15 junho 2019

E hoje foi assim...

... a nossa sessão na Feira do Livro. Uma tarde amena, um espaço agradavelmente informal, um autor de que gostamos muito e um grupo de pessoas sempre interessado nos livros e nas diferentes leituras que fazemos deles. A conversa decorreu em torno do livro de contos "Habeas Corpus" de Carlos Querido, contos esses povoados de personagens aparentemente vulgares, que vão deslizando numa dualidade de certezas e incertezas, questionando a vida perdida em rotinas desencantadas e a morte sempre à espreita, tudo envolto em permanente ironia. Depois de uma excelente apresentação feita pelo nosso coordenador Manuel Nunes, seguiu-se uma animada troca de impressões entre os presentes e o autor, que nos foi dando a sua visão sobre a leitura que fizemos, dos 33 contos incluídos no livro. E porquê 33, perguntámos a Carlos Querido? Porque é um número mágico, foi a resposta...

 Obrigada à Zé, a nossa fotógrafa de serviço

13 junho 2019

15 Junho às 15h00 – Vamos estar na Feira do Livro?



Estarão certamente já informados, de que a nossa Comunidade de Leitores foi convidada pela editora Abysmo e pelo autor Carlos Querido, a apresentar o seu livro de contos Habeas Corpus recentemente publicado.

Esta sessão de apresentação e discussão da obra terá lugar no sábado, dia 15, pelas 15 horas, junto ao stand da Abysmo - nº E-15 (de costa para o Marquês de Pombal, é um dos primeiros do lado esquerdo).

Carlos Querido (mais informações aqui), é um autor conhecido da maior parte dos nossos Leitores e tem já uma ligação especial à nossa Comunidade. Quem não se lembra da nossa ida às Caldas da Rainha, onde tão gentilmente nos serviu de cicerone? Ou da nossa sessão pública na Feira do Livro, também a propósito de um outro livro seu? Espreitem aqui se quiserem rever essas boas memórias.

A nossa presença é importante para a Comunidade, pelo que contamos com todos os que tenham disponibilidade para isso. Até Sábado!

06 junho 2019

“Um Homem não Chora” de Luis de Sttau Monteiro” - 28 de Junho às 21h00


A abrir:

“Procuro com a mão o despertador que está a tocar há mais de meio  minuto. Encontro-o entre um livro e um copo de água que me colocam todas as noites sobre a mesinha de cabeceira. Carrego num botão e o silêncio volta a entrar no meu quarto. Sei que já não posso adormecer. O meu despertador toca invariavelmente às oito da manhã, todos os dias faça sol ou faça chuva.
É uma das invariáveis da minha vida, tão invariável como o amor da Fernanda, como os jantares de família nos dias santos, como o som do piano da vizinha aos Domingos…”

In “Um Homem não Chora” de Luis de Sttau Monteiro”

03 junho 2019

Agustina Bessa-Luís (1922-2019)


Imagem do fb

“Sobretudo o facto de haver na sala de jantar um quadro que era cópia da Ronda da Noite de Rembrandt. Na sua vaidade mística que não admitia contradição, Maria Rosa habituara-se a não duvidar. Para ela a Ronda da Noite era autêntica e tudo o mais que pudesse assemelhar-se era pura falsificação. Bastava um só olhar para ver que Rembrandt não lhe pusera a mão. Mas o mesmo se diz do quadro que com tanta fama se pode ver no Rijksmuseum…” 

in “A Ronda da Noite” de Agustina Bessa -Luís

06 maio 2019

"Tanta Gente Mariana" de Maria Judite de Carvalho - 31 de Maio às 21h00

Abri ao acaso e li:

"...Agora eram quatro horas e caminhava pela rua fora. Estava frio, mas ela não o sentia. Não sentia coisa nenhuma, a não ser as malhas da meia direita a escorrerem-lhe pela perna abaixo e também o salto que de vez em quando a fazia tropeçar. Estava num dos seus dias negros. Sozinha..."

in "Tanta Gente Mariana" de Maria Judite de Carvalho. Do conto, "A Avó Cândida"

27 abril 2019

Curso de Literatura Portuguesa do Séc. XXI (BSDR)


"Este curso pretende abrir o leque de possibilidades de leituras, refletindo sobre o que é escrever hoje numa sociedade mais imediata, mais informada, numa época em que publicar é mais fácil, em que a escrita se democratizou, obrigando-nos a ser mais criteriosos e exigentes. Vamos falar dos autores que estão no circuito comercial, dos que sofrem por ele, dos que lhe são parasitas e dos que apenas lhe são indiferentes. Vamos também falar de livros, editores, movimentos, ideias e vamos ler, pensar, discutir, num curso que é muito mais um sítio onde a partilha de leituras dita o caminho da conversa.

Rosa Azevedo é formada em Literatura Portuguesa e Francesa com curso minor em Literaturas do Mundo e tem mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura portuguesa e hispano-americana, para além de outros trabalhos de produção ligados à literatura, nomeadamente na área do surrealismo e da edição independente. Fundou e foi presidente da Associação Cultural Respigarte e do grupo teatral A Mancha. É produtora do Reverso - encontro de autores, artistas e editores independentes e do Muito Cá de Casa da Casa da Cultura de Setúbal, para as questões da literatura, onde é também moderadora. 
É livreira e programadora cultural da Livraria Snob. Mantém o blog estórias com livros."

Gratuito
Inscrições: 214 815 403/4 | bsdr@cm-cascais.pt

26 abril 2019

A Arte não tem nada que ver com o ganha-pão!


Dos sonhos perdidos:

“… Amontou a massa crua e cinzenta, informe, em cima do prato do torno, sentou-se no banco muito alto, deu ao pedal, o prato rodou, e ele pôs-se a afeiçoar o barro. Girando vertiginosamente, sob a palma das mãos e ao toque dos dedos, incrivelmente ágeis, o barro pouco a pouco tomou forma. Era primeiro uma bacia bojuda, depois um jarro, em seguida cresceu como se tivesse vida própria, lançou-se, esgadanhado, ondulou, fez-se melodia no ar – era uma ânfora grega! – 

Olhando um momento, por cima dos óculos, a frágil fórmula efémera, o Boi-do-Val’ murmurou como se falasse sozinho: 

- Eram coisas assim que eu gostava de fazer. Mas só faço tachos, panelas, alguidares! – e esmagou tudo com os punhos tremendos.

A Arte não tem nada que ver com o ganha-pão!

In “A Escola do Paraíso” de José Rodrigues Migueis

23 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (9)

A questão do novo pendão nacional representou uma das disputas mais renhidas, e com traços caricaturais, que se seguiram à revolução de 5 de Outubro. Para a sua escolha foi constituída uma comissão de que fizeram parte Columbano, João Chagas, Afonso Pala, Ladislau Parreira, Abel Botelho e dois oficiais revolucionários. A disputa era entre a continuação da bandeira azul e branca, suprimindo naturalmente o escudo monárquico, e a criação de uma bandeira verde-rubra segundo a tradição cromática do republicanismo. Segundo é explicado por João Medina em História de Portugal Contemporâneo Político e Institucional, edição da Universidade Aberta, 1994, diziam certos partidários do cromatismo azul e branco que «uma súbita mudança de cores, de desenhos e emblemas na bandeira portuguesa poderia suscitar, nas nossas colónias africanas, a justificada desconfiança dos negros», argumento de que há «um eco no romance semimemorialista de José Rodrigues Miguéis, quando este diz: "receava-se que os pretos, com perdão de quem me ouve, não acatassem a bandeira nova, e se revoltassem, tomando-a por estrangeira."» É evidente que está a referir-se a A Escola do Paraíso. Nós, que temos a leitura fresquinha, sabemos que a ideia foi do impagável Santiago, lançada naquele belo Cap. 30 - República, sou teu. Triunfou a ideia da bandeira que temos: a apresentação oficial deu-se a 1 de Dezembro de 1910 e a publicação no Diário do Governo tem a data de 30 de Junho de 1911.
 

21 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (8)

No Cap. 23 a família de Gabriel muda-se para uma nova casa na Quinta da Charca, perto da igreja de Nossa Senhora dos Anjos. Nova mudança justificada pela exiguidade dos cómodos de São Gens e pela proximidade do colégio dos filhos. « Não houve pois remédio senão mudarem-se para mais perto do Colégio, aquele estirão! Era um segundo andar também, com três janelas para a rua e outras tantas para um desafogo ao lado, mas amplo e bem dividido. E a Vista linda! Lá estava Lisboa, sempre diante dos olhos, agora em novas perspectivas: lavada e soalhenta, branca e rosada, com rasgões de céu azul por cima!» Foi nesta zona da Quinta da Charca, ali com o Monte Agudo ao pé, que nos anos vinte se começou a construir o Bairro das Colónias, " Um bairro Art Déco e Modernista" como  pode ser lido no blogue que lhe é dedicado. Chega-se lá, no Google, a partir de uma simples pesquisa.
=Fotos de 20-4-2019=

19 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (7)

 
O Regicídio, 1 de Fevereiro de 1908. Dona Leonor de Medanha e Serrano (talassa, como bem intuiu o pequeno Gabriel) ficou arrasada: « - Que desgraça, que grande desgraça! Nem quero ver ninguém... Esta nação está amaldiçoada! Maçons, carbonários, e aquele assassino do João Franco! Sua majestade a rainha... e agora o Dom Manuel, coitadinho, uma criança a governar esta piolheira... Que vai ser disto, que vai ser de todos nós? E que fazem os ingleses? Porque é que esses traficantes não mandam cá dois cruzadores para arrasar isto, meter esta choldra nos eixos , fuzilar a canalha? Porquê? Isto só vai com uma intervenção estrangeira» Na Quarta Parte da narrativa conta-se a história desta Dona Leonor e dos vínculos que prendiam a menina Adélia à sua importante pessoa. O plangente discurso da senhora tem lugar numa casa ao Largo do Pelourinho cuja entrada, se bem se percebe, era feita pela Calçada de S. Francisco, atravessada pelo passadiço do desaparecido elevador da Biblioteca (terceira imagem). Na segunda imagem pode ver-se o Largo do Pelourinho, erguendo-se atrás dos edifícios, a partir do largo contíguo de São Julião, a estrutura do elevador (Cap. 19 - Bolacha «Marselhesa»).

17 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (6)

Em 1901 era inaugurado o transporte electromotorizado na cidade de Lisboa: carreira Cais do Sodré a Algés. É num destes eléctricos que o pequeno Gabriel vai à praia (Pedrouços ou Algés?). À volta, apeiam-se no Terreiro do Paço (ele, a mãe e a irmã) e seguem pela Rua do Ouro. Num momento em que se separa delas, vai para o meio da rua e é colhido pela rede salva-vidas dum eléctrico que trava com um «grande estardalhaço» de ferragens. Envergonhado, não explica à mãe o sucedido. No entanto, pensa não ter sido nenhum Anjo ou Pomba de Pentecostes a salvá-lo: «se não tem pulado tão depressa para cima da rede, como os acrobatas!...» O nosso herói recusava assim a ideia do auxílio sobrenatural, aprendendo a acreditar em si e nas capacidades humanas.
(Cap. 14-Animais Nossos Amigos)

16 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (5)

Volto ao Cap. 9 d´A Escola  do Paraíso. Largo das Olarias, onde se situava o Teatro da Miquelina, «uma sala obscura, antiga cavalariça ou estrebaria» com o seu «negro portal» dentro de um beco. Perguntei a quem poderia saber e depois de alguma estranheza, ao ouvirem «antiga cavalariça ou estrebaria», indicaram-me o local da 3ª foto, dentro do tal beco. Não fiquei convencido, mas aí fica como hipótese de trabalho. A nespereira está carregadinha, mas não cheguei a provar... O que é que este capítulo tem de particularmente interessante? É nele que Gabrielzinho sente pela primeira vez o doce apelo de algo que não sabe explicar: «a atmosfera carregada de feminidade», «a qualidade poética e teatral» da casa da Miquelina com as boas sensações recebidas no convívio com as manas Perliquitetes. Até à descoberta do teatro, o choque entre a cor da poesia e a vida cinzenta dos simples ganhadores de dinheiro. Coisas sentidas, ainda não compreendidas. O pai, Sr. Augusto, é que não tinha dúvidas: «o Teatro é bom para pelintras e caloteiros», «a Contabilidade e Escrituração Comercial, isso é que é vida, e o mais são tretas.»
=Fotos de 16-4-2019=

15 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (4)

Em A Escola do Paraíso, a família de Gabriel muda-se para uma nova casa (Cap. 9 - No Teatro da Miquelina) na Rua de São Gens ao Monte: « Apesar de batida pelo vento e chuva da Barra, a varanda [da cozinha] permite avistar a Outra-Banda pardacenta e quase nua, o casario do Castelo, e a parada do quartel da Graça, onde a infantaria desfila nos dias de cerimónia, toda empenachada e debruada de vermelho ao som dum ordinário bélico e arrebatador.» A parada do quartel (antes foi convento, até à extinção das ordens religiosas em 1834) aí está na última foto. No mesmo capítulo, um pouco mais à frente, lê-se o seguinte: «Do segundo andar [frente do edifício] avistam-se telhados vermelhos, lisos e sem flores, ao longe a Penha e os jazigos do Alto de São João como ossadas a branquear ao sol. Nada disto tem o encanto da Rua da Saudade, para sempre perdido e preservado. Tudo é mais duro e calcário... E o lençol de prata e esmalte azul do Tejo desapareceu.» A nova morada da família ficaria assim num prédio do lado esquerdo da segunda foto. É nestes prédios que as traseiras dão para o Largo da Graça e a parte da frente para as bandas da Penha de França e do Alto de São João. E alguns deles bem parecem ser daqueles tempos (princípio do século XX), quando a rua não estava tão composta e os horizontes eram mais largos.
=Fotos de 15-4-2019=

 

14 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (3)

Sobe-se a Rua da Saudade até ao fim, vira-se à direita, e estamos no Largo dos Loios. A Igreja de Santiago de Lisboa é um pouco mais adiante. Referências no Cap. 3-Cais de Embarque de A Escola do Paraíso: « O sol rutila, escorre como um mel pelos telhados, polvilha gloriosamente o Tejo, um lago sereno, com velas brancas e vermelhas, de longe indolentes, distantes como a nostalgia. É logo abaixo do Castelo, as traseiras encostam a São Thiago e aos Loyos (perdão, deixem ficar assim à antiga, por favor!).»
= Fotos de 12-4-2019=
 

13 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (2)

No dia do aniversário, a mãezinha bebeu uma pinga. Tudo por causa do frustrado passeio a Benfica (ou seria à praia?) com a merenda já dentro do cabaz e o pai Augusto apoquentado com a chegada de um vapor com que não contava. O passeio em risco, o passeio em águas de bacalhau, ide vós que eu fico no hotel amarrado ao trabalho.  Vão os quatro (a mãezinha e os três manos) para a beira do Tejo. A garrafinha de vinho era para o pai, mas veio mesmo a calhar para afogar a mágoa. Ó mar, tu és um leão, declamava a progenitora para o Tejo que não chegava aos calcanhares do mar autêntico. Primeiro verso da quadra popular
Ó mar, tu és um leão
Tudo queres comer,
Quem sabe, no teu cantar,
As coisas que queres dizer?
- Coligida no Cancioneiro Popular Português, de José Leite de Vasconcellos.
--- A Escola do Paraíso, Capítulo 7 – O Vestido Cor de Ervilha Seca.
 

12 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (1)

PARAÍSO PERDIDO é uma metáfora perfeita para INFÂNCIA. José Rodrigues Miguéis (1901-1980) nasceu no nº 13 da Rua da Saudade, cidade de Lisboa. Nas águas-furtadas, certamente, como o seu alter ego Gabriel cujos episódios da infância são narrados em A Escola do Paraíso. O nº 13 já não existe: soçobrou de velhice ou no transe das escavações do Teatro Romano. Agora, os números ímpares da rua saltam do 7 para o 15 sobre o telheiro que protege os vestígios arqueológicos do séc. I. Vejamos o que nos diz o texto:
«Os paquetes atracam logo em baixo, ao cais, e a rua deve talvez o nome à saudade que para sempre ficou flutuando no sítio: a saudade dos que ficam, e a dos que partem e querem prender-se à terra, de braços, olhos e almas alongadas. Os vapores encolhem os seus dedos de ferro, os rebocadores arquejam, retesam-se de esforço, vomitam fumaça negra - e eles lá vão devagar, contrariados, adornados ao peso da gente (às vezes soldadesca morena e pardacenta para as guerras-dos-pretos) que acode às amuradas, agarrada à derradeira imagem dos que ficam a dizer adeus-adeus, talvez à esperança absurda de que o navio afinal não chegue a zarpar.»
(...)
«Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas  e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia. Tudo isto, o rio imenso, os cais, o mar, os horizontes, se integra nele e ficará para sempre dentro dele como um apelo de longe e uma saudade, anseio de partir e de voltar: quando? e para onde?»
--- JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS, A Escola do Paraíso, Cap. 3 - Cais de Embarque.
 
= Fotos de 12-4-2019=
 

03 abril 2019

NO TEATRO

Um pequeno grupo de leitores da nossa Comunidade assistiu hoje, no Teatro D. Maria II, à récita de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett. Encenação de Miguel Loureiro. Da Memória ao Conservatório Real, apresentada pelo autor em conferência de 6 de Maio de 1843, respigamos o seguinte passo: «Contento-me para a minha obra com o título modesto de drama: só peço que a não julguem pelas leis que regem, ou devem reger, essa composição de forma e índole nova; porque a minha, se na forma desmerece da categoria, pela índole há-de ficar pertencendo sempre ao antigo género trágico.» Foi um bom espectáculo.


"A Escola do Paraíso" de José Rodrigues Miguéis - 26 de Abril às 21h00


A abrir

"O vento mia e rabeia no telhado, abala a casa, parece que leva tudo pelos ares, engolfa-se a espaços pela chaminé abaixo, espevita o lume onde a chaleira canta, vai fazer oscilar a chama do candeeiro de petróleo e arranca-lhe um veuzinho de fumo negro. Algures, uma porta mal engonçada bate no trinco, enfurecida, como se quisesse libertar-se e partir com o vento à grande aventura.
Na mansarda, de outro modo silenciosa, paira uma inquietação. Só ali na cozinha brilha a luz amarela e tranquila, que o abajur de papelão concentra na mesa e na tábua de engomar.Ao lado, pelo respiradouro em ogiva do ferro, espreita um lume quase branco, de inferno em miniatura, que espalha o aroma e o calor reconfortantes do sobro queimado. Alvas de neve e cuidadosamente dobradas, vão-se empilhando na mesa as peças dum minúsculo enxoval..."

Início do conto "O Gato Preto", o primeiro in "A Escola do Paraíso" de José Rodrigues Miguéis

01 março 2019

"Bom Dia, Tristeza" de Françoise Sagan, 29 de Março às 21h00


Abri ao acaso e li:

"...Surpreendeu-me a nitidez das minhas recordações a partir daquele momento. Adquirira uma consciência mais viva dos outros, de mim mesma. A espontaneidade,  o egoísmo fácil sempre foram, para mim, um luxo natural. Sempre vivera. Ora os últimos dias tinham-me perturbado o suficiente para me levarem a reflectir, a ver-me viver. Passava por todas as angústia da introspecção sem, contudo, me reconciliar comigo mesma..."

in Bom Dia, Tristeza de Françoise Sagan

06 fevereiro 2019

O Morro dos Vendavais, em película



Encontrei esta versão, que não conhecia (legendas em português do Brasil)


01 fevereiro 2019

Kate, Cathy & Heathcliff


Wuthering Heights by Kate Bush 

Out on the wiley, windy moors
We'd roll and fall in green
You had a temper like my jealousy
Too hot, too greedy

How could you leave me
When I needed to possess you?
I hated you, I loved you, too

Bad dreams in the night
They told me I was going to lose the fight
Leave behind my wuthering, wuthering
Wuthering Heights

Heathcliff, it's me, I'm Cathy
I've come home, I'm so cold
Let me in through your window

Heathcliff, it's me, I'm Cathy
I've come home, I'm so cold
Let me in through your window

Ooh, it gets dark, it gets lonely
On the other side from you
I pine a lot, I find the lot
Falls through without you

I'm coming back, love
Cruel Heathcliff, my one dream
My only master

Too long I roam in the night
I'm coming back to his side, to put it right
I'm coming home to wuthering, wuthering
Wuthering Heights

Heathcliff, it's me, I'm Cathy
I've come home, I'm so cold
Let me in through your window

Heathcliff, it's me, I'm Cathy
I've come home, I'm so cold
Let me in through your window

Ooh, let me have it
Let me grab your soul away
Ooh, let me have it
Let me grab your soul away
You know it's me, Cathy

Heathcliff, it's me, I'm Cathy
I've come home, I'm so cold
Let me in through your window

Heathcliff, it's me, I'm Cathy
I've come home, I'm so cold
Let me in through your window

Heathcliff, it's me, I'm Cathy
I've come home, I'm so cold

"O Monte dos Vendavais" de Emily Brontë - 22 de Fevereiro às 21h00


"... Aproximámo-nos todos, e eu, por cima da cabeça de Cathy, enxerguei um garotito sujo e andrajoso de cabelos pretos. Era suficientemente grande para andar e falar e, pelo rosto, parecia até mais velho do que Catherine; mas, quando o puseram de pé, limitou-se a olhar em volta e a repetir, sem parar, palavras que ninguém entendia..."

in "O Monte dos Vendavais" de Emily Brontë

21 janeiro 2019

Sensibilidade e Bom Senso, no grande ecrã



Depois da leitura, vale a pena rever uma (ou mais) das muitas adaptações de Sensibilidade e Bom Senso ao cinema. Esta versão tem um dos meus actores preferidos (que morreu há 3 anos), o Alan Rickman.

08 janeiro 2019

O Escritor no seu Labirinto - 19 de Janeiro


Mais uma sessão do 2º ciclo de encontros com escritores, a ter lugar na nossa Biblioteca, no próximo dia 19 de Janeiro às 16h00.

03 janeiro 2019

"Sensibilidade e Bom Senso" de Jane Austen - 25 Janeiro às 21h00



"...If I could but know his heart, everything would become easy...", in Jane Austen's "Sense and Sensibility"

Para respeitar o romantismo e o ambiente vitoriano, tão encantadoramente descritos nos romances (ou será novelas?) da Jane Austen, deixei propositadamente em inglês, esta referência ao primeiro livro do ano.

As fotos são de duas capas muito elegantes, sendo a segunda de uma edição em inglês, que optei por comprar, seguindo o conselho da nossa leitora Maria Amélia. Foi uma boa opção porque todo o livro é mesmo muito bonito, com pequenas ilustrações intercaladas.

31 dezembro 2018

2019 - BOAS LEITURAS!

De entre outros e bons votos, aqui vai o de boas leituras, com uma (pertinente) consideração: isto é vício, vocação, ou tendência genética? (Brindando com a imagem do mais recente rebento da família, futura leitora compulsiva?)


24 dezembro 2018

Feliz Natal

Sandro Botticelli, The Mystical Nativity (1500-1501)

08 dezembro 2018

Plano de Leituras 2019


(Detalhe ... da estante cá de casa)

Plano de Leituras 2019

1º Trimestre – Literatura no Feminino

25 JAN - Jane Austen - Sensibilidade e Bom Senso 
22 FEV - Emily Brontë - O Monte dos Vendavais
29 MAR - Françoise Sagan - Bom Dia Tristeza 

2º Trimestre – Autores Esquecidos

26 ABR - José Rodrigues Miguéis – A Escola do Paraíso 
31 MAI - Maria Judite de Carvalho – Tanta Gente, Mariana 
28 JUN- Luís de Sttau Monteiro – Um Homem não Chora 

3º Trimestre – Literatura Alemã

26 JUL - Goethe – Werther 
30 AGO - Herman Hesse – O Lobo das Estepes 
27 SET - Erich Maria Remarque – Uma Noite em Lisboa 

4º Trimestre – Queridos Autores

25 OUT - Eça de Queirós – A Capital 
29 NOV - Philip Roth – Pastoral Americana 
27 DEZ - Gabriel García Márquez - Doze Contos Peregrinos 

05 dezembro 2018

"Crónica do Rei Pasmado" de Gonzalo Torrente Ballester - 28 de Dezembro às 21h00


"...
Mas o remédio a curto prazo tem que ser acordado agora mesmo entre Vossa Excelência e eu.
- De que remédio se trata?
- De impedir que o Rei veja a Rainha nua. Os pecados da noite passada são suficientes para pôr em perigo a monarquia e, com ela, a verdadeira cristandade; se a isto acrescentarmos essa monstruosa contemplação proibida pelas leis humanas e divinas, não me atrevo a imaginar o que será de nós..."

Parte de um diálogo entre Sua Paternidade o Padre Villaescusa e Sua Excelência o Valido in "Crónica do Rei Pasmado" de Gonzalo Torrente Ballester

07 novembro 2018

"O Pintor de Batalhas" de Arturo Pérez-Reverte - 30 de Novembro às 21h00


"O triunfo da morte" (1562) de Pieter Brueghel, o Velho, a pintura que dá a capa ao romance"O Pintor de Batalhas" de Arturo Pérez-Reverte, no livro das edições ASA. O quadro está no Museu do Prado, em Madrid.

25 outubro 2018

Música em "A Velocidade da Luz"



No Bar Treno's, o aviso de que este estava prestes a fechar, era dado no momento em que punham a tocar esta canção de Dylan, que Rodney adorava. Mais tarde quase no final do romance, o narrador vai encontrar o cd, na casa de Jenny, a viúva de Rodney. A letra tem tanto de belo, quanto de triste. Percebe-se o porquê do Nobel...

It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding), Bob Dylan

Darkness at the break of noon
Shadows even the silver spoon
The handmade blade, the child's balloon
Eclipses both the sun and moon
To understand you know too soon
There is no sense in trying

As pointed threats, they bluff with scorn
Suicide remarks are torn
From the fool's gold mouthpiece
The hollow horn plays wasted words
Proves to warn
That he not busy being born
Is busy dying

Temptation's page flies out the door
You follow, find yourself at war
Watch waterfalls of pity roar
You feel to moan but unlike before
You discover
That you'd just be
One more person crying

So don't fear if you hear
A foreign sound to your ear
It's alright, Ma, I'm only sighing

As some warn victory, some downfall
Private reasons great or small
Can be seen in the eyes of those that call
To make all that should be killed to crawl
While others say don't hate nothing at all
Except hatred

Disillusioned words like bullets bark
As human gods aim for their mark
Made everything from toy guns that spark
To flesh-colored Christs that glow in the dark
It's easy to see without looking too far
That not much
Is really sacred

While preachers preach of evil fates
Teachers teach that knowledge waits
Can lead to hundred-dollar plates
Goodness hides behind its gates
But even the president of the United States
Sometimes must have
To stand naked

An' though the rules of the road have been lodged
It's only people's games that you got to dodge
And it's alright, Ma, I can make it

Advertising signs that con you
Into thinking you're the one
That can do what's never been done
That can win what's never been won
Meantime life outside goes on
All around you

You lose yourself, you reappear
You suddenly find you got nothing to fear
Alone you stand with nobody near
When a trembling distant voice, unclear
Startles your sleeping ears to hear
That somebody thinks
They really found you

A question in your eyes is lit
Yet you know there is no answer fit to satisfy
Insure you not to quit
To keep it in your mind and not forget
That it is not he or she or them or it
That you belong to

Although the masters make the rules
For the wise men and the fools
I got nothing, Ma, to live up to

For them that must bow down to authority
That they do not respect in any degree
Who despise their jobs, their destinies
Speak jealously of them not are free
Cultivate what they do to be
Nothing more than something
They invest in

While some on principles baptized
To strict party platform ties
Social clubs in drag disguise
Outsiders they can freely criticize
Tell nothing except who to idolize
And then say God bless him

While one who sings with his tongue on fire
Gargles in the rat race choir
Bent out of shape from society's pliers
Cares not to come up any higher
But rather get you down in the hole
That he's in

But I mean no harm nor put fault
On anyone living in a vault
But it's alright, Ma, if I can't please him

Old lady judges watch people in pairs
Limited in sex, they dare
To tell fake morals, insult and stare
While money doesn't talk, it swears
Obscenity, who really cares
Propaganda, all is phony

While them that defend what they cannot see
With a killer's pride, security
It blows the minds most bitterly
For them that think death's honesty
Won't fall upon them naturally
Life sometimes must get lonely

My eyes collide head-on with stuffed graveyards
False gods, I scuff
At pettiness which plays so rough
Walk upside-down inside handcuffs
Kick my legs to crash it off
Say okay, I have had enough
What else can you show me?

And if my thought-dreams could be seen
They'd probably put my head in a guillotine
But it's alright, Ma, it's life, and life only

23 outubro 2018

O Escritor no seu Labirinto


No próximo Sábado, na nossa Biblioteca, há mais uma sessão da série "O Escritor no seu Labirinto".

01 outubro 2018

"A Velocidade da Luz" de Javier Cercas - 26 de Outubro às 21h00


A leitura promete, Logo a abrir é assim:


"Agora levo uma vida falsa, uma vida apócrifa, clandestina e invisível embora mais verdadeira do que se fosse real, mas eu era ainda eu quando conheci Rodney Falk. Foi há muito tempo e foi em Urbana, uma cidade do Middle West norte-americano onde passei dois anos nos finais da década de oitenta. A verdade é que cada vez que me interrogo por que terei ido parar precisamente lá, respondo a mim próprio que fui parar precisamente lá como poderia ter ido parar a qualquer outro sítio. Contarei por que razão, em vez de ir parar a qualquer outro sítio, fui parar precisamente lá..."

in "A Velocidade da Luz" de Javier Cercas