09 dezembro 2011

SESSÃO DE DEZEMBRO - "Contos de Natal" de Charles Dickens

Piero di Cosimo (1462-1521), "Madona com Menino Jesus lendo", óleo sobre madeira, Museu de Belas Artes de Estocolmo.

Contrariamente ao que se chegou a admitir, a sessão de Dezembro terá lugar , como é habitual, na última sexta-feira do mês, dia 30, que também é a última do ano. Que o leitor da imagem vos inspire.

04 dezembro 2011

01 dezembro 2011

PALAVRAS PARA QUE VOS QUERO

Não é só o Charles Dickens que tem contos de Natal...

Aqui vai um conto de Natal deste escriba, escrito em 2006 e agora revisto e corrigido (se é que tem correcção possível!) para publicação neste exigente blogue:

UM CONTO DE NATAL

Assediava-o um inusitado desejo de praticar o bem, de amar o próximo como a si mesmo, de se abrir a rasgos de generosidade em relação a indigentes e outros desprotegidos da sorte. Quem o conhecia – amador da sua pessoa acima de todas as coisas – só podia atribuir tal modificação ao espírito do Natal, ao ambiente da quadra festiva que se vivia. Os ornamentos das ruas, os apelos à paz e ao amor feitos em baladas cheias de emoção que a rádio e as instalações sonoras das superfícies comerciais com tanta insistência difundiam, contribuíam para reforçar os laços de solidariedade entre os homens, para fazer despertar os tesouros da fraternidade, e enchiam-lhe o coração de bons sentimentos e benévolas disposições. Depois de todo um ano em que atraiçoou amizades, atropelou direitos, mentiu e guerreou, era extraordinário sentir o maravilhoso estado de alma que nele se manifestava!
Naquele Natal, a maior das boas acções que tinha projectado praticar era a de fazer uma dádiva de sangue. Havia tantos acidentes na estrada, tantas pessoas internadas dependentes de transfusões e, por outro lado, como os serviços de saúde não cessavam de informar, tanta falta de sangue de todos os tipos, que estava firmemente disposto a tornar-se um dador benévolo.
Foi assim que numa manhã da semana que antecedia o Natal, transbordando de amor pelo próximo, rumou ao serviço de recolha de sangue do hospital da sua área. Tirou a senha, esperou pelo atendimento, e não demorou muito a sentar-se diante de uma jovem médica, bonita e inquiridora.
- Idade?
- 29 anos.
- Estado civil?
- Solteiro.
- Sofre de alguma doença crónica?
- Não.
- Alguma vez teve relações sexuais com homens?
Aturdiu-se com esta pergunta.
- Sim ou não? – insistiu ela.
- Não!
- Alguma vez utilizou drogas por via endovenosa?
- Não!
- Quantos parceiros sexuais teve nos últimos seis meses?
Aqui hesitou na resposta. Não se importava nada de declinar o número de mulheres com quem praticara sexo nos últimos tempos. Afinal até era daqueles que tomavam nota na agenda de cada vez que uma nova experiência lhe acontecia. Não fazia segredo das suas conquistas e tinha sempre aberta, para quem quisesse ver, a sala dos troféus. Mas incomodava-o que a questão lhe fosse colocada de forma tão neutra e profissional por uma jovem médica de rosto atraente e, sobretudo, que ela não tivesse juntado ao radical da palavra “parceiros” o morfema de género feminino “a” adequado à sua condição de heterossexual. Mas lá respondeu, enfatizando a palavra “parceiras”. A médica então perguntou:
- Usou sempre preservativo?
Meteu a mão na consciência, até estava com vergonha de responder, mas logo se abriu perante a insistência dela. E foi aí que as coisas começaram a complicar-se. Tinha tido não uma, mas várias relações de risco, o que não quadrava com os padrões comportamentais definidos para a aceitação de sangue dos dadores. Ainda por cima fizera uma tatuagem nas costas, adorno corporal que pareceu não agradar à médica.
- Bem, para já não podemos aceitar o seu sangue. Vamos ter de fazer análises e o senhor terá de aguardar pelos resultados.
Esmagado pela rejeição, tartamudeou umas palavras de súplica: que não havia nada de mal com o seu sangue, que era um homem saudável, que aceitassem a dádiva e logo fariam as competentes análises, veriam como era sangue de primeira qualidade, sem nenhum problema.
- E pensa o senhor que o hospital pode dar-se ao luxo de gastar bolsas de recolha e demais consumíveis com sangue que poderá não estar em condições? Até parece que não conhece o rigor das restrições orçamentais! – Isto disse a médica enquanto aprontava uma seringa para realizar uma colheita de análise.
Saiu cabisbaixo, infeliz. Ainda passou pela salinha anexa para comer umas bolachas e beber um cálice de vinho do Porto. Estava mesmo a precisar.
Dispusera-se a cumprir uma boa acção que pudesse integrá-lo de forma plena na onda de fraternidade da quadra natalícia, e era impedido de o fazer por um sumaríssimo inquérito que lhe descobrira uma tatuagem nas costas e uns quantos episódios de sexo inseguro. Francamente, já não se podia viver o espírito do Natal!
No caminho para casa ia meditando, pesaroso, na melhor forma de ultrapassar aquele revés. Distribuir comida aos sem-abrigo do bairro? Dar esmola para as obras de caridade da igreja? Comprar uma caixa de postais de boas-festas da Unicef? Alguma solução teria de encontrar para concretizar os seus desejos de amor pelo próximo, e não poderia passar daqueles poucos dias que ainda faltavam para a festa do nascimento do Menino Jesus. É que depois já seria tarde: a seguir ao Natal, voltaria certamente a estar muito preocupado consigo e com os seus projectos pessoais.

29 novembro 2011

Contos de Natal - CHARLES DICKENS - 16 de Dezembro

"O Natal do Senhor Scrooge" e "Os Sinos de Ano Novo" - contos de Natal de Dickens. Podem ser lidos na Colecção Mil Folhas do Público. O título Balada do Natal (Editorial Gleba) corresponde ao primeiro daqueles contos.

AINDA A SESSÃO DA MADEIRA

Notícia e comunicações dos membros da Comunidade em:

www.bprmadeira.org/site/index.php/noticias/1234-aconteceu

24 novembro 2011

IMAGENS DO OCEANO DE SOLARIS II

Algumas outras criações do oceano, as quais são muito mais raras e de duração muito variável, separam-se por completo do corpo que as gerou. As primeiras descobertas destas “independentes” foram consideradas – erradamente, como mais tarde se provou – restos de criaturas que vivem nas profundezas do oceano. (…) Nas saliências rochosas de uma ilha aparecem ocasionalmente estranhos corpos semelhantes a focas, estendidos ao sol ou arrastando-se preguiçosamente até voltarem a fundir-se com o oceano.

LEM, Stanislaw - Solaris, Mem Martins, Publicações Europa-América, 2003, p. 134.

18 novembro 2011

"SOLARIS" de Stanislaw Lem - 25 de Novembro, 21 horas


Estou a ler com interesse este romance do subgénero ficção científica que é o nosso livro do mês. Acabei de entrar no capítulo VI, “The Little Apocrypha”, encontrando uma referência cultural de vulto: nada mais nada menos que a Martinho Lutero (1483-1546), frade agostinho, professor de Sagradas Escrituras em Wittenberg (lembram-se de Hamlet?), intimado pela bula Exsurge Domini a retractar-se das suas noventa e cinco teses contra a virtude das indulgências concedidas pelo Papa aos contribuidores para as obras de reconstrução da Basílica de São Pedro.
Num diálogo entre Snow, um perito em cibernética da Estação Solaris, e Kris Kelvin, psicólogo chegado da Terra, pergunta o primeiro, aludindo à forma possível de o seu interlocutor afastar uma inquietante aparição que o obsidiava: “Tentou a corda, o martelo? Ou o tinteiro com boa pontaria, como Lutero?”.
Isto porque Lutero, num dos seus retiros espirituais, terá sido visitado pelo diabo que lhe entregou uma extensa lista dos seus pecados. O frade pecador examinou-a, mas num acesso de cólera contra o tentador arremessou-lhe um frasco de tinta vermelha que estava sobre a sua escrivaninha. Parece que o mafarrico terá metido o rabo entre as pernas e retrocedido sem delongas para as profundezas infernais.
Continuemos a leitura.

17 novembro 2011

PLANO DE LEITURAS PARA 2012


1º trimestre
Janeiro – Ficções de Jorge Luís Borges
Fevereiro – Quando Nietzsche Chorou de Irvin D. Yalom
Março – A Brasileira de Prazins de Camilo Castelo Branco
2º trimestre – Autores portugueses contemporâneos
Abril – O Ouro dos Corcundas de Paulo Moreiras
Maio – O Bazar Alemão de Helena Marques
Junho – Quando o Diabo Reza de Mário de Carvalho
3º trimestre – Clássicos
Julho - Fedra de Eurípedes
Agosto – O Príncipe de Nicolau Maquiavel
Setembro – O Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão
4º trimestre – Autores brasileiros
Outubro – Seara Vermelha de Jorge Amado
Novembro – Perto do Coração Selvagem de Clarice Lispector
Dezembro – Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis

Nota: as sessões de leitura realizam-se na última sexta-feira de cada mês a partir das 21 horas.

16 novembro 2011

CABRAL DO NASCIMENTO - Homem de ilha e de continente

Funchal, 14 de Novembro de 2011 - Elementos da Comunidade de Leitores no dia da sessão sobre Cabral do Nascimento

Devo dizer que não li muito de Cabral do Nascimento. A obra em que mais me detive, praticamente a única, foi no Cancioneiro de 1943, constituída por quarenta e oito poemas em que emergem os grandes eixos temáticos da sua lírica: a fugacidade do tempo; a condição do homem esmagado entre o passado e o futuro; a Ilha como prisão de quem anda à solta, as grades líquidas que tolhem e projectam o poeta para o circulo alto das palavras e dos sentimentos, porque, como diz com desconcertante simplicidade, o mar ficava no horizonte; e a vida, supremo bem que não se domina, abelha de Ferreira de Castro em Eternidade e borboleta da “Canção Dorida” em Cancioneiro.
Escreveu Maria Mónica Teixeira que Cabral do Nascimento sentiu como um homem de ilha e de continente. Portanto, foi um poeta do chão inteiro da língua portuguesa, língua que começou a formar-se nos cancioneiros medievais que ele tão bem conhecia e amava, sabendo nós, desde Fernando Pessoa, que a língua é a única pátria possível dos poetas.
Perguntava-me uma jornalista madeirense, momentos antes de iniciarmos a sessão, se eu achava que Cabral do Nascimento devia ser estudado nas escolas. Respondi-lhe que sim, pensando embora que o esquecimento é nuvem negra que se abate sobre os poetas e que nos tempos sem alma em que vivemos talvez nem o próprio Camões tenha o seu lugar garantido nos compêndios.

11 novembro 2011

SOLARIS - UM MAR DE EMOÇÕES

Donatas Banionis e Natalya Bordarchuc em Solaris (1972) de Andrei Tarkovsky

Um filme belíssimo de que muito gostei. Solaris – um mar de emoções atravessado pelas sombras fúlgidas de Cervantes, Tosltoi e Dostoievski. Neutrinos e átomos – a dialéctica do reencontro do amor.

E de seguida… a Madeira de Machim e Ana de Arfert.


02 novembro 2011

CABRAL DO NASCIMENTO: mais poesia




CANTIGA

Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.



Cancioneiro, 1943; Cancioneiro, 1963
In Cancioneiro, 1976

A Comunidade vai à Madeira...

... em busca de Cabral de Nascimento, o Poeta que, da palavra, fez a sua ferramenta. Biografia aqui.
Cabral do Nascimento por Abel Manta, descaradamente roubado ao Disperso Escrevedor

O Faroleiro

Apenas este ilhéu é que é pequeno
O resto é tudo grande: o tédio, a vida,
O dia enorme, a noite mais comprida,
E o mar, calmo ou feroz, rude ou sereno;

O tempo, esse narcótico veneno,
A dor, essa letárgica bebida,
O desejo, essa voz enrouquecida,
E a saudade, o distante e branco aceno.

Tudo profundo, imenso, na amplidão,
Eterno quási na desolação
E sobrenatural na solidão.

A luz vermelha a reflectir-se além…
Nenhum vapor que vai, nenhum que vem…
Farol e faroleiro - e mais ninguém

29 outubro 2011

24 outubro 2011

SER OU NÃO SER

Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.

Até quando? Até quando?

Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.

Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.

MANUEL ALEGRE

23 outubro 2011

MÁRIO CESARINY/ You Are Welcome to Elsenor

O MANEQUIM

Quando Hamlet, Grã Senhor predestinado,
Ressuscitou em mim sua Loucura,
Quis eu, para o trazer de braço dado,
Modernizar-lhe o espírito e a figura:

Pondo-lhe um riso frígido e afiado
Nos lábios retorcidos de amargura,
Modelei-o num fraque bem talhado
Que lhe vincasse os gestos e a estatura.

Depois lhe abri o enigma da Ironia
Para que a sua atroz melancolia
Calçasse luvas… e ostentasse o ar fino.

Hoje, ó meu Grande! ó Príncipe de todos!
Já te posso exibir: Tens belos modos,
E sofres… mas consoante o figurino.

JOSÉ RÉGIO, Biografia

18 outubro 2011

Ser ou Não Ser



O célebre monólogo, numa excelente interpretação do actor brasileiro Daniel Oliveira...

08 outubro 2011

SÉCULO DAS LUZES...

Abro um espaço para referir a leitura, ontem, no Museu Ferreira de Castro, do romance A Religiosa de Diderot. A escolha da obra foi de um prezado elemento da nossa Comunidade que na altura própria disse o que tinha a dizer de tão discutido texto.
Levei o meu livrinho, comprado em 1972 ou 1973, cuja fotografia aqui deixo sobre um lavor em renda de uma tia que já está na Eternidade. Admire-se o belíssimo rosto de Anna Karina, a religiosa do filme de Jacques Rivette no ano já distante de 1966.
Diderot e Grimm, filhos de Belial, lá levaram ao engano o bondoso marquês de Croismare, o qual creditou como verdadeira uma história inventada por aqueles refinados malandros. Diga-se lá que de uma brincadeira não pode sair uma obra séria.

(O romance La religieuse começou a ser redigido por Diderot em 1760. Em Outubro de 1780 iniciou-se a sua publicação na revista Correspondance littéraire.)

07 outubro 2011

28 setembro 2011

AMORES CANINOS

A cadela cocker spaniel da E.C. no jardim da Casa das Palmeiras

O Mundo à minha procura, pp. 188-191.

27 setembro 2011

A PIETÁ MAIS BONITA DA NOSSA ESTATUÁRIA

Fotografia tirada em Amarante em 7 de Setembro de 2011. Já não me recordava de que Ruben A. falava disto.

(...) de Amarante, onde era mais raro irmos, misturávamos o olhar para aquelas velharias da praça onde só mais tarde vim a descobrir a Pietá mais bonita da nossa estatuária, ali em plena esquina da ponte - de lá trazíamos as lérias e os foguetes.

O Mundo à minha procura, p. 127.

Casa Andresen



Mas a simetria no Campo Alegre era uma simetria ampliada, um máximo de simetria, tanto no tamanho e altura do edifício, como nas suas janelas e portas. Acima daquilo só a loucura. E a casa, para quem conhecer de íntimo a sua extraordinária história - que não cabe nas páginas de uma autobiografia  - vacilou sempre com os seus personagens numa espécie de loucura humana que lembra em flagrante a Casa dos Manons na Electra de Eugene O´Neill. Nos limites da loucura arquitectónica sentia-se que qualquer coisa de demente teria de habitar aquele casarão.

RUBEN A. - O Mundo à minha procura, Lisboa, Assírio & Alvim, volume I, 2ª edição, 2000, pp. 77 e 78.

24 setembro 2011

"NUNCA NADA É INVENTADO"

Esta casa desmesurada, cheia de gente mas também cheia de lugares vazios e quartos desabitados e fechados, cheia de vozes, silêncios, ressonâncias, mistérios, medos e encantações e assombros aparece assim como o jardim o parque o pinhal e a quinta em muitos os poemas e contos que ao longo dos anos escrevi. É a casa de Hana do conto “Saga”, o jardim do Rapaz de Bronze. E, múltipla, a casa é também “um dos palácios do Minotauro” de que falo num dos meus poemas. É igualmente esta a casa que o meu primo Ruben A. descreve no seu livro O mundo à minha procura: uma óptima descrição, tão exacta e veemente que poderá parecer inventada. Mas nunca nada é inventado.
(Sophia de Mello Breyner Andresen – Excerto de um texto autobiográfico inédito, in Paula Morão, “Nunca nada é inventado”, COLÓQUIO/Letras nº 176, Janeiro/Abril de 2011.)

23 setembro 2011

A QUINTA DO CAMPO ALEGRE

Ruben A. com a prima Sophia e Isabel da Nóbrega, 1958
(fotografia de Biblioteca Nacional Digital, http://www.purl.pt/)

A infância e adolescência, passou-a Sophia na quinta portuense do Campo Alegre, adquirida pelo seu avô Andresen no final do século XIX. "Um território fabuloso", assim a evocaria mais tarde a própria autora. É claro que um exíguo quintalejo pode ser, para uma criança, um território fabuloso. Mas não era bem o caso. Uma parte do que dele resta é hoje o Jardim Botânico do Porto. "Era tão grande a Quinta dos Andresen que o filho primogénito, João Henrique [pai de Sophia], administrador das minas de S. Pedro da Cova, não precisava de galgar os muros para atirar à caça de arribação", escreve Fernando Assis Pacheco, num belo texto intitulado "Sophia, a vida tirada a limpo", que a "Visão" publicou em 1995.
Um dos costumes da casa, como recorda o escritor Ruben A., primo de Sophia, nos seus volumes autobiográficos, era o de se organizar, pelo Natal, um espectáculo protagonizado pelas crianças da família. Foi justamente uma destas celebrações que originou o primeiro contacto de Sophia com a poesia. Tinha três anos e ainda não sabia ler, mas uma criada, desgostosa por ver a menina excluída do elenco de artistas, ensinou-a a recitar "A Nau Catrineta".

(Excerto de um texto de Luís Miguel Queirós)

09 setembro 2011

O Mundo à Minha Procura – 30 de Setembro às 21h00


Busto de Ruben A. no Jardim Botânico do Porto

A propósito desta sua autobiografia, Ruben A. afirmou o seguinte, numa entrevista dada em 1965, ao Diário Popular: "O Mundo à Minha Procura representa uma necessidade urgente de arrumar a minha vida sentimental, de ver a novela que dentro do meu ser transporto. A forma autobiográfica é a mais pura do romance, a criação permanente de um estado de espírito que traz presentes os fantasmas que se acolheram no sótão da sensibilidade”.

Dos três volumes que compõem a obra, vamos ler o primeiro e encerrar o capítulo “Crónicas e Autobiografias” no final deste mês.

30 agosto 2011

BOSCH E A RETÓRICA DO DESEJO





Na visita que se impunha ao MNAA, com a intenção de revisitar o Tríptico de Hieronimus Bosch — As Tentações de Sto Antão (c.1500), desta feita em destaque, pela presença de outras duas obras congéneres, aproveitei para, mais demoradamente, me perder no labirinto daquelas paisagens de ficção delirante.

“Esta exposição, realizada em parceria com o Museu Groeninge (Bruges, Bélgica), coloca o Tríptico das Tentações de Santo Antão do MNAA criticamente em confronto com o Tríptico do Juízo Final e o Tríptico das Provações de Job, ambos da colecção do museu de Bruges”.

Estas duas obras serão, uma, provavelmente da mesma escola e a outra de um continuador da sua inventiva. Do confronto que nos é proposto, ressalta naturalmente a superioridade do “nosso” Bosch, uma obra espantosa que ninguém sabe como veio parar a Portugal, a Lisboa, mais propriamente. Mesmo que nos pareça atraente pensar que foi pela mediação de Damião de Góis.
Podemos, no entanto, considerar que este confronto seria um pouco diferente se tivéssemos, por exemplo, O Jardim das Delícias, do Museu do Prado, ou outra pintura igualmente emblemática do mesmo autor, nomeadamente entre as que, para além desta, Filipe II de Espanha (I de Portugal), terá coleccionado e encomendado a Hieronimus Bosch. É aliás interessante notar a surpresa que o rei manifesta a suas filhas (Cartas para Duas Infantas Meninas: Portugal na Correspondência de D. Filipe I a suas Filhas, 1581-1583), descrevendo a grandiosidade e sobretudo as figurações, pantominas e espectáculos, que a procissão anual de Corpus Christi, em Lisboa, incluía. Ele lamenta que os filhos não possam também apreciar vários aspectos originais da procissão, incluindo os diabos, que lhe recordam as figuras de Bosch.
Podemos então pensar que o rei identificava na procissão o mesmo espírito que o fascinava no imaginário que o pintor lhe proporcionava: espírito que marcava talvez um fim de época— o artista traduzia, libertando-os através da obra de arte, os medos, o pavor do desconhecido, que a Idade Média preservava, evitando enfrentá-los.
É como se descobrisse (e nós com ele) que, afinal, o verdadeiro desconhecido mora dentro de cada um e é revelado pela expressão possível da luta insana entre os desejos e a sua realização, entre os desejos e a sua repressão. Sendo que nada disto é humanamente controlável e manifesta-se sempre como um mundo às avessas, eventualmente produto de lucubrações oníricas, lá, onde o inconsciente se revela. Por isso reina uma intensa confusão, como uma perda generalizada de identidade— o pobre santo, no centro da turbulência, parece quase resignado.
A dualidade escatológica, Bem e Mal, Paraíso e Inferno, presente nas três obras, resulta realisticamente misturada, porque aquelas duas faces estão tão interligadas, que uma começa onde a outra parece não ter acabado. Exactamente como na vida. Mesmo que se nos deparem horizontes, comuns aos três Trípticos, de promissoras auroras, a que se sucedem incendiados entardeceres apocalípticos, e as situações a que correspondem— o desejo, a tentação, a luta interior, a superação ou a queda, e a respectiva iconografia, que é como quem diz, os seus demónios. E, enquanto o Juízo Final apresenta um ensaio de redenção, iconograficamente marcado pela centralidade do Cristo Pantocrator, o que encontramos seguramente nestas obras é um discurso pictórico, ficção aberta a muitas leituras; fábula, alegoria, delírio metafórico, lugar comum de muitos imaginários, obra sem data. Para usufruir Hoje.

27 agosto 2011

UM ESCRITO BACALHOEIRO

Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, - excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho, e no justo amor do bacalhau de cebolada.

(Eça de Queiroz, de uma carta a Oliveira Martins)

23 agosto 2011

UMA FAINA (AINDA) MAIOR

UMA FAINA (AINDA) MAIOR

Enquanto me afasto até à distância regulamentar do barco-mãe, o imponente lugre, no pequeno Dori que me foi atribuído, remando automaticamente através da bruma matinal, vou remoendo peripécias da vida que me trouxeram até aqui. Lanço a pequena âncora; o ruído surdo do desenrolar da corda sobrepõe-se por instantes ao chape-chape da ondulação contra o casco de madeira da frágil embarcação.
A extensão de mar e a névoa que varre a superfície gelada destas águas setentrionais, onde tudo me é tão alheio e tão estranho, puseram uma distância real e arrepiante de solidão atroz, entre mim e o pequeno mundo de segurança, porto oscilante que não posso perder de vista, o navio de quatro mastros, de velas arriadas, balançando docemente à viração, como se fosse uma miragem.
Por instantes julgo poder ainda distinguir-lhe o nome, impresso lateralmente à proa: “Biblioteca do Bacalhau”.
Pelas abertas do nevoeiro, que ameaça cerrar-se, diviso os meus companheiros de faina— lá está o João Grandão, o dirigente sindical que em segredo nos vai industriando para a luta por melhores condições de trabalho e salários, contra a prepotência dos Henriques Tendeiros... mas o que é isto? Tenho de me despachar, começar a faina, pôr as armações a funcionar! Ali andam, o Carlão, a Cristalina, a Custóia, a Ardete, a Manola e os outros, nos seus botes, já atarefados a lançar as linhas e eu aqui, a perder-me em conjecturas!
Ainda corro o risco de acabar a faina e do cimo da amurada o capitão, o Manuel Tunes, a avaliar a olho a pescaria, me dizer: que é lá isso? Volta para trás, vai pesc(quis)ar mais!

Mas que trapalhada! Afinal, esqueci-me de completar a palamenta; e agora, como é que vou dar conta do recado? Está um frio paralisante; emaranham-se as linhas, o bacalhau pica, come a lula e dá à sola! Não é possível! Qual é a Nossa Senhora ou deus do Olimpo que me acode?
Vejo ao longe os meus companheiros a içarem os grandes peixes estrebuchantes, vão acolchoando o fundo dos barcos, e eu aqui, abandonada da sorte, ou do talento... Mas espera! A linha estremece... é desta! Só pode ser um dos grandes, é puxar, é puxar!
Que grande estrondo!
Acordo em sobressalto... o livro “Uma Crónica...” escorregou e caiu ao chão!

20 agosto 2011

Uma Crónica da Pesca do Bacalhau – 26 de Agosto às 21h00



«… Antes de entrar a bordo, dei uma rápida olhadela à proa e vi o casco cheio de amolgadelas, que, soube depois por experiência própria, eram causadas pelos embates contra os growlers, assim chamados os blocos de gelo flutuantes …» in “Uma Crónica da Pesca do Bacalhau” de Joaquim Rebordão Leitão.

Esta será uma Sessão especial. Por um lado, contamos com a presença do Autor. Por outro, contamos com as habilidades culinárias de alguns leitores, para uma ceia especial em torno do famoso espécimen … 

19 agosto 2011

Na senda de Luísa…

 


No dia 13 de Agosto, pelas 14h30, marcámos encontro no Cais do Sodré. Daí desbravámos caminhos antes percorridos (ou por nós imaginados), pelas personagens do “Primo Basílio”.
Lugares como a Rua do Ferragial de Cima, a Patriarcal, Rua do Moinho de Vento, o Hotel Gibraltar, a Pastelaria Baltreschi ou o Passeio Público, tornaram-se tão familiares como se também nós por lá tivéssemos vivido momentos gloriosos.

Do roteiro, cuidadosamente preparado pelas competentes “Organizações Pandeireta” constaram:

Cais do Sodré e Aterro
Rua do Ferragial (terramoto)
Rua Vítor Cordon
Teatro Nacional S. Carlos (Ópera do Tejo)
Grémio Literário e Hotel Gibraltar
Basílica dos Mártires
Casa Havaneza/Pastelaria Baltreschi
Largo do Loreto/Praça Luís de Camões
Rua da Misericórdia/ Rua Larga de S. Roque
Igreja de S. Roque/ da Misericórdia
Jardim S. Pedro de Alcântara/Convento de S. Pedro de Alcântara
Moinho de Vento
Patriarcal Queimada
Jardim do Príncipe Real (com lanche a rigor)
Praça da Alegria
Passeio Público /Avenida da Liberdade
Convento da Encarnação

No final da visita e chegada a noite, ainda vimos surgir por trás do Castelo S. Jorge uma lua lindíssima, que nos iluminou o caminho para o ágape costumeiro. Foi mais um dia sublime, na vida desta Comunidade. A repetir…

27 julho 2011

RUA D. PEDRO V, antiga Rua do Moinho de Vento

R. D. Pedro V, Arco do Evaristo

A RUA D. PEDRO V pertence a três freguesias. À freguesia da ENCARNAÇÃO os números 1 a 57, à freguesia de S. JOSÉ todos os números pares, à freguesia de SANTA CATARINA do número 59 em diante.
Começa na Rua Luísa Todi em frente do número 1 e termina na Praça do Príncipe Real no número 35.
A Rua D. Pedro V, antiga Rua do Moinho de Vento, foi assim chamada por estar muito perto do campo e ser ventosa.
Segundo se lê na obra de Norberto de Araújo em "Peregrinações em Lisboa", «esta artéria era uma estrada de terra batida que corria entre (terras de semeadura)». Já tinha servido causas patrióticas pois «os ingleses de Maria Tudor, auxiliares de D. António Prior do Crato, quando cercaram Lisboa em 1589, tempo de Filipe II de Espanha, estiveram aqui acampados».
No início da antiga Rua do Moinho de Vento (actual Rua D. Pedro V), encontramos o Convento de S. Pedro de Alcântara e sua Capela, também chamada dos Lencastres. Datam do século XVII e reproduzem a grandeza de um Arcebispo de Braga e Primaz de Espanha, "Cardeal Inquisidor" D. Veríssimo de Lencastre, descendente de D. João II.
A sua Capela dedicada aos Santos Veríssimo, Máxima e Júlia Mártires de Lisboa, testemunho de uma cristandade bastante antiga. ( o percurso da vida destes Mártires, impossível de averiguar com rigor, aparecem descritos num códice quatrocentista na Biblioteca Pública de Évora, -cód. CV/1-23d).
O espaço deste Convento e Igreja é pertença da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, é um exemplo de coesão entre diferentes manifestações de arte decorativa do Barroco português, no que diz respeito ao ornamental de mármore policromados que os revestem.
Foi nesta rua, no Pátio do Tijolo, que existiu a Litografia de Portugal fundada no ano de 1803. Hoje com 105 anos de idade, fomos encontrar a referida firma no Cabeço de Montachique (LOURES), muito bem estruturada (de notório prestígio Nacional e Internacional) e ainda, com o mesmo nome: «LITOGRAFIA DE PORTUGAL, S.A.».
No Pátio do Tijolo está instalado o Palácio Braamcamp, edifício datado do século XVIII, onde funcionou o primeiro Liceu Francês.
Desde 1963 está nesse mesmo Palácio a funcionar a Caixa de Previdência do Pessoal de Câmara Municipal de Lisboa.
Neste Palácio viveu além de Anselmo Braamcamp (que lhe deu o nome) o Fontes Pereira de Melo.
Segundo o Itinerário Lisbonense, esta rua «é a continuação da Patriarcal Queimada, vindo da parte do Rato e termina no Largo de São Pedro de Alcântara». Pertencia à freguesia da Pena em 1780.
Em 1885 a rua acompanhou os sinais do tempo, mudando o nome para D. Pedro V.

CALÇADA DO MOINHO DE VENTO


A Calçada do Moinho de Vento é um arruamento no limite das freguesias da Pena e de São José, em Lisboa.Num processo da Inquisição, de 1594, é mencionada a existência de um moinho de vento na encosta do Campo de Santana. O topónimo «Moinho de Vento» já data, pelo menos, do século XVIII.
Localização: do Campo dos Mártires da Pátria à Rua de Santo António dos Capuchos.
Freguesia: São José

(Fonte: Wikipédia)

Nessa noite pelas nove horas o conselheiro Acácio, muito abafado, descia o Moinho de Vento, quando encontrou Julião, que vinha de ver um doente na Rua da Rosa.

(Eça de Queirós, O Primo Basílio)

CONVENTO DA ENCARNAÇÃO DAS COMENDADEIRAS DE SÃO BENTO DE AVIS


Localização

Largo do Convento da Encarnação
Freguesia: Pena

Data
Século XVII - XVIII

A construção primitiva do convento data de 1630, em terrenos de D. Aleixo de Meneses, e tinha como principal objectivo abrigar as Comendadeiras da Ordem Militar de São Bento de Avis.
Em 1643, é instituída a Irmandade das Escravas do Santíssimo Sacramento sob a protecção de Nossa Senhora da Encarnação, funcionando na igreja do convento.
O edifício ficou parcialmente destruído com o terramoto de 1755 o que o deixou inabitável, transferindo-se as freiras para a cerca do convento de Santo Antão.
As obras de recuperação terminaram em 1758 altura em que as religiosas regressaram solenemente ao seu convento em coches reais cedidos por D. José I.

Bibliografia
SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo (dir.), Dicionário da História de Lisboa, 1.ª ed., Sacavém, Carlos Quintas & Associados – Consultores, 1994, pp. 336-338.

(Fotografia e texto: http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=585)


(...) Ao Loreto, Julião parou subitamente, e exclamou:
- Ai, esquecia-me! Sabe a novidade, conselheiro? A D. Felicidade recolhe-se à Encarnação.
(...)
O Conselheiro disse:
- Sempre conheci naquela senhora ideias retrógradas. É o resultado das manobras jesuíticas, meu amigo! - E ajuntou com a melancolia do liberal descontente. - A reacção levanta a cabeça!

(Eça de Queirós, O Primo Basílio)