Blogue da Comunidade de Leitores da Biblioteca de S. Domingos de Rana - Cascais - Portugal
19 fevereiro 2022
HIPÓLITO E FEDRA
02 fevereiro 2022
"Histórias de Mulheres" de José Régio - 25 de Fevereiro às 20h00
31 janeiro 2022
"O JANTAR DO BISPO", conto de Sophia
Este foi um dos contos de que mais gostei. Conto de Deus e do Diabo, e
de algo mais.
O Diabo não se reconhece pela luz, mas pela sombra. Nem todos são
capazes de o ver, daí o seu sucesso como tentador. Só os inocentes conseguem
trespassar essa barreira de ocultação. O pequeno João, filho do poderoso Dono da
Casa, «reparara que a sombra daquele homem [o Homem Importante] era enorme e enchia os tectos,
gesticulando como um grande polvo».
A missão do Padre de Varzim assemelhava-se à dos padres operários,
movimento contrariado por Pio XII, mas reabilitado posteriormente por João XXIII
e Paulo VI. Os padres descendo aos infernos do trabalho assalariado, vivendo lado
a lado com os operários das fábricas, defendendo-os. O Padre de Varzim vivia na
pobreza ao lado dos cavadores das vinhas.
Dai o jantar e o convite ao Bispo: o Dono da Casa queria pedir ao Bispo que
afastasse da freguesia o Padre de Varzim.
E havia o telhado de uma igreja para cuja reparação precisava o Bispo
de uma esmola. Uma esmola de uma pessoa caridosa como o Dono da Casa. O assunto
resolveu-se. Por assombradas artes do Homem Importante, o Bispo afasta um pároco incómodo
e ganha as obras da igreja.
Depois há o encontro com o enigmático mendigo, o remorso, o mistério em torno do Homem Importante, a recusa da dupla esmola do Diabo.
Sobre este conto, diz D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, no pórtico da obra: «que o Bispo volte a ser, mais que o construtor de igrejas, o construtor da Esperança.»
04 janeiro 2022
"Contos Exemplares", de Sophia de Mello Breyner Andresen - 28 de Janeiro às 20h00
A abrir temos Sophia de Mello Breyner Andresen e os seus "Contos Exemplares"
29 dezembro 2021
Em jeito de Balanço e Feliz Ano Novo!
Infelizmente, este ano de 2021 não começou bem para o mundo, com a pandemia provocada pelo Corona vírus, praticamente descontrolada. As novas mutações do vírus, vieram agravar um cenário já de si caótico e Portugal sofre uma situação de fragilidade nunca vista. Novos estados de emergência e confinamento levam ao encerramento de quase tudo, incluindo as bibliotecas. E lá voltámos nós à estaca zero, sem as tão desejadas sessões presenciais. E Janeiro… que teve um livro tão bom!
Iniciámos o 1º Trimestre, sob o lema «Escuto a América a
cantar, as várias canções que escuto» de Walt Withman e debruçámo-nos
sobre a escrita da Harper Lee, com o livro “Mataram a Cotovia”. Em Maycomb,
acompanhámos as aventuras das três crianças Scout, Jem e Dill e sob o seu olhar
inocente e verdadeiro demos conta das terríveis fragilidades de uma América
dividida em termos raciais e não só. O debate sobre o romance, foi acontecendo
animadamente através do blogue e do fb.
Em Fevereiro, continuámos confinados às nossas casas, o que não nos impediu de mergulhar nas trevas da ressaca da Grande Depressão americana, com “As Vinhas da Ira” de John Steinbeck. Uma leitura intensa, dura e crua. Acompanhámos o drama da Família Joad, que após perder a sua casa e a as terras de cultura de algodão, no Oklahoma, partem para a Califórnia, numa viagem de esperança em busca de um a vida melhor. É a história da família Joad como poderia ser a de milhares de outras famílias de agricultores, que nos anos 30 seguiram na procura do mesmo sonho. Na rota do romance, cruzámos caminho com as palavras e a música de Bruce Springsteen, através da bela canção “The Ghost of Tom Joad” e com as fotografias de Dorothea Lange, fotógrafa americana que registou as grandes migrações de agricultores. Mais uma vez, a troca de ideias foi acontecendo no blogue e no fb.
Link para as fotos da Dorothea
A terminar o primeiro trimestre dedicado às leituras da América, vivemos a grande aventura do pescador Santiago (grande admirador do basebol americano e do célebre Joe DiMaggio) que, depois de oitenta e quatro dias sem sorte na faina, conseguiu filar um espadarte que lhe deu luta durante três dias. Infelizmente depois de ganha essa batalha e no regresso a terra, a luta prosseguiu com os tubarões que lhe atacaram a presa deixando-lhe apenas o esqueleto do espadarte preso ao barco. A propósito desta leitura de “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway, descobrimos uma maravilhosa curta metragem de animação baseada no romance e realizada em 1999, pelo realizador russo Aleksandr Petrov. Disponível Link aqui!
O 2º Trimestre, sob o mote «Última flor do Lácio, inculta e bela» (de Olavo Bilac), trouxe Abril e o regresso às sessões presenciais, com catorze entusiastas da leitura. O Cemitério de Pianos, deu o mote. A história do José Luís Peixoto não deixou ninguém indiferente ou porque gostaram ou então não gostaram nada ou porque apenas leram ao sabor da corrente ou porque simplesmente não leram. Uma coisa é certa, proporcionou mais umas belas horas de convívio e discussão literária. No final da sessão, a Bia presenteou-nos com um poema dos “Cadernos de Verão”, do Manuel Nunes.
Maio chegou e com
ele um romance duro e belo. Levantado
do Chão, de José Saramago, levou-nos ao Alentejo do tempo da
ditadura até ao limiar da liberdade. Três gerações de Mau-Tempo, colocam-nos
perante a opressão económica e social dos latifundiários, das forças políticas,
policiais e até da igreja, sobre os trabalhadores e da luta destes contra todo
o sistema. Uma sessão que contou com a presença de 19 leitores e uma discussão
animada em torno desta leitura. Alguns leitores participaram posteriormente num
roteiro literário, cujo percurso passou por lugares emblemáticos, referidos no
romance.
Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo foi o livro de Junho, que desta vez não provocou especial entusiasmo. Houve quem gostasse, claro, e, defendesse bem a sua dama. Mas alguns leitores consideraram o romance datado e até um pouco enfadonho na sua segunda parte. Houve quem o tivesse lido pela segunda vez (a primeira, na juventude) tendo agora uma opinião menos favorável. No entanto foi lido na íntegra, por vinte dos vinte e um leitores presentes!
«Bem
próvida a natura quando alteou / Entre nós e os tudescos /
Dos fortes Alpes o limite duro», Francesco Petrarca deu o mote e iniciámos o trimestre italiano com esse romance épico e intemporal de Tomásio di Lampedusa “O Leopardo”. A relação do homem com o tempo, a batalha contra a inevitável transformação das coisas e o caminho quase natural para a sua decadência, são o fio condutor desta saga familiar, muito centrada em Don Fabrízio, Príncipe de Salina e no seu sobrinho Tancredi Falconeri, em tempos de revolução. “…Se queremos que tudo continue como está, é preciso mudar tudo…” é a frase marcante proferida quase no início do romance por Tancredi e que se revela absolutamente verdadeira ao longo do mesmo. Foi uma leitura excelente, muito apreciada por todos os presentes.
Agosto foi mês de férias para a maior parte de nós, mas isso não impediu a leitura de “O Nome da Rosa” de Umberto Eco. Muito mais do que um conto policial na idade média, o romance levou-nos ao encontro de maravilhas arquitetónicas (a fabulosa descrição do pórtico da igreja!), da detalhada descrição da vida monástica, de discussões, muitas delas a roçar o herético, e, sobretudo, aos livros. Livros que estão escondidos numa extraordinária biblioteca, de acesso labiríntico. Estão escondidos, não por serem frágeis ou valiosos, mas por serem perigosos nas ideias que transmitem. Tudo é válido para manter a ordem estabelecida. Foi uma leitura cativante, geradora de muito entusiasmo na sua discussão.
Em Setembro, chegou mais um
para semear uma saudável divergência. “Se
numa Noite de Inverno um Viajante” de Italo Calvino foi, por assim dizer,
um romance de muitas leituras, começando pelo ardil de colocar o leitor como
protagonista do mesmo. Muitas histórias dentro da história em si, deram aos
leitores uma verdadeira aventura de leitura com diversas possibilidades de
interpretação. Parafraseando o nosso Coordenador “…Livro que não é fácil e, no
entanto, é um livro que, entre outras coisas, reflecte sobre os leitores e a
leitura. Somos leitores, lemos, é um livro para nós..”
Chegados ao último trimestre
do ano, a que Milan Kundera deu o mote: “A única coisa que nos resta diante
dessa inelutável derrota a que chamamos vida, é tentar compreendê-la. Eis aí a
razão de ser da arte do romance”.
Outubro trouxe o romance de Haruki Murakami “A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol”. Embora fosse um livro de leitura fácil e fluida a opinião generalizada foi de pouco entusiasmo e alguma deceção (mesmo para os apreciadores do autor). Se a vida de Hajime muito marcada pelos relacionamentos com as mulheres mais importantes da sua vida, Shimamoto, Yukiko e Izumi, fez transparecer para os leitores alguma falta de consistência, também as pontas soltas que iam ficando no desenrolar do romance pouco ajudaram a tornar o mesmo apetecível. Ficou mesmo no ar, a hipótese de uma má tradução. Enfim, leu-se, mas não deixou saudades…
Novembro chegou com a
perturbadora fábula política de George Orwell “A Quinta dos Animais”. Homens e
animais com um papel invertido e mais uma vez a confirmação de que, na grande
maioria dos casos, o poder corrompe. O subtil desvio dos princípios
inicialmente estabelecidos, leva a um sistema de subserviência total a um
totalitarismo corrupto. Um livro que continua a gerar grande interesse nos
leitores, tendo proporcionado uma sessão animada com intervenções calorosas.
E rapidamente chegámos ao
fim do ano. Em Dezembro lemos “O Mar, o Mar” da Iris Murdoch. Charles Arrowby,
personagem principal, é um homem do mundo do teatro, extremamente egocêntrico que,
no auge da fama, decide isolar-se num lugarzinho da costa norte de Inglaterra. Um
romance inesgotável, denso, construído por muitas camadas narrativas, com
avanços e recuos, que tão depressa prenderem o leitor como a seguir o afastam.
Longas descrições, imbuídas de mil e um detalhes, memórias e pensamentos para
nos dar a conhecer os diferentes personagens. Realce para algum paralelo com o teatro
de Shakespeare. Quem leu gostou e reconheceu a beleza da
escrita. Quem não leu, ouviu e acompanhou com interesse a discussão que o
romance gerou.
E assim 2021 chega ao fim, sempre sob a nuvem negra de uma pandemia que parece não querer dar tréguas nem descanso. As nossas leituras continuam a ajudar-nos a manter alguma preciosa normalidade.
Avancemos para o
novo Ano com otimismo e esperança em dias melhores!
Feliz Ano Novo!
23 dezembro 2021
10 dezembro 2021
CONTINUANDO COM "O MAR, O MAR"
03 dezembro 2021
“O Mar, o Mar” de Iris Murdoch - 17 de Dezembro – 20h00
A abrir:
“O mar que se estende à
minha frente enquanto escrevo resplandece, mais do que cintila, sob um morno
sol de Maio. Com a mudança da maré, reclina-se calmo contra a costa, quase
liso, sem espuma nem ondulação. Nas proximidades da linha do horizonte é de um
púrpura voluptuoso, atravessado por linhas regulares de verde esmeralda. No
horizonte é cor de anil. Junto à praia, onde a minha vista é enquadrada por
cabeços de rocha amarelada, vê-se uma faixa de um verde mais claro, frio e
puro, menos luminoso, mas opaco, não transparente. Estamos no Norte e o brilho
do sol não consegue penetrar nas águas. No local onde golpeia suavemente as
rochas, a água, mostra ainda uma fina película de cor, como uma pele. O céu,
completamente limpo, é muito pálido no horizonte cor de anil, com ligeiras
pinceladas de prata. O azul intensifica-se vibrante, na direcção do zénite. Mas
é um céu de aspecto frio, até o sol parece frio…”
In “O Mar, o Mar” de Iris
Murdoch
19 novembro 2021
O Triunfo dos Porcos, versão BD
17 novembro 2021
LEITURAS E DATAS DAS SESSÕES DE 2022
Redacção final do programa de leituras para 2022:
1º trimestre – HORAS DO CONTO
JAN 28 - Contos Exemplares, de Sophia de Mello Breyner Andresen
FEV 25 - Histórias de Mulheres, de José Régio
MAR 25 - Contos Impopulares, de Agustina Bessa-Luís
2º trimestre – A SUL DA AMÉRICA, A
OESTE DO SONHO
ABR 29 - O Velho que Lia Romances de Amor e História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luis Sepúlveda
MAI 27 - As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain
JUN 24 - Os Informadores, de Juan Gabriel Vásquez
3º trimestre – HÁ MAIS MUNDOS
JUL 29 - As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift
AGO 26 - Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll
SET 30 - A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells
4º trimestre – SARAMAGO E
SARAMAGUIANOS
OUT 28 - Manual de Pintura e Caligrafia, de José Saramago
NOV 25 - Os Malaquias, de Andréa del Fuego
DEZ 30 - Os Transparentes, de Ondjaki
04 novembro 2021
“A Quinta dos Animais” / “O Triunfo dos Porcos” de George Orwell – 26 de Novembro às 20h00
Em edições anteriores chamou-se “O Triunfo dos Porcos”, mas, entretanto, recuperou o título original de “A Quinta dos Animais”.
Orwell apresenta-nos uma
fábula perturbante, onde os homens, as mulheres e os animais têm um papel invertido.
Uma sátira ainda adaptada à
sociedade atual? Esta e outras questões a debater com o livro de Novembro (que,
como já foi informado, sofreu uma troca com o livro agendado para Dezembro).
18 outubro 2021
A SUL DA FRONTEIRA. ESPANTOSO, DE FACTO...
South of the
border, down Mexico way
That's where I fell in
love, when the stars above, came
out to play
And now as I
wander, my thoughts ever stray
South of the
border, down Mexico way
She was a
picture, in old Spanish lace
Just for a tender while, I kissed a smile upon her
face
'Cause it
was fiesta, and we were so gay
South of the
border, Mexico way
Then she sight as she whispered mañana
Never dreaming that we
were parting
And I lied
as a whispered mañana
'Cause our tomorrow never came
South of the
border, I jumped back one day
There in a
veil of white, by the candle light, she knelt to pray
The mission bells told
me that I musn't stay
South of the
border, Mexico way
HAJIME: Em pequeno, sempre que escutava esta canção perguntava a mim mesmo o que poderia ficar a sul da fronteira.
SHIMAMOTO: Também eu. Já crescida, quando fui capaz de traduzir a letra em inglês, apanhei cá uma destas desilusões! Afinal era apenas uma canção sobre o México, e eu que pensava que a sul da fronteira só poderia existir qualquer coisa de bem mais espantoso.
(H. Murakami, A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol, cap. 14)
02 outubro 2021
“A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol” de Haruki Murakami - 29 de Outubro às 20h00
O romance de Murakami,
parece encaixar bem no mote do 4º Trimestre: «A única coisa que nos resta
diante dessa inelutável derrota a que chamamos vida, é tentar compreendê-la.
Eis aí a razão de ser da arte do romance» (Milan Kundera)
25 setembro 2021
O VIAJANTE DE CALVINO
Entre os membros da nossa Comunidade, a leitura de Se numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino, gerou perplexidades, incompreensões, até alguma frustração por se tratar de um livro com menos possibilidades de apreensão por parte de leitores que normalmente se entregam à leitura por puro prazer.
Concordo que é um livro difícil. Para
qualquer um de nós. Mas registo aquilo que me foi dito por uma leitora à saída
da sessão: «Não podemos querer só livros fáceis».
Livro que não é fácil e, no entanto,
é um livro que, entre outras coisas, reflecte sobre os leitores e a leitura.
Somos leitores, lemos, é um livro para nós.
Esta obra de Calvino desenvolve-se em
dois planos: primeiro plano, uma história que avança em torno dos livros e das
pessoas que os lêem (leitores românticos ou ingénuos, leitores académicos, leitores
profissionais, etc.), assim como dos dispositivos crítico-literários que lhes
são inerentes, como a legitimação da literatura pela Universidade, por
investigadores e críticos, e ainda tudo o que ao livro diz respeito, como a
edição, a tradução, a contrafacção, a censura, etc.; e, segundo plano, um
conjunto de dez narrativas intercaladas nos capítulos, cada uma ao seu estilo,
que podem ser lidas como contos.
A leitura destes dez “contos” pode
ser feita por qualquer leitor, não é exigida uma qualificação especial. O
leitor incomodado com as aventuras de Ludmilla, de Hermes Marana ou do
professor Uzzi-Tuzii poderá sempre
entregar-se à leitura das dez narrativas, por mero prazer, com a vantagem
acrescida de serem todas estilisticamente diferentes e, portanto,
diferentemente enriquecedoras.
Ouvimos dizer que Se numa Noite de Inverno um Viajante é
um puzzle, ora muitos de nós até gostamos de puzzles, dêmo-nos ao trabalho de o
compor.
Queria deixar mais umas notas
relativas à minha intervenção na sessão, na qual posso não ter sido explícito.
Quanto citei uma prática que foi corrente na Faculdade de Letras para avaliação
dos alunos, que era a de se apresentar um texto para interpretação sem o nome
do autor, com vista a concentrar a análise dos discentes somente nos processos
de criação de linguagem, sem atender à biografia respectiva, não quis dizer que
o livro de Calvino fosse só para quem tivesse frequentado a dita faculdade ou
outra similar.
Matérias tratadas no livro são estas
da “intenção do autor” e do “biografismo” de que a crítica usou e abusou e da
qual discordou a corrente estruturalista (que valoriza a estrutura da
linguagem) e a semiótica (a ciência dos
signos, logo também dos signos linguísticos).
Dizia-se: ele, autor, escreveu isto
porque é comunista, católico, homossexual ou outra coisa qualquer; ele, autor,
foi abandonado pela mãe, daí tratar mal as personagens femininas nos seus
romances; ele, autor, pertence a uma minoria étnica, foi perseguido na
juventude, daí a revolta existente nos seus textos, etc., etc.
Este não é o caminho seguro para
abordar um texto literário, embora possamos segui-lo com o devido cuidado. Tudo
isto levou a que no final dos anos 60, em artigo que se tornou célebre, Roland
Barthes tenha advogado a “morte do autor”. O autor desapareceria ao acabar o
seu texto, não mais se falaria dele, emergindo a figura do leitor, a razão
última do labor autoral. Com o desenvolvimento da “teoria da recepção”, o papel
do leitor passou a constituir uma função determinante no processo literário,
como a entidade que actualiza ou “reescreve” o texto, que lhe dá sentido.
A propósito da “morte do autor”,
veja-se o que Silas Flannery, escritor angustiado, diz no seu diário (Oitavo
capítulo do livro de Calvino): «O estilo, o gosto, a filosofia pessoal, a
subjectividade, a formação cultural, a experiência vivida, a psicologia, o
talento, os truques do ofício: todos os elementos que fazem o que escrevo poder
reconhecer-se como meu, acho-os uma jaula a limitar as minhas possibilidades.
Se fosse apenas uma mão, uma mão decepada a empunhar uma caneta e escrever…
Quem moveria esta mão? A multidão anónima? O espírito dos tempos? O
inconsciente colectivo? Não sei.»
Foi com essa «mão decepada» que Italo
Calvino escreveu o seu livro. Com ela escreveu os dez contos que sendo dele, e
só dele, são, no entanto, de dez autores diferentes. É preciso conhecer-lhes a
biografia para gostarmos deles?
Costumo dar um exemplo que não é meu,
mas copiado de algum lado de que já não me recordo: nada sabemos da vida de
Shakespeare, dos seus gostos, ânimos ou desânimos, mas tal não nos tira o
imenso prazer de ler as suas obras.
Também nada sei do tal Takakumi
Ikoka, conterrâneo fictício do próximo autor de visita à nossa Comunidade (se é
fictício, como posso saber alguma coisa dele?), mas garanto-vos que gostei
muito de ler o seu texto No tapete de
folhas iluminado pela lua. Foi uma espécie de aperitivo para o romance de
Murakami que, provavelmente, não será como o daquele japonês um «romance da
perversão». No entanto, se for, não me importo nada.
E pronto, por aqui me fico. Laus Deo.
11 setembro 2021
02 setembro 2021
24 de Setembro - Se numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino - 20h00
(No que me diz respeito, fui logo conquistada pela ambiguidade do título...)
03 agosto 2021
27 de Agosto – “O Nome da Rosa” de Umberto Eco - 20h00
Estamos no séc XIV. Crime e
mistério numa abadia beneditina, a par com muitas discussões filosóficas dão o mote
a um romance notável e genial. Acompanhemos as investigações de Guilherme de
Baskerville, um monge franciscano, cuidadoso decifrador de sinais e do seu jovem
companheiro Adso, aspirante a monge beneditino.
24 julho 2021
"O Leopardo" - versão cinematográfica
01 julho 2021
30 de Julho “O Leopardo” de G. Tomasi di Lampedusa – 20h00
“…Se queremos que tudo
continue como está, é preciso mudar tudo…”. *
Quem não terá já lido ou
ouvido uma referência a esta reflexão? A questão é colocada por Tancredi
Falconeri a Don Fabrízio, Príncipe de Salina, quando aparece em sua casa um dia
pela manhã, para se despedir do seu aristocrático tio. Ia partir para as montanhas
e juntar-se à revolução em curso que visava a unificação dos divididos estados italianos.
*in “O Leopardo” de G.
Tomasi di Lampedusa
Francesco Petrarca dá o mote ao terceiro trimestre
“Bem próvida a natura quando alteou / Entre nós e os tudescos / Dos fortes Alpes o limite duro”
24 junho 2021
11 junho 2021
EDELWEISS, A FLOR TALISMÃ DO AMOR
No capítulo
8 de “Olhai os Lírios do Campo”, Eugénio Fontes e Olívia vão jantar ao
restaurante austríaco «Edelweiss«, nome de uma flor alpina de rara beleza.
Naquele dia, a psicologia bipolar do protagonista estava do lado da satisfação
e da autoestima. Com uma traqueotomia prontamente realizada salvara uma criança
em estado agudo de laringite diftérica. Até o seu ateísmo ressentido parecia
desaparecer: «Sim, Deus existia! – achava Eugénio. Recordações das lições da Bíblia
no Columbia College. A ressurreição de Lázaro. A filha de Jairo. Cristo era um
médico. Cristo podia ser aquela estrela pura.»
Edelweiss é
a flor nacional da Áustria e da Suiça. Em “Música no Coração” o nome da flor
aparece na letra de uma canção: «Edelweiss / Edelweiss / Bless my homeland
forever.»
O que não sabia é que em Lisboa também há um restaurante «Edelweiss». Fica no nº 2 da Rua de S. Marçal, ali perto de S. Bento. Passei por lá hoje à hora do almoço. É um restaurante suíço em cuja ementa há pratos como «Strogonoff de vitela», «Salsicha alemã com molho de cebolas» e «Massa fresca suiça com queijo Emmental». Só abre para jantares a partir da 17 horas. Talvez algumas das nossas leitoras ainda se disponham a ir a este restaurante experimentar os segredos da gastronomia alpina, e sempre com "Olhai os Lírios do Campo" em pensamento. O aspecto exterior do restaurante é frio e vulgar, mas por dentro, tanto quanto me apercebi, é simpático e acolhedor.
01 junho 2021
25 de Junho – “Olhai os Lírios do Campo” de Erico Veríssimo – 20h00
“…Seu Florismal... Para
Eugênio, esse nome tinha um secreto encanto. Florismal aparecia quase todas as
noites, chegava muito calmo, fumando o seu charuto de tostão, e ia logo
sentar-se na cadeira de balanço. Era um homem baixo, de cabelos ralos, quase
calvo. No rosto gorducho e redondo, a barba forte era sempre uma sombra
azulada, mesmo quando ele se escanhoava. Os dentes eram maus e miúdos. Florismal
tinha uma voz macia e uma certa dignidade de estadista. Era um espírito
conciliador e gabava-se de ter muita lábia. «Nasci para advogado - dizia. - Se
eu tivesse tido mais um pouco de juízo quando moço...» Calava-se, entortava a
cabeça, batia a cinza do charuto e ficava em atitude sonhadora. Decerto via
mentalmente o seu passado, os seus erros e uma carreira perdida. Ou então
pensava apenas no efeito que aquelas palavras e aquela sugestiva postura podiam
estar produzindo nos interlocutores…”
In “Olhai os Lírios do Campo”
de Erico Veríssimo -Pág 21, Edição “Livros do Brasil” Lisboa
19 maio 2021
A Debulhadora
Imagem da net (não encontrei
os créditos)
A certo momento
do “Levantado do Chão”, fala-se de uma debulhadora e das terríveis condições de
trabalho, para operar a mesma. O texto é longo e opressivo. A descrição é tão real, que facilmente imaginamos a cena ali apresentada e
sentimos a falta de ar provocada por aquela névoa de pó e palha e os ouvidos
parecem ensurdecer com o ruído que constantemente nos matraqueia. Procurei
imagens do monstro e encontrei as que estão em cima.
“… Chamam-lhe debulhadora……………
Vista de fora, é uma grande caixa de madeira sobre rodas de ferro, ligada por
uma correia a um motor que trepida, estrondeia, retumba e, com perdão, fede.
Pintaram-na de amarelo gema de ovo, mas a poeira e o sol bruto quebraram-lhe a
cor, e agora mais parece um acidente do terreno, ao lado doutros que são os
frascais, e com este sol nem se distingue bem, não há nada que esteja quieto, é
o motor a saltar, a debulhadora a vomitar palha e grãos, a correia frouxa a
oscilar, e o ar vibrando como se todo ele fosse o reflexo do sol num espelho
agitado no céu por mãozinhas de anjos que não têm mais que fazer. Há uns vultos
no meio desta névoa. Estiveram todo o dia nisto, e ontem, e anteontem, e mais
para trás, desde que a debulha começou…………………. Dormem na eira, na revessa dos
fardos, mas é noite fechada quando o motor se cala e ainda vem longe o sol
quando se ouve o primeiro tiro daquela besta que se alimenta de bidões dum
líquido preto e pegajoso, e depois, todo o santo dia, diabos o levem,
matraqueia os ouvidos…………………….A boca da máquina é um vulcão para dentro, um
gasgarro de gigante………………………………….. giram como doidos naquela perdição de palha
miúda, …………………………….. e a máquina é como um poço sem fundo. Só falta meter-lhe
um homem dentro. ……………………………….. É a moinha aquele monstro sem peso, aquela
palha poalha que se infiltra pelas ventas e as entope, que se mete por tudo
quanto é abertura da roupa e se agarra à pele, uma pasta de lama, e a comichão,
senhores, e a sede. A água que se bebe do quartão não tarda que fique mole,
doentia, …………………………………Vai o moço para a moinha, recebe-a na cara como um
castigo, e o corpo começa de mansinho a protestar, para mais não me sobram as
forças, ……………………………………………., e então, de dois feito, o rapaz, que se chama
Manuel Espada e voltará a ser falado neste relato, deixa a moinha, chama os
companheiros e diz, Vou-me embora, que isto não é trabalhar, é morrer………………. e
afinal são apenas quatro rapazes, estes que se afastam movidos por suas razões
de quem não tem que pensar em mulher e filhos a sustentar…”
Excertos do capítulo que se inicia na pág.99 do meu livro. Edição Caminho - O Campo da Palavra.
01 maio 2021
28 de Maio “Levantado do Chão” de José Saramago – às 20h00
" O que mais há na
terra é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou,
abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é
sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou
ainda. Será porque constantemente muda: tem épocas do ano em que o chão é
verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro. E também vermelho, em
lugares que é cor de barro ou sangue sangrado. Mas isso depende do que no chão
se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por simples natureza
nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou seu último fim. Não é
tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado. Nem do sobreiro, que vivíssimo,
embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele. Aos gritos…”
In “Levantado do Chão” de
José Saramago
Voltámos
Ontem
voltámos às sessões presenciais, com catorze entusiastas da leitura. O
Cemitério de Pianos, deu o mote. A história do José Luís Peixoto não deixou
ninguém indiferente. Houve quem adorasse e defendesse com paixão o seu ponto de
vista e houve quem apenas lesse com cuidado e atenção e tivesse dado o tempo por
bem empregue. Uns leram simplesmente ao sabor da corrente e outros leram com
dificuldade. Houve quem fizesse tentativas várias e andasse para cá e para lá,
mas não conseguisse agarrar a história e houve quem não lesse por não se sentir
cativado ou por não ter tido acesso ao livro em tempo útil. Uma coisa é certa,
a história ficcionada, mas com bases reais, deu pano para mangas e proporcionou
mais umas belas horas de convívio e discussão literária.
No final da sessão, a nossa leitora Bia presenteou-nos com um poema dos “Cadernos de Verão”, da autoria do Manuel Nunes. Os interessados podem saber de tudo aqui.
Obrigada
mais uma vez aos responsáveis da BSDR-Cascais, que nos garantiram, de novo,
todas as condições de higiene e segurança para a realização da sessão.
02 abril 2021
30 de Abril - “Cemitério de Pianos” de José Luís Peixoto - 20h00
Abro ao acaso e leio:
“… a outra rua, outras
casas. Corro mais depressa para que o tempo passe mais depressa. A cor das casas
altas. Os telhados das casas. A minha respiração. Não quero fixar-me na minha
respiração. A cor das casas: amarelo torrado, cor de laranja, quase castanho, cor
de barro…”
In “Cemitério de Pianos” de
José Luís Peixoto
18 março 2021
Joe DiMaggio, ídolo de Santiago
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| Foto da net |
“…Where have you gone, Joe DiMaggio?
No romance de Hemingway, Santiago
tem como distração as notícias da Liga de Beisebol dos Estados Unidos, sobretudo
no que diz respeito ao seu ídolo Joe DiMaggio. As notícias chegam através dos
jornais e são tema recorrente na suas conversas com Manolim:
“…Conta-me do beisebol- pediu o rapaz. Na liga
americana são os Yankees, como eu disse- declarou o velho. Hoje, perderam-
observou o rapaz. Isso não significa nada, o grande DiMaggio é sempre o mesmo-
respondeu o velho…”
E dizia-lhe “… gostaria era de levar o grande DiMaggio a pescar…dizem que o pai dele era pescador. Talvez tivesse sido pobre como nós e percebesse…”
Nos 3 dias que passa no mar
após a pesca do espadarte, Santiago vai monologando e refere-se várias vezes ao
basebolista:
“… É o segundo dia de que não sei os
resultados dos juegos, pensou. Mas preciso de ter confiança e devo ser digno do
grande DiMaggio que tudo faz perfeitamente, mesmo com a dor de espora de osso
no calcanhar. O que será espora de osso?...”
“…Julgas que o grande
DiMaggio seria capaz de ficar com um peixe tanto tempo como eu com este? Tenho
a certeza de que seria, e mais, pois que é jovem e forte. O pai dele era
pescador. Mas a espora dor-lhe-i muito?...”
“… mas acho que o grande
DiMaggio se orgulharia hoje de mim. Eu ‘não tinha esporas de osso’. Mas as mãos
e as costas doem de verdade.- Que será uma ‘espora de osso’?, pensou. Talvez
seja coisa de ter-se sem se saber…”
E quando mata o primeiro
tubarão, “… Preciso de pensar. Porque nada mais me resta. Isso e o basebol.
Gostava de saber se o grande DiMaggio gostaria da maneira como lhe acertei nos miolos.
Não foi grande coisa. Qualquer o faria. Mas não achas que o estado das minhas
mãos equivale às ‘espuelas’? Não posso saber, nunca sofri do calcanhar…”
e mais à frente a propósito
do pecado, “…Não penses no pecado. É tarde demais para isso e há gente paga
para pensar nele. Eles que pensem. Tu nasceste para pescador, como os peixes
para serem pescados. S. Pedro era pescador, como o pai do grande DiMaggio…”
E tal como Joe DiMaggio na sua luta contra o esporão ósseo do calcanhar, também Santiago na sua aventura de 3 dias no mar, deu provas de força e resistência, quer na pesca do espadarte, quer na defesa do mesmo contra o ataque dos tubarões...
03 março 2021
"O Velho e o Mar", em versão animada
Em 1999, o realizador russo Aleksandr
Petrov, produziu uma brilhante curta metragem de animação, baseada no romance “O
Velho e o Mar”. Absolutamente maravilhoso!
02 março 2021
26 de Março - ”O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway
“… As nuvens por cima de
terra erguiam-se agora como serranias, e a costa era apenas uma longa linha
verde com os montes azuis-cinzentos por detrás. A água era agora de um azul-escuro,
tão escuro que era quase púrpura. Ao olhar para o interior das águas via o
vermelho peneirar do plâncton nas águas sombrias e a estranha luz que o sol
fazia. Observava as linhas, para vê-las sumir-se da vista pela água abaixo, e
sentia-se feliz por ver tanto plâncton, o que significava peixe. A estranha luz
do sol nas águas, com o sol já mais alto, queria dizer bom tempo, e o mesmo
dizia a forma das nuvens sobre a terra. Mas o pássaro estava quase a perder-se
ao longe, e nada aparecia à superfície das águas senão alguns sargaços amarelos
e queimados do sol, e a purpurínea, pomposa, iridescente, gelatinosa vela de um
argonauta flutuando junto do barco. Deitou-se de lado e depois endireitou-se. E
flutuava consoladamente como uma bolha, com os seus longos e mortais filamentos
cor de púrpura vogando um metro atrás na água…”
In ”O Velho e o Mar” de Ernest
Hemingway– Edição “Livros do Brasil” Lisboa, pág.40
As sessões presenciais
continuam suspensas, mas os livros estão disponíveis por aí para serem lidos…















