Uma das
muitas referências literárias contidas em Adoecer,
de Hélia Correia, é a do poema The
Spider and the Fly, de Mary Howitt (1799-1888), sobre uma aranha que
convida uma ingénua mosca a visitar a sua teia: «Will you walk into my
parlour?» Exemplo do método usado pelos sedutores para atingirem os seus
objectivos, a referência surge na parte da narrativa em que Lizzie permanecia “aprisionada”
na teia de Chatham Place e Gabriel, por imperativos da criação artística, partira para casa de
William Bell Scott em Newcastle. «A aranha do poema é masculina», diz-se no
texto de Hélia e vê-se na imagem.
Blogue da Comunidade de Leitores da Biblioteca de S. Domingos de Rana - Cascais - Portugal
22 setembro 2017
20 setembro 2017
RED HOUSE, Bexleyheath, England
Significativa para a história da Arquitetura e do Design, a "Red House", situada em Bexleyheath, foi projetada em co-autoria pelo arquiteto Philip Webb e William Morris, fundador do movimento "Arts and Crafts". Construída em 1860, surgiu do desejo de Morris de viver numa casa rural, fora do ambiente insalubre de Londres, e corresponde às ideias que defendia, inspiradas num certo medievalismo, mas sustentando um retorno ao essencial, aos materiais primitivos e ao artesanato, como reação à prevista uniformização industrial, mas sobretudo ao gosto dominante, eivado de ecletismo e falho de caráter. Morris, assim como Ruskin (um dos muitos personagens de "Adoecer", de Hélia Correia) e seus seguidores, são considerados pioneiros do Movimento Moderno (Nicolaus Pevsner). Também aqui pontua o paradoxo, tema que não cabe agora tratar.
Alguns artistas pre-rafaelitas, protagonistas de "Adoecer" , nomeadamente Dante Gabriel Rossetti (e Edward Burne-Jones) colaboraram na decoração da casa de William Morris, subsistindo ainda pinturas murais deste último.
Atualmente, a casa está transformada em museu e centro de atividades:
https://www.nationaltrust.org.uk/red-house
12 setembro 2017
CRANBOURN ALLEY, 1850
O primeiro trabalho de Lizzie Siddal como modelo foi para o quadro de Walter Deverell inspirado em Twelfth Night, de W. Shakespeare, cena IV do segundo acto. A figura de Lizzie (Viola) surge à esquerda, disfarçada de rapaz, não passando despercebido o ruivo dos cabelos. No livro Adoecer, de Hélia Correia, é narrado o processo de recrutamento da jovem aprendiza de modista de chapéus, futura musa da Irmandade Pré-Rafaelita.
08 setembro 2017
“Adoecer” de Hélia Correia – 29 de Setembro às 21h00
Sinopse
“Havia nela como que uma falha que provinha talvez da exaustão e da deficiência alimentar, dando-lhe um ar furtivo, de gazela, que fez cair as apresentações.
Lizzie passou para detrás da porta abandonada que servia de biombo e regressou vestida de rapaz. Apanhara o cabelo sobre a nuca. Mostrava as pernas e isso produzia um curioso efeito assexuado. Gabriel adiantou-se e começou a ocupar-se da figura que faltava, não nos papéis de esboço, mas na tela. As personagens masculinas já se achavam muito avançadas. Ele posara para bobo. Os pré-rafaelitas provocavam situações de entreajuda em que existia, a par de exibição, sinceridade.
Deverell e Millais arrefeciam, de pé, imóveis e a perder entusiasmo. Viam em Lizzie a rapariga magra e de feições irregulares que até então não tinham visto. A narrativa de Walter, que avassalara o próprio narrador, deixava de exercer influência e a temperatura dos seus corpos ressentia-se. Esfregavam os braços, percebendo toda a impiedade do Inverno. Observavam Rossetti e Miss Sid que estavam sós, naquilo que talvez fosse o encontro do pintor com o modelo. Porém sentiam desconforto, como se presenciassem uma cena íntima.
Lizzie, que mantivera a posição sem vacilar nos dias anteriores, vergava as costas, inclinada para o chão. Era um abatimento poderoso sob o qual circulava alguma glória. John Everett Millais compreendeu a origem do fascínio de Miss Sid. Tinha um corpo selado na tragédia, um apetite sacrificial. "Hei-de pintar esta mulher", pensou. Imaginava-a num cenário de narcisos. Não sabia que estava a vê-la morta.”
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16 agosto 2017
O MAR DOS AÇORES
Ilha de S. Miguel, fotografia de Dezembro de 2015
O MEU MUNDO NÃO É DESTE REINO, capítulo 3, exemplo de uma das diversas alterações introduzidas pelo autor na edição de 2015:
«Cadete
garantia, por um sofisma da sua mente complicada, que a cor do mar dos Açores
era o branco. Porém, as crianças sustentavam que não existia nenhuma cor para
definir a eternidade da água. A sua contínua convulsão, ao ser remexida pelos
ventos invernosos da Ilha, com o branco da espuma a sobrepor-se à cinza do
Inverno, fazia com que o mar se assemelhasse a uma contínua e laboriosa
sucessão de ninhos de répteis em movimento flutuante sobre as cristas das
águas. Mais parecia uma paisagem picotada a pontos brancos, em toda a extensão
visual. » ------- 8ª edição, revista e
reescrita pelo autor.
«Cadete garantia, por uma espécie de sofisma da sua mente
complicada, que o mar dos Açores era branco. Porém, as crianças sustentavam que
nenhuma cor deste mundo podia definir a eternidade da água, porquanto essa
contínua convulsão aproximava o seu aspecto não da saliva das cobras e dos seus
ninhos, mas da humidade sem cor de qualquer réptil. Era um mar de rodilhas, um
mar asmático, de lixívia em tecidos puídos e sem obra, e a sua magríssima água,
rochosa e salina, expelia para a terra uma respiração de sono sem pálpebras.»
------- edições anteriores.
07 agosto 2017
CAIU UM AVIÃO!
«JOÃO-MARIA ESTAVA DE CÓCORAS, FAZENDO
CACA NO QUINTAL, QUANDO TUDO ACONTECEU. PERCEBEU, PRIMEIRO, QUE UM RUÍDO
SEMELHANTE AO DESMORONAR DAS FRAGAS NUMA PEDREIRA crescia de longe ao seu
encontro e vinha sobrepor-se à sonatina das ondas e ao tráfego agoirento das
cagarras.» --- JOÃO DE MELO, O Meu Mundo não É deste Reino, Capítulo
13, Edição Visão / D. Quixote, Julho de 2003.
Agora dirão as leitoras tratar-se de mais
um exemplo de literatura escatológica. Imagino a justa indignação, as leituras
da Comunidade destravadas pelas vertentes lívidas do mau gosto. Por acaso, até é um fragmento importante do imaginário da Ilha: o acidente do Lockheed
L-749-79-22 Constellation, vôo Paris-Nova Iorque, em 28 de Outubro de 1949.
Deu-se no Pico da Vara e nele morreram 48 pessoas, entre elas, figuras
notórias à época, o pugilista Marcel Cerdan, a violinista Ginette Neveu e o seu
irmão Jean Neveu, pianista.
Leia-se que é um belo capítulo do livro.
01 agosto 2017
"O Meu Mundo Não é Deste Reino" de João de Melo - 25 de Agosto às 21h00.
Sinopse
João de Melo apresenta-nos uma crónica dos prodígios que fazem a história de uma comunidade rural perdida algures nos Açores. Narrativa mítica, sem cronologia, que começa in illo tempore (em português arcaizante) e prossegue seguindo o fio das ocorrências fantásticas (a chuva dos noventa e nove dias, o dia em que os animais choraram, o dia em que se viu a outra face do sol, a morte e ressurreição de João Lázaro) e das vidas de personagens excessivos e arquetípicos (um padre venal, um regedor hercúleo e despótico, um curandeiro e um santo) que povoam um lugar perdido nas brumas do tempo, no outro lado da ilha, progressivamente devolvido à comunicação com o mundo.
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Ding, ding, ding .... chamada à ordem!
Isto de conduzir um rebanho, mesmo de bons e interessados leitores nem sempre é coisa fácil! A paixão pelas leituras e o entusiasmo do momento, leva-nos muitas vezes àquela característica tão própria dos lusitanos que é falarmos todos ao mesmo tempo e, por vezes, a Babilónia instala-se antes que demos por isso. Mas na última sessão, onde discutimos o muito elogiado "Cântico Final" de Vergílio Ferreira, eis que surge uma bela campainha, para ajudar na condução dos trabalhos. Chegou discreta e elegante, mas certamente vai vibrar e fazer-se ouvir energicamente sempre que a ocasião o justifique. Bem vinda Miss Ding, Ding....
25 julho 2017
EXISTENCIALISMO E LITERATURA
«Só meditando profundamente no que significa a morte, é que nós poderemos ver bem o que com ela se perde e o valor disso que se perde. Por outro lado, a morte é uma prefiguração do que de limite, de fim, preside a todos os actos da vida, já que a cada instante nós estamos de algum modo a realizar actos irremediáveis. A meditação da morte não é pois um fim, mas um meio. Meio de valorizarmos a vida, meio de assim mesmo respeitarmos a vida nossa e alheia, meio de reflectirmos sobre o irremediável do que formos fazendo, meio, em suma, de encararmos a sério esse facto extraordinário que é a vida do homem.»
--- VERGÍLIO FERREIRA, "Existencialismo e literatura".
24 julho 2017
"CÂNTICO FINAL", MEDITAÇÃO SOBRE A MORTE
Francisco de Goya, Fuzilamentos de três de Maio de 1808
Abriu a revista, e Mário sofreu uma ataque de agonia. Era uma reportagem sobre fuzilados de uma revolução num país distante: fotografia de um dos condenados bebendo o cálice de rum; fotografia do instante do fuzilamento («como um quadro de Goya» - dizia o repórter).
--- VERGÍLIO FERREIRA, Cântico Final, cap. X.
17 julho 2017
AS EGAP-EXPOSIÇÕES GERAIS DE ARTES PLÁSTICAS EM "CÂNTICO FINAL"
Diário da Manhã, órgão oficioso da União Nacional salazarista, na sua edição de 9 de Maio de 1947
Uma das
perspectivas de Cântico Final, de
Vergílio Ferreira, é a que se prende com o debate sobre arte que nos anos do
pós-guerra teve lugar entre os intelectuais e artistas portugueses. No seio da
corrente neo-realista, preparavam-se as grandes polémicas dos anos cinquenta,
de que as referências aos críticos Ramiro e Rebelo se constituem como uma evidente
alusão ficcional. De interesse, a referência a uma das Exposições Gerais de
Artes Plásticas (talvez a de 1947),
certames que agregavam artistas independentes – leia-se, não vinculados às
iniciativas do SPN/SNI – procedentes de diversas orientações estéticas, do
neo-realismo ao abstracionismo. Em que corrente se integraria o “Galo” do
protagonista Mário?
Cerca de cem
artistas, não só de diversas tendências estéticas mas de diferentes ramos da
arte estiveram presentes na I Exposição, a de 1946. Ao princípio, o poder
constituído não desconfiou de nada; depois é que se deu conta do que ali se preparava
de subversivo. As EGAP realizaram-se
anualmente de 1946 a 1956, com excepção de 1952, ano em que a Socidade Nacional
de Belas-Artes se encontrava encerrada pela
PIDE.
12 julho 2017
ONDAS DO MAR DE VIGO
7-7-2017, Estação de Vigo-Guixar, a apanhar o comboio para Oporto com o jogral MARTIM CODAX no pensamento.
CANTIGA D´AMIGO
Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo!
e ai Deus, se verrá cedo!
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
e ai Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
e ai Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amado
por que ei gram cuidado!
e ai Deus, se verrá cedo!
11 julho 2017
"Cântico Final" de Vergílio Ferreira - 28 de Julho - 21h00
A
abrir:
“Por
uma manhã breve de Dezembro, um homem subia de automóvel uma estrada de
montanha. Manhã fina, linear. O homem parou um pouco, enquanto o motor arrefecia,
e olhou em volta, fatigado. Aqui estou. Regressado de tudo. Pelo vale extenso
até a um limite de neblina, viam-se aqui e além indícios brancos de aldeias,
brilhando ao sol. Que dia é hoje? Pelos campos perpassava uma alegria estranha,
talvez do sol e daquele fundo silêncio a toda a volta, sem uma voz repentina
das que sobem e vibram nas manhãs de trabalho. E de súbito lembrou-se: para o
fundo do vale, ouviu o dobre dos sinos do Freixo. Manhã de domingo, manhã de
infância, sinos de outrora…”
In
“Cântico Final” de Vergílio Ferreira
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Vergílio Ferreira
29 junho 2017
INGRES, MUSEU DO LOUVRE
2014, Museu do Louvre, sob o encantamento de Ingres... O Elogio tem de bom trazer estas coisas à memória.
ANUNCIAÇÕES
Esta, ortodoxa, do pintor Andei Rubliov (lembrar o filme de Tarkovsky), na Catedral da Anunciação, Kremlin de Moscovo.
...É como se a conversa tivesse terminado, nada há a acrescentar...Fiat! Bem à maneira ortodoxa.
...É como se a conversa tivesse terminado, nada há a acrescentar...Fiat! Bem à maneira ortodoxa.
27 junho 2017
CANDAULES, REI DA LÍDIA
WILLIAM ETTY (1787-1849), Candaules, King of Lydia, Shews his Wife by Stealth to Gyges, One of his Ministers, as She Goes to Bed (1830), óleo sobre tela.
23 junho 2017
SOBRE O "ELOGIO DA MADRASTA"
Impressões de uma amiga, não frequentadora da nossa Comunidade, que leu o livro há alguns anos:
Llosa, no Elogio da Madrasta,
certamente uma consistente composição narrativa, de trechos interpolados e
magníficas descrições de pinturas famosas, eróticas, todavia de anteriores
épocas, enquadradas em rica e poética intertextualidade, foi obra lida há tempos.
Tesouro de construção literária, deixou-me azedume face ao enteado,
adolescente em afirmação de poder contra e sobre o feminino, a madrasta,
mulheraça de contornos idênticos ao do seu marido, superior na hierarquia do
jovem, não a empregada doméstica, sua subordinada, a que depois se
lança - as mulheres da casa, a mulher instanciada nas mais próximas, sei lá… Se
as primeiras emoções sexuais assim se esboçam... patriarca no poleiro, a
decidir e o adolescente já a querer substituí-lo, desprezando e servindo-se do
outro (como a madrasta dele, claro) , está-se face a perversão das relações
desejáveis em comunidade - não no mero sentido sexual. Espelho de certo
meio social, infecção de duas gerações? Sátira? (…) E um rasto de certo humor
discreto. Contudo a beleza da escrita não me empolga, excessivo para a
temática: seres submetidos a impulsos por si mesmos, sensualidade pela
sensualidade que nisso se esgota, ternura zero, encerrados seus autores num
casulo, não há outros nem cosmos, mais nada. Estranho. Jogos num campo único,
sem mais sopro vital. Lembro os rituais corporais, os banhos, e isso é
interessante, iniciáticos, mais velhos a passar testemunho ao adolescente,
certo plano mítico. Muitas vidas comunitárias ( penso em certo monaquismo,
como em Quram, que visitei) dispunham de inúmeros
reservatórios de águas destinadas a sucessivos banhos. Atenção a uma
corporalidade neste caso banida, expandida em Llosa. Curiosa ritualização,
evoca-me a sacralidade inicial, SACER no indoeuropeu, que era a fecundidade,
tudo o que faz crescer, e inchar, GONFLER. Acento na fisicalidade, sem
contornos além do encontro de corpos. Todavia, do que retive na memória, é uma
duplicidade, inocência-perversão o foco da obra: a relação madrasta-enteado e o
desejo mútuo, mas já acima apontei como senti tal acordar para a sexualidade.
Vejo-o negativo, não penso que deva seguir o desejo por vias de vontade de
domínio, de manipulação, de denúncia - a redacção e sua leitura não são
inocentes; como nem a frase final, tipo, «mas ela não é minha mãe»,
incesto arredado; ou o desvio de «amar a mãe», «usar a madrasta», de cabeça um
tanto oca. Creio ser mais o determinar-se a usurpar o poder familiar do pai.
15 junho 2017
PARA QUEM NÃO SAIBA...
... A HISTÓRIA TEM CONTINUAÇÃO
«Bateram à porta, Dona Lucrécia foi abrir e, retratada no vão, com o fundo das tortuosas e encanecidas árvores do Olivar de San Isidro, viu a cabeça de caracóis dourados e os olhos azuis de Fonchito. Tudo principiou a girar.»
11 junho 2017
Sinopse
Lucrécia e dom Rigoberto vivem em constante felicidade. Ela, uma mulher que acaba de completar 40 anos, nada perdeu da sua elegância e sensualidade; ele, no segundo casamento, descobriu por fim os prazeres da vida conjugal. Juntos, crêem que nada pode afetar esse idílio, cheio de fantasias e de sexo. Alfonso, ou Fonchito, filho de dom Rigoberto, parece ser o único empecilho; ama demais sua mãe, Eloísa, para aceitar a chegada de uma madrasta. Mas até ele acaba por ser conquistado pelos encantos de dona Lucrécia. O amor do menino pela sua madrasta, entretanto, vai muito além do que se esperaria de uma criança, desenhando uma linha ténue entre a paixão e a inocência que mudará o destino de cada um deles.
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"O Elogio da Madrasta",
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Mário Vargas Llosa
01 junho 2017
NÓS, OS DE VONDELPARK
MANUEL TEIXEIRA-GOMES, novela Deus ex machina:
«Um dia que eu ficara de me encontrar
em Vondel-Park – próximo ao Rijsks-Museum – com vários elegantes de ambos os
sexos para dali seguirmos em excursão de
patinagem até Harlém, logo à entrada do parque, numa volta estreita e mal
concorrida do lago, a atenção prendeu-se-me irresistivelmente numa rapariga
encantadora, de farta e negra cabeleira solta, que patinava sozinha, e fiquei-me
a contemplar-lhe os graciosos movimentos sem mais me lembrar de que a poucos
metros de distância era impacientemente esperado por um numeroso grupo de
amigos.» --- A acção desta novela decorre no Inverno de 1890. Cheguei a Vondelpark
tarde de mais, precisamente na manhã do dia de Natal de 2013 – 123 anos depois de Manuel Teixeira-Gomes –,
e já não vi a rapariga encantadora de farta e negra cabeleira solta. Naquela altura o lago não
estava gelado e àquela hora da manhã nenhuma rapariga por ali andava, mas
alegrei-me de dar com a estátua do poeta Joost van den Vondel (1587-1679), figura maior
do século de ouro holandês. É ele, como se percebe, que dá nome ao parque. A estátua, inaugurada em 1867, não teria passado despercebida ao escritor algarvio, mas que interesse podia ter a pedra e o bronze ante os movimentos graciosos da patinadora?
31 maio 2017
A LITERATURA ERÓTICA EM 1935
Novelas Eróticas, edição "Seara Nova" de 1935 (ano da morte de Fernando Pessoa), com advertência aos leitores: LEITURA PARA ADULTOS. Fica-se a saber que teve uma tiragem de 300 exemplares FORA DO COMÉRCIO. --- Fotografias obtidas ontem em exemplar de biblioteca pública.
30 maio 2017
O SÍTIO DA MULHER MORTA
Uma das novelas eróticas de Manuel Teixeira-Gomes que ontem reli na BN nesta edição preciosa. De um ensaio de Urbano Tavares Rodrigues, respigo a seguinte nota a respeito de outra novela, a "Deus ex machina": « O que nos impressiona desde logo, como aliás sucede com a maior parte das novelas e contos de Teixeira-Gomes, é a desproporção entre a riqueza do discurso e a relativa pobreza da estória (...)» Ora isto fez-me lembrar a nossa leitura de Ronda das Mil Belas em Frol e as apreciações atinentes de algumas leitoras. De qualquer forma, tendo em conta o conjunto da obra, Mário de Carvalho ainda está uns furos acima de Manuel Teixeira-Gomes.
25 maio 2017
PHILÉAS LEBESGUE, POETA E AGRICULTOR
Mais n´est-tu pas toi même un
jet d´eau qui s´irise
Et qui vers l´infini s´élance et
puis se brise?...
Conto "Cordélia", de M. Teixeira-Gomes, epígrafe de Philéas Lebesgue (1869-1958). O poeta francês, que entre 1911 e 1933 esteve por três vezes em Portugal, correspondeu-se com o autor das Novelas Eróticas e ainda com Sá-Carneiro, Teixeira de Pascoaes, Téofilo de Braga e Bernardino Machado. Mais informação aqui: http://www.maisons-ecrivain-picardie.fr/ecrivains-celebres-picardie-biographie-La-maison-de-Phileas-Lebesgue-fr-15.html
09 maio 2017
"Novelas Eróticas" de Manuel Teixeira-Gomes - 2 Junho às 21h00
A abrir o conto sem nome ou chamado apenas "?"
"O meu quarto na hospedaria
Fra Giaccomo em Smirna, era uma gaiola de vidro suspensa sobre o mar, e isso
concorreu muito para que eu aí me demorasse mais do que projectara. Não que o
panorama fosse risonho; bem pelo contrário. A desarmónica imensidade do golfo,
a disposição das esmagadoras montanhas vizinhas, a cidade que não brilha, com o
seu casario escuro apinhado nas encostas, nas alturas recortadas de ameias,
restos de arruinadas fortificações antigas, todo este conjunto formava um
quadro melancólico. E a pretensiosa fachada italiana da cidade (existiria ela ainda?) que levantaram sobre o cais, a semelhança de Messina, era mais um engano
que a ninguém alegrava nem contentava. Depois, a situação moral dos habitantes
(domínio de dez mil turcos sobre trezentos mil italianos, gregos, arménios e
judeus), os receios, os terrores mal disfarçados da população cristã, a qual
dir-se-ia que julgava próxima e inevitável a chacina exterminadora com que os muçulmanos
a ameaçavam, diariamente e sem rebuço, junto a uma profunda crise económica,
alimentavam a atmosfera de tristeza que a paisagem, com os seus inúmeros
ciprestes, por seu turno acentuava..."
in "Novelas Eróticas" de Manuel Teixeira-Gomes
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Manuel Teixeira-Gomes
03 maio 2017
Sessão de Maio, que será em ... Junho!
Caros Amigos
Por razões devidamente justificadas e mais do que válidas, a sessão de 26 de Maio ("Novelas Eróticas" de Manuel Teixeira Gomes) passa para 2 de Junho. Atentai, pois então! E obrigada!
27 abril 2017
SOBRE LITERATURA E LEITURAS
JOSÉ RÉGIO há perto de 90 anos:
Literatura é pura e simplesmente um meio de expressão artística - como a pintura, a escultura, o cinema, a dança, a arquitectura, a música.
O que então inspira a obra de arte - é a paixão; e uma paixão considerada infamante ou uma paixão considerada nobre - podem da mesma forma inspirar Obras elevadas sob o ponto de vista que nos interessa : estético. O ideal do Artista nada tem a ver com o do moralista, do patriota, do crente, ou do cidadão: Quando sejam profundos e quando se tenham moldado a uma certa individualidade, tanto o que se chama um vício como o que se chama uma virtude podem ser igualmente poderosos agentes da criação artística: podem ser elementos de vida duma Obra.
Acuso aqui os nossos críticos de não se interessarem pelas Obras de Arte que pretendem criticar.
E dir-se-ia que eles exigem tudo da literatura - a morigeração dos costumes; a formação do carácter; a solidificação das convenções sociais; o robustecimento da raça; a certificação do dogma da Imaculada; a extirpação da hidra jesuítica; a defesa do feminismo; o progresso da Associação dos Scotes; a propaganda da república, da monarquia, do anarquismo, do socialismo, do bolchevismo, do óleo de rícino, dos pós de Keating, do calçado Atlas, das calças largas, dos milagres de Fátima, ou das predilecções particulares de cada um - tudo, menos o que se deve exigir à literatura, como à pintura, à dança, à escultura, ao cinema, à arquitectura, à música: satisfação à nossa necessidade de emoções estéticas.
24 abril 2017
10 abril 2017
"Ronda das mil belas em frol" de Mário de Carvalho, 28 de Abril às 21h00
A Sinopse diz assim:
"Eis um livro de ficção sobre sexo. Todas as histórias nele contidas narram percalços, espantos e sobressaltos de ligações íntimas entre homens e mulheres. O que se desvenda, o que se oculta. Rasgos perversos. Permanências e rupturas.
Nem sempre se encontra o que se espera, nem se espera o que se encontra. A variedade é avassaladora. A diferença inevitável. Neste jogo de corpos enlaçados, não poucas leitoras ficarão admiradas com certo olhar masculino. Talvez passem a conhecer ainda melhor outras mulheres. E os leitores também não perdem nada em saber o que pode surpreendê-los nas voltas do mundo."
A ver vamos ...
Livro em curso: "Ronda das mil belas em frol" de Mário de Carvalho
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Mário de Carvalho
04 abril 2017
Vamos voltar à Sexta-feira!
Amigos
Como já será do conhecimento da maior parte dos
membros da Comunidade de Leitores de SDRana e face à nova disponibilidade da
nossa Biblioteca, vamos voltar a reunir na última sexta-feira de cada mês entre
as 21h00 e as 23h45.
Assim, as sessões da Comunidade para o segundo
trimestre serão em
Abril, dia 28
Maio, dia 26
Junho, dia 30
01 março 2017
"Quantas Madrugadas Tem a Noite" de Ondjaki - 25 de Março às 15h00
A abrir
"Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud’uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá... Desde candengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem as nuvens dele também? De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com a nossa pele!
Avilo, desculpa tanta filosofia, o que tenho é sede mesmo..."
in "Quantas Madrugadas Tem a Noite" de Ondjaki
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Ondjaki
26 fevereiro 2017
PÓS-SESSÃO, ONTEM, NO CCB
«O teu amor quando palpita / verdade seja dita / faz-me atrasar os ponteiros /como a ostra esconde a pérola / aos viveiros.» - Sérgio Godinho cantado por Cristina Branco.
Sessões de autógrafos: a de ontem e a antiga
25 fevereiro 2017
Três dezenas de leitores...
... é o número médio que andamos a registar nas nossas sessões mensais. Hoje marcaram presença 29 leitores. Tendo presente realidades de outras comunidades de leitores, constato que a nossa está bem cimentada, com um grupo coeso e cada vez mais interessado nas leituras propostas. Reunir nesta Biblioteca, uma vez por mês numa tarde de Sábado, 3 dezenas de pessoas que vão pelo prazer de falar sobre um livro (e tudo o mais que daí advém), começa a ser digno de registo. A magia dos livros tem destas coisas!
Hoje, Agualusa levou-nos pelos caminhos da construção de memórias, de passados imaginados tornados reais. Pelo caminho veio Eça, Borges, a lusofonia, o riso das osgas asiáticas e os meandros negros da política, entres outros. Para alguns, com reais vivências africanas, as memórias que vieram à luz, foram emotivamente partilhadas com os demais. Foi mais uma sessão, forte na partilha do conhecimento em que, a diferença das opiniões não divide, mas une e enriquece. Que venha a próxima!
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"O Vendedor de Passados",
A Comunidade,
José Eduardo Agualusa
17 fevereiro 2017
"O VENDEDOR DE PASSADOS", de José Eduardo Agualusa
--- Transcrevo a introdução de um trabalho
académico feito por este escrevente no ano lectivo de 2007/2008, ano curricular
do mestrado, seminário de Literaturas de Língua Portuguesa:
INTRODUÇÃO
Ao pretendermos estudar o romance O Vendedor de Passados, de José Eduardo
Agualusa, não podemos deixar de ter em consideração a visão dicotómica de Pires
Laranjeira em relação à actualidade literária de Angola:
«No
pós-independência, há na literatura um discurso ideológico do poder e outro do
contra-poder. O discurso do poder procura legitimá-lo pelo poder do enraizamento
e da nacionalidade. O discurso do contra-poder não discute a nacionalidade, mas
pode discutir o modo como ela se legitimou, recuando às origens. Ou pode
simplesmente silenciá~la, enquanto tema, ou secundarizá-la.»
José Eduardo Agualusa nasceu na cidade do Huambo
(Nova Lisboa na toponímia colonial) em 1960 e é considerado um escritor da
diáspora. De facto, já residiu em Olinda, Brasil, país aonde se desloca com
frequência e onde desenvolve, ao que julgamos saber, projectos editoriais.
Estanciou em Berlim, onde escreveu, ao abrigo de uma bolsa de criação literária
da Deutscher Akademischer Austausschdienst, o romance O Ano em que Zumbi Tomou o Rio (2002). Reside actualmente em Lisboa.
Perpassa pela sua obra, logo desde o primeiro
romance, A Conjura (1989), e, em
especial , em Nacão Crioula (1998) -
onde se revela a “correspondência secreta” de Fradique Mendes e a surpreendente
adaptação daquela personagem queirosiana ao mundo tropical – a afirmação dos
valores da miscigenação, não apenas rácica mas, sobretudo, cultural, o que o
leva a desenvolver um projecto literário onde já se apontaram indícios das
teorias luso-tropicalistas de Gilberto Freyre ou, no mínimo, as marcas da
crioulidade que Mário António Fernandes sustentou na sua produção ensaística.
Pesará nesta inclinação intelectual a origem do
escritor, nascido em Angola mas filho de pai com raízes portuguesas e de mãe
com ascendência brasileira. A própria repartição espacial da sua vida e as
iniciativas que desenvolve no triângulo Angola-Portugal-Brasil, contribuem para
a imagem de um escritor dividido pelos espaços da lusofonia, essa comunidade de
falantes em que os Portugueses tendem a ver o que sobrou dos estilhaços do
Império e que Eduardo Lourenço já
apresentou como uma miragem cultural ou a imagem actual do nosso mapa
cor-de-rosa. É, de resto, esse território mítico desfeito pelo ultimato inglês
de 1890 que, de certa forma, surge no seu último livro, As Mulheres de Meu Pai, uma viagem de Angola à contracosta,
realizada desta feita pelo litoral africano, de Luanda à Ilha de Moçambique.
Em O
Vendedor de Passados opera-se uma dessacralização da terra natal e da sua
História, tocando-se em complexos
motivos como a invenção da memória ou o vazio dela na emergente nação
angolense. O livro é marcado por uma epígrafe de Jorge Luís Borges e um
narrador que nos atreveríamos a chamar borgiano, embora o modelo não se possa
considerar original.
Assim, o nosso trabalho sobre a obra e o autor
escolhidos, desenvolver-se-á segundo as seguintes linhas temáticas:
1. O mito da nação crioula.
2. Nação angolense e valores identitários.
3. O 27 de Maio de 1977.
4. Queirosianismo e ironia queirosiana.
5. Processos narrativos: as sombras de Jorge Luís
Borges e Lygia Fagundes Teles.
--- Aqui
fica a introdução, há mais 10 páginas. Desculpem qualquer coisinha, ó leitores, que
isto é trabalho de simples escolar. A nota até não foi má.
04 fevereiro 2017
O Berço
"...À noite, no quarto de engomar, a minha criada Gervásia sentou-me no chão, embrulhado num saiote. De quando em quando, rangiam no corredor as botas do João, guarda da alfândega, que andava a defumar com alfazema. A cozinheira trouxe-me uma fatia de pão-de-ló. Adormeci; e logo achei-me a caminhar à beira de um rio claro, onde os choupos, já muito velhos, pareciam ter uma alma e suspiravam; e ao meu lado ia andando um homem nu, com duas chagas nos pés, e duas chagas nas mãos, que era Jesus, Nosso Senhor.
Passados dias, acordaram-me, numa madrugada em que a janela do meu quarto, batida do sol, resplandecia prodigiosamente como um prenúncio de cousa santa. Ao lado da cama, um sujeito, risonho e gordo, fazia-me cócegas nos pés com ternura e chamava-me brejeirote. A Gervásia disse-me que era o Senhor Matias, que me ia levar para muito longe, para casa da tia Patrocínio; e o Senhor Matias, com a sua pitada suspensa, olhava espantado para as meias rotas que me calçara a Gervásia. Embrulharam-me no xale-manta cinzento do papá; o João, guarda da alfândega, trouxe-me ao colo até à porta da rua, onde estava uma liteira com cortinas de oleado..."
in "A Relíquia" de Eça de Queirós
"...O mulato Fausto Bendito Ventura, alfarrabista, filho e neto de alfarrabistas, encontrou numa manhã de domingo um caixote à porta de casa. Lá dentro, estendido sobre vários exemplares d’ A Relíquia de Eça de Queirós, estava uma criaturinha nua, muito magra e deslavada, com um cabelo de espuma incandescente, e um límpido sorriso de triunfo. Viúvo, sem filhos, o alfarrabista recolheu o menino, criou-o e educou-o, seguro de que um desígnio superior armara a improvável trama. Guardou o caixote, bem como os respectivos livros. O albino falou-me disto com orgulho: – Eça foi o meu primeiro berço. ..."
in "O Vendedor de Passados" de José Eduardo Augualusa
01 fevereiro 2017
“O Vendedor de Passados” de José Eduardo Agualusa, 25 de Fevereiro às 15h00
A abrir:
“Nasci nesta casa e criei-me nela. Nunca saí. Ao entardecer encosto o
corpo contra o cristal das janelas e contemplo o céu. Gosto de ver as labaredas
altas, as nuvens a galope, e sobre elas os anjos, legiões deles, sacudindo as
fagulhas dos cabelos, agitando as largas asas em chamas. É um espectáculo
sempre idêntico. Todas as tardes, porém, venho até aqui e divirto-me e comovo-me como se o visse pela primeira
vez. A semana passada Félix Ventura chegou mais cedo e surpreendeu-me a rir
enquanto lá fora, no azul revolto, uma nuvem enorme corria em círculos, como um
cão, tentando apagar o fogo que lhe abrasava a cauda.
– Ai, não posso crer! Tu ris?!
Irritou-me o assombro da criatura. Senti medo mas não movi um músculo.
O albino tirou os óculos escuros, guardou-os no bolso interior do casaco,
despiu o casaco, lentamente, melancolicamente, e pendurou-o com cuidado nas
costas de uma cadeira. Escolheu um disco de vinil e colocou-o no prato do velho gira-discos.
“Acalanto para um Rio”, de Dora, a Cigarra, cantora brasileira que, suponho,
conheceu alguma notoriedade nos anos setenta. Suponho isto a julgar pela capa
do disco. É o desenho de uma mulher em biquíni, negra, bonita, com umas largas
asas de borboleta presas às costas. “Dora, a Cigarra – Acalanto para um Rio – O Grande Sucesso do
Momento”. A voz dela arde no ar. Nas últimas semanas tem sido esta a banda
sonora do crepúsculo…”
“O Vendedor de Passados”
de José Eduardo Agualusa
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Livro do mês
25 janeiro 2017
PALAVRAS PARA QUE VOS QUERO
A propósito de Luuanda e do papagaio Jacó, vede isto, ó leitores, publicado pelo escrevente há 11 anos, era ainda uma criança:
http://sonhocomandavida.blogspot.pt/search?q=Jac%C3%B3
http://sonhocomandavida.blogspot.pt/search?q=Jac%C3%B3
03 janeiro 2017
"Luuanda" de José Luandino Vieira - 28 de Janeiro às 15h00
A abrir
Tinha mais de dois meses a chuva não caía. Por todos os lados do musseque, os pequenos filhos do capim de novembro estavam vestidos com pele de poeira vermelha espalhada pelos ventos dos jipes das patrulhas zunindo no meio de ruas e becos, de cubatas arrumadas à toa. Assim, quando vavó adiantou sentir esses calores muito quentes e os ventos a não querer mais soprar como antigamente, os vizinhos ouviram-lhe resmungar talvez nem dois dias iam passar sem a chuva sair. Ora a manhã desse dia nasceu com as nuvens brancas — mangonheiras no princípio; negras e malucas depois — a trepar em cima do musseque. E toda a gente deu razão em vavó Xíxi: ela tinha avisado, antes de sair embora na Baixa, a água ia vir mesmo.
A chuva saiu duas vezes, nessa manhã.
in Luuanda de José Luandino Vieira
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