24 junho 2013

Camões e os Desgovernos do Mundo


Camões, sempre actual foi a conclusão que chegámos, no rescaldo da última parte da nossa maratona de leitura, nos gentis espaços verdejantes da quinta de recreio do Marquês de Pombal em Oeiras

«Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse/
A quem ao bem comum e do seu Rei/
Antepuser o seu próprio interesse,
Imigo da divina e humana Lei./
Nenhum ambicioso que quisesse/
Subir a grandes cargos, cantarei,/
Só por poder com torpes exercícios/
Usar mais largamente de seus vícios;

Nenhum que use de seu poder bastante/
Para servir a seu desejo feio,/
E que, por comprazer ao vulgo errante,/                            
Se muda em mais figuras que Proteio./
Nem, Camenas, também cuidais que cante/
Quem, com hábito honesto e grave, veio,/
Por contentar o Rei, no ofício novo,/
A despir e roubar o pobre povo!

Nem quem acha que é justo e que é direito/
Guardar-se a lei do Rei severamente,/
E não acha que é justo e bom respeito/
Que se pague o suor da servil gente;/
Nem quem sempre, com pouco experto peito,/
Razões aprende, e cuida que é prudente,/
Para taxar, com mão rapace e escassa,/
Os trabalhos alheios que não passa.»
 (Canto VII, 84-86)

Luís de Camões, Os Lusíadas, Imprensa Nacional, 1971

Díone aos ombros de um Tritão- Columbano Bordalo Pinheiro (Canto II, 21)



Visita do rei de Melinde, Fragonard (Canto II)


Episódio de Inês de Castro, Columbano Bordalo Pinheiro (Canto III, 130)

O Adamastor, Lima de Freitas (Canto V, 39)

A Ilha dos Amores, Malhoa (Canto IX)

Ninfas e Tritões, Carlos Reis (Canto X,143)


23 junho 2013

ENTRE A ESPIGA E A MÃO ERGUE-SE UM MURO

Pepetela (1941)
 
Conheço Nacib e Mireille – a mão e a espiga – por entre o namoro às hortênsias e o curso lento da tarde. Predadores, terminei os capítulos iniciais de Setembro de 1992, lembrando-me de um verso lido ontem: Tra la spiga e la man qual muro è messo. Não, não foi em Petrarca, foi  Os Lusíadas de Camões (IX, 78).

20 junho 2013

MELROS


Desde o poema de Guerra Junqueiro que não via um melro tão bonito.

O MELRO


          O melro, eu conheci-o: 
Era negro, vibrante, luzidio, 
          Madrugador, jovial; 
          Logo de manhã cedo 
Começava a soltar, dentre o arvoredo, 
Verdadeiras risadas de cristal. 
E assim que o padre-cura abria a porta 
          Que dá para o passal, 
Repicando umas finas ironias, 
          O melro; dentre a horta, 
          Dizia-lhe: "Bons dias!" 
          E o velho padre-cura 
não gostava daquelas cortesias. 
(...)

 

19 junho 2013

OH! POMAR VENTUROSO!

Um nosso querido leitor em franca camaradagem com Luís de Camões. Em Constância, com as Tágides por perto, aos dez dias de Maio do ano da graça de dois mil e treze.

18 junho 2013

A PRISÃO DE GOA E O INJUSTO MANDO

Camões na prisão de Goa em 1556, segundo pintura anónima de que já se disse ser um auto-retrato.  Episódio não totalmente esclarecido da sua vida, não foi a última vez que sofreu perseguição e castigo judicial. Retornando sob prisão de Macau, cerca de 1565, acusado de crimes que hoje denominaríamos de “colarinho branco”, naufraga na foz do rio Mecom, Camboja.

Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço o Canto que molhado
Vem do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baxos escapado,
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado
Naquele cuja Lira sonorosa
Será mais afamada que ditosa.

X, 128

16 junho 2013

AÇORES, A PROPÓSITO DE CAMÕES...







O CAMÕES LÍRICO


Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade,
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se de uma outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas,
Se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio

E dar descanso às almas condenadas.

In Camões, L. (1971 [1560?]) Poesia Lírica (Livros RTP, Verbo, Lisboa), p. 85

Vem este soneto a propósito de algumas coisas, mas sobretudo para assinalar um certo estado de espírito sequente àquela nossa maratona, palavra que assinala um certo esforço... o que, realmente, não aconteceu, conforme já referido. O que me aconteceu, entre outras emoções, foi apetecer-me o Camões que em nenhuma etapa  havia rejeitado e que vivia no meu mais íntimo, em palavras maravilhosas, que se balbuciam ao ritmo do coração. Não serão muitos, os sonetos, mas enchem-nos a alma, talvez porque se trata da Alma Universal?. 

14 junho 2013

Os Deuses no Olimpo e os Leitores na Biblioteca

 
 
 
 
Fotos da Dulce e minhas, com reportagem completa da Dulce no FB
"...
Sustentava contra ele Vénus bela
Afeiçoada à gente lusitana
Por quantas qualidades via nela
Da antiga, tão amada, sua romana
Nos fortes corações, na grande estrela
Que mostraram na terra tingitana
E na língua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupção crê latina. ..."
(I, 33)

Uma maratona que na realidade pareceu uma corrida de 100 metros, tão depressa o dia passou. O tempo foi curto para tanto que havia a explorar. Foi uma sessão intensa e rica, certamente por Vénus protegida.

"...
Desta arte se esclarece o entendimento
Que experiências fazem repousando
E fica vendo, como de alto assento
O baixo trato humano embaraçado
Este, onde tiver força o regimento
Direito, e não de afeitos ocupado,
Subirá (como deve) a ilustre mando,
Contra vontade sua, e não rogando"
(VI, 99)

Ficando no ar a sensação de obra inacabada, logo ali se gerou burburinho e reboliço para nova data agendar. Atentai leitores, que a obra continua:

"...

Já se viam chegados junto à terra
Que desejada já de tantos fora, 
Que entre as correntes indicas se encerra
E o Ganges, que no céu terreno mora.
Ora sus, gente forte, que na guerra
Quereis levar a palma vencedora!
Já sois chegado, já tendes diante
Aterra de riquezas abundante!
(VII, 1)

Para breve, a continuação...

13 de Junho, Maratona de Leitura "Os Lusíadas" de Luís de Camões.

O obrigado da nossa Comunidade de Leitores à Biblioteca Municipal de Sintra

11 junho 2013

AI, MARGARIDA


 
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

(Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.)

09 junho 2013

MARATONA DE LEITURA

Isto diz-nos respeito, olá se diz, depois do arraial de Santo António e das quadras sobre Fernando António Pessoa em São Domingos de Rana. Na romântica Sintra, cantada por Camões:
 
Já a vista, pouco a pouco, se desterra
Daqueles pátrios montes, que ficavam;
Ficava o caro Tejo e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam.
(...) 
 
Os Lusíadas, V, 3

07 junho 2013

COMUNIDADE DE LEITORES

Comunidade de leitores impulsionada pela nossa colega DULCE TEIXEIRA. Arranca amanhã, pela manhã, como sempre acontece com as coisas boas.

06 junho 2013

SOBRE PEPETELA

Excerto de um texto inédito deste escriba, feito há cerca de quatro anos já não se lembra bem com que objectivo, mas certamente como uma espécie de folha de bordo nas suas navegações pelos mares das letras. :)  Pequeno contributo para a compreensão de Pepetela, autor do mês na nossa Comunidade.

PEPETELA  E A CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO[1]
                                                                           

            No nº 2 de 1962 do boletim Mensagem[2], órgão da Casa dos Estudantes do Império (CEI), era publicado com a assinatura de Artur C. Pestana um pequeno conto daquele que ficaria conhecido na literatura angolana pelo pseudónimo de Pepetela. O jovem estudante tinha então vinte anos de idade e a narrativa, com o título “Velho João”, era encimada por uma dedicatória aparentemente ingénua: “A todos os que choraram a morte do Velho João, pedinte de profissão”.
Artur Pestana é citado nos dois primeiros números de 1962 do boletim da CEI como fazendo parte do seu corpo de colaboradores. Porém, no nº 3 de 1962 (Agosto), já nenhuma referência lhe é feita na ficha técnica do boletim, a qual se limita a reproduzir o nome do director e do autor das ilustrações, sendo provável que por essa altura já o promitente escritor tivesse saído de Portugal, por caminhos que o levaram a Paris e a Argel, para integrar, a partir do final da década, a frente da guerrilha que lutava pela independência de Angola. Ainda assim, no nº 4 do mesmo ano (mês de Novembro), o seu nome surge no discurso de Orlando da Costa na proclamação dos vencedores do Concurso Literário da CEI. Aí se alude ao conto “A Revelação”, distinguido com uma menção honrosa, como conto excelente, que Urbano Tavares Rodrigues classificou de pequena obra-prima[3]. No mesmo número publica-se a acta do júri, constituído, além de Orlando da Costa e Urbano Tavares Rodrigues, por Lília da Fonseca, Noémia de Sousa e Carlos Ervedosa.
            Estes dois contos da juvenília de Pepetela – “Velho João”, publicado na Mensagem[4] e “A Revelação”[5], que hoje se inclui na colectânea Contos de Morte –, expõem dois quadros típicos de injustiças infligidas pelo sistema colonial aos filhos da terra. São contos da opressão.

(…)


[1] A Casa dos Estudantes do Império foi uma associação juvenil que no período de 1944 a 1965, com o apoio do Estado Português, agrupava os jovens “ultramarinos” que estudavam na “Metrópole”. Além da prestação de serviços de cantina e assistência médica, a CEI dispunha de uma biblioteca, organizava bailes, promovia conferências e exposições de pintura, proporcionando a integração desses jovens num meio que lhes era estranho e, a partir de 1961, até hostil. Como muitas das estruturas associativas de então, foi aproveitada pelos associados para a realização de trabalho político. No boletim da CEI publicaram-se textos dos angolanos Agostinho Neto, Luandino Vieira, Arnaldo Santos, António Jacinto, Alda Lara, Viriato Cruz , Mário António, Alexandre Dáskalos, Mário Pinto de Andrade e outros.
[2] A consulta do boletim da CEI fez-se em MENSAGEM – Casa dos Estudantes do Império, 2 volumes, Lisboa, ALAC, 1996.
[3] Obra citada, p. 61 do boletim  nº 4 de 1962.
[4] Idem, pp. 28-31 do boletim nº 2 de 1962.
[5] Pepetela, Contos de Morte, Lisboa, Edições Nelson de Matos, 2008, pp. 17-32. Este conto foi inicialmente publicado em “Poetas e Contistas Africanos”, São Paulo, 1963.

05 junho 2013

"Predadores" de Pepetela - 28 de Junho às 21h00

 
"Caposso não abriu a boca de assombro, mas admirado ficou. Muitos Portugueses e Angolanos tinham começado a abandonar o país desde o ano passado, quando reconheceram a inevitabilidade da independência. Achavam que o país era deles, se babavam todos com as riquezas reais ou supostas de Angola, a terra do futuro, mas se fossem eles a mandar, não com negros no poder. E a guerra que estoirou entre os moviemntos de libertação aumentou o pânico e as filas de embarque. O aeroporto de Luanda tinha virado um hotel de três estrelas negativas, centenas de pessoas dormindo pelo chão dias a fio, à espera dos aviões da ponte aérea, o lixo se acumulando e as paredes enegrecendo de sujo. A terra estava de facto a ferro e fogo..."

31 maio 2013

A Arte de Amar: Engenho e Sedução IV

Módulo 3- Conselhos ao «belo sexo»



Caras formandas é a vós que se dirige este último módulo da nossa formação. O formador foi generoso e equitativo: «Não era justo que vos medísseis sem defesa com inimigos armados; e também para vós, homens, seria vergonhoso vencer nessas condições.» Assim: «Dei armas aos Gregos contra as Amazonas; falta-me agora, Pantasileia [rainha das Amazonas], dar-te também armas, a ti e aos teus esquadrões
Incorporemos, pois, estes «exércitos» da arte amorosa, que «no amor e na guerra...».

Mas é necessário, primeiramente, uma justificação: ora, nem todas as mulheres são levianas, fúteis ou infiéis. A virtude ajusta-se-lhes. Contudo esta formação não se dirige a virtuosas:« (...) não é a espíritos semelhantes que me pedem que dirija o meu tratado; à minha barca convêm mais pequenas velas. Nada mais ensino que os amores levianos. Vou ensinar às mulheres o que devem fazer para ser amadas.» E neste campo esqueçamos moral e família. Estamos na esfera de Vénus.

O tema impõe-se: a outra metade da humanidade não deve ficar em desvantagem nestas práticas, pois,«A mulher não sabe afastar as chamas e os arcos cruéis; verifico que as flechas são menos prejudiciais aos homens. Os homens enganam muitas vezes, as mulheres, sexo frágil, poucas vezes e, procurando, bem poucas perfídias há a censurar-lhes.», justificando-se a inflexão no percurso formativo e o novo público-alvo.

Primeiro conselho: embarcai nos doces amores, «(...) colhei a flor, porque se ela não for colhida, murchará e cairá por si mesma.(...) Segui, mortais , o exemplo das deusas, não negueis aos homens, que vos desejam, as vossas alegrias.», largando os medos na brisa que impulsiona a «barca» do autor.



E passemos da teoria à prática:

«Começo pelos cuidados pessoais: são as vinhas cuidadas que dão vinho com abundância(...)»: Roma é uma sociedade cosmopolita e sofisticada, a capital do Império. As suas cidadãs devem fazer-lhe justiça: a época dos rústicos antepassados passou; o «look » impõe-se. Mas sem exageros. O bom gosto deve imperar. O cabelo é assunto de grande importância e  um trunfo feminino: penteados, pinturas, cabeleiras,  nada escapa à  proficiência do nosso formador.
A seguir o guarda-roupa: se cada penteado se deve adequar a uma fisionomia, cada cor e modelo devem ajustar-se a uma compleição e porte.
Seguem-se conselhos de higiene e beleza, que se iniciam desta forma: «Estive quase a advertir-vos de que o forte odor a bode não deve habitar vossas axilas e que as pernas não devem ser eriçadas de rudes pêlos.» (E advertiu!) Mas, há que levar em conta que «o segredo é a alma do negócio». As formas de embelezar devem ser um mistério para os homens. Estes só contemplarão a «obra acabada». Nenhuma «bela» se deve deixar apanhar no toucador ou de cabeleira ao contrário. E muita atenção: esconder sempre as imperfeições porque é uma verdade universal de que «não há bela sem senão».



Quanto ao comportamento:
Cuidar do modo de rir, de falar, de andar e o autor desdobra-se em «dicas», sublinhando a importância destes artifícios, e, eficaz e comprovado, «(...) deixai a descoberto, no lado esquerdo, a extremidade da espádua e o alto do braço. Fica particularmente bem a uma pele branca como a neve: quando vejo isto, dá-me vontade de cobrir de beijos toda a superfície descoberta
Convém também conseguir emitir algumas notas, dedilhando um instrumento musical, conhecer alguma poesia; praticar a arte da dança e ser proficiente nos jogos de salão é um «must» ( mas nada de envolvimentos na paixão do desafio.Perder a compostura é deselegante).

Depois da «obra acabada» deve ser exibida em público: «A multidão é útil para vós, mulheres formosas. Orienta com frequência os vossos passos errantes para fora das vossas casas(...) [ali] encontrará alguém que seduzirá.» É que « O acaso desempenha por toda a parte o seu papel; deixa sempre o anzol na água onde julgares que há menos peixe; ele morderá.» Isto aplica-se a todas as ocasiões: « Muitas vezes nos funerais de um homem encontra-se um amigo. Marchar com os cabelos soltos e dar livre curso às suas lágrimas fica bem a uma mulher.»







Claro que há perigos pelo caminho: evitar homens demasiados licenciosos e «Não vos deixeis seduzir pelo cabelos muito brilhantes da essência de nardo ou pela correia do calçado disposta com cuidado, nem enganar pela toga do mais fino tecido(...)»: pode cobrir um tratante. É fundamental fazer uma análise textual às cartas de amor, responder com «timing» e propriedade e encobrir qualquer vestígio, para não cair nas mãos de Julianas deste mundo e de maridos aviltados. Por exemplo: «(...) não é prudente responder sobre as mesmas tabuinhas antes de ter raspado bem a cera, de modo que não guarde traço de uma dupla escrita.»

Quanto à expressão, a mulher quer-se serena: nada de cóleras que desfiguram, nada de  semblantes arrogantes, fechados ou tristes: «Olha aquele que te olha. A um sorriso responde com a cabeça, aceita esse sinal.»

Depois, importa escolher bem o género de homem que se quer, de acordo com o que ele poderá dar ( ou ponderar o investimento); é evidente que o formador é parcial e pede especial favor para os poetas, mas adverte que eles não trazem consigo benesses financeiras. Também um homem experimentado vale mais do que o arrebatado jovem:« (...) o velho soldado amará pouco a pouco e com sabedoria; suportará muitas coisas que um recruta não suportaria.» É uma colheita para guardar e não para consumir apressadamente.

Para manter acesa a chama,  aconselha-se a parcimónia, a alternância entre a recusa e a dádiva, espicaçar a rivalidade, uma pitada de ciúme ( nosso formador confessa que gosta de competição) e outra de adrenalina, pois « Um prazer sem perigo é um prazer menos vivo. (...) mesmo que seja mais fácil fazer entrar o teu amigo pela porta, fá-lo entrar pela janela e que o teu rosto exprima temor.» De facto, «Não suportamos o que é doce; uma beberragem amarga desperta o nosso apetite. Muitas vezes uma barca é voltada e afundada por ventos favoráveis .Eis a razão que impede as mulheres legítimas de serem amadas; é que os seus maridos vêem-nas quando querem.» Uma porta fechada faz maravilhas!

Problemas de mobilidade não há: Roma é um meio mundano com muitos espaços sociais e habilidades para iludir vigilâncias, comprar cumplicidades, adormecer carcereiros. Contudo, as amigas nunca são de confiar porque tendem a ocupar um espaço que não era suposto.
Acima de tudo  o amante deve sentir-se amado, com uma porção calculada de ciúme, mas sem se deixar conduzir pelas suspeitas de Brisas inexistentes como Procris, a suspeitosa esposa de Céfalo.

Finalmente, entradas deslumbrantes nos festins e boas maneiras no «triclinium».
 Sobre o leito, corro discretamente as cortinas, pois o nosso formador, como bom romano, não gosta de luz directa, e remeto-as para obras de referência na área.Ou improvisem, usem a experiência de vida, mas de preferência divirtam-se, valorizando sempre os vossos atributos, sejam eles quais forem.



Chegamos assim ao término da nossa formação. O  formador entregou as armas ao inimigo feminino, muito antes dos anos 60 do século XX as tomar em mão, e promoveu a igualdade de género, advertindo: « Deixai a partir de hoje os gládios embotados, combatei com armas afiadas.» 
Desce do carro de Vénus e exorta-nos a celebrá-lo. No fundo quer é saber o resultado do questionário da praxe sobre a qualidade da formação e do formador. E a sua utilidade...Isso discutiremos em breve, talvez contrapondo as hostes em confronto neste jogo de caça ( onde nós somos a requintada espécie cinegética!!!) e guerra que é a arte de amar. Mas será amor?

Ovídio, A Arte de Amar, Lisboa, editorial Presença, 1972, pp. 101,102,104, 105,110,120,121,122,124,125,128,129

28 maio 2013

A Comunidade na Biblioteca da Horta


Poster do encontro exibido no átrio da Biblioteca

No dia 24 de Maio e a convite do Director Luís Manuel Pita São Bento, fomos gentilmente recebidos na Biblioteca Pública e Arquivo Regional "João José da Graça", na Horta. O encontro das Comunidades de Leitores da Horta e de São Domingos de Rana  / Cascais, decorreu em torno do "Mau tempo no Canal" de Vitorino Nemésio. 
Deixo o repto ao nosso Coordenador MN para nos fazer a síntese da excelente sessão e à nossa paparazzi MA para publicar as fotos disponíveis.

26 maio 2013

A Arte de Amar: Engenho e Sedução III

MÓDULO 2-  Da conservação do amor

Ora, continuando o nosso plano formativo: «Não é necessário menos talento para manter as conquistas do que para as realizar: na conquista colabora o acaso; a conservação será obra da minha arte
Mas atenção, a empresa não é fácil como afirma o nosso formador:
«Medito numa grande empresa: mostrar por que artes se pode fixar o amor, esse menino que esvoaça pelo vasto universo. É rápido e tem duas asas que lhe permitem escapar-se e a quem é difícil regular os movimentos.».
Assim falharam as tentativas de Minos para reterem Dédalo e Ícaro, embora as asas destes também não tenham sido um dispositivo 100% seguro...


Para começar, nada de filtros e mistelas: são inoperantes e «(...) perturbam o espírito e engendram a loucura.».
A amabilidade é indispensável, pois o«look», «per si», não basta; há que cultivar o espírito, já que a beleza é levada pelo tempo como as ondas de Calipso levaram as construções na areia de Ulisses.
Palavras sempre encantadoras, especialmente para o amante desprovido de meios que compensem ofensas; nada de desfazer os cabelos ou rasgar a túnica do objecto amado (como afirma ter feito o nosso formador): «A guerra contra os Partos [e para os casais]; para a vossa amiga, a paz , a graça e tudo o que pode excitar o amor

Tudo suportar com uma perseverança heróica e ser infinitamente concordante e indulgente.
Vencer todos os obstáculos, correr perigos. É que « O amor é uma espécie de serviço militar. Afastai-vos indolentes; não são pessoas pusilânimes que devem guardar estandartes
Convém obter a boa vontade dos escravos; através dos «pequenos» acede-se ao que se deseja.

Presentear, mas obedecendo a um «plafond»; nada de extravagâncias. Prendas «(...) modestas, mas escolhidas com gosto.»: umas frutinhas, umas flores, talvez uns versos e a crença na sua superior influência. Acima de tudo, nada de críticas: tudo é belo e lhe fica bem, e muita dedicação e solicitude face a uma constipaçãozinha, a uma indisposição, mas sem exageros ou corre-se o risco de irritar a «bela».



Como o amor também se ancora no hábito, tornemo-nos «habituais», presença temperada, aqui e ali, com uma ausência tonificadora, mas breve pois « (...) com o tempo diminuem as saudades, o ausente deixa de existir, um novo amor se desenha.» Vejam a sina de Menelau, que assim perdeu Helena para Páris, hóspede de um anfitrião ausente.

Não é necessário ser-se fiel, mas sim discreto, pois uma mulher com ciúmes é uma potencial «arma  nuclear» e tende a vingar-se... Se as infidelidades forem descobertas, é muito simples:«Não sejas mais submisso nem mais acariciante do que habitualmente: são claros sinais de um coração culpado. Mas não poupes os rins(...)» e para que estes aguentem o esforço, nada melhor que uma cebola branca de Mégara, ovos, mel de Himeto ou pinhões.
Noutros casos, pois « Não é sempre o mesmo vento que permite à nave curva transportar os seus passageiros, porque, na nossa corrida, é tanto o Bóreas (...) como o Euro que nos impelem. As nossas velas são muitas vezes inchadas por Zéfiro, outras vezes pelo Nuto.», nada como suscitar o ciúme para espevitar o lume da paixão e «(...) assinar no leito um tratado de paz.» Isto faz parte da antiga  ordem natural do mundo: «Age portanto para acalmar a cólera da tua amante, emprega estes remédios enérgicos.»

Para ser bem sucedido é necessário seguir o lema de Apolo: conhecer-se e aproveitar os  pontos fortes. Que todo o processo não está isento de desgostos! Há tristezas a suportar, rivais a enfrentar e não valem a aflição as violentas  cenas violentas de ciúmes (nada se ganha e perde-se a amada, como Vulcano perdeu Vénus para Marte). Essas indignações ficam para os maridos.


Finalizamos com os conselhos de discrição absoluta: sigilo e decoro furtivo; aceitar os defeitos físicos da amada, ainda que tenha os pés grandes, seja vesga, seja cheiinha, ou um «palito»; esquecer a questão da idade. É que esta pode ser uma mais valia: « Não esqueçais que nesta idade as mulheres são mais sabedoras na matéria; possuem a experiência que faz os artistas.» As artes do prazer «(...) não os deu a natureza à primeira juventude; geralmente só se encontram depois do sétimo lustro[lá para os 35 anos]. Que as pessoas apressadas bebam vinho novo; para mim que uma ânfora cheia (...) me derrame um vinho feito pelos nossos antepassados.» Acertada analogia com um vinho de qualidade!

Ainda mais um tópico: prática nas coisas do amor. Já séculos antes do sisudo relatório Kinsey e das pesquisas muito científicas de Masters e Johnson, o nosso Ovídio põe tudo «preto no branco».


Acabam aqui os módulos dirigidos aos cavalheiros: impõem-se o reconhecimento ao esforçado formador:
«Homem, celebrai o vosso poeta (...). Forneci-vos armas (...), que os meus presentes vos dêem a vitória (...). Mas que todos aqueles que, graças ao gládio de mim recebido, triunfarem de uma Amazona, inscrevam nos seus troféus: Ovídio era o meu mestre».

O próximo e último módulo: destinatárias « (...) eis que as ternas donzelas me pedem conselhos. Sereis o primeiro objecto de que se vão ocupar os meus versos.» A ver/ouvir/ler vamos.

Ovídio, A Arte de Amar, LX, Editorial Presença, 1972, pp. 62, 66, 70, 73, 74, 79, 81, 82, 84, 85, 94, 95, 97 (por motivos alheios à minha vontade tive de mudar de edição :(  )

21 maio 2013

Bom Tempo no Canal

Para quem está já em preparativos para o Faial e o Pico, com o seu Nemésio debaixo do braço, aqui fica um aperitivo. Que tenham muito bom tempo no canal...

















"MULHER DE PORTO PIM"

O "spleen subtil" das ilhas convertido em tragédia.

18 maio 2013

MARATONA DE LEITURA

Hoje, Dia Internacional dos Museus, no Museu Ferreira de Castro, em Sintra, com participação activa dos nossos leitores. --- "Emigrantes", do grande romancista de Ossela.

15 maio 2013

Arte de Amar- Engenho e Sedução II

Módulo 1- A Sedução

Para começar, os objectivos do nosso percurso formativo são perfeitamente  passíveis de serem atingidos, como adverte o nosso excelso formador:

«Antes de mais, tem confiança no teu coração de que todas podem ser conquistadas;(...) basta que estendas as redes. Mais depressa, na Primavera, se hão-de calar os pardais,e, no Verão, as cigarras (...) do que resistirá a mulher ao jovem que com doçura a quer namorar.»

Portanto, uma atitude optimista impõe-se: todas estão dispostas e são alcançáveis. Mas cuidado, pois as paixões femininas podem ser violentas e irracionais :«(...) é mais intensa que a nossa e possuí fúria bem maior.». Veja-se o caso de Pasífae e o Minotauro (há gostos para tudo).



Metodologia a seguir:
A) Seduzir a criada, sempre tão íntima da ama, mas atenção : «Se ela (...) te for aprazível pelo corpo e não apenas pelo zelo [com que leva e traz as tabuinhas com os escritos amorosos], trata de possuir, primeiro, a senhora; ela seguir-se-á, depois, em sua companhia(...)»;

B) Escolher bem a ocasião: o tempo certo é de grande importância  para que o sedutor não incorra em gastos inconvenientes, sendo que em matéria de presentes as mulheres são mercenárias inexcedíveis ;

C) É preferível  cultivar as belas letras e enviar cartas/tábuas de amor: «Siga, portanto, a carta e leve inscrita palavras de ternura e toque fundo no coração e comece por desbravar caminho.» , mesmo que as esperanças que desvelam sejam enganadoras:« Trata de fazer promessas; pois que mal pode vir de prometer? Em promessas qualquer um pode ser rico.». Mas nada de retórica enfadonha: «Usa linguagem credível e palavras comuns, embora delicadas, por forma a parecer que estás ali a falar , em pessoa.» E persistência!



Outros aspectos da estratégia: estar sempre presente; cuidado com a aparência (nada de exageros efeminados pois «Uma beleza desarranjada é o que fica bem aos homens.»); o convívio gastronómico regado a vinho; a lisonja à beleza feminina, à qual nenhuma é imune; juras falsas, que muitas merecem; choro  («(...) se as lágrimas não aparecerem, pois nem sempre surgem no tempo certo, esfrega os olhos com as mãos molhadas.»); uso de força q.b., pois elas gostam; pro-actividade  temperada com retiradas estratégicas, perante casos mais difíceis; um certo tom de palidez que dá crédito à paixão.

Atenção- a concorrência está  perto: « Não é seguro gabares a um amigo o objecto dos teus amores; quando acredita em ti, que tanto gabas, ele próprio te passa a perna.».

É ainda necessário ser maleável pois « (...) são variados os corações das mulheres; mil corações, tens de apanhá-los de mil maneiras.(...) Aqui, apanham-se os peixes com tarrafa, ali com anzol, acolá as redes fundas os arrastam puxadas por cordas retesadas. E não te convém uma técnica, apenas, para todas as idades; de mais longe se apercebe da armadilha a corça velha, se te dás ares de sábio ao pé de uma ignorante ou de atiradiço ao pé de uma reservada, logo ela desconfia  de que estás a humilhá-la.»

Há, por conseguinte, o seu teor de dificuldade; é uma arte, como outra qualquer, como a metáfora piscatória ilustra certeiramente.

Seguindo estes passos e sendo eles bem sucedidos, «(...) é tempo de lançar âncora e fundear o meu navio.»

Avançaremos pois para um novo módulo: se alcançar o amor exige técnica e arte e considerável esforço, como conservá-lo, que âncora o prenderá?



Ovídio, Arte de Amar, Lisboa,Livros Cotovia, 2006, pp.37,39,41,43,45, 49,52 e 53

09 maio 2013

Arte de Amar- Engenho e Sedução

A preocupação com a pedagogia ou com o aguçar de técnicas e competências sempre existiu.Senão, sigamos Ovídio:

« Se alguém das nossas gentes não conhece a arte de amar, leia este canto; e, depois de o ter lido, entregue-se, com sabedoria, ao amor. É a arte e as velas e os remos que fazem mover as naus, é a arte que faz mover, ligeira, a quadriga. É a arte que deve reger o Amor.(...). Não vou mentir-te, ó Febo, e dizer que foi por ti que tais artes me foram dadas; nem sou inspirado pelo canto das aves que voam no ar(...) é a experiência que estimula este canto; prestai atenção a um poeta experimentado. É verdade o que canto!»

Conhecimento validado pela experiência, pois! Temos formador!

Planificação da Formação:

«Antes de mais, o que quiseres amar, trata de procurá-lo(...) logo depois, hás-de empenhar-te em fazer ceder aquela que te agradou; em terceiro lugar, farás por que dure longo tempo o amor. Estas são as fronteiras; esta é a pista que há-de assinalar a minha quadriga(...)»

Mosaico- Mérida

 Módulo Introdutório-Locais de «Caça»:

Fóruns e pórticos; o circo; cortejos;banquetes (mas cuidado com a iluminação enganadora); outros lugares:

«E os ajuntamentos de mulheres, tão propícios à caçada? (...) Que posso dizer-te de Baias e das praias à volta de Baias e da água que deita um fumo morno de enxofre?»



 Findo este tema introdutório: « Onde fazer a colheita, o que amar, onde lançar as redes, eis o que, até aqui, te ensinou Talia(...). Agora, com que artes deves conquistar aquela que te agradou, isso é o que preparo para enunciar; é o tema primeiro da minha Arte(...)».

Ovídio, A Arte de Amar, Lx, Livros Cotovia, pp.29, 30 e 37

Desta forma, segue-se, em breve, o Primeiro Módulo: A Sedução

Atenção leitores incautos: a avaliação deste percurso formativo será meramente teórica.


Objectivos:
Fantasia para um guarda-chuva vermelho, especialmente em local chuvoso, mas ameno. Senão Roma,pelo menos Açores.


06 maio 2013

"ARTE DE AMAR" de OVÍDIO - LIVRO DO MÊS - EXCERTOS CINEGÉTICOS


Se gostas de caçar,
é sobretudo nos anfiteatros
que a caça é abundante.
Oferecem-te os teatros
muito mais do que possas desejar.
Aí encontrarás
desde o divertimento inconsequente
à mulher a quem amas realmente,
desde a amada que desejas conservar
àquela a quem apalpas fugazmente.

Públio OVÍDIO Nasão, Arte de Amar, tradução de NATÁLIA CORREIA e DAVID MOURÃO FERREIRA, Lisboa, Vega, 1990, p. 21.

 
Se acaso te inquirir uma donzela
quem são aqueles reis,
que montanhas, que rios, que lugares
figuram nas imagens transportadas,
responde sempre,
responde mesmo sem que ela te pergunte;
fala como se a fundo conhecesses
o que nem pela rama tu conheces;

IDEM, Ibidem, p. 29.

 
Para quê enumerar tantas reuniões
propícias à caça das mulheres?
Os numerosos grãos de areia
mais facilmente contarei.

IDEM, Ibidem, p. 31.