03 janeiro 2013

SINTRA FOREVER

Antes que se apague o brilho da memória de dia 1 de Janeiro deste ano-bébé, passado no coração da Serra de Sintra de forma tão auspiciosa, aqui se publicam e mandam registar, os apontamentos fotográficos possíveis, face ao variado e animado das diferentes e por vezes coincidentes atividades. Se não, vejamos: depois da passeata à Peninha a ver o mar e o Tejo na lonjura, enquanto uns acendiam o lume, outros passeavam na ponte pênsil, a fazer o malabarismo do chinelo, com muito aplauso dos medrosos; alguns punham a mesa; havia um coro a acompanhar a gaita de foles; conversa, muita; podia-se ainda entrar no concurso da fisga para ganhar um xuxu... O que fizémos todos, foi cantar os parabéns à Rosa, comer e beber  à tripa- forra e, por fim, participar na quemada galega, que o Carlos Capela preparou, com muito saber setentrional, com todos os ingredientes, pozinhos de pirlimpimpim e os esconjuros da praxe. Ardeu bem até com um sopro geral se extinguir, como mandavam as regras do exorcismo... (Aqui para nós, tal foi o poder da imprecação, que alguém jura ter visto um magote de bruxas a fugir do local, a uma velocidade mágica...). Combinámos desde já um encontro no mesmo local, daqui a um ano, intercalado com muitos dos já costumados passeios e outras e variadas atividades... Em caminhada...


 
 
 

A REIVINDICAÇÃO DO AMOR

Depois de Se Isto É Um Homem, de Primo Levi, obra em discussão, amanhã, no Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro, já nos encontramos na companhia de O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence – dia 10 na Biblioteca Municipal de Cascais, ciclo de leituras “A reivindicação do amor”.
Há quem não saiba, ou não queira saber, mas a leitura é um grande remédio contra a melancolia – um verdadeiro emplastro Brás Cubas!

02 janeiro 2013

LEITURA DO MÊS : "UMA FAMÍLIA INGLESA", DE JÚLIO DINIS : 25 DE JANEIRO, 21 HORAS

Exmo. Sr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho
Recebi, mas só muitos dias depois, o exemplar com que V. Exa. me obsequiou, do seu romance Uma Família Inglesa.
(…)
Coisa muito para se citar com louvor e admiração neste seu novo livro, é (quanto a mim) que, sendo tão sóbrio o enredo, e tão pequeno o teatro da acção, o interesse dela é todavia dos mais poderosos. O talento real foi sempre assim, e assim é também em todos os seus poemas a Natureza: de elementos mínimos compõe, sem esforços nem violência, os máximos efeitos.
Deus o conserve (e já se vê que o há-de conservar até ao fim) no óptimo sistema que adoptou.
Outros que o elogiem (e com esses também eu faço coro) como escritor de romances já distintíssimo, não só para entre nós. Eu, por cima desse mérito reconheço-lhe ainda o de filósofo e moralista, que algum dia tem de ser colocado entre os de primeira plana. Teofrasto e La Bruyère não debuxaram com mais exacção os caracteres. Balzac mesmo não lê mais por dentro nos indivíduos. V. Exa., além do esmero com que nos pinta o mundo exterior, e nos fotografa a sociedade, tem o raro dom da intuspecção no mais eminente grau. Cumpre o nosce te ipsum; ciência rara! e ousa (o que também não é vulgar) não desviar jamais os olhos da eterna máxima, risota hoje para muitos:
Rien n´est beau que le vrai, le vrai seul est amaible.
(…)
Adeus, meu caro, meu prodigioso poeta. Creia nas veras com que me assino.
 
Lisboa, 15 de Julho de 1868
 
                                                                     De V. Exa.
                                                        admirador, confrade amigo,
                                                             e servo muito obrigado
 
                                                                   A. F. de Castilho
      
Júlio Dinis, Cartas e Esboços Literários, Porto, Livraria Civilização, 1946 (d. do prólogo), pp. 283-286.

AO ANO NOVO



Atravessou os recifes de coral da Polinésia horas antes
de se anunciar no Dubai e em Atenas. Seguia célere,
esperado nos cais da noite pela alegria dos homens.
Os cépticos, porém, desconfiaram, e deram em acreditar
que o antes se colaria ao agora, como o agora
se encostaria ao depois. O tempo é só um, disseram, e Zenão
de Eleia poderá ter rido na eternidade roxa dos seus paradoxos.
Nada percebo de metafísica, penso, nada sei da geografia do tempo,
essa ciência, talvez inexacta, que lida com os fusos horários
e os paradigmáticos meridianos. Sei apenas que tenho, no móvel
da sala, uma gaveta cheia de fotografias, folhas arrancadas
de velhos calendários, e, como cicatrizes, velas extintas  
de aniversários distantes. Esgares da memória com que hoje
me encontro num ano novo que sorri de nada.

JOSÉ RAFAEL

01 janeiro 2013

QUEIMADA GALEGA

Para os nossos leitores que andaram hoje na companhia da mãe Natureza por entre ritos esconjuratórios e, quem sabe, outras práticas do oculto. Caminhos de Deus ou do diabo?

O CONXURO DA QUEIMADA

Mouchos, coruxas, sapos e bruxas.
Demos, trasgos e diaños,
espritos das nevoadas veigas.
Corvos, pintigas e meigas:
feitizos das manciñeiras.
Podres cañotas furadas,
fogar dos vermes e alimañas.
Lume das Santas Compañas,
mal de ollo, negros meigallos,
cheiro dos mortos, tronos e raios.
Oubeo do can, pregón da morte;
fuciño do sátiro e pe do coello.
Pecadora lingua da mala muller
casada cun home vello.
Averno de Satán e Belcebú,
lume dos cadavres ardentes,
corpos mutilados dos indecentes,
peidos dos infernales cús,
muxido da mar embravecida.
Barriga inútil da muller solteira,
falar dos gatos que andan á xaneira,
guedella porca da cabra mal parida.
Con este fol levantarei
as chamas deste lume
que asemella ao do Inferno,
e fuxirán as bruxas
a cabalo das súas escobas,
indose bañar na praia
das areas gordas.
¡Oide, oide! os ruxidos
que dan as que non poden
deixar de queimarse no augardente
quedando así purificadas.
E cando este brebaxe
baixe polas nosas gorxas,
quedaremos libres dos males
da nosa alma e de todo embruxamento.
Forzas do ar, terra, mar e lume,
a vós fago esta chamada:
si é verdade que tendes máis poder
que a humana xente,
eiquí e agora, facede cós espritos
dos amigos que estan fóra,
participen con nós desta Queimada.

(Autor deste conxuro: Mariano Marcos de Abalo)

26 dezembro 2012

NATAL POÉTICO II








Arriscar uma certa contra-mão, infringir, de algum modo, os costumes, reinventando as noites, ditas especiais, pode ser desconcertante e, por isso mesmo, compensador.
Já a ceia pouco natalícia, com o bacalhau metamorfoseado em pataniscas, acompanhado do tomatado arroz, tinha sido manducada a quatro bocas, mai-las repetidas sobremesas, quando surgiu a primeira visita poética, a Etel, largando sorrateiramente a família, mas vindo equipada com deliciosas filhoses, bondosamente surripiadas à natalícia mesa.
Cumprimentos, conversa, adivinhas e prendinhas, bebe aqui, petisca acolá … E não há meio de chegar o resto do pessoal! Onde vão as 23 horas combinadas… E os poemas a arrefecer…
Aquela gente evaporou-se, ou antes, evaporou-se a ideia de nos reunirmos… meia noite, nada.
Vai-se embora a primeira participante, sem participar, mas eis que aparece a inesperada, mas bem vinda Sandra, num halo de fumo (não tão bem vindo).
Mais entretém, chegam, não chegam, vêm não vêm, lá acabam por adregar à Costa dos Sete Castelos os três intrépidos em falta! Meia noite e Meia!
Verdadeira quasi-vigília foi a sessão de poemas. Esperem pelo fenómeno!
Em primeiro lugar, é justo que se adiante, o nosso poeta de serviço (já pegou o dito) teve uma prestação de aplaudir, com uma criteriosa seleção de poemas, nem  todos fáceis de ler e apreender (e vice-versa), mas o Espírito Poético, que nos visitou o ano passado, por especial sortilégio de Mr Scrooge, fez também das suas este ano e, quando demos por ele, tinha-se instalado, refasteladamente, entre nós!… Senão vejamos: num primeiro momento, ora agora dizes tu, ora agora digo eu, foram os poemas selecionados circulando, intercalando vozes femininas e vozes masculinas, algumas vezes era necessário repetir, para saborear melhor (alguns não eram para entender). Depois a coisa entrou numa roda que parecia livre, mas vendo bem as coisas, era o Espírito Poético a conduzir, pela noite dentro, o pessoal insone.
Sucederam-se então quase todos os poemas enviados por alguns; e as escolhas pessoais iam surgindo: pontuaram  João de Deus, Sophia de M. Breyner, Sebastião da Gama, António Gedeão, a nossa amiga madeirense Lucília, entre outros; não faltou um soneto de Camões; lembrámos Mário Dionísio e Garrett (Garretxi), a evocar Santarém  e a Joaninha. Mas quando demos por isso, estava a Manuela a cantar a Barca Bela e dali até à Samaritana foi um pequeno passo, acompanhada de perto pela emoção do nosso amigo e poeta. Ai Fado!
Conclusão: Eram 2.30h, o dia 25 de Dezembro a empurrar, com tarefas a cumprir e o Espírito a refilar, que queria continuar com a poesia e o cantorio, pois então!
Depois de todos saírem, tentei apagar as velas, mas só consegui depois de prometer ao Espírito que não vamos esperar UM ANO para voltar a convocá-lo assim, com simplicidade, sem qualquer pretensão a não ser esta: o pretexto da Beleza e da Palavra, que nos congregam para além de todas as diferenças!
É verdade: obrigada a todos os participantes, os presentes e os outros, apenas fisicamente ausentes. Acho que a certa altura estávamos ali todos! Coisas do Espírito!

NATAL 2012




















Sandro Botticelli (1444-1510). A Virgem com o Menino,
Museo Poldi Pezzoli, Milão


Em Prol das Leituras do próximo ano!

22 dezembro 2012

Poema de NataL


De novo o alarde rútilo dos luzeiros de NataL, o colorido
das árvores, a música que alastra sobre o plasma
da noite. Estou do lado de cá da festa, na margem
do passeio, rente à sombra dos muros por onde crescem,
quando é tempo, os  braços meigos das buganvílias.
Vejo de fora, através das janelas, o recorte de lentas
figuras de cera. Transportam no bojo, como numa
mala, a inexequível persuasão da vida, o pano gasto
de alegrias reeditadas em cada época. Nada me move,
nada me comove. Peço-te, por isso, que não venhas
agora: para além do mais seria de mau gosto
e nada adiantaria ao nosso caso. Deixa que se extingam
as volutas da quadra e procura-me depois, pela manhã
de um tempo mais verdadeiro e mais humano.

JOSÉ RAFAEL

21 dezembro 2012

Nesta época natalícia de «comezainas», continuemos «devoradores de livros».
FELIZNATAL

17 dezembro 2012

AS PEGAS DE SINTRA

Palácio Nacional de Sintra, Sala das Pegas
 
O caso dos meus amores andava mais público do que eu podia supor. Entretanto sorri, um sorriso curto, fugitivo e guloso – palreiro como as pegas de Sintra.
 
 Memórias Póstumas de Brás Cubas, capítulo LXXXII Questão de Botânica


16 dezembro 2012

Para quem gosta dos clássicos e não se amedronta perante os vastos e densos «russos», aqui está uma nova versão cinematográfica, teatral e inovadora, desta obra tantas vezes revisitada pelo cinema. De salientar os excelentes actores (os olhos marejados de lágrimas de Keira Knigthley dizem tudo sobre o sofrimento interior de Anna, vítima de si, da sociedade que a rodeia, dos desacertos do mundo e do amor).
De revisitar ,mesmo, é a extensa obra de Tolstoi, um livro de sempre (coragem para as seiscentas e tal páginas em letra miúda da edição que aqui tenho), que não se esgota na história infeliz de Anna Karenina. O realizador , Joe Wright, já assinou as adaptações de Orgulho e Preconceito e Expiação, com a mesma protagonista.

Segue uma crítica:

«Regressamos ao séc. XIX, re-imaginado sob a alçada da opulência da alta-sociedade russa, para revisitar a história da personagem titular, uma famosa aristocrata que se vê envolvida num caso extraconjugal que colocará em causa o seu estatuto na sociedade e família. A exploração da capacidade de amar, em todas as suas formas, nasce das palavras do celebrado autor russo Leo Tolstoy, que vê a sua obra adaptada para o argumento do dramaturgo inglês Tom Stoppard.
Parafraseando William Shakespeare, “o mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres não passam de meros atores; têm saídas e entradas, e cada um no seu tempo representa diversos papéis”, e Joe Wright cria aqui um conceito que é simples de explicar, mas terrivelmente difícil de executar: o romance é apresentado como uma peça dentro de um filme, um olhar microscópico sobre a vida deste pedaço de aristocracia, da bancada de uma produção teatral, usando apenas, quando estritamente necessário, uma linguagem e expressão cinematográfica mais tradicional, um pouco incompreendida entre a crítica, que praticamente apelidou a sua abordagem de “salta-pocinhas de necessidade”.
O dispositivo aparentemente bifurcado serve, no entanto, um claro propósito de comentário social sobre a forma como a alta sociedade tem sempre um papel a representar e, por oposição, como a vida rural e simples é sinónimo de uma vivência mais real e orgânica, livre da artificialidade.
Não são mecanismos subtis, mas é também essa exposição “desavergonhada” que torna “Anna Karenina” num pedaço cinematográfico com sabor igual a nenhum outro. O conceito é visual e intelectualmente estimulante, um exercício de interseção entre literatura, cinema e teatro que, apesar de não ser a melhor incursão do realizador – nunca consegue suplantar o poder dramático e emocional de “Orgulho e Preconceito” e “Expiação” – é entusiástico, corajoso e vistoso.
Keira Knigthley cria uma Anna complexa e contraditória, que tanto é heroica como quase vilanesca, fazendo revisitar o eterno dilema sobre a protagonista: será ela uma vítima do seu posicionamento numa sociedade patriarcal, ou uma mulher neurótica e narcisista?
Se Jude Law fosse dez anos mais novo, seria uma escolha óbvia para interpretar o fervoroso Conde Vronsky sendo, como já veio a provar em papéis semelhantes, fabuloso. Felizmente, a cara laroca vem acompanhada de talento, e é uma lufada de ar fresco ver Law num papel que foi tantas vezes o dos seus “rivais” românticos, e o ator britânico vive-o intensamente.
O erro mais gritante da produção jaz no casting do Conde Vronsky, e Aaron Taylor-Johnson (que tinha dado promissoras indicações em “Selvagens”, de Oliver Stone, ainda este ano) cria um amante esmagado pelo uniforme e opulência do seu bigode que, além do visual manifestamente agradável à vista, poucos mais atributos apresenta à emoção que justificassem uma qualquer pinga de simpatia por si.
O maior e definitivo problema de “Anna Karenina” é, infelizmente, dramático. Resumir uma obra de mais de 800 páginas a duas horas é uma luta desigual e impossível de vencer perante todos aqueles que já viajaram pelas páginas envelhecidas de Tolstoy. A tragédia é condensada e acelerada, mas mesmo assim, fica a ideia de que algo poderia ter sido feito para tornar esta tragédia naquilo que ela verdadeiramente foi: uma tragédia com grandeza e poder de ópera, e não um simples melodrama.
De todo o modo, “Anna Karenina” pode ter falhado algumas notas pelo caminho - como o fez -, mas criou, mesmo desse jeito e forma, um evento cinematográfico, um tema de conversa, um filme que ambicionou quebrar as convenções da tradição de filmar uma história, contando-a numa espécie de híbrido de meios. Um quadro vivo transposto para um orgasmo visual, uma espécie de ballet sem dança infundido numa ópera sem cantores.
Consegui-lo com este grau de sucesso é um feito, e o que sobra são duas horas do mais ousado, sumptuoso, luxuoso e belo Cinema do ano.
E aí está ela. A deixa para aplaudir de pé.»
Por: Catarina D'Oliveira
 

15 dezembro 2012

Memórias Posthumas

«Todavia, importa dizer que este livro é escrito com pachorra, com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, cousa que não edifica nem destrói  não inflama nem regela, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado.»

Ainda o Grande Gatsby

Capa da edição original de 1925
F. Scott Fitzgerald marcou e «criou» a geração dos «loucos» anos 20, a «geração perdida» entre as Guerras, para a qual é necessário viver a todo o custo, apesar de tudo e todos. Tanto pela sua obra como pela sua vivência pessoal.
O grande Gatsby é o epítome da «Jazz age», das «flappers», das festas loucas, personagens ao sabor do vento, fazendo tudo o que lhes é permitido,  numa América que saboreia uma «libertação» moral, o progresso técnico e o dinheiro fácil. Gatsby aparece como uma materialização do «sonho americano»: o enriquecimento (de que forma?), que permite a qualquer um ser «alguém», ir a qualquer lado, conquistar tudo, alcançar o sonho. Paradoxalmente, o sonho de Gatsby é um desejo de aceitação, de reinvenção, para alcançar um vácuo passado de ecos românticos. Contudo na «terra dos sonhos», nem estes se alcançam ou se compram. Ou se tornam realidade...Realidade que se revela, sob as rodas de um carro veloz, no «Vale das Cinzas», que separa dois mundos distintos na «terra de todas as oportunidades» e supostas igualdades, onde as personagens amorais vagueiam sob o olhar sem face do Dr. J. T. Eckleburg...

O EMPLASTO, cap. II


A PEDIDO DE ...

13 de Dezembro -- Nova aventura de Os Cinco na Biblioteca Municipal de Cascais. Apanhados à sombra da árvore-de-Natal-de-livros quando iam em demanda de "O Grande Gatsby" de F.Scott Fitzgerald. Um deles parece que está a dormir, e mesmo assim sorri.

14 dezembro 2012

"MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS" - Sexta-feira, 28 de Dezembro, 21 horas

maalilustrações - www.maal.com.br
 
EXORTAÇÃO A QUEM AINDA NÃO TENHA COMEÇADO A LER
 
Cheguei ao capítulo XII, “Um episódio de 1814”, onde se fala da primeira queda de Napoleão e do regozijo público na sociedade colonial do Rio de Janeiro, do tráfico negreiro, de um espadim de menino, e também de um exímio glosador – Vilaça, de seu nome – que conhecera Bocage no Nicola e beijava senhoras ao lusco-fusco, por detrás das moitas, com os olhos chispados de vinho e de volúpia.
LEIAM QUE NÃO CUSTA NADA, ABSOLUTAMENTE INDOLOR!


12 dezembro 2012

VERÃO DE 1922 - "A reivindicação do amor"

Um desenho torrencial de sentimentos e ilusões no pino do Verão. Um saxofone rouco por entre o bulício da City e a perícia veloz de bootleggers e especuladores bolsistas.  Um sopro de jazz, um clarão eléctrico e industrial, um hidroplano na baía clara. Rosy Rosenthal, o velho restaurante Metrople e o crime. A reivindicação do amor, o amor traído. A aceleração letal  dum carro amarelo, um fato cor-de-rosa sobre o green do jardim da casa, uma piscina com fios de sangue, perecendo de folhas.
Não basta o desenho, é preciso ler nas linhas de fuga que o conformam.
 

Na Comunidade de Leitores da Biblioteca de Cascais, 13 de Dezembro, 18:30, ciclo de leituras “A Reivindicação do Amor”.

07 dezembro 2012

Comunidades de Leitores

O Nosso Tempo de 04 Dez 2012 - RTP Play - RTP

Mão amiga fez chegar à nossa Leitora Joca e ela que gosta de partilhar fez-nos chegar a todos. Porque estes momentos merecem registo, cá fica para memória futura. Ora espreitem a partir do minuto 18, que bem que está representada esta nossa Comunidade!

06 dezembro 2012

MACHADO e EÇA

Machado de Assis (1839-1908)
 
As relações entre os dois grandes mestres do realismo de língua portuguesa foram praticamente inexistentes. Porém, uma crítica de Machado de Assis em O Cruzeiro (16 e 30 de Abril de 1878) poderia ter dado origem a uma polémica com Eça de Queiroz. Por razões um tanto enigmáticas, não deu. Eça fez-se de orelhas moucas e só indirectamente veio definir a sua posição sobre o assunto.
Que dizia Machado? Em primeiro lugar, que Eça imitara Zola no seu romance La faute de l’ abbé Mouret ao escrever O Crime do Padre Amaro (2ª versão da obra, que foi a lida pelo escritor brasileiro); depois, que O Primo Basílio, em Luiza e no fundamental da construção romanesca, era concupiscente, repugnante e de um erotismo inaceitável; finalmente, que nada desta literatura era comparável com obras do romantismo português e brasileiro como O Monge de Cister, o Arco de Santana ou o Guarany.
Machado de Assis ainda não tinha publicado, por esta altura, os romances realistas que o tornaram célebre: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó. Também ele fez o seu caminho do romantismo às formas avançadas da nova arte. Eça e Emília (a esposa) liam-no em Paris, e certamente o admiravam.
Diz-nos A. Campos Matos no seu livro Sobre Eça de Queiroz (Lisboa, Livros Horizonte, 2002): “Quando Eça morreu, Machado quebra o seu silêncio escrevendo: ‘Que hei-de eu dizer que valha esta calamidade?’. Nesse mesmo texto, de uma carta, confessou que começara em Eça pela estranheza acabando pela admiração. É caso para dizer, citando Fernando Pessoa, ‘primeiro estranha-se, depois entranha-se’…”.

03 dezembro 2012

ESTE MÊS

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis
 
AO VERME
QUE
PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES
DO MEU CADÁVER
DEDICO
COMO SAUDOSA LEMBRANÇA
ESTAS
MEMÓRIAS PÓSTUMAS


CLARICE, AINDA

JOANA
(no capítulo “O Encontro de Otávio”)

                      A todos os que não compreendendo, compreenderam

A noite dobrava-se inquieta sobre o dorso dos pássaros,
o luar e a sombra estalavam nos móveis do quarto
e as asas do sonho trespassavam de verbos o poliedro
infinito das sensações. Pensou: “Sou a onda leve
que não tem outro campo senão o mar” – mas talvez
nem chegasse a acreditar no que pensava… Cercava-a
uma auréola de ínvia maldade, o poder desmedido
de se sentir mulher e conhecer o futuro das palavras
muito antes de elas se tornarem presente e passado.
Do amor, intuía que era um lugar de onde se podia fugir
pela porta dum livro ou duma grande ideia, enquanto
na cama, a seu lado, frágil como uma folha ou um fruto,
o homem soprava a lenta respiração do sono: insciente
e inerme, pronto para morrer e ser esquecido. 

JOSÉ RAFAEL

20 novembro 2012

"Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo".

Aqui vão mais umas informações sobre a nossa autora:


"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."



Em Maio (1976), corre o boato de que a escritora não mais receberia jornalistas. José Castello, biógrafo e escritor, nessa época trabalhando no jornal "O Globo", mesmo assim telefona e consegue marcar um encontro. Após muitas idas e vindas é recebido. Trava então o seguinte diálogo com Clarice:

J.C. "— Por que você escreve?

C.L. "— Vou lhe responder com outra pergunta: — Por que você bebe água?"

J.C. "— Por que bebo água? Porque tenho sede."

C.L. "— Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva."

http://www.releituras.com/clispector_bio.asp

“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”



"... eu só escrevo quando eu quero, eu sou uma amadora e faço questão de continuar a ser amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então em relação ao outro. Agora, eu faço questão de não ser profissional, para manter minha liberdade."



Uma muito jovem Clarice Lispector:

«(...) o baton escurecido em mancha velha de sangue, o rosto esbranquiçado sob os cabelos...(...)» in Perto do Coração Selvagem

17 novembro 2012

CLARICE EM LISBOA

 
Veronica Lake (1922-1973), actriz de Hollywood

"Imaginem que os portugueses, quando eu passo, dizem: B'ronica Lake (Verônica Lake)... Sair do Brasil para ouvir isso..."

De uma carta de Clarice Lispector - com data de Lisboa, 7 de Agosto de 1944 - para as irmãs Elisa e Tânia (Minhas Queridas, Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1977, p. 41).

16 novembro 2012

OUTROS CAMINHOS

Um dinâmico sector da nossa Comunidade, ontem, na Casa da Horta (Biblioteca Municipal de Cascais), após uma sessão de leitores à volta de “Werther” de Johann Wolfgang von GOETHE.

04 novembro 2012

50 LIVROS bis

50 livros! Ainda me faltam uns quantos, mas vou fazendo pela vida... Algures por aí com um sumo de uva e as Confissões do bispo de Hipona.

27 outubro 2012

"Perto do coração selvagem" de Clarice Lispector, 30 de Novembro às 21 Horas


Esta é a capa do livro que li em 1983.
Será o mesmo livro que me acompanhará na próxima sessão de leitores.

"Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida."
James Joyce



AINDA JORGE AMADO

"Jantar organizado no restaurante do aeroporto de Lisboa, em Janeiro de 1953. Podem ver-se, da esquerda para a direita, o editor Francisco Lyon de Castro, Mário Dionísio (semiencoberto), Alves Redol, Maria Lamas, Jorge Amado, Ferreira de Castro, Carlos Oliveira, José Cardoso Pires, João José Cochofel, Fernando Piteira Santos e Roberto Nobre. Ao fundo, em último plano, à esquerda, vê-se o inspector da PIDE Rosa Casaco (mais tarde envolvido no assassinato do general Humberto Delgado). Todos os outros elementos que se vêem ao fundo, à direita, e os que estão em primeiro plano, de frente, eram também agentes da polícia política."
ÁLVARO SALEMA, Jorge Amado, o Homem e a Obra, Presença em Portugal, Publicações Europa-América, 1982, p. 48.

26 outubro 2012

A fechar


“… E pela madrugada, quando as sombras ainda envolviam os campos húmidos de orvalho, e no ar se elevava a quele cheiro poderoso de terra, Nenén partiu para a caatinga pelo mesmo caminho seguido um dia por Jerónimo e sua família. Os brotos de dor e de revolta cresciam naquela seara vermelha de sangue e fome, era chegado o tempo da colheita.

Final de “Seara Vermelha” de Jorge Amado.
* As fitinhas têm impressos nomes de personagens criados por Jorge Amado nos seus vários romances.

24 outubro 2012

Os caminhos da fome

“Os Retirantes” - Portinari, 1944
 “…E através da caatinga, cortando-a de todos os lados, viaja uma inumerável multidão de camponeses. São homens jogados fora da terra pelo latifúndio e pela seca, expulsos de suas casas, sem trabalho nas fazendas, que descem em busca de São paulo, Eldorado daquelas imaginações. Vêm de todas as partes do Nordeste, na viagem de espantos, cortam a caatinga abrindo passo pelos espinhos, vencendo as cobras traiçoeiras, vencendo a sede e a fome, os pés descalços nas alpergatas de couro, as mãos rasgadas, os rostos feridos, os corações em desespero. São milhares e milhares se sucedendo sem parar…”

 
In “Seara Vermelha” de Jorge Amado (Livro primeiro, Os caminhos da Fome, A caatinga)

21 outubro 2012

PLANO DE LEITURAS PARA 2013

Pintura de DANIEL F. GERHARTZ (n. 1965)
 
1º trimestre – Românticos e não só
25 Janeiro – Uma Família Inglesa de Júlio Dinis
22 Fevereiro – Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett 
22 Março – A Tempestade de Ferreira de Castro
2º trimestre – Outras leituras
26 Abril – Satiricon de Petrónio
31 Maio – Predadores de Pepetela
28 Junho – A Arte de Amar de Ovídio
3º trimestre – Literatura estrangeira
26 Julho – Sputnik, Meu Amor de Haruki Murakami
30 Agosto – A Metamorfose de Franz Kafka
27 Setembro – O Estrangeiro de Albert Camus
4º trimestre – Contemporâneos portugueses
25 Outubro – Nenhum Olhar de José Luís Peixoto
29 Novembro – História do Cerco de Lisboa de José Saramago
27 Dezembro – O Retorno de Dulce Maria Cardoso

04 outubro 2012

"Seara Vermelha" de Jorge Amado, 26 de Outubro às 21h00



“Lá vem Lucas Arvoredo
Armado com seu fuzil.
O sertão treme de medo,
Já matou pra mais de mil...

Lá vem Lucas Arvoredo
Armado com seu fuzil...
Menina, não tenha medo,
Meu apelido é gentil...
…”

Assim canta Bastião, em noite de festa, os feitos de Lucas Arvoredo, em “Seara Vermelha” de Jorge Amado

26 setembro 2012

"ERASMO DE ROTERDÃO"

Não sou grande leitor de biografias, mas ando interessado nesta: Erasmo de Roterdão, de Stefan Zweig, tradução de Alice Ogando. Uma honesta edição de 1943 da Livraria Civilização-Editora.

20 setembro 2012

NOVO LIVRO DE MÁRIO DE CARVALHO

O Varandim, seguido de Ocaso em Carvangel, hoje apresentado na FNAC do Chiado. A matéria destas novelas tem que se lhe diga, assim o deu a entender António Mega Ferreira. Os nossos leitores, claro, estavam lá. A literatura não dá dinheiro, não trabalha para a redução do défice, mas mesmo assim a sala estava cheia. Só dos nossos éramos oito: aí  estão, na fotografia, duas leitoras que se deixaram apanhar.

15 setembro 2012

12 setembro 2012

ERASMO e DAMIÃO DE GÓIS

Damião de Góis (1502-1574), retrato a carvão por A. Dürer
 
" Leitor assíduo de Erasmo, Damião de Góis fez a sua aprendizagem do erasmismo directamente com o mestre. A posição privilegiada que ocupava no Norte da Europa, a sua inteligência e, segundo o próprio Erasmo, a sua simpatia, fizeram com que tivesse um contacto muito regular com o grande humanista e acabasse por consolidar uma amizade que lhe permitiu viver hospedado em sua casa por alguns meses. Erasmo mostrará com Damião de Góis sempre deferência; seja ao procurar que ele aprofunde os seus estudos de latim, seja ao aconselhar-lhe comedimento nas relações com o mundo reformado alemão. Góis será fiel a essa amizade em toda a sua vida. Logo depois de morrer o seu mentor humanista, fazendo uso do poder económico, Damião de Góis admitirá e interessar-se-á pela impressão da obra completa de Erasmo o que acabou por não conseguir. Mais tarde, perante os inquisidores, não desdirá das suas ideias e amizades e terá de defender-se pelos contactos que mantivera com Erasmo e com os reformadores, perigo que, no passado, Erasmo lhe antevira."
António Camões Gouveia, Sociedade e Cultura Portuguesas 2, Universidade Aberta.

05 setembro 2012

Elogio da Loucura, de Erasmo, sexta feira, 28 de setembro, às 21H


"O mundo é um palco e a vida um jogo de som e de fúria, representado por um louco"...eis a metáfora utilizada no início da Introdução deste livro, de Desidério Erasmo, objecto de análise na próxima sessão; nós ainda no caminho dos clássicos.

Deixo outra ideia: " A pior das loucuras é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de doidos"

Leitores de todos os livros, analisai-vos!

04 setembro 2012

AVISO À NAVEGAÇÃO

Quem for aos domingos para os lados de Belém, ali nos jardins quase fronteiros aos Jerónimos, tenha cuidado que pode topar com uma feira de velharias, livros, etc. e com exemplares preciosos como estes que lá adquiri a um preço tão baratinho, tão baratinho que até tenho vergonha de dizer. Este exemplar de Uma Gota de Sangue, 1º volume do ciclo romanesco A Velha Casa, de José Régio, é da 1ª edição de 1945.