse leito, assim os cortava com a sua afiada espada ou os puxava com cordas até atingirem a correspondente medida. Teseu infligiu-lhe igual suplício.
O leito de Procustes é objecto de frequentes alusões literárias como situação tirânica, aflitiva ou redutora da liberdade de criação poética.
Um poetastro moderno deu voz a Procustes, escrevendo algures:
Reconheço os crimes que cometi, o terror que espalhei pela Ática, infligindo aos viandantes os suplícios do leito. Via-os chegar exaustos ao cais do porto onde os esperava, queimados de vento e pó, as sandálias e as túnicas desfeitas,– de bom grado aceitavam a miragem de repouso que lhes prometia, etc., etc., etc.

22 julho 2012

OS MITOS (3)

Teseu matando o Minotauro. Decoração de uma hídria ática do séc. VI a. C. (Museu Gregoriano Etrusco, Roma)

Teseu, filho de Egeu, libertou Atenas do jugo que lhe era imposto por Minos, rei de Creta: uma leva anual de jovens atenienses para servirem de alimento ao Minotauro. Conseguindo entrar no Labirinto com a ajuda de Ariadne (irmã de Fedra), que entretanto se apaixonara por ele, matou o monstro.
E quando, graças ao auxílio de uma jovem, a difícil porta,
jamais por alguém trilhada, foi achada recolhendo um fio,
logo o filho de Egeu, raptando a filha de Minos, se fez à vela
rumo a Dia [Naxos]. E nesta praia abandonou, cruel, a companheira.
(Ovídio, Metamorfoses, Livro VIII 172-175)

ARIADNE

A irmã de Fedra segundo John William Waterhouse (escola pré-rafaelita). Pintura de 1898, colecção privada

21 julho 2012

VISITA DE ARIADNE


Lembrara-me de uma teoria da paixão.
Imagino a poesia que há no acaso.  Este, chamo-lhe sevilha.
Quarenta e tal graus, o espaço ocre do museu das belas-artes.
Sorriu. Com olhos de gás e um rio por cima da seda rubra.
Falo-lhe, então, de marco polo e da invenção do papel,
a monumentalidade da catedral, o túmulo de colombo.
Disse-lhe, enfim: “vê como ferve o recorte da giralda”.
Limitou-se a sorrir. Estendeu um fio no chão.


------ JOSÉ LAURINDO LEAL DE GÓIS, O Fogo e a Lágrima, Porto, Campo das Letras, 2003, p. 73.

OS MITOS (2)

Representação do Minotauro num vaso ático de cerca de 515 a.C.

Querendo vingar-se de Minos, Posídon, deus dos Mares (Neptuno para os latinos), fez Pasífae apaixonar-se por um belo toiro. Da união ilícita nasceu o monstro Minotauro, figura de toiro e homem.
Indignado com a esposa, Minos mandou construir o Labirinto para nele encerrar o fruto do adultério.
Diz Ovídio nas Metamorfoses, Livro VIII 159-168:
Celebérrimo pelo seu talento na arte da arquitectura, Dédalo
encarrega-se da obra, baralha os sinais e faz o olhar enganar-se
em retorcidas curvas  e contracurvas de corredores sem conta.
Tal como na Frígia o Meandro nas límpidas águas se diverte
fluindo e refluindo num deslizar que confunde, e, correndo
ao encontro de si próprio, contempla a água que há-de vir,
e, voltando-se ora para nascente, ora para o mar aberto,
empurra a sua corrente sem rumo certo, assim enche Dédalo
os inumeráveis corredores de equívocos. A custo ele próprio
logrou voltar à entrada: de tal forma enganador era o edifício.

20 julho 2012

OS MITOS (1)

O rapto de Europa na moeda grega de 2 euros.

Europa, princesa fenícia, foi raptada e levada para Creta por Júpiter (gr. Zeus) que para tal se transformou num belo toiro (Ovídio, Metamorfoses, II 847-875). Um toiro tão belo e tão manso que a princesa ousou montá-lo.
Da união de Europa com Júpiter nasceu Minos, rei de Creta, esposo de Pasífae, pai de Andrógeo, Ariadna e Fedra.