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Blogue da Comunidade de Leitores da Biblioteca de S. Domingos de Rana - Cascais - Portugal
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Men walkin' 'long the railroad tracks
Goin' someplace there's no goin' back
Highway patrol choppers comin' up over the ridge
Hot soup on a campfire under the bridge
Shelter line stretchin' 'round the corner
Welcome to the new world order
Families sleepin' in their cars in the Southwest
No home no job no peace no rest
The highway is alive tonight
But nobody's kiddin' nobody about where it goes
I'm sittin' down here in the campfire light
Searchin' for the ghost of Tom Joad
He pulls a prayer book out of his sleeping bag
Preacher lights up a butt and takes a drag
Waitin' for when the last shall be first and the first shall be last
In a cardboard box 'neath the underpass
Got a one-way ticket to the promised land
You got a hole in your belly and gun in your hand
Sleeping on a pillow of solid rock
Bathin' in the city aqueduct
The highway is alive tonight
Where it's headed everybody knows
I'm sittin' down here in the campfire light
Waitin' on the ghost of Tom Joad
Now Tom said Mom, wherever there's a cop beatin' a guy
Wherever a hungry newborn baby cries
Where there's a fight 'gainst the blood and hatred in the air
Look for me Mom I'll be there
Wherever there's somebody fightin' for a place to stand
Or decent job or a helpin' hand
Wherever somebody's strugglin' to be free
Look in their eyes Mom you'll see me
Well the highway is alive tonight
But nobody's kiddin' nobody about where it goes
I'm sittin' down here in the campfire light
With the ghost of old Tom Joad
(Imagem da net)
In “As Vinhas da Ira” de
John Steinbeck, capítulo III
Acabo de ler o Capítulo III
do romance, onde nos deparamos com um episódio quase alucinante que nos
descreve o esforço épico de um cágado para subir a uma estrada, atravessá-la e
chegar vivo ao outro lado. Quando cheguei ao fim do capítulo, dei um suspiro
tremendo e percebi que tinha estado a suster a respiração enquanto lia sofregamente
o epílogo daquela louca aventura. Tenho para mim que este cágado não vai ficar
por aqui…
(Elementos recolhidos na Wikipédia)
(Imagens da net)
A primeira tentativa de incursão à casa dos Radley, por Scout, Jem e Dill, aconteceu porque o Dill apostou o seu livro “The Gray Ghost” contra dois “Tom Swift” do Jem, em como ele não conseguiria ultrapassar o portão da referida casa. Aposta muito tentadora para Jem que mesmo assim demorou 3 dias a decidir-se. Aí começaram as aventuras das 3 crianças em torno do misterioso Boo Radley. O mesmo Boo que tem um papel fundamental no epílogo do romance.
Mesmo no final de “Mataram a
Cotovia”, o “The Gray Ghost” volta a aparecer. Após os terríveis acontecimentos
dessa noite, Atticus que está a velar o sono de Jem, agarra no livro que estava
por perto e começa a ler. Scout aparece, e pede para ele ler em voz alta. Atticus
começa por recusar, por achar a história assustadora, mas Scout insiste dizendo
que não tem medo. Aconchega-se e embalada pela voz do pai, pelo conforto do
quarto e pelo barulho suave da chuva vai adormecendo. Quando Atticus a leva ao
colo para a cama, ela vai murmurando:
“…Ouvi tudo o qu’ disseste –
murmurei - … não estava a dormir, é sobre um barco e o Fred Três Dedos e o
Stoner’s Boy…
Ele desapertou-me o macacão,
encostou-me a si e despiu-mo. Depois segurou-me com uma mão enquanto pegava no
pijama com a outra.
- Pois, e depois eles
pensavam qu’ era o Stoner’s Boy quem estragava tudo no clube e espalhava tinta
por toda a parte….
Levou-me para a cama e
sentou-me nela. A seguir levantou-me as pernas e meteu-me debaixo das cobertas.
E vai daí eles perseguiram-no,
só qu’ nunca o apanhavam porque não sabiam como ele era, e, depois Atticus,
quando eles o encontraram, afinal não tinha sido ele qu’ tinha feito aquelas coisas…
Atticus ele era mesmo bom…
As suas mãos estavam por
baixo do meu queixo, puxando as cobertas e aconchegando-as à minha volta.
- A maior parte das pessoas
são assim, Scout, quando finamente as conhecemos.
Desligou a luz e foi para o
quarto do Jem. Sabia que ele ia ficar lá a noite toda e lá estaria ainda quando
o Jem acordasse.”
E terminamos assim, com o herói Stoner’s Boy a moldar-se à imagem do Boo Radley. Ou será que é o contrário?
QUISERAM OS
FADOS não haver condições para escutarmos juntos o cantar da gentil cotovia. Por
mim, já estou feito à ideia e só penso n´ As Vinhas da Ira do próximo mês.
Anseio por reencontrar Rosa de Sharon, a personagem de que mais gostei.
Flor dos cânticos de Salomão, segui-te
dos campos de Oklahoma
aos vergéis sombrios de além Colorado.
Querias uma vida nova,
um marido amável
e uma casa branca com frigorífico na cozinha.
(…)
Entretanto, aqui fica a cançãozinha da cotovia. Coitadinha, ali no meio daqueles passarões!
To kill a mockingbird
Is to silence the song
That seduces you
Why?
'Cause you need that desire in your heart to survive
And you need that burning fire in your soul to know
You're still alive
To catch me when I fall
Or did I dive at your delight?
In my heart I can fly
And I cannot disguise my love
There is no time
And I wouldn't know how
Constellations tonight
Are so fiercesomely bright, my love
I have no fear
I am Atticus now
Remember what I lost like hot coals in my hand from days gone by
Like Pandora adored the euphoria as her heart raced
Like love lost you've got to try even in vain
Feels like you'll go insane
But you're the hardest instrument that I've ever had to play
In my heart I can fly
And I cannot disguise my love
There is no time
And I wouldn't know how to
Constellations tonight
Are so fiercesomely bright, my love
I have no fear
I am Atticus now
So why don't we fall into the waves?
Can't you see how my heart yearns to misbehave?
In my heart I can fly
And I cannot disguise my love
There is no time to
And I wouldn't know how
Constellations tonight
Are so fiercesomely bright, my love
I have no fear left
'Cause I am Atticus now
So why don't we fall into the waves?
Can't you see how my
heart yearns to misbehave?
“Quando estava prestes a
completar treze anos, o meu irmão Jem fraturou gravemente o braço na zona do
cotovelo. Quando recuperou, e os seus receios de nunca mais poder jogar futebol
foram postos de parte, raramente tomava consciência da sua lesão. Porém, o seu
braço esquerdo ficara um tanto ou quanto mais curto do que o direito; quando
estava parado, de pé, ou a caminhar, a palma da sua mão ficava mesmo
perpendicular ao corpo, com o polegar paralelo à coxa. Mas isso não o
incomodava, desde que conseguisse fazer passes e rematar…”
In “Mataram a Cotovia” de
Harper Lee
Recomeça
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…
Sísifo de Miguel Torga
Ilustração de
Jonathan Wolstenholme
Dois mil e vinte está a chegar ao fim e com ele mais um ano de leituras para esta Comunidade.
Em retrospetiva, percebemos que foi um ano muito estranho e fora de comum, tudo por conta de uma virose coletiva. Adiante se verá…
O primeiro trimestre
do ano “(re)-leituras”, foi intenso!
Em Janeiro, Ferreira de Castro e “A Selva”, transportaram-nos à exuberância da selva amazónica e à vida penosa dos seringueiros, já em tempo de declínio da comercialização da borracha. Descobrimos todo um exótico mundo novo, modos de vida surpreendentes e um léxico praticamente desconhecido, como “gaiolas”, “igarapé”, “pirão”, “brenha”, “parintintins” ou “cunhantã” entre outros.
Em Fevereiro, chegou Agustina com “A Sibila” e um universo rural e predominantemente feminino, levando-nos a descobrir uma galeria de mulheres decididas, de personalidades distintas, mas todas perseguindo e atingindo objetivos muito precisos.
Ainda neste mês, celebrou-se o dia internacional da Língua Materna e a Câmara Municipal de Cascais promoveu o facto, publicando um vídeo alusivo, que contou com a participação de 2 elementos desta Comunidade, através da leitura de 2 poemas da Sophia de Mello Breyner: "Com Fúria e Raiva" e "Habitação".
O mês de Março de 2020, que ficará na história da humanidade, até começou bem, com uma visita à Exposição de Álvaro Pirez d’Évora, no MNAA.
Em seguida mergulhámos todos numa espécie de realidade paralela ou filme da Twilight Zone, com a explosão da pandemia Covid’19, provocada por um Vírus que ficou famoso e cujo nome nos faz tremer nas bases: o Corona.
Para combater o confinamento obrigatório, Jorge Amado, Jubiabá e as histórias da história de António Balduíno, foram uma ajuda preciosa. Com a Biblioteca fechada e a proibição de reuniões com um grande número de pessoas, não houve sessão presencial, mas conseguimos manter contacto e trocar ideias através das redes sociais, que se revelaram ótimas para situações como estas. Penso mesmo que, por conta do Corona, o nosso blogue ficou mais rico…
O segundo trimestre
– Eça & Cª, prometia…
Assim, com o
estado de emergência em vigor e confinados cada um a sua casa, o mês de Abril
trouxe-nos Eça de Queirós e o seu “Conde d’Abranhos”, personagem que
descobrimos através dos maiores encómios do seu secretário Z. Zagalo:
“Alípio Severo Abranhos, Conde d'Abranhos…varão eminente, Orador,
Publicista, Estadista, Legislador e Filósofo”. Na realidade e após a leitura, o
que se revelou foi um político pobre de espírito, incompetente, oportunista,
lambe-botas e vira-casacas.
Neste mês continuou a não ser possível uma sessão presencial, pelo que usámos a tecnologia disponível e reunimos em formato teleconferência. Correu muito bem e só nos faltou a partilha dos habituais bolinhos e bolachinhas.
No mês de Maio, ainda confinados, voltámos a reunir via Zoom, para discutir a “A educação sentimental” de Gustave Flaubert, seguindo o percurso do jovem egocêntrico Frédéric Moreau.
Entre Junho e Outubro suspendemos as sessões da Comunidade. A impossibilidade de reunir presencialmente, alguma dificuldade de acesso às plataformas digitais e outras questões relacionadas com a pandemia (sobretudo um cansaço coletivo muito desmotivador), assim o ditaram. No entanto, a maior parte dos leitores continuou com as leituras agendadas. Assim, Balzac, Roth, Atwood e Steinbeck fizeram-nos companhia durante tempos difíceis. Os livros são sempre uma opção vencedora!
Com a boa vontade dos responsáveis pela nossa Biblioteca, que num esforço feliz garantiram as condições de segurança e higiene necessárias, realizámos finalmente uma sessão presencial no dia 6 de Novembro, onde pudemos contar com a presença de 17 dos membros da Comunidade. O romance “Pão de Açúcar” do jovem escritor Afonso Reis Cabral, que estava alinhado para Outubro, foi o mote para o animado reencontro e abertura do 4º Trimestre, dedicado a “Recém-Laureados”.
A 27 Novembro,
mais uma feliz sessão presencial com 18 elementos, que se debruçaram sobre a
personalidade de Olga Tokarczuk e o seu surpreendente e fragmentado “Viagens”.
Um desconcerto em movimento contínuo sem nunca olhar para trás, numa nómada
digressão pelo espaço e pelo tempo, é o que me ocorre dizer.
Fruto de discussão e propostas entre leitores, ficou ainda definido nesta sessão, o Plano de Leituras para 2021.
E continuando em modo presencial, Dezembro, por norma o mês mais mágico do ano, trouxe-nos “As Pálidas Colinas de Nagasáqui” de Kazuo Ishiguro. Um romance que provocou reações diversas entre os leitores. Uns, gostaram, outros, não. Leituras diferentes para uma escrita um pouco melancólica, mas muito bonita (digo eu) que, neste caso, apresenta diversas pontas soltas e muitas questões sem resposta. Intencional por parte do escritor? Certamente que sim e daí as diferentes leituras e apreciações.
E assim 2020 chega ao fim, a deixar poucas ou mesmo nenhumas saudades. E não falo das nossas leituras!
Avancemos para o novo Ano com otimismo e esperança em dias melhores.
Feliz Ano Novo!
Parque da Paz em Nagasáqui (foto
daqui)
“…Os ornamentos típicos, como arbustos e fontes, tinham sido reduzidos ao mínimo, o que transmitia uma sensação de austeridade, com o relvado plano, o extenso céu de Verão e o monumento em si mesmo - uma estátua branca, enorme, em memória das pessoas mortas pela bomba atómica - a dominar todo o recinto.
A estátua parecia um deus
grego musculado, sentado com os braços abertos. Com a mão direita apontava para
o céu, de onde a bomba tinha caído. Com o outro braço, estendido para a esquerda,
estava supostamente a suster as forças do mal. Tinha os olhos fechados em
oração.
Sempre tive a sensação de
que a estátua tinha um aspeto bastante desajeitado e nunca consegui associá-la
ao que aconteceu no dia em que a bomba caiu, nem aos dias terríveis que se
seguiram…”
In “As Pálidas Colinas de Nagasáqui”, parte dois, capítulo 8
Ao longo do romance aparecem algumas referências à bomba atómica, mas quase que de forma subtil, como se isso interessasse pouco para o desenrolar do história. Puro engano, digo eu, as influências do ataque nuclear e da guerra estão lá em cada linha, cada parágrafo...
O romance
desenvolve-se em dois planos de tempo e espaço: o do tempo presente (Inglaterra), fim da década de setenta ou princípios da de
oitenta; e o do tempo recordado (Japão), um certo Verão dos primeiros anos do
pós-guerra.
É clara ao
longo da história a oposição entre os valores do Japão tradicional e os da
sociedade que se seguiu à rendição, o interesse pela América triunfante e a sua
cultura – como se vê pelo confronto entre Ogata-San e Shigeo Matsuda (Capítulo
9 da Parte Dois) e a persistente atracção de Sachiko pelo “sonho americano”,
pela grande nação onde a filha poderia vir a ser uma mulher de negócios ou uma
actriz bem sucedida.
A penetração
da cultura americana no Japão destroçado (há referências ao ataque
nuclear e às suas consequências) está igualmente presente no segundo romance de
Ishiguro, Um Artista do Mundo Flutuante (1986),
num episódio de 1948 em que o neto do narrador, nas suas brincadeiras, adopta a
figura de um cowboy (Lone Ranger), desprezando
os ensinamentos heróicos dos antigos samurais.
----- E agora, lançados estes tópicos, dizei, leitores, como vão as vossas leituras.
“Niki, o nome que finalmente demos à minha filha mais
nova, não é um diminutivo; foi um acordo a que cheguei com o pai dela. Porque,
por mais paradoxal que possa parecer, foi ele que quis que ela tivesse um nome
japonês, ao passo que eu – talvez por um qualquer desejo egoísta de não ter de
recordar o passado – insisti que o nome fosse inglês. Acabámos por concordar
com Niki, talvez por acharmos que tinha um vago tom oriental…”
In “As Pálidas Colinas de
Nagasáqui” de Kazuo Ishiguro
1º trimestre: 29 de Janeiro, 26 de Fevereiro e 26 de Março
«Escuto a América a cantar, as várias canções que escuto» - WALT WITHMAN
- Não Matem a Cotovia, de Harper Lee
- As Vinhas da Ira, de John Steinbeck
- O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway
2º trimestre: 30 de Abril, 28 de Maio e 25 de Junho
«Última flor do Lácio, inculta e bela» - OLAVO BILAC
- Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto
- Levantado do Chão, de José Saramago
- Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo
3º trimestre: 30 de Julho, 27 de Agosto e 24 de Setembro
«Bem próvida a natura quando alteou / Entre nós e os tudescos / Dos fortes Alpes o limite duro» - FRANCESCO PETRARCA
- O Leopardo, de Tomasi di Lampedusa
- O Nome da Rosa, de Umberto Eco
- Se numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino
4º trimestre: 29 de Outubro, 26 de Novembro e 17 de Dezembro
«A única coisa que nos resta diante dessa inelutável derrota a que chamamos vida, é tentar compreendê-la. Eis aí a razão de ser da arte do romance» - MILAN KUNDERA
- A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol, de Haruki Murakami
- O Mar, o Mar, de Iris Murdoch
- O Triunfo dos Porcos, de George Orwell
O museu Josephinum foi construído entre 1783 e 1785 para a Academia de Medicina e Cirurgia e expõe modelos de cera do corpo humano.
«Tal faz com que, na Psicologia da
Viagem, tenha surgido ultimamente a ideia da sua supremacia sobre os outros
ramos, chegando-se ao ponto de se defender que não pode haver outra Psicologia
a não ser a Psicologia da Viagem.»
-- OLGA TOKARCZUK, Viagens
Tocado pela escrita da
nossa autora deste mês, venho falar de aeroportos.
Duas experiências apenas,
pontuais e insignificantes. Quantas de bem mais robusto interesse não terão
para contar as nossas leitoras? Ah, a Psicologia da Viagem! Que falem agora, ou
então calem-se para sempre.
1ª experiência:
Barcelona, aeroporto
d´El Prat de Llobregat, há uma carrada de anos.
Saí pelas 9 horas da
manhã de um hotel na Diagonal à boleia de pessoa amiga que ia trabalhar para o
seu escritório na zona do aeroporto. Meia hora depois ali estava, só que o meu
voo para Lisboa era ao fim da tarde. Porque não fiquei a passear pelas Ramblas
ou pelo Paseo Marítimo e me fui meter, com antecedência de oito ou nove horas,
naquele antro de partidas e chegadas, de escadas rolantes e vozes multilingues
disparadas como balas dos canos estriados dos altifalantes? Quis
aproveitar a boleia, foi isso, conversar mais uns minutos com quem me
levava, e ali permaneci todo o dia claro com a pequena mala que tinha por
bagagem, observando, lendo e rabiscando umas notas sem préstimo. Almocei uma sandes
de boa catadura e gosto indiferenciado que me custou um ror de pesetas, saudosa
divisa, as moedas mostrando a cara daquele rei que veio a especializar-se em
caçadas de elefantes e negócios comissionados. Acho que a certa altura me
fartei. Então errei pela vastidão dos espaços, entrei nas casas-de-banho só para
me ver aos espelhos, fiz perguntas impertinentes aos balcões das companhias
aéreas, tais como qual é o preço de uma viagem para Miami ou com que frequência
há saídas para o Rio de Janeiro. Ah, lembro-me bem, vi mulheres belíssimas de
todas as cores e feitios. Foi bom, mas para um dia inteiro é cansativo. Fui o
primeiro a fazer o check-in, eram 5 horas da tarde.
2ª experiência:
É como que simétrica
da anterior. Voo de Lisboa para Veneza, há cerca de um ano.
O avião levantava
antes das 7 da manhã, tinha de estar no aeroporto pelo menos uma hora antes.
Achei pouco seguro sair de casa (arredores de Lisboa) de madrugada. Pensava que
poderia não encontrar táxi ou que, se ajustasse previamente o serviço, o taxista
poderia falhar por qualquer razão imprevista. Nunca tinha saído num voo tão
madrugador e não queria arriscar-me a ficar em terra: um caso certamente merecedor de análise no âmbito da Psicologia da Viagem. Cheguei ao aeroporto à 1 da manhã,
quando cessam os voos de partida e chegada. Depois desta hora tudo se
transforma: há carros de aspiração e limpeza em circulação; operários
trabalhando com o ruído dos seus berbequins a retirar e a colocar painéis publicitários;
há luzes que se apagam ou diminuem de intensidade. Há quem durma nos esconsos
do amplo espaço sobre cartões e mantas: passageiros a aguardar viagem ou
sem-abrigo em lugar protegido e climatizado? Não cheguei a apurar. Dormir nos bancos
é propósito ínvio, tanto pela configuração e incomodidade dos assentos como pelo barulho dos
trabalhadores em acção. Desisti de dormir, fiquei a ver o circo. Pelas 3
horas da manhã, uma miúda de vinte e poucos anos veio ter comigo.
Estava ali por razões mais ou menos idênticas às minhas: eu aguardava a partida,
ela esperava a chegada de um amigo num voo de Cabo Verde, lá para as 5 e tal da
manhã. Por essa hora não tinha transporte, então veio para o aeroporto à
meia-noite.
“Está à espera de que
voo?”
“Estou à espera de
partir, vou para Veneza.”
“Ah, Veneza, a minha
avó esteve lá no ano passado, não gostou.”
Imaginei a pobre
senhora na Praça de São Marcos, cercada de hordas de chins e outros povos
estranhos, a circularem aos magotes pelas bordas dos canais e ela em grande
perigo de cair à água, desejosa de se ver ao sol de Lisboa e em terra firme do
seu bairro.
“O patrão do meu amigo
deu-lhe uma semana de férias por ter feito um bom trabalho. Pagou-lhe a viagem.
Por outro não estava aqui, mas este amigo merece.”
Não aprofundei, mas cá para mim era amigo colorido. Apreciei a forma como a ele se referia e lembrei-me do nosso rei trovador.
Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?
Acho que lhe perguntei o nome, gosto de saber o nome dos meus interlocutores, mas se mo disse já o esqueci. A amor é bonito. Uma noite passada no aeroporto também.