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Infelizmente,
este ano de 2021 não começou bem para o mundo, com a pandemia provocada pelo
Corona vírus, praticamente descontrolada. As novas mutações do vírus, vieram
agravar um cenário já de si caótico e Portugal sofre uma situação de fragilidade
nunca vista. Novos estados de emergência e confinamento levam ao encerramento
de quase tudo, incluindo as bibliotecas. E lá voltámos nós à estaca zero, sem
as tão desejadas sessões presenciais. E Janeiro… que teve um livro tão bom!
Iniciámos o 1º Trimestre, sob o lema «Escuto a América a
cantar, as várias canções que escuto» de Walt Withman e debruçámo-nos
sobre a escrita da Harper Lee, com o livro “Mataram a Cotovia”. Em Maycomb,
acompanhámos as aventuras das três crianças Scout, Jem e Dill e sob o seu olhar
inocente e verdadeiro demos conta das terríveis fragilidades de uma América
dividida em termos raciais e não só. O debate sobre o romance, foi acontecendo
animadamente através do blogue e do fb.
Em
Fevereiro, continuámos confinados às nossas casas, o que não nos impediu de
mergulhar nas trevas da ressaca da Grande Depressão americana, com “As Vinhas da Ira” de John Steinbeck. Uma
leitura intensa, dura e crua. Acompanhámos o drama da Família Joad, que após
perder a sua casa e a as terras de cultura de algodão, no Oklahoma, partem para
a Califórnia, numa viagem de esperança em busca de um a vida melhor. É a
história da família Joad como poderia ser a de milhares de outras famílias de
agricultores, que nos anos 30 seguiram na procura do mesmo sonho. Na rota do
romance, cruzámos caminho com as palavras e a música de Bruce Springsteen,
através da bela canção “The Ghost of Tom Joad” e com as fotografias de Dorothea
Lange, fotógrafa americana que registou as grandes migrações de agricultores.
Mais uma vez, a troca de ideias foi acontecendo no blogue e no fb.
Link para a música do Bruce
Link para as fotos da Dorothea
A
terminar o primeiro trimestre dedicado às leituras da América, vivemos a grande
aventura do pescador Santiago (grande admirador do basebol americano e do
célebre Joe DiMaggio) que, depois de oitenta e quatro dias sem sorte na faina,
conseguiu filar um espadarte que lhe deu luta durante três dias. Infelizmente
depois de ganha essa batalha e no regresso a terra, a luta prosseguiu com os
tubarões que lhe atacaram a presa deixando-lhe apenas o esqueleto do espadarte
preso ao barco. A propósito desta leitura de “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway, descobrimos
uma maravilhosa curta metragem de animação baseada no romance e realizada em 1999,
pelo realizador russo Aleksandr Petrov. Disponível Link aqui!
O 2º
Trimestre, sob o mote «Última flor do Lácio, inculta e bela» (de Olavo Bilac),
trouxe Abril e o regresso
às sessões presenciais, com catorze entusiastas da leitura. O Cemitério de
Pianos, deu o mote. A história do José Luís Peixoto não deixou ninguém
indiferente ou porque gostaram ou então não gostaram nada ou porque apenas leram
ao sabor da corrente ou porque simplesmente não leram. Uma coisa é certa,
proporcionou mais umas belas horas de convívio e discussão literária. No final
da sessão, a Bia presenteou-nos com um poema dos “Cadernos de Verão”, do Manuel
Nunes.
Maio chegou e com
ele um romance duro e belo. Levantado
do Chão, de José Saramago, levou-nos ao Alentejo do tempo da
ditadura até ao limiar da liberdade. Três gerações de Mau-Tempo, colocam-nos
perante a opressão económica e social dos latifundiários, das forças políticas,
policiais e até da igreja, sobre os trabalhadores e da luta destes contra todo
o sistema. Uma sessão que contou com a presença de 19 leitores e uma discussão
animada em torno desta leitura. Alguns leitores participaram posteriormente num
roteiro literário, cujo percurso passou por lugares emblemáticos, referidos no
romance.
Olhai os Lírios do Campo, de
Erico Veríssimo foi o livro de Junho, que desta vez não provocou especial
entusiasmo. Houve quem gostasse, claro, e, defendesse bem a sua dama. Mas alguns leitores consideraram o romance
datado e até um pouco enfadonho na sua segunda parte. Houve quem o tivesse lido
pela segunda vez (a primeira, na juventude) tendo agora uma opinião menos
favorável. No entanto foi lido na íntegra, por vinte dos vinte e um leitores
presentes!
«Bem
próvida a natura quando alteou / Entre nós e os tudescos /
Dos
fortes Alpes o limite duro», Francesco Petrarca deu o mote e iniciámos o
trimestre italiano com esse romance épico e intemporal de Tomásio di Lampedusa
“O Leopardo”. A relação do homem com o tempo, a batalha contra a inevitável
transformação das coisas e o caminho quase natural para a sua decadência, são o
fio condutor desta saga familiar, muito centrada em Don Fabrízio, Príncipe de
Salina e no seu sobrinho Tancredi Falconeri,
em tempos de revolução. “…Se queremos que tudo continue como está, é
preciso mudar tudo…” é a frase marcante proferida quase no início do romance
por Tancredi e que se revela absolutamente verdadeira ao longo do mesmo. Foi
uma leitura excelente, muito apreciada por todos os presentes.
Agosto
foi mês de férias para a maior parte de nós, mas isso não impediu a leitura de
“O Nome da Rosa” de Umberto Eco.
Muito mais do que um conto policial na idade média, o romance levou-nos ao
encontro de maravilhas arquitetónicas (a fabulosa descrição do pórtico da
igreja!), da detalhada descrição da vida monástica, de discussões, muitas delas
a roçar o herético, e, sobretudo, aos livros. Livros que estão escondidos numa
extraordinária biblioteca, de acesso labiríntico. Estão escondidos, não por
serem frágeis ou valiosos, mas por serem perigosos nas ideias que transmitem.
Tudo é válido para manter a ordem estabelecida. Foi uma leitura cativante,
geradora de muito entusiasmo na sua discussão.
Em Setembro, chegou mais um
para semear uma saudável divergência. “Se
numa Noite de Inverno um Viajante” de Italo Calvino foi, por assim dizer,
um romance de muitas leituras, começando pelo ardil de colocar o leitor como
protagonista do mesmo. Muitas histórias dentro da história em si, deram aos
leitores uma verdadeira aventura de leitura com diversas possibilidades de
interpretação. Parafraseando o nosso Coordenador “…Livro que não é fácil e, no
entanto, é um livro que, entre outras coisas, reflecte sobre os leitores e a
leitura. Somos leitores, lemos, é um livro para nós..”
Chegados ao último trimestre
do ano, a que Milan Kundera deu o mote: “A única coisa que nos resta diante
dessa inelutável derrota a que chamamos vida, é tentar compreendê-la. Eis aí a
razão de ser da arte do romance”.
Outubro trouxe o romance de
Haruki Murakami “A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol”. Embora fosse um livro de
leitura fácil e fluida a opinião generalizada foi de pouco entusiasmo e alguma
deceção (mesmo para os apreciadores do autor). Se a vida de Hajime muito
marcada pelos relacionamentos com as mulheres mais importantes da sua vida,
Shimamoto, Yukiko e Izumi, fez transparecer para os leitores alguma falta de consistência,
também as pontas soltas que iam ficando no desenrolar do romance pouco ajudaram
a tornar o mesmo apetecível. Ficou mesmo no ar, a hipótese de uma má tradução.
Enfim, leu-se, mas não deixou saudades…
Novembro chegou com a
perturbadora fábula política de George Orwell “A Quinta dos Animais”. Homens e
animais com um papel invertido e mais uma vez a confirmação de que, na grande
maioria dos casos, o poder corrompe. O subtil desvio dos princípios
inicialmente estabelecidos, leva a um sistema de subserviência total a um
totalitarismo corrupto. Um livro que continua a gerar grande interesse nos
leitores, tendo proporcionado uma sessão animada com intervenções calorosas.
E rapidamente chegámos ao
fim do ano. Em Dezembro lemos “O Mar, o Mar” da Iris Murdoch. Charles Arrowby,
personagem principal, é um homem do mundo do teatro, extremamente egocêntrico que,
no auge da fama, decide isolar-se num lugarzinho da costa norte de Inglaterra. Um
romance inesgotável, denso, construído por muitas camadas narrativas, com
avanços e recuos, que tão depressa prenderem o leitor como a seguir o afastam.
Longas descrições, imbuídas de mil e um detalhes, memórias e pensamentos para
nos dar a conhecer os diferentes personagens. Realce para algum paralelo com o teatro
de Shakespeare. Quem leu gostou e reconheceu a beleza da
escrita. Quem não leu, ouviu e acompanhou com interesse a discussão que o
romance gerou.
E assim 2021
chega ao fim, sempre sob a nuvem negra de uma pandemia que parece não querer
dar tréguas nem descanso. As nossas leituras continuam a ajudar-nos a manter
alguma preciosa normalidade.
Avancemos para o
novo Ano com otimismo e esperança em dias melhores!
Feliz Ano Novo!