19 março 2014

"AS CANÇÕES DE ANTÓNIO BOTTO"

Sobre este livro, começo por referir o texto de FERNANDO PESSOA que lhe serve de prefácio: "António Botto e o Ideal Estético em Portugal". Este texto foi publicado na revista Contemporânea, vol. I, nº 3, ano I, 1922, e deu origem a uma célebre polémica.

Depois a epígrafe, retirada de Winckelmann: Como é confessadamente a beleza do homem que tem de ser concebida sob uma ideia geral, assim tenho notado que aqueles que observam a beleza só nas mulheres, e pouco ou nada se comovem com a beleza dos homens, raras vezes têm um instinto imparcial, vital, inato, da beleza na arte. A pessoas como essas, a beleza da arte grega parecerá sempre falha, porque a sua beleza suprema é antes masculina que feminina.

Finalmente, transcrevo o primeiro poema do livro - de Adolescente, Livro Primeiro:

Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda - 
Para outro momento,
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me - sou outro...

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos - És lindo!

A morte
Devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: - não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos, apenas!,
- Que mais precisamos nós?


António Botto (Alvega, Abrantes, 1897 - Rio de Janeiro, 1959) foi um poeta que recebeu as atenções críticas de Fernando Pessoa, José Régio e João Gaspar Simões. Sobre ele escreveu José Régio, em 1925, em As correntes e as individualidades na moderna poesia portuguesa: "(...) Mas é em António Botto - grande poeta e grande artista - que o esteticismo se afirma com mais pureza. António Botto é um clássico - no mais amplo sentido da palavra." No final da sua vida literária, doente e atormentado, publicou Fátima, poema do mundo (1955), escrito "aprovado por Sua Eminência o senhor Cardeal Patriarca de Lisboa D. Manuel Gonçalves Cerejeira", demonstração de uma degenerescência artística difícil de classificar. São seus os versos laudatórios dirigidos àquela figura da hierarquia religiosa: O grande Cardeal, o Cerejeira, / Como diz toda a gente de Lisboa, / Com aquela ternura verdadeira, / Dada só por paixão a uma pessoa, / Levantou uma obra tão inteira / Na grandeza da fé com que a povoa, / Que até serve de freio e de bandeira / Aos que tentam ainda apanhar Goa. / Humilde gigante que sobeja, / Em vencer pela música de sinos, / Agravos a Jesus e à igreja. / Um santo que nasceu para ficar - / Nos povos e nos cânticos divinos, / Nas estrelas, no Céu, na voz do mar.

Um comentário:

Custódia C.C. disse...

Encantador o poema transcrito ....