A abrir o novo ano e o trimestre “(re) leituras”, voltamos a Ferreira de Castro e ao belíssimo, "A Selva", um romance extraordinário sobre a vida dos seringueiros na selva amazónica, quando o ciclo da borracha iniciava a sua curva descendente.
Blogue da Comunidade de Leitores da Biblioteca de S. Domingos de Rana - Cascais - Portugal
02 janeiro 2020
29 dezembro 2019
E passaram mais doze meses de leituras!
Um
pouco em jeito de balanço anual, mas também para memória futura e antes de
entrarmos em 2020, deixo algumas notas sobre aquilo que fomos fazendo durante o
corrente ano.
O
amor pela leitura, mantém esta Comunidade em andamento desde 2007. Temos uma
média de 20 leitores presentes por sessão, o que torna as mesmas muito animadas
e dinâmicas.
Os
livros levam-nos ainda para fora de portas, atrás de programas diversos que nos
enriquecem a mente e alimentam o espírito. Assim, entre leituras, exposições,
visitas, viagens, teatro, jantares, concertos, aconteceu de tudo um pouco!
No
primeiro trimestre do ano andámos pela “Literatura no Feminino”. Revisitámos Jane
Austen (Sensibilidade e Bom Senso), Emily Brontë (O Monte dos Vendavais) e Françoise
Sagan (Bom Dia Tristeza). Foram sessões muito participadas, com animadas discussões
entre géneros.
No
segundo trimestre, lembrámos os “Autores Esquecidos” como José Rodrigues
Miguéis (A Escola do Paraíso), Maria Judite de Carvalho (Tanta Gente, Mariana)
e Luís de Sttau Monteiro (Um Homem não Chora).
O romance “A Escola do Paraíso”
levou a que o Manuel Nunes, durante o mês de Abril, fizesse um périplo fotográfico por Lisboa, refazendo
os passos do José Rodrigues Migueis. Está tudo disponível em diversas publicações no blogue que justificam plenamente uma leitura.
Também em Abril, um pequeno
grupo de leitores assistiu no Teatro D. Maria II, à récita de Frei Luís de
Sousa, de Almeida Garrett.
No mês de Junho, tivemos uma
sessão especial na Feira do Livro de Lisboa. O escritor Carlos Querido,
convidou-nos para fazermos uma apresentação do seu livro de contos, “Habeas Corpus”.
Foi mais uma sessão memorável, com uma boa presença dos nossos leitores.
Chegou o Verão e com ele o
terceiro trimestre, onde mergulhámos de cabeça na “Literatura Alemã”. Começámos
com Goethe (Werther), seguiu-se Herman Hesse (O Lobo das Estepes) e terminámos
com Erich Maria Remarque (Uma Noite em Lisboa).
A
propósito do Goethe, a nossa leitora Amélia Cabrita publicou no blogue (no mês
de Julho), matéria muito importante e interessante relativa à sua visita a Weimar,
lugar incontornável na vida deste escritor. Recomendo a leitura.
A
estação mais quente do ano, trouxe muita animação e assim, entre outros programas,
alguns dos nossos leitores marcaram presença na Festa dos Tabuleiros em Tomar, nas
visitas de fado cantadas de alguns bairros históricos de Lisboa e no já tradicional
Concerto dos 6 Órgãos de Mafra. Atravessámos o rio e fomos à Trafaria (entre
outras travessias).
Apanhámos o comboio e num programa muito especial que
implica um grupo de “jovens” à solta, houve deslocações a Setúbal, Évora,
Aveiro, Coimbra e Santarém.
Houve ainda uma visita, cuja temática foi a estátua de D. José na Praça do Comércio, que nos levou à Sala dos Gessos (onde estão os moldes da dita) e ao Museu Militar, com uma passagem pelo núcleo museológico do Hotel Eurostars.
Foi um Verão cheio, onde não faltou energia, nem magia!
No
quarto trimestre, visitámos aqueles a que decidimos chamar de “Queridos Autores”.
Primeiro tivemos o nosso Eça de Queirós (A Capital), depois o repetente Philip
Roth (Pastoral Americana) e terminámos com os contos de Gabriel Garcia Marquez
(Doze Contos Peregrinos). Foram leituras de peso!
A
anteceder a última sessão do ano, tivemos o habitual jantar anual, alegre
convívio partilhado pela maioria dos membros da Comunidade.
E
assim deixo esta síntese do ano. Houve muito mais, pelo que, convido outros leitores a acrescentarem o
que entenderem por bem!
Uma palavra de agradecimento para a Biblioteca de São Domingos de Rana, que em boa hora nos acolhe, continuando a disponibilizar o espaço para as nossas reuniões.
Boas
Leituras para 2020!
18 dezembro 2019
AMORES À PRIMEIRA VISTA
«À laia de desculpa, perguntei-lhe se acreditava nos amores à primeira vista.
- Claro que sim - disse-me ela. - Os outros é que são impossíveis.»
--- Doze Contos Peregrinos, conto "O Avião da Bela Adormecida" (1982).
03 dezembro 2019
“Doze Contos Peregrinos” de Gabriel García Márquez - 27 de Dezembro às 21h00
“O
homem da agência funerária chegou tão pontualmente que Maria dos Prazeres
estava ainda em roupão de banho e com a cabeça cheia de rolos, e mal teve tempo
para pôr uma rosa vermelha na orelha a fim de não aparecer tão indesejável como
se sentia. Lamentou-se ainda mais do seu estado quando abriu a porta e viu que
não se tratava apenas de um lúgubre, como ela supunha que deviam ser os
comerciantes da morte, mas um jovem tímido com um casaco aos quadrados e uma
gravata com pássaros coloridos. Não trazia sobretudo, apesar da Primavera incerta
de Barcelona, que as chuvas batidas por ventos oblíquos tornavam quase sempre menos
suportável ainda do que o Inverno. Maria dos Prazeres, que recebera tantos
homens a qualquer hora, sentou-se envergonhada como pouquíssimas vezes lhe
sucedera. Acabava de completar setenta e seis anos e convencera-se de que ia
morrer antes do Natal, mas, apesar disso, esteve quase a fechar a porta e a
pedir ao vendedor de funerais que esperasse um instante enquanto se vestia para
o receber depois, de acordo com os seus méritos. Mas pensou que o rapaz ia
gelar no patamar às escuras e deixou-o entrar…”
A
abrir o conto “Maria dos Prazeres”, incluído no livro “Doze Contos Peregrinos”
de Gabriel García Márquez
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02 dezembro 2019
AINDA SOBRE PHILIP ROTH
No seguimento da nossa sessão de sexta-feira, transcrevo declarações de Philip Roth sobre a América de Trump (entrevista publicada no jornal Expresso):
«Ninguém que eu conheça previu uma América como a de hoje. Ninguém
(exceto talvez o ácido H. L. Mencken, que descreveu a democracia americana como
“a adoração de chacais por idiotas”) podia imaginar que a catástrofe que
atingiria os EUA no século XXI, o mais rebaixante dos desastres, surgiria não
sob, digamos, o aspeto aterrador de um Big Brother orwelliano, mas sob a
ameaçadoramente ridícula figura de commedia dell’arte de um bufão gabarolas.
Quão ingénuo fui nos anos 60 ao pensar que era um americano a viver em tempos
absurdos! Quão pitoresco! Mas, afinal, o que é que eu podia saber em 1960 sobre
1963 ou 1968 ou 1974 ou 2001 ou 2016?»
Noutro passo da entrevista, diz o escritor:
«Trump (…) é uma fraude maciça, a soma maligna das suas
deficiências, destituído de tudo exceto a ideologia oca de um megalomaníaco.»
A entrevista pode ser lida aqui:
30 novembro 2019
Plano de leituras 2020
Ilustração de Lorenzo Mattotti
1º Trimestre – (re) Leituras
31 Janeiro - Ferreira de Castro, A selva
28 Fevereiro - Agustina Bessa Luís, A Sibila
27 Março - Jorge Amado, Jubiabá
2º Trimestre – Eça & Cª
24 Abril - Eça de Queirós, O conde de Abranhos
29 Maio - Gustave Flaubert, A educação sentimental
26 Junho - Honoré de Balzac, O tio Goriot
3º Trimestre – América!
31 Julho - Philip Roth, Casei com um comunista
28 Agosto - Margaret Atwood, Semente de Bruxa
25 Setembro - John Steinbeck, Viagens com o Charley
4º Trimestre – Recém-Laureados
30 Outubro - Afonso Reis Cabral, Pão de Açúcar (Prémio José Saramago 2019)
27 Novembro - Olga Tokarazuk, Viagens (Prémio Nobel da Literatura 2018)
18 Dezembro - Kazuo Ishiguro, As Pálidas Colinas de Nagasáqui (Prémio Nobel da Literatura 2017)
22 novembro 2019
SWEET BLACK ANGEL
ANGELA DAVIS (1944), lutadora pelos direitos humanos, icónica revolucionária dos anos 70 a quem os Rolling Stones e a dupla John Lenon/Yoko Ono dedicaram canções, perseguida e presa pelo FBI, surge em Pastoral Americana num episódio em que se misturam realidade e ficção. Fim do Capítulo 4 da Parte II, "A Queda".
19 novembro 2019
04 novembro 2019
"Pastoral Americana" de Philip Roth – 29 Novembro às 21h00
Sinopse
"Seymour «Sueco» Levov, um lendário atleta universitário, devotado homem de família, trabalhador esforçado e próspero herdeiro, envelhece na triunfante América do pós-guerra, vendo esfumar-se tudo o que ama quando o país começa a efervescer nos turbulentos anos 60.
Nem o mais tranquilo e bem-intencionado cidadão consegue escapar à vassourada da história, nem o Sueco pode permanecer para sempre na felicidade da amada e velha quinta em que vive com a sua bela mulher e a filha, que se torna uma revolucionária terrorista apostada em destruir o paraíso de seu pai. A inocência do Sueco Levov é varrida pelos tempos - como tudo o que foi criado pela sua família, através de gerações, deitado por terra na violenta explosão de uma bomba no seu bucólico quintal".
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21 outubro 2019
"A CAPITAL", DE EÇA DE QUEIROZ
Isto é como as cerejas. A leitura d´A Capital leva-me a antigas leituras como a deste livro em que se alude à Elvira do poema "O Lago", de Alphonse Lamartine, e ao «rumor das saias de Elvira» de que fala Eça na abertura d´A Correspondência de Fradique Mendes. Pobre Artur Corvelo com a sua baronesa e o seu Eros de expressão ultra-romântica! A Amélia do padre Amaro e a Luísa do Basílio são de outra extracção erótica, mais carnal e consequente, sem arroubos poéticos, mais cercanas das Conchitas e das Mercedes do salero andaluz. Aguardemos a sessão de dia 25, estou com curiosidade de ouvir os nossos leitores.
14 outubro 2019
LIGAÇÕES NADA PERIGOSAS
Trabalho apaixonante para um leitor é estabelecer ligações entre as leituras que vai fazendo. Em verdade, nada é completamente novo, tudo está já inventado desde os tempos dos antiquíssimos poemas homéricos. Para isto, os teóricos da literatura descobriram definições com nomes raros, como palimpsesto, intertextualidade e outros. Pergunta-se: - Que há entre A Capital, de Eça de Queirós e os dois romances da foto? Que relações, por um lado, entre Artur Corvelo e Calisto Elói de A Queda dum Anjo e, por outro, Eugène de Rastignac de Le Père Goriot? Este, contemplando Paris do alto do cemitério Père-Lachaise, proferirá, falando para a grande cidade, a frase mais emblemática do romance: «A nous deux, maintenant!». Também Artur Corvelo, partindo à conquista da capital, poderia ter dito o mesmo: «E agora nós, Lisboa!» As intenções são iguais, os resultados é que poderão ter sido diferentes.
02 outubro 2019
“A Capital” de Eça de Queirós - 25 Outubro às 21h00
A abrir:
“A
estação de Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenciosa, pelas
seis horas da tarde, antes da chegada do comboio do Porto.
A
uma extremidade da plataforma, um rapaz magro de olhos grandes e melancólicos,
a face toda branca da frialdade de Outubro, com uma das mãos metida no bolso de
um velho paletó cor de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha
envernizada, examinava o céu. De manhã chovera e a tarde ia caindo com uma
suavidade muito pura. Laivos rosados esbatiam-se nas alturas como pinceladas de
carmim muito diluído em água, e longe, sobre o mar, para além da linha escura
dos pinheirais, por trás de grossas nuvens tocadas ao centro de tons de
sanguínea e orladas de ouro vivo, subiam quatro fortes raios de sol,
divergentes e decorativos que o rapaz magro comparava às flechas ricamente
dispostas de um troféu luminoso…”
In “A
Capital” de Eça de Queirós
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15 setembro 2019
UMA NOITE EM LISBOA (II)
Continuo a ler e a gostar do que leio. Em Osnabrück, na madrugada de insónia, Helen e Josef vão conversando e bebendo uma segunda garrafa de vinho do Reno. É o reconhecimento mútuo após anos de separação. Um jogo de sombras, coisas que se dizem e não se dizem. Estão juntos na mesma cama, mas é solidão que respiram.
«Ela continuava sentada em cima da cama, nua, de copo na mão, uma amazona graciosa e frágil, provocante e obstinada, resoluta e astuciosa, e compreendi então que nunca a tinha conhecido. Não conseguia entender por que motivo ela aceitava viver comigo e comparei-me a alguém que julga possuir um belo cordeiro, que o enche de afagos e desvelos e que de repente descobre que o que afaga nas mãos é uma jovem puma, para quem os lacinhos azuis e as carícias nada significam e que inclusivamente é capaz de morder a mão que a acarinha.»
ERICH MARIA REMARQUE, Uma Noite em Lisboa, Capitulo V.
11 setembro 2019
UMA NOITE EM LISBOA
Josef Schwarz, natural de Viena Neustadt, o homem que se sentava no Louvre diante das catedrais e dos nenúfares de Claude Monet. Paris, 1938. Por via dos impressionistas, um foragido sem documentos, perseguido pelo terror nazi, consegue um passaporte.
ERICH MARIA REMARQUE, Uma Noite em Lisboa, Capítulo I.
02 setembro 2019
“Uma Noite em Lisboa” de Erich Maria Remarque – 27 de Setembro às 21h00
Sinopse
A Alemanha Nazi ocupava
grande parte da Europa. Terra de todos e de ninguém devido ao jogo duplo de
Salazar, Lisboa foi durante toda a guerra um território neutro. Num cenário de
guerra e perseguição, tornou-se o paraíso à beira-mar plantado. Para além da sua
beleza natural e da paz, foi uma das poucas portas de saída para os que
desejavam uma oportunidade para construir uma nova vida do outro lado do
Atlântico.
Depois… uma noite em Lisboa,
quando um refugiado olha cobiçosamente para um transatlântico, um homem
aproxima-se dele com dois bilhetes de embarque e uma história para contar. É
uma história perturbante de coragem e traição, risco e morte. Onde o preço do
amor vai para além do imaginável, e o legado do mal é infinito. À medida que a
noite evolui, os dois homens e a própria cidade criam um laço que vai durar o
resto das suas vidas…
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26 agosto 2019
12 agosto 2019
HERMANN HESSE E A MÚSICA
Os leitores que tenham acabado de ler O Lobo das Estepes terão percebido o papel atribuído à música na construção do romance. Sendo uma das obras mais autobiográficas de Hermann Hesse, seria estranho que esta linguagem metafísica e universal, tão querida do autor, não ocupasse lugar de relevo na respectiva criação literária. Todos notámos a importância de Mozart no plano da escrita, só comparável, no domínio da arte literária, à de Goethe.
É deste livro, Música, uma colectânea de textos do escritor, que extraímos os seguintes excertos:
«Nunca nos cansaremos de ouvir falar de Mozart, jamais recusaríamos uma nova e bela melodia para a canção do resplandecente preferido dos deuses, do mesmo modo que acolheríamos com apreço uma nova imagem de Mozart, de alguém sombrio, enigmático, sofredor, alimentado por fontes demoníacas.» - Recensão publicada na revista März, Munique, Janeiro de 1914.
«As óperas de Mozart são para mim a síntese de todo o teatro. São como nós imaginamos o teatro em pequenos, antes sequer de o termos visto: como o céu, repleto de doces sons, ornamentado de dourado e de todas as cores.» - De uma carta de 10-1-1929 a Emmy Ball-Hennings.
«A história da vida de Mozart ultrapassa, em grande parte, o aspecto pessoal, é a história do Espírito na terra, do Génio entre os plebeus; e, aqui, até os reis e as grandes figuras do palco do mundo são plebeus.» - Recensão no jornal National-Zeitung, Basileia, de 9-5-1937.
Por fim, uma citação de Hermann Hesse que está, por assim dizer, na portada do livro:
«O que seria da nossa vida sem a música! Se me tirassem, proibissem ou arrancassem à força da memória, a mim ou a alguém minimamente amante da música, os corais de Bach, as árias da Flauta Mágica ou o Fígaro [de Mozart, como se sabe], isso seria para nós como a perda de uma parte do corpo, de metade ou de todo um sentido.»
Por fim, uma citação de Hermann Hesse que está, por assim dizer, na portada do livro:
«O que seria da nossa vida sem a música! Se me tirassem, proibissem ou arrancassem à força da memória, a mim ou a alguém minimamente amante da música, os corais de Bach, as árias da Flauta Mágica ou o Fígaro [de Mozart, como se sabe], isso seria para nós como a perda de uma parte do corpo, de metade ou de todo um sentido.»
06 agosto 2019
“O Lobo das Estepes” de Herman Hesse - 30 de Agosto às 21h00
Abri
ao acaso e li:
“…
Era assim o sonho. Eu estava sentado e aguardava numa antecâmara antiquada. A princípio
apenas sabia que tinha encontro marcado com uma Excelência qualquer, mas depois
lembrei-me que era o senhor de Goethe que me ia receber. Infelizmente eu não
viera ali a título meramente privado, mas na qualidade de correspondente de uma
revista, isso contrariava-me muito, e eu não conseguia entender porque diabo
tinha vindo parar àquela situação. Para mais andava desassossegado com um
escorpião que tinha acabado de descobrir e que tentava trepar-me pela perna
acima. Tentava livrar-me do escuro reptilzinho sacudindo-me e sacudindo-o, mas
não sabia onde ele se tinha metido, e não ousava avançar a mão fosse para que
lado fosse…”
In
“O Lobo das Estepes” de Herman Hesse
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16 julho 2019
UMA COMUNIDADE DE LEITORES NO TEMPO DE GOETHE
... com a presença do mesmo. As tertúlias realizavam-se normalmente à volta de uma mesa redonda.
In Weimar, a guide to a European city of culture, Leipzig, 2013
WEIMAR, NOVEMBRO DE 2013
Estive em Weimar dois ou três dias em novembro de 2013. Como havia um compromisso de participação numa conferência, mal tive tempo de percorrer a cidade, a maior parte das vezes fora das horas de luz do dia (o que também explica a escassez de fotografias). No entanto, não podia deixar de "tropeçar" em figuras tão presentes como Goethe, Schiller, Bach... Continuo a pensar que valia a pena lá voltar, sobretudo no verão, embora o gosto das salsichas grelhadas que se vendem na rua e do vinho quente (ponche?) das barraquinhas de madeira da época natalícia deixem saudades.
Ao reler (depois de quantas vezes?) Werther, sinto algum remorso, por ter contribuído para esta nossa escolha, iniciando um pequeno ciclo de literatura alemã. Isto porque, independentemente de ser um must, um marco incontornável na literatura e na cultura ocidental, é talvez das histórias mais pungentes que alguma vez foram escritas. Por isso, não é de molde a animar ninguém e ainda menos algum leitor desprevenido... Pela minha parte, peço desde já desculpa e venho então dar conta desta humilde pesquisa relacionada com Weimar, que julgo ajudar a situar um pouco o nosso autor deste mês de julho.
Goethe (1749-1832) e
Schiller (1759-1805), amigos na colaboração literária e no apoio que Goethe deu
a Schiller, como personalidade pública e influente em Weimar. Estátua dupla, erguida
em 1857, do escultor Ernst Rietschel, colocada frente ao Deutsches Nationaltheather, do qual Goethe foi diretor de 1791 a
1815, promovendo as estreias das últimas quatro peças de Schiller.
A casa (palácio) onde Goethe viveu em Weimar, hoje museu
Goethe chega a Weimar em
1775, onde se fixa até à sua morte, vivendo e contribuindo para o período dito
clássico ou Idade de Ouro, da cidade de Weimar, sob a proteção e incentivo do
Duque Carl August. Muitas figuras importantes da cultura ocidental têm o seu
nome ligado a esta cidade, nomeadamente: Lucas Cranach, o Velho, viveu aqui o
último ano de vida, entre 1552 e 1553; Bach (1685-1750), enquanto violinista e
organista da corte e, mais tarde, maestro, produziu em Weimar uma parte
decisiva da sua obra, entre 1708 e 1717; Johann Gottfried von Herder
(1744-1803), uma influência importante do jovem Goethe, é nomeado líder da
igreja local, em 1776; em 1799 Friedrich Schiller fixa-se em Weimar, onde já
tinha vivido de 1787 a 1789. Na época seguinte, é a vez de Franz Liszt (1811-1886)
também aqui se notabilizar a partir de 1842, residindo entre 1848 e 1861.
Nietzsche é trazido para a cidade muito doente, em 1897, onde morre em 1900, na
casa da irmã, hoje transformada em Arquivo do filósofo. Já no século XX, Henry
van de Velde (1863-1957) vai acabar por fundar a Arts and Crafts School em
1908, precursora da Bauhaus, liderada
por Walter Gropius (1883-1969), constituída no mesmo ano— 1919— do primeiro
regime democrático da Alemanha, a República de Weimar, a qual, como sabemos,
não podia sobreviver ao nazismo, que se impõe e expande a partir de 1933. Para
terminar os exemplos de referências culturais, falta falar de Thomas Mann
(1875-1955), com as intervenções públicas em defesa da República de Weimar e em
memória de Goethe, no centenário da sua morte (1932).
A cidade foi bastante
castigada por bombardeamentos durante a II Guerra e depois fez parte da
Alemanha de Leste até 1989. Foi capital da cultura em 1999.
Não quero falar de
Buchenwald, o campo de concentração estabelecido nos arredores em 1937, de
muito triste memória, que visitamos para nunca mais (nem nenhum outro),
testemunho também de uma cidade “ao mesmo
tempo o melhor e o pior sítio na história da Alemanha”, tal como foi
afirmado em 1965 em conferência internacional de escritores em Weimar.
03 julho 2019
26 Julho às 21h00 - "Werther" de Goethe
“…E tu, ó alma sensível que sofres dos mesmos pesares: que o teu coração dolorido encontre alívio na descrição das mágoas que ele sofreu e que este livro seja para ti um amigo, se, por impiedade da sorte, ou por tua própria culpa, te não for dado encontrar afeição mais real…”
in "Werther" de Johann Wolfgang von Goethe
15 junho 2019
E hoje foi assim...
... a nossa sessão na Feira do Livro. Uma tarde amena, um espaço agradavelmente informal, um autor de que gostamos muito e um grupo de pessoas sempre interessado nos livros e nas diferentes leituras que fazemos deles. A conversa decorreu em torno do livro de contos "Habeas Corpus" de Carlos Querido, contos esses povoados de personagens aparentemente vulgares, que vão deslizando numa dualidade de certezas e incertezas, questionando a vida perdida em rotinas desencantadas e a morte sempre à espreita, tudo envolto em permanente ironia. Depois de uma excelente apresentação feita pelo nosso coordenador Manuel Nunes, seguiu-se uma animada troca de impressões entre os presentes e o autor, que nos foi dando a sua visão sobre a leitura que fizemos, dos 33 contos incluídos no livro. E porquê 33, perguntámos a Carlos Querido? Porque é um número mágico, foi a resposta...
Obrigada à Zé, a nossa fotógrafa de serviço
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Carlos Querido,
Feira do Livro
13 junho 2019
15 Junho às 15h00 – Vamos estar na Feira do Livro?
Estarão certamente já informados, de que a nossa Comunidade de Leitores foi convidada pela editora Abysmo e pelo autor Carlos Querido, a apresentar o seu livro de contos Habeas Corpus recentemente publicado.
Esta sessão de apresentação e discussão da obra terá lugar no sábado, dia 15, pelas 15 horas, junto ao stand da Abysmo - nº E-15 (de costa para o Marquês de Pombal, é um dos primeiros do lado esquerdo).
Carlos Querido (mais informações aqui), é um autor conhecido da maior parte dos nossos Leitores e tem já uma ligação especial à nossa Comunidade. Quem não se lembra da nossa ida às Caldas da Rainha, onde tão gentilmente nos serviu de cicerone? Ou da nossa sessão pública na Feira do Livro, também a propósito de um outro livro seu? Espreitem aqui se quiserem rever essas boas memórias.
A nossa presença é importante para a Comunidade, pelo que contamos com todos os que tenham disponibilidade para isso. Até Sábado!
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Feira do Livro
06 junho 2019
“Um Homem não Chora” de Luis de Sttau Monteiro” - 28 de Junho às 21h00
A
abrir:
“Procuro
com a mão o despertador que está a tocar há mais de meio minuto. Encontro-o entre um livro e um copo
de água que me colocam todas as noites sobre a mesinha de cabeceira. Carrego
num botão e o silêncio volta a entrar no meu quarto. Sei que já não posso
adormecer. O meu despertador toca invariavelmente às oito da manhã, todos os
dias faça sol ou faça chuva.
É
uma das invariáveis da minha vida, tão invariável como o amor da Fernanda, como
os jantares de família nos dias santos, como o som do piano da vizinha aos
Domingos…”
In
“Um Homem não Chora” de Luis de Sttau Monteiro”
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Luis de Sttau Monteiro
03 junho 2019
Agustina Bessa-Luís (1922-2019)
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“Sobretudo o facto de haver na sala de jantar um quadro que
era cópia da Ronda da Noite de Rembrandt. Na sua vaidade mística que não
admitia contradição, Maria Rosa habituara-se a não duvidar. Para ela a Ronda da
Noite era autêntica e tudo o mais que pudesse assemelhar-se era pura falsificação.
Bastava um só olhar para ver que Rembrandt não lhe pusera a mão. Mas o mesmo se
diz do quadro que com tanta fama se pode ver no Rijksmuseum…”
in “A Ronda da
Noite” de Agustina Bessa -Luís
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