17 fevereiro 2025

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS LEGENTES (6)

 “O Leitor” é um conto de Teolinda Gersão coligido em Histórias de Ver e Andar. Li-o há uns dez anos e tem uma história que passo a resumir.

É a história de um fã – como se diz hoje em linguagem informal – de romances policiais. Não lia, devorava os romances, desejoso de chegar ao fim e conhecer o verdadeiro assassino da pobre vítima entre as hipóteses avançadas ao longo do livro.

Tendo como profissão a de maquinista do metropolitano e sendo tão grande a sua paixão pela leitura, começou a levar os livros para o comboio, lendo-os sobre o tablier enquanto efectuava as manobras de condução.

Claro que a coisa deu mau resultado: não houve propriamente um acidente grave, mas falhas na informação que pelos altifalantes deveria ser prestada aos passageiros sobre a passagem pelas diversas estações da linha. Um passageiro percebeu a razão da sua distração, fez queixa, e o bom do leitor-maquinista foi despedido.  

Vem então o mais curioso: absorvido pela necessidade de procurar emprego, passou apenas a ler anúncios de jornal, não sendo capaz de voltar aos seus amados romances.

Moral da história: para ler, temos de ter serenidade, temos de nos sentir bem connosco e com os que nos rodeiam. A leitura não é uma terapia (para ajuda procurem os psicólogos ou os bruxos), antes um exercício de pessoas saudáveis que estão bem com a vida.

Pode haver quem pense o contrário. Há até mediadores de grupos de leitura que ufanamente se autoproclamam biblioterapeutas. Palavra estranha, não é? Mas eles lá saberão porque o dizem.  

15 fevereiro 2025

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS LEGENTES (5)

                                       

«Talvez não haja outros dias da nossa infância que tenhamos vivido tão intensamente como esses que cremos ter deixado sem os viver, esses que passámos com um livro preferido».

Esta é a abertura do texto Sobre a Leitura, de Marcel Proust. O autor das memórias de Combray com os passeios pelos lados de Méséglise e Guermantes (Em Busca do Tempo Perdido), expressa-nos neste livrinho de 70 páginas aquilo que a leitura pode dar – de prazer e de renúncia a outros prazeres – a quem, permanecendo neste mundo, quer descobrir os mundos possíveis que se desdobram triunfantes – umas vezes belos, outras aterradores – perante os prodígios da imaginação.

O jovem leitor que associamos a Marcel Proust aproveitava todos os momentos que lhe eram permitidos para se isolar e se entregar à leitura, sendo por vezes admoestado por se fechar no seu quarto, evitando os passeios e os convívios familiares.

A leitura é normalmente um acto de isolamento, de solidão. Por isso admiro os que conseguem ler nos transportes públicos – frequentemente lotados e ruidosos –, demonstrando uma capacidade acrescida de permanecerem sozinhos no meio de tantos. Estes serão talvez uns superleitores adaptados à velocidade e escassez de tempo dos nossos dias. Honra lhes seja feita, bem os conheço!

13 fevereiro 2025

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS LEGENTES (4)

Ignorante que sou de tantas e tão belas coisas, há semanas que venho fazendo a minha educação sentimental de legente na cátedra camoniana de Jorge de Sena. Educação sentimental, não sei se já se percebeu, porque a leitura é um sentimento. E Jorge de Sena, engenheiro civil da Junta Autónoma das Estradas até se tornar no scholar de Assis, Araraquara, Madison e Sta. Barbara (uma vida de professor pelo mundo em pedaços repartida) é também, além disto tudo, poeta, contista e romancista, além de espírito de trato difícil, agora só tangível em mediúnicos exercícios que não sei se há quem os faça nem quero saber. Bem, estive no ano passado à beira do seu túmulo no Cemitério dos Prazeres, só isso, e agradeço à companhia sentimental que me lá levou.

A imagem que acima se apresenta é, como se vê, do Salmo 136 (137 segundo o número hebraico), súplicas do povo exilado em Babilónia que Camões glosou nas redondilhas de Babel e Sião, “Sôbolos rios que vão” ou Super Flumina Babylonis (a que Jorge de Sena se referiu num conto de Novas Andanças do Demónio):

Sôbolos rios que vão / por Babilónia m´achei, / onde sentado chorei / as lembranças de Sião / e quanto nela passei. / Ali o rio corrente / de meus olhos foi manado, / e tudo bem comparado, / Babilónia ao mal presente, Sião ao tempo passado. (…)

Um poetastro da nossa praça atreveu-se a brincar com o assunto em poema dum seu livreco. Perdoai-lhe, senhores, porque ele, se calhar, não sabia o que fazia.

E assim vamos andando. Muito tardia mas proveitosa (para mim) esta sessão de educação sentimental.

12 fevereiro 2025

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS LEGENTES (3)

Há uns anos, após a leitura de um livro de contos de um amigo (edição da Chiado ou outra qualquer editora do género), exprimi a opinião de que a prosa era boa mas não estava posta em estilo actual, fazendo lembrar os textos de Camilo ou Júlio Dinis. Respondeu-me que sim, podia ser verdade, mas o que queria eu que ele fizesse se havia sido com Camilo e outros do seu século que aprendera?

Milan Kundera tem um conjunto de ensaios (“Consciência da continuidade”, desse livrinho aí na imagem) em que é tratado o assunto do inactual em arte. Imaginemos, diz o escritor, que era possível um virtuoso dos nossos dias compor uma sonata tão perfeita como uma qualquer de Beethoven, de tal forma que melómanos apurados, ao ouvi-la, arriscariam tratar-se de obra do grande compositor alemão. Ao saberem, porém, que não era, que fora um extraordinário virtuoso contemporâneo a criá-la, não deixariam de rir pela inactualidade do trabalho, reconhecendo-o não como obra de valor original, mas como um simples pastiche.

Isto diz respeito também à poesia. Tenho falado com leitores que não gostam da poesia moderna (alguns até não gostam de nenhuma poesia) e sentem que os versos rimados de Augusto Gil ou João de Deus, quando não os de Guerra Junqueiro, é que lhes enchem a alma.

Não está em causa a poesia dos clássicos, isto é, daqueles poetas que  por valor lograram romper o esquecimento que o tempo sempre tece. Eles serão sempre os maiores! Ocorrem-me os nomes de Camões, Sá de Miranda, Bocage, Quental…  Poetas com quem a poesia contemporânea dialoga com plena consciência do fenómeno da continuidade em arte. É o caso deste poema (“Minha senhora de mim”) de Maria Teresa Horta. Ecoa nele um conhecido verso de Sá de Miranda e aqui fica, também, em memória da autora:

Comigo me desavim / minha senhora / de mim // sem ser dor ou ser cansaço / nem o corpo que disfarço // Comigo me desavim / minha senhora / de mim // nunca dizendo comigo / o amigo nos meus braços // Comigo me desavim / minha senhora / de mim // recusando o que é desfeito / no interior do meu peito.

11 fevereiro 2025

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS LEGENTES (2)

Levaram-me no mês passado ao espaço Brotéria, no Bairro Alto, para assistir a uma conferência em torno de um ensaio de Flannery O`Connor – esse cuja foto da primeira página está aí no topo.

A questão do ensino da literatura não é assunto desinteressante para os leitores do género romance, o mais presente nos programas dos grupos de leitura, chamem-se eles clubes ou comunidades.

Flannery O´Connor diz-nos que o foco da leitura de um texto de ficção  deve ser posto na obra, naquilo que nela está, fugindo-se às tentações não literárias de interpretação como a biografia ou a psicologia do autor.

Na escola aprende-se com o professor, nos grupos de leitura, se a mediação for eficaz, todos aprendem com todos.

Lembremo-nos do que Camões diz em Os Lusíadas: quem não sabe de arte não a estima. Ora a ficção narrativa é a arte que, diferentemente de outras artes, nos fala dos sentimentos, da vida e do que esperamos dela. Aquela arte em que nós mesmos estamos metidos e que é forçoso compreender para a estimar.

Façamos, pois, a nossa educação sentimental de leitores que só teremos a ganhar com isso.

09 fevereiro 2025

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS LEGENTES (1)

O título O Romancista Ingénuo e o Sentimental corresponde a um conjunto de conferências proferidas por Orhan Pamuk em 2009 na Universidade de Harvard. Li-as há mais de dez anos, pouco depois da sua publicação em Portugal.

Falando de romancistas, são também os leitores que estão sob o foco analítico do escritor turco.

Temos assim o leitor ingénuo e o sentimental, sendo que este é o leitor reflexivo, o que sente a leitura para lá do mero entretenimento ou da devassa de vidas excepcionais proporcionadas pela arte do romance.

Enquanto o leitor ingénuo, desejoso de conhecer o desfecho dos enredos, abomina muitas vezes as descrições demoradas e atribui menor importância à profundidade psicológica das personagens, o leitor sentimental-reflexivo procura aquilo a que Pamuk chama o centro do romance, ou seja, a coerência interna da obra, por vezes dissimulada no subtexto ou na propensão alegórica da voz narrativa.

Uns e outros (leitores ingénuos e sentimental-reflexivos) partilham da enorme alegria de ler romances. Ambos se aceitam como sinceros e estimáveis, o que não significa que não tentemos fazer alguma coisa para os tornar melhores.  

01 fevereiro 2025

“Um Bom Homem é Difícil de Encontrar” de Flannery O’Connor –28 de fevereiro às 20h00

 


Do sul dos Estados Unidos chegam-nos estes contos de uma profunda narrativa, de uma tensão permanente, onde a incógnita do que vai acontecer é uma constante. Há uma oscilação dramática entre o humor, o caricato e a violência. Flannery O’Connor tem o dom de nos prender desde a primeira palavra até à última linha…

09 janeiro 2025

Palavras Silenciadas: Histórias e Censura nos Livros Proibidos

 


Data: 10 de janeiro de 2025 | 18h00

Local: Biblioteca Municipal de Sintra

Palavras Silenciadas: Histórias e Censura nos Livros Proibidos

Uma conversa que explora o universo dos livros censurados durante o Estado Novo, refletindo sobre o impacto da censura em autores, leitores e liberdade de expressão a partir da análise das obras de dois importantes escritores portugueses: Ferreira de Castro e José Régio. 

Esta sessão contará com as seguintes  comunicações:

∙ Ferreira de Castro, a censura e a autocensura - Ricardo António Alves;

José Régio e a censura - Manuel Matos Nunes  

01 janeiro 2025

31 de janeiro, “Dinossauro Excelentíssimo” de José Cardoso Pires – às 20h00

 


Alguém escreveu que este livro é uma fábula de "relato violentamente satírico sobre a figura de Salazar". Vamos ler e perceber a razão desta opinião…

30 dezembro 2024

Balanço Anual e Feliz 2025

 

2024 começou com o habitual jantar anual da Comunidade que teve lugar no Dia de Reis. Celebrámos a chegada de tão emblemáticas majestades e celebrámos, sobretudo, o nosso amor pelos livros e tudo o que vem no seu caminho.

O primeiro trimestre recebeu o mote “Talvez Romance Histórico” e por conta disso o mês de janeiro começou em grande: “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde” do escritor Mário de Carvalho fez as delícias de todos e foram muitos os que leram e estiveram presentes nesta sessão: 28 leitores! Numa autêntica jornada pela língua portuguesa, o escritor apresenta-nos o dia a dia da fictícia cidade romana de Tarcisis, mas que mostra toda a estrutura e organização sociopolítica de uma qualquer real cidade romana. Os acontecimentos descritos decorrem no séc II e são-nos expostos pela voz de Lúcio Valério, magistrado da cidade, um homem bom que tenta desenvolver o seu trabalho de forma justa, mas sem deixar de corresponder à ordem emanada de Roma, numa época em que os primeiros grupos de Cristãos se começam a manifestar, colocando em causa tudo o que até aí era norma em termos de Deuses e religiões. Uma imensa riqueza de detalhes, fazem do romance quase que um manual de história sobre a civilização romana.   

Logo no início de fevereiro, alguns dos nossos leitores marcaram presença no Supremo Tribunal de Justiça, para a apresentação do romance “Alegações Finais” do nosso conhecido e estimado Carlos Querido. Durante a sua intervenção, o escritor aludiu à nossa Comunidade de Leitores e à nossa participação em anteriores sessões sobre obras suas, nomeadamente as que tiveram lugar na Feira do Livro em torno do romance histórico “A Redenção das Águas” e da coletânea de contos “Habeas Corpus”. Ficou no ar a possibilidade de o convidarmos a participar numa futura sessão, sobre este seu último romance.

O livro do mês remeteu-nos para a II Guerra Mundial e a participação de um grupo de mergulhadores de combate da Regina Marina italiana neste conflito. “O Italiano” de Arturo Pérez-Reverte trouxe-nos a história dos Maiali, autênticos torpedos humanos que detonaram vários navios aliados no Mediterrâneo. O enredo conta-nos a história da livreira Elena Arbuès e do seu envolvimento com o oficial Teseo Lombardo e a ação desenrola-se na Baía de Algeciras e no Rochedo de Gibraltar. Baseado em facto reais esta história aparece-nos sobre a perspetiva do lado contrário aos aliados, o que não é muito comum, trazendo à superfície o facto dos bons não estarem todos do lado ganhador nem os maus do lado perdedor. Um romance muito bem escrito com algumas descrições quase cinematográficas, deu-nos a conhecer um lado pouco falado da guerra. 25 pessoas presentes e 5 que não leram.

Março começou bem, logo no dia 1, com a apresentação do livro de poesia “Pó Ético” da nossa companheira de leituras Marta Meireles. Um momento bonito partilhado por familiares, amigos, alunos e muitos dos membros desta Comunidade. Ficámos a conhecer as palavras que escreve de forma interventiva, ora mordaz ora irónica, divertida, inteligente, acutilante e muito inconformada. Que boa surpresa que foi!

A meio do mês mais uma atividade fora de portas: manhã de poesia no Cemitério dos Prazeres, onde homenageámos alguns dos poetas, ali eternamente residentes: Mário Cesariny, Jorge de Sena, Cesário Verde, Al Berto, António Ramos Rosa e Alcipe, Marquesa de Alorna. Com um programa bem delineado e coordenado pelo Manuel Nunes e pela Paula Silva, para além de ficarmos a saber um pouco mais da vida daqueles poetas, foram ditos vários dos seus poemas pelos nossos inspirados leitores. Uma bonita manhã de quase Primavera que terminou com mais um salutar almoço convívio.

O autor do mês foi Alves Redol com o livro “Os Reinegros”. Publicado 3 anos depois da sua morte, o romance neorrealista debruça-se mais uma vez sobre as vidas sofridas dos mais desfavorecidos. Um romance urbano, passado nos tempos conturbados e febris da implantação da primeira república, oferece-nos algumas personagens de grande densidade psicológica, nomeadamente Alfredo e Luísa, o casal Reinegros. Uma luta constante, mas algo inglória, contra a miséria, a pobreza e o surgimento do que se pode chamar de consciência política e social, foram os temas centrais da trama. 21 leitores, dos quais 3 não leram, proporcionaram uma discussão bem viva e entusiasmante.

Para o segundo trimestre o mote foi “Nos 50 Anos do 25 de Abril”. Em consonância entrámos em abril com “Portugal, a Flor e a Foice” de J. Rentes de Carvalho. Um mergulho em alguns factos da nossa história, com a desconstrução de mitos e dados tidos como adquiridos e uma visão muito crítica sobre a revolução dos cravos, os seus antecedentes e consequências. Um olhar de fora para dentro, de alguém que vivendo a maior parte da sua vida nos Países Baixos, beneficiou necessariamente de uma aculturação muito própria. Estiveram presentes 18 leitores (3 que não leram o livro), numa sessão muito animada, a qual contou com poemas e uma instalação comemorativa da Liberdade.

Maio trouxe de novo Agustina Bessa-Luís e o seu “Os Meninos de Ouro”. A escritora raramente é consensual e numa avaliação mais radical, está um pouco na onda do “ou se ama ou se odeia”. Mas que a sua escrita é intemporal, ninguém duvida. Com este romance as opiniões voltaram a dividir-se e houve quem gostasse muito e quem se tivesse arrastado na leitura.  A história desenrola-se em torno de José Matildes, menino de uma grande e tradicional família do Douro, homem político no pós-revolução e advogado de formação, que enquanto se dedica à sua atividade política, contradizendo a sua carga de homem extremamente rígido nos seus valores morais, acaba por abandonar a sua mulher Rosamaria, juntando-se a Marina, uma mulher sofisticada, em quem José projeta a sua ânsia de libertação dos seus fantasmas. José é facilmente identificado como o malogrado primeiro ministro de Portugal, Sá Carneiro. Estiveram presentes 18 elementos e 7 não leram ou não terminaram a leitura.

Junho, foi mês de feira do livro em Lisboa, com diversas atividades aliciantes para os leitores e também o términus do trimestre comemorativo da revolução, com “Os Memoráveis”, de Lídia Jorge. Um romance bem recebido por todos, que nos devolveu à memória acontecimentos que não devem ser esquecidos. Através do olhar de três jovens e a partir de uma fotografia de grupo, embarcamos numa viagem evocativa dos caminhos da revolução dos cravos, através de um conjunto de entrevistas às pessoas que nela constam, todos com um papel mais ou menos relevante nos acontecimentos daquela “bela madrugada que tantos esperavam”. Houve quem visse uma visão melancólica da revolução com alguma ambiguidade e ironia. Quem dissesse que trocava a melancolia pelo desencanto. Quem sentisse algum desalento, mas mesmo assim uma esperança. E todos tentaram identificar as personagens ficcionais com as personagens reais dos acontecimentos. Foi uma sessão bonita em que estiveram presente 21 elementos, dos quais 3 não leram o livro.

O 3º Trimestre veio sob o mote - Romance! Romance! Romance! – pelo que, em julho, chegou “Justine” de Lawrence Durrel. Sendo o primeiro dos quatro romances que formam “O Quarteto de Alexandria”, esta foi uma leitura que alguns consideraram de excessos até mesmo a roçar o barroco. Encontros e desencontros de um grupo de pessoas relacionadas entre si sob diferentes formas: amizade; amor; paixão e mesmo ódio, tendo como personagem central a excêntrica e algo decadente cidade de Alexandria. Justine, mulher exótica, linda, rica, misteriosa e judia, com um passado doloroso, é a personagem em torno de quem gravitam homens e mulheres eroticamente obcecados por ela que, por sua vez os usa para saciar os seus próprios demónios. Entre os que gostaram muito e os que nem por isso, apenas 2 dos 19 presentes não leram ou não acabaram.

Agosto é por sinónimo, mês de férias. Talvez por isso, surgiu uma leitura mais leve do que o habitual. “Praça do Rossio, Nº 59” de Jeannine Johnson Maia, trouxe-nos um tema muito sério e importante, mas apresentado de uma forma ligeira. Em 1940, numa cidade de Lisboa, então uma placa giratória para a saída daqueles que fugiam da Guerra, desenrola-se durante 9 dias, uma história romanceada entre os jovens António, português, empregado de mesa no café Chave d’Ouro e carteirista nas horas vagas e Claire uma refugiada franco-americana que chega à estação do Rossio, em trânsito para apanhar um barco para a América. As suas vidas cruzam-se numa intriga de espionagem e política numa Lisboa salazarista, supostamente neutra, mas…onde ninguém está seguro, sobretudo os que estão do lado certo da guerra. 20 leitores presentes, tendo todos lido o romance e considerado uma leitura agradável apesar da sua ligeireza.

Em setembro conhecemos a escrita de Javier Marías e o seu “Berta Isla”. Uma avalanche de reflexões, uma avalanche de parágrafos, uma avalanche de palavras. Uma imensa densidade de escrita, transporta-nos através da vida de Berta Isa e do seu muito ausente marido Tomas Nevinson. Um ambiente de espionagem, de suposições, de mil perguntas e poucas ou quase nenhumas respostas.  Aprender a viver com a espera e construirmos o nosso eu através dela. Foi muito do agrado das 25 pessoas presentes, das quais, 4 não conseguiram ler ou acabar de ler o livro.

Entrámos no último trimestre do ano sob o mote “Outros Géneros”. Assim, Outubro trouxe-nos o conto de Karen Blixen “A Festa de Babette”. Parafraseando o nosso coordenador Manuel Nunes este é “…um conto de proveito e exemplo. Proveito por nos instruir sobre tantas coisas da vida, exemplo por nos indicar caminhos a seguir, e isto sem deixar de nos deleitar pelos lances curiosos e engraçados com que nos deparamos ao longo do texto…”. Uma escrita suave e encantadora, uma história que celebra a vida e que reconcilia. Um prazer imenso na leitura, foi a conclusão dos 22 leitores presentes, onde apenas 1 não teve oportunidade de ler.

Em novembro, um pequeno grupo da nossa Comunidade, esteve na Biblioteca Central de Almada, a propósito da programação relativa à comemoração do seu 27º Aniversário, que incluiu o 1º Encontro dos Grupos de Leitores da Rede de Bibliotecas Municipais da Área Metropolitana de Lisboa. A nossa leitora Maria José Correia (Joca), foi convidada a participar na mesa do encontro. O testemunho da sua participação que também funciona como registo histórico da vida desta Comunidade de Leitores até aos dias de hoje, foi objeto de uma publicação própria neste blogue.


Por sugestão da nossa Biblioteca (BSDR), em novembro acompanhámos as memórias de Emília Amor, relacionadas com a área geográfica do concelho e sobretudo da freguesia de São Domingos de Rana. O livro “Pura Memória”, é uma narrativa biográfica mas também ficcional, que abrange um período de quatro anos – 1952 a 1956 – vividos em Caparide, aldeia do concelho de Cascais, onde a autora residiu até aos dezoito anos. Estiveram 20 leitores presentes, tendo alguns deles feito uma visita a Caparide, para reconhecimento dos locais referidos no livro. Os livros foram gentilmente oferecidos aos leitores desta Comunidade pela Livraria Municipal de Cascais.

Dezembro chegou de forma poética. O último livro do ano encerrou o mesmo de um jeito bonito e até mesmo encantador. “O Eremita Viajante” de Matsuo Bashô, encantou a Comunidade, com a beleza dos seus haikus, a poesia tradicional japonesa, que num formato curto de apenas 3 versos, capta o instante em que cada palavra assume uma força maior. Falou-se, por exemplo de escassez lexical, de minimalismo, da beleza do pormenor e da plenitude do instante, entre outros. Uma leitura feliz para a maior parte dos 20 leitores presentes, dos quais apenas 5 não leram ou não completaram a leitura.

E terminou assim mais um ano de leituras em comum, em que a partilha de ideias, de conhecimento e de opiniões nos entusiasmou ao longo das diferentes sessões, sempre muito concorridas. Novos leitores foram aparecendo, uns de forma pontual, outros acabando por se tornar “residentes”.  

Agradecemos mais uma vez à Biblioteca de São Domingos de Rana e aos seus responsáveis, pela cedência do espaço e pela disponibilidade, essenciais para a continuidade desta Comunidade.

Bom Ano 2025

 

02 dezembro 2024

“O Eremita Viajante” de Matsuo Bashô – 27 Dezembro às 20h00


Chegamos ao último mês do ano, com o poeta Japonês Matsuo Bashô. Vamos à descoberta dos haikus, um estilo poético muito próprio, resultante em grande parte da contemplação da beleza e comportamentos da natureza…
 

30 novembro 2024

PLANO DE LEITURAS 2025

Reading Sibyl - Simone Cantarini


1º Trimestre - NASCIDOS HÁ 100 ANOS

31 de janeiro - Dinossauro Excelentíssimo, José Cardoso Pires,  

28 de fevereiro - Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, Flannery ’Connor

28 de março - O Templo Dourado, Yukio Mishima


2º Trimestre - ROMANCE, PARA QUE TE QUERO?

24 de abril – Não há Morte nem Princípio, Mário Dionísio

30 de maio – Baumgarter, Paul Auster

27 de junho – A Cidadela Branca, Orhan Pamuk

 

3º Trimestre - ROMANCISTAS PRÉMIO CAMÕES

25 de julho - Leite Derramado, Chico Buarque

29 de agosto – Compêndio para Desenterrar Nuvens, Mia Couto

26 de setembro – Maina Mendes, Maria Velho da Costa

 

4º Trimestre – OUTROS GÉNEROS (teatro, ensaio, poesia, romance gráfico)

31 de outubro – Homem de Palavra(s), Ruy Belo

28 de novembro – Ferreira de Castro, Uma Biografia, Ricardo António Alves

19 de dezembro – Antígona, Sófocles


25 novembro 2024

Encontro de Comunidades de Leitores (1)

(Falto eu na foto porque estava atrás da lente 😃)

No passado dia 23 de novembro, um pequeno grupo da nossa Comunidade, esteve na Biblioteca Central de Almada, a propósito da programação relativa à comemoração do seu 27º Aniversário. A nossa leitora Maria José Correia (Joca), foi convidada a participar na mesa do 1º Encontro dos Grupos de Leitores da Rede de Bibliotecas Municipais da Área Metropolitana de Lisboa e deixa-nos aqui o testemunho da sua participação. Ao mesmo tempo o seu texto funciona como registo histórico da vida desta Comunidade de Leitores, até  aos dias de hoje.


"O Davide Freitas, nosso amigo e colaborador da Biblioteca do Feijó, em Almada, convidou-me para representar a nossa Comunidade de Leitores, no 1º Encontro dos Grupos de Leitores da Rede de Bibliotecas Municipais da Área Metropolitana de Lisboa. E eu fui.

Este Encontro realizou-se no sábado, dia 23 de novembro, pelas 16h, com entrada livre, no âmbito do 27º aniversário da Biblioteca Central de Almada, com a presença da Direção-Geral dos Livros, dos Arquivos e das Bibliotecas. Antes, realizaram-se as cerimónias de entrega de dois prémios literários: Prémio Literário Cidade de Almada, Modalidade Romance, 36ª Edição (atribuído a “A matéria das estrelas”, de Isabel Rio Novo), e Prémio Literário Maria Rosa Colaço, Literatura juvenil, 19ª Edição (atribuído a “A colina”, de Rui Cerqueira Coelho).

📷 Luís Filipe Catarino | CMA

A sessão do Encontro teve a presença da DGLAB (Bruno Eiras) e foi moderada por José Mário Silva, jornalista do Expresso. Participaram na mesa, para além das citadas pessoas, representantes dos Grupos/Comunidades de Leitores da Biblioteca de S. Domingos de Rana, Cascais; da Biblioteca de Oeiras; da Bibliotecas das Galveias, Lisboa; e da Biblioteca José Saramago, Feijó, Almada. Participou também o escritor e cronista do Público João da Silva.

A minha intervenção desenvolveu-se em três ideias principais: a história da formação da nossa Comunidade, as nossas principais características diferenciadoras dos demais grupos de leitores e a nossa forma de organização e funcionamento.

O histórico das origens da nossa Comunidade pode ser lido integralmente ao longo dos registos do nosso blog COM OLHOS DE LER. A Biblioteca de S.D. Rana foi inaugurada em 2005. Em 2006, e no âmbito da promoção da leitura, do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, foram realizadas algumas sessões de dinamização, conduzidas pela Profª. Paula Coelho, da Universidade Aberta. A participação foi reunindo as pessoas que viriam a ser o cerne da nossa Comunidade, cuja primeira reunião formal ocorreu em 26 de fevereiro de 2007, de onde surgiriam as ideias mestras de funcionamento e o plano de leituras do ano. A minha primeira participação só viria a acontecer mais tarde, na sessão de julho de 2009.

Ao longo destes 17 anos, a Comunidade reuniu regularmente na última sexta-feira de cada mês, sempre à noite, 12 vezes por ano, o que dá mais de 200 livros lidos e debatidos. A Comunidade de Leitores é uma organização informal, independente, que utiliza as instalações da Biblioteca de S.D. Rana. Tem um coordenador, o nosso amigo Manuel Nunes, e agrega pessoas de diversas origens, formações, profissões (nenhum bibliotecário) e idades, cujo perfil é o mesmo: gosto por livros e leitura como primeiro passo para uma conversa aberta e coletiva. O número de presenças tem variado ao longo dos anos, tendo sido assinalado um máximo de 32 pessoas presentes; atualmente as sessões reúnem entre 20 a 25 pessoas; os leitores efetivos são habitualmente maioritários no número de presenças; a larga maioria das presenças é constituída por mulheres.

O plano de leituras é definido nos últimos meses de cada ano, a partir das sugestões dos participantes, com organização final do coordenador; habitualmente, os livros são ordenados de forma temática em cada trimestre; o plano final é divulgado na Agenda Cultural de Cascais, no nosso blog e no nosso FB. Os livros e as leituras têm sido o pretexto e o móbil, para desenvolvermos outras atividades de âmbito cultural, sendo de destacar: várias viagens (a Toledo (D. Quixote, Cervantes), à Madeira (Eternidade, Ferreira de Castro), aos Açores (Mau tempo no Canal, Vitorino Nemésio), a Portalegre (Davam grandes passeios ao domingo, José Régio), a Amarante (Espingardas e música clássica, Alexandre Pinheiro Torres), a Leiria (O crime do Padre Amaro, Eça de Queirós), a Tormes e S. Miguel de Seide (Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco); participação em outras Comunidades e Grupos de leitores; passeios e roteiros temático; idas a cinema, teatro e exposições; apresentação de livros e Feira do Livro de Lisboa. Na nossa Comunidade de Leitores, todos são bem vindos, todos têm oportunidade de apresentar os seus pontos de vista, e há sempre espaço para acrescentar uma cadeira na roda, forma como nos colocamos nas nossas sessões.

Foi-me colocada uma questão pessoal sobre a minha experiência na Comunidade, que efeitos teve na minha forma de ler, se me transformou de alguma maneira enquanto leitora. Com efeito, sempre li muito e tenho o gosto de ler, sendo “filha” das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Com a participação na Comunidade de Leitores, senti necessidade de ler com mais atenção, de reter passagens e opiniões sobre cada livro, de pesquisar para melhor compreender e argumentar na análise e no debate que envolve cada sessão. E como as conversas são como as cerejas…e as leituras também, atrás de cada livro vêm conversas, histórias, ideias, outros livros, filmes, teatros, viagens, exposições, passeios, caminhadas, jardins, parques, piqueniques, ágapes, gastronomia…enfim, uma vida mais enriquecida, do ponto de vista pessoal e cultural.  

Que este 1º Encontro dos Grupos de Leitores seja a primeira iniciativa no reconhecimento e na visibilidade destas entidades culturais, enquanto agentes promotores do livro e da leitura. E já que os preços de mercado não ajudam na aquisição de livros, que as ajude a atualização dos catálogos e o alargamento de horários das bibliotecas, enquanto serviço público de acesso e fruição livres."


01 novembro 2024

“Pura Memória” de Emília Amor - 29 Novembro às 20h00


O livro deste mês, foi-nos proposto pela nossa Biblioteca (BSDR), tendo a Livraria Municipal de Cascais gentilmente oferecido os livros aos leitores desta Comunidade.

 No site da “Cultura Cascais”, pode ler-se:

“Pura memória é uma narrativa biográfica mas também ficcional, que abrange um período de quatro anos – 1952 a 1956 – vividos em Caparide, aldeia do concelho de Cascais, onde a autora residiu até aos dezoito anos.

Emília Marçal Amor, professora e autora de algumas publicações das quais se destacam Didática do Português – Fundamentos e Metodologia e Littera - Escrita, Reescrita, Avaliação. Um Projecto Integrado de Ensino e Aprendizagem do Português - Para a Construção de uma Alternativa V, apresenta-nos nesta narrativa uma genuína imersão de uma criança citadina num meio contrastante, então acentuadamente rural.

São estas memórias, de um período da história de Caparide e da freguesia de São Domingos de Rana, para as quais praticamente não existe informação escrita que urge conhecer, preservar e transmitir às gerações vindouras numa política de valorização, salvaguarda e proteção do nosso património imaterial coletivo.”

29 outubro 2024

A Festa de Babette, um pequeno ensaio

 

(Cena do filme "A Festa de Babette" de Gabriel Axel)

Na sessão da passada sexta-feira, fomos brindados com um excelente ensaio do nosso Coordenador Manuel Nunes, sobre o conto "A Festa de Babette". Aqui fica para quem não pôde estar presente e também para uma releitura mais atenta dos que por lá estiveram...

"De acordo com um preceito que remonta a Horácio, poeta latino do século I a.C., o texto literário deve servir para instruir e deleitar. Ou seja, deve ser uma fonte de prazer para o leitor e cumprir, ao mesmo tempo, propósitos de natureza ético-pedagógica. Isto parece tão óbvio que quase escusava de ser dito a quem lê e partilha leituras numa comunidade de leitores. Temos então, repita-se, “instruir e deleitar”.       

Gonçalo Fernandes Trancoso, autor português do século XVI, publicou em vida a sua obra Contos e Histórias de Proveito e Exemplo cujo título, como é evidente, remete para essa função eminentemente ética e pedagógica da escrita literária em geral e do género conto em particular. 

O conto A Festa de Babette, de Karen Blixen, é isso mesmo, um conto de proveito e exemplo. Proveito por nos instruir sobre tantas coisas da vida, exemplo por nos indicar caminhos a seguir,

e isto sem deixar de nos deleitar pelos lances curiosos e engraçados com que nos deparamos ao longo do texto.      

Em A Festa de Babette temos uma história cujas principais personagens se dispõem como que em pentagrama: duas mulheres, dois homens e uma terceira mulher que é o eixo do enredo. Tanto as duas mulheres (as irmãs Martine e Philipa, filhas de um deão e profeta luterano da Noruega profunda) como os dois homens (o oficial hussardo Lorens Loeuwenhielm e o cantor Achille Papin da Ópera de Paris, apaixonados por cada uma das irmãs) se cruzam e entrelaçam com Babette Hersant, chefe de cozinha do Café Anglais de Paris e communarde activa nas barricadas de 1871, forçada depois ao exílio pelo fracasso da acção revolucionária.

Lembremos os dois apaixonados das irmãs. O primeiro não foi capaz de revelar o seu amor, seguindo como compensação uma ambiciosa e fulgurante carreira das armas; o segundo amou e revelou o seu amor mas, castigado pela rejeição, não logrou avançar na carreira artística: faltava-lhe a outra face de si, aquela que pelos dotes de cantora lírica completaria e daria sentido à sua arte.   

Tomemos as palavras do Salmo 85, citadas pelo deão e inscritas em várias passagens do texto:

«A Misericórdia e a Verdade se reuniram; a Virtude e a Ventura trocaram um beijo». 

Ultrapassando o sentido bíblico e cristão desta passagem do salmo, a Misericórdia deve ser entendida como o amor e a Verdade como a sua revelação. É desta forma que a Virtude e a Ventura se prestam a trocar um beijo. 

Com estas palavras do salmo se abre o discurso do General Loewenhielm na festa de Babette, sabendo-se que esse discurso é o resgate do seu passado rumo a um futuro marcado pelos valores espirituais. Diz-se no conto que no fim da sua carreira, com o peito repleto de medalhas, o general se preocupava com a alma. Mas não lhe chamemos alma, demos-lhe outros nomes: verdade, equilíbrio, paz, solidariedade, amor – estes os rostos múltiplos da alma, os seus mais belos rostos.  

E a graça, também referida pelo general como divina, o que é a graça? Alijada toda a carga religiosa e sobrenatural, a graça é aquilo que nos é revelado pela razão e pela inteligência emocional: a vontade de sermos justos, de não ofender ou maltratar os outros, de sermos humanos procurando os melhores caminhos para a felicidade. Era esta graça que o general quereria albergar em si. Por isso o seu discurso foi a melhor iguaria da festa de Babette, melhor que o amontillado, os blinis Demidoff, as cailles en sarcophage ou as uvas só comparáveis em excelência àquelas que os filhos de Israel encontraram no vale do Escol.

O melhor da festa foi também o desapego material de Babette, gastando os seus dez mil francos num jantar que foi um hino à vida e ao valor da amizade e da memória. Um jantar que reconciliou todos com todos e cada um consigo mesmo, ainda que no final não se lembrassem os membros da congregação dos pratos que haviam desfilado pela mesa. É o sensível dos sabores a ser ultrapassado pelos sentimentos do amor e da reconciliação.

Sim, porque é de reconciliação que se trata. Reconciliação de Babette com a sua arte, pois o título da última parte do conto é justamente “A grande artista”. Reconciliação com os nomes grados de nobres e burgueses que apreciaram a sua cozinha nos jantares do Café Anglais, esses inimigos de classe que combateu até ser derrotada nas barricadas de Paris. De acordo com o testemunho do General Loewenhielm, o Coronel Gallifer, frequentador habitual do Café Anglais, exaltava o génio culinário da chefe de cozinha, o romance de amor que escrevia em cada jantar em que punha a mão.  

Há um sentido alegórico em tudo isto: a arte é vida e pode a vida passar pelos transes mais difíceis sem que esmoreça o seu valor. A arte de Babette valia mais que os dez mil francos e ela provou-o. Porque a arte só é dinheiro para os artistas fingidos e enganadores, os que vendem e se vendem (as duas acções em simultâneo) sem atenderem ao espírito da criação do belo.

O hino dos irmãos da congregação continha dois versos nos quais se ouvem as palavras do Evangelho de Mateus, capítulo 7, versículos 9 e 10: «Irás dar uma pedra ou um réptil / ao teu filho que implora o alimento?»

Assim como diz o evangelista, também o artista deve dar o pão em vez da pedra, e o peixe em vez da cobra aos que buscam como alimento a sua arte.

Por tudo isto, A Festa de Babette lê-se com a enorme alegria de quem está na presença de um texto singularmente belo.

E para finalizar, uma pequena nota exclamativa: como este conto de apenas quatro dezenas de páginas é capaz de nos interpelar como não nos interpelam alguns grossos volumes de centenas!"

MJMN, São Domingos de Rana, 25-10-2024

01 outubro 2024

“A Festa de Babette” de Karen Blixen - 25 de outubro Às 20h00

 





O livro deste mês pode ser encontrado sob dois títulos diferentes

“Babette havia chegado só pele e osso, com o olhar de um animal acossado, mas neste novo ambiente de amizade em breve ganhou toda a aparência de uma criada respeitável e de confiança. Havia parecido uma pobre de pedir; revelou-se uma conquistadora. O seu rosto sereno, o seu olhar calmo e profundo, tinham propriedades magnéticas; sob aquele olhar as coisas moviam-se sem ruído e reocupavam os seus devidos lugares.

A princípio, as amas de Babette quase estremeceram, tal como acontecera em tempos ao Deão, à ideia de receberem em sua casas uma papista. Mas não estava naqueles temperamentos torturar com catequeses criatura tão sofrida; e, vamos lá, também não estavam muito seguras dos seus conhecimentos da língua francesa. Concordaram tacitamente que o exemplo de uma vida de boas luteranas seria o melhor meio de converter a criada. Deste modo, a presença de Babette nessa casa tornou-se, por assim dizer, um aguilhão moral para as suas moradoras…” 

In capítulo V de “A Festa de Babette” de Karen Bixen

01 setembro 2024

“Berta Isla” de Javier Marías - 27 Setembro às 20h00

 


Abri ao acaso e li:

“E assim se passou mais um ano e dois, três e quatro e cinco e seis. Desde que Tomás pôde contar-me parcialmente aquilo que na verdade fazia, passei a achá-lo mais despreocupado, mais descontraído, de melhor humor quando estava em Madrid; as mágoas e as insónias dele deixaram de ser constantes para se tornarem apenas temporárias, apareciam ou agravavam-se precisamente antes de ir para Londres e também as trazia consigo ao regressar, como se precisasse de tempo para se safar da sua outra vida, das suas outras vidas passageiras, mas provavelmente vividas com mais intensidade…”

In “Berta Isla” de Javier Marías

01 agosto 2024

“Praça do Rossio, Nº 59” de Jeannine Johnson Maia - 30 de Agosto às 20h00

 


Sinopse

Lisboa, abril de 1941. Em apenas nove dias, as vidas de uma mulher e de um homem mudarão para sempre. Vinda de Marselha, Claire, uma franco-americana de 17 anos, desembarca do comboio na estação do Rossio. À chegada, o seu caminho cruza-se - de maneira pouco agradável - com o de um jovem empregado do café Chave d’Ouro. Desenhador (e carteirista) nos tempos livres, António testemunha em primeira mão e tira partido dos conluios entre os espiões que se passeiam livremente pela capital portuguesa.

Enquanto aguarda pela família, na esperança de poderem partir juntos para os Estados Unidos, Claire vai à procura de duas crianças separadas dos pais à força e abandonadas à sua sorte, que transportam, sem saber, um segredo perigoso. António, chocado com o assassinato de um amigo, refugiado alemão raptado pela PVDE, tenta descobrir o responsável pelo crime. As investigações de ambos - e as suas vidas - vão cruzar-se, sem apelo nem agravo, à medida que descobrem que os desaparecimentos estão relacionados com um objeto que os nazis procuram em Lisboa. 

Numa cidade repleta de espiões, intrigas e traição, a posse de tal objeto pode representar uma sentença de morte. Mas pode ser bem mais angustiante ter de decidir entre o amor e o dever.

In “Praça do Rossio, Nº 59” de Jeannine Johnson Maia

01 julho 2024

“Justine” de Lawrence Durrell, 26 Julho às 20h00


 A abrir: 

“O mar está novamente agitado hoje, com rajadas de vento que despertam os sentidos. Em pleno inverno, a primavera começa a fazer-se sentir. Toda a manhã o céu esteve de uma pureza de pérola; há grilos nos recantos sombrios; o vento despoja e fustiga os grandes plátanos…

Retirei-me para esta ilha com alguns livros e com a criança – a filha de Melissa. Não sei porquê, agora ao escrever, penso nesta ilha como num «retiro». Os habitantes dizem por brincadeira que só um convalescente pensaria em vir procurar este lugar. Bem, para condescender, admitamos que sou um homem que procura curar-se…” 

In “Justine” de Lawrence Durrell