19 maio 2021

A Debulhadora

Imagem daqui

Imagem da net (não encontrei os créditos)

A certo momento do “Levantado do Chão”, fala-se de uma debulhadora e das terríveis condições de trabalho, para operar a mesma. O texto é longo e opressivo.  A descrição é tão real, que facilmente imaginamos a cena ali apresentada e sentimos a falta de ar provocada por aquela névoa de pó e palha e os ouvidos parecem ensurdecer com o ruído que constantemente nos matraqueia. Procurei imagens do monstro e encontrei as que estão em cima.

 

“… Chamam-lhe debulhadora…………… Vista de fora, é uma grande caixa de madeira sobre rodas de ferro, ligada por uma correia a um motor que trepida, estrondeia, retumba e, com perdão, fede. Pintaram-na de amarelo gema de ovo, mas a poeira e o sol bruto quebraram-lhe a cor, e agora mais parece um acidente do terreno, ao lado doutros que são os frascais, e com este sol nem se distingue bem, não há nada que esteja quieto, é o motor a saltar, a debulhadora a vomitar palha e grãos, a correia frouxa a oscilar, e o ar vibrando como se todo ele fosse o reflexo do sol num espelho agitado no céu por mãozinhas de anjos que não têm mais que fazer. Há uns vultos no meio desta névoa. Estiveram todo o dia nisto, e ontem, e anteontem, e mais para trás, desde que a debulha começou…………………. Dormem na eira, na revessa dos fardos, mas é noite fechada quando o motor se cala e ainda vem longe o sol quando se ouve o primeiro tiro daquela besta que se alimenta de bidões dum líquido preto e pegajoso, e depois, todo o santo dia, diabos o levem, matraqueia os ouvidos…………………….A boca da máquina é um vulcão para dentro, um gasgarro de gigante………………………………….. giram como doidos naquela perdição de palha miúda, …………………………….. e a máquina é como um poço sem fundo. Só falta meter-lhe um homem dentro. ……………………………….. É a moinha aquele monstro sem peso, aquela palha poalha que se infiltra pelas ventas e as entope, que se mete por tudo quanto é abertura da roupa e se agarra à pele, uma pasta de lama, e a comichão, senhores, e a sede. A água que se bebe do quartão não tarda que fique mole, doentia, …………………………………Vai o moço para a moinha, recebe-a na cara como um castigo, e o corpo começa de mansinho a protestar, para mais não me sobram as forças, ……………………………………………., e então, de dois feito, o rapaz, que se chama Manuel Espada e voltará a ser falado neste relato, deixa a moinha, chama os companheiros e diz, Vou-me embora, que isto não é trabalhar, é morrer………………. e afinal são apenas quatro rapazes, estes que se afastam movidos por suas razões de quem não tem que pensar em mulher e filhos a sustentar…”

Excertos do capítulo que se inicia na pág.99 do meu livro. Edição Caminho - O Campo da Palavra.

01 maio 2021

28 de Maio “Levantado do Chão” de José Saramago – às 20h00

A abrir

" O que mais há na terra é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda. Será porque constantemente muda: tem épocas do ano em que o chão é verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro. E também vermelho, em lugares que é cor de barro ou sangue sangrado. Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou seu último fim. Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado. Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele. Aos gritos…”

In “Levantado do Chão” de José Saramago

Voltámos

 


Ontem voltámos às sessões presenciais, com catorze entusiastas da leitura. O Cemitério de Pianos, deu o mote. A história do José Luís Peixoto não deixou ninguém indiferente. Houve quem adorasse e defendesse com paixão o seu ponto de vista e houve quem apenas lesse com cuidado e atenção e tivesse dado o tempo por bem empregue. Uns leram simplesmente ao sabor da corrente e outros leram com dificuldade. Houve quem fizesse tentativas várias e andasse para cá e para lá, mas não conseguisse agarrar a história e houve quem não lesse por não se sentir cativado ou por não ter tido acesso ao livro em tempo útil. Uma coisa é certa, a história ficcionada, mas com bases reais, deu pano para mangas e proporcionou mais umas belas horas de convívio e discussão literária.

No final da sessão, a nossa leitora Bia presenteou-nos com um poema dos “Cadernos de Verão”, da autoria do Manuel Nunes. Os interessados podem saber de tudo aqui.

Obrigada mais uma vez aos responsáveis da BSDR-Cascais, que nos garantiram, de novo, todas as condições de higiene e segurança para a realização da sessão.

02 abril 2021

30 de Abril - “Cemitério de Pianos” de José Luís Peixoto - 20h00


 Abro ao acaso e leio: 

“… a outra rua, outras casas. Corro mais depressa para que o tempo passe mais depressa. A cor das casas altas. Os telhados das casas. A minha respiração. Não quero fixar-me na minha respiração. A cor das casas: amarelo torrado, cor de laranja, quase castanho, cor de barro…”

In “Cemitério de Pianos” de José Luís Peixoto

 

18 março 2021

Joe DiMaggio, ídolo de Santiago

Foto da net

Joe DiMaggio (1914-1999), um dos melhores jogadores americanos de basebol de sempre, é uma personagem muito presente no romance "O Velho e o Mar". Oriundo de uma família de emigrantes sicilianos, não seguiu os passos do pai que era pescador e optou por um dos desportos mais queridos na América, o basebol. Representando sempre o New York Yankees, na segunda metade da sua carreira, teve que lidar com graves problemas físicos, relacionados com um esporão ósseo no calcanhar e após uma temporada muito complicada, conseguiu voltar no ano seguinte às exibições de topo. Essa superação fez com que se tornasse um símbolo de força e resistência no seu país. DiMaggio ficou também conhecido socialmente pelo seu curto casamento com Marilyn Monroe. O divórcio, que fez correr muita tinta nos tabloides, fez sobressair o seu carácter elegante e digno, pois sempre se recusou a comentar e alimentar os mexericos daí decorrentes. A esse propósito, Paul Simon fez-lhe uma referência na canção “Mrs. Robinson”, tornada um êxito pela dupla Simon & Garfunkel

“…Where have you gone, Joe DiMaggio?
A nation turns its lonely eyes to you Ooo ooo ooo
What's that you say, Mrs. Robinson?
Joltin' Joe has left and gone away…”

(Simon & Garfunkel - Mrs. Robinson (from The Concert in Central Park)

No romance de Hemingway, Santiago tem como distração as notícias da Liga de Beisebol dos Estados Unidos, sobretudo no que diz respeito ao seu ídolo Joe DiMaggio. As notícias chegam através dos jornais e são tema recorrente na suas conversas com Manolim:

 “…Conta-me do beisebol- pediu o rapaz. Na liga americana são os Yankees, como eu disse- declarou o velho. Hoje, perderam- observou o rapaz. Isso não significa nada, o grande DiMaggio é sempre o mesmo- respondeu o velho…”

E dizia-lhe “… gostaria era de levar o grande DiMaggio a pescar…dizem que o pai dele era pescador. Talvez tivesse sido pobre como nós e percebesse…”   

Nos 3 dias que passa no mar após a pesca do espadarte, Santiago vai monologando e refere-se várias vezes ao basebolista:

 “… É o segundo dia de que não sei os resultados dos juegos, pensou. Mas preciso de ter confiança e devo ser digno do grande DiMaggio que tudo faz perfeitamente, mesmo com a dor de espora de osso no calcanhar. O que será espora de osso?...”

“…Julgas que o grande DiMaggio seria capaz de ficar com um peixe tanto tempo como eu com este? Tenho a certeza de que seria, e mais, pois que é jovem e forte. O pai dele era pescador. Mas a espora dor-lhe-i muito?...”

“… mas acho que o grande DiMaggio se orgulharia hoje de mim. Eu ‘não tinha esporas de osso’. Mas as mãos e as costas doem de verdade.- Que será uma ‘espora de osso’?, pensou. Talvez seja coisa de ter-se sem se saber…”

E quando mata o primeiro tubarão, “… Preciso de pensar. Porque nada mais me resta. Isso e o basebol. Gostava de saber se o grande DiMaggio gostaria da maneira como lhe acertei nos miolos. Não foi grande coisa. Qualquer o faria. Mas não achas que o estado das minhas mãos equivale às ‘espuelas’? Não posso saber, nunca sofri do calcanhar…”

e mais à frente a propósito do pecado, “…Não penses no pecado. É tarde demais para isso e há gente paga para pensar nele. Eles que pensem. Tu nasceste para pescador, como os peixes para serem pescados. S. Pedro era pescador, como o pai do grande DiMaggio…”

E tal como Joe DiMaggio na sua luta contra o esporão ósseo do calcanhar, também Santiago na sua aventura de 3 dias no mar, deu provas de força e resistência, quer na pesca do espadarte, quer na defesa do mesmo contra o ataque dos tubarões...

03 março 2021

"O Velho e o Mar", em versão animada


Em 1999, o realizador russo Aleksandr Petrov, produziu uma brilhante curta metragem de animação, baseada no romance “O Velho e o Mar”. Absolutamente maravilhoso!


02 março 2021

26 de Março - ”O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway



Abri ao acaso e li:

“… As nuvens por cima de terra erguiam-se agora como serranias, e a costa era apenas uma longa linha verde com os montes azuis-cinzentos por detrás. A água era agora de um azul-escuro, tão escuro que era quase púrpura. Ao olhar para o interior das águas via o vermelho peneirar do plâncton nas águas sombrias e a estranha luz que o sol fazia. Observava as linhas, para vê-las sumir-se da vista pela água abaixo, e sentia-se feliz por ver tanto plâncton, o que significava peixe. A estranha luz do sol nas águas, com o sol já mais alto, queria dizer bom tempo, e o mesmo dizia a forma das nuvens sobre a terra. Mas o pássaro estava quase a perder-se ao longe, e nada aparecia à superfície das águas senão alguns sargaços amarelos e queimados do sol, e a purpurínea, pomposa, iridescente, gelatinosa vela de um argonauta flutuando junto do barco. Deitou-se de lado e depois endireitou-se. E flutuava consoladamente como uma bolha, com os seus longos e mortais filamentos cor de púrpura vogando um metro atrás na água…”

In ”O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway– Edição “Livros do Brasil” Lisboa, pág.40


As sessões presenciais continuam suspensas, mas os livros estão disponíveis por aí para serem lidos…

27 fevereiro 2021

A realidade das "Vinhas da Ira"

Foto daqui

Foto by_Dorothea_Lange

Foto by_Dorothea_Lange

Foto RTP "Vinhas da Ira"

John Steinbeck quis viver na primeira pessoa, a realidade que depois inseriu no seu romance. Seguiu viagem com famílias de migrantes e acampou com alguns deles nos acampamentos do percurso. Daí o realismo impresso à narrativa.

“As Vinhas da Ira” relata-nos de forma crua e dramática, o drama da Família Joad, que após perder a sua casa e a as terras de cultura de algodão, no Oklahoma, parte para a Califórnia, numa viagem de esperança em busca de uma vida melhor. É a história da família Joad como poderia ser a de milhares de outras famílias de agricultores, que nos anos 30 seguiram na procura do mesmo sonho.

A narrativa decorre na sequência da Grande Depressão, quando grande parte do povo americano sofria as suas terríveis consequências. Os graves problemas sociais daí decorrentes e a crise económica, levaram ao desemprego de milhões e à fome.

Assim, uma onda de migração seguiu em longas caravanas em direção à Califórnia, numa jornada penosa, mas ao mesmo tempo solidária. Milhares de famílias reuniram os seus parcos pertences e amontoadas em carros, camionetas e tudo o que tivesse 4 rodas, seguiam um trajeto idêntico parando em acampamentos miseráveis para descanso, onde quem nada tinha, tudo repartia.

Chegados à Califórnia o sonho tornava-se num pesadelo. A exploração da mão de obra barata, era a realidade encontrada.

Em cima, as fotos são testemunhos reais das grandes migrações da população.

12 fevereiro 2021

"THE GHOST OF TOM JOAD" (Bruce Springsteen e Tom Morello)


Agora que estamos a ler As Vinhas da Ira...

THE GHOST OF TOM JOAD

Men walkin' 'long the railroad tracks
Goin' someplace there's no goin' back
Highway patrol choppers comin' up over the ridge

Hot soup on a campfire under the bridge
Shelter line stretchin' 'round the corner
Welcome to the new world order
Families sleepin' in their cars in the Southwest
No home no job no peace no rest

The highway is alive tonight
But nobody's kiddin' nobody about where it goes
I'm sittin' down here in the campfire light
Searchin' for the ghost of Tom Joad

He pulls a prayer book out of his sleeping bag
Preacher lights up a butt and takes a drag
Waitin' for when the last shall be first and the first shall be last
In a cardboard box 'neath the underpass
Got a one-way ticket to the promised land
You got a hole in your belly and gun in your hand
Sleeping on a pillow of solid rock
Bathin' in the city aqueduct

The highway is alive tonight
Where it's headed everybody knows
I'm sittin' down here in the campfire light
Waitin' on the ghost of Tom Joad

Now Tom said Mom, wherever there's a cop beatin' a guy
Wherever a hungry newborn baby cries
Where there's a fight 'gainst the blood and hatred in the air
Look for me Mom I'll be there
Wherever there's somebody fightin' for a place to stand
Or decent job or a helpin' hand
Wherever somebody's strugglin' to be free
Look in their eyes Mom you'll see me

Well the highway is alive tonight
But nobody's kiddin' nobody about where it goes
I'm sittin' down here in the campfire light
With the ghost of old Tom Joad


04 fevereiro 2021

O cágado (que nasceu com o rabo virado para a lua)

 

(Imagem da net)

 “…Depois surgiu um caminhão ligeiro, e, ao aproximar-se, o motorista, vendo o cágado, desviou-se no intuito de o atropelar. A roda da frente apanhou a orla da concha, atirou com o animal ao ar com a rapidez de um relâmpago e fê-lo rodopiar, como se fosse uma moeda, para fora da estrada. O camião manobrou a fim de retomar a direita. Deitado de costa, o cágado manteve-se muito tempo dentro da concha. Mas, por fim, as pernas oscilaram no ar, à procura de uma coisa onde pudessem firmar-se. O pé dianteiro agarrou-se a um pedaço de quartzo e, pouco a pouco, o cágado conseguiu voltar-se…”

In “As Vinhas da Ira” de John Steinbeck, capítulo III


Acabo de ler o Capítulo III do romance, onde nos deparamos com um episódio quase alucinante que nos descreve o esforço épico de um cágado para subir a uma estrada, atravessá-la e chegar vivo ao outro lado. Quando cheguei ao fim do capítulo, dei um suspiro tremendo e percebi que tinha estado a suster a respiração enquanto lia sofregamente o epílogo daquela louca aventura. Tenho para mim que este cágado não vai ficar por aqui…

01 fevereiro 2021

“As Vinhas da Ira” de John Steinbeck – livro de Fevereiro

Tudo aponta, para que também não haja sessão presencial em Fevereiro. Que isso não nos impeça de acompanhar a família Joad, na sua longa viagem entre o Oklahoma e a Califórnia, numa tentativa desesperada de encontrar trabalho e um lugar onde possam recomeçar a viver.

28 janeiro 2021

TOM SWIFT



 Tom Swift (mais um Tom) é um personagem de livros de ficção para a juventude, criado por Edward L. Stratemeyer (1862-1930),  escritor americano prolífico, fundador da editora Stratemeyer Syndicate, pioneira na criação e divulgação em massa de literatura infantil e juvenil. A 1ª série foi publicada entre 1910 e 1941; a 2ª, entre 1954 e 1971; retomada a publicação em 1981, a 3ª série prolongou-se até 1984; uma 4ª e uma 5ª séries surgiram, respetivamente, em 1991/1993 e 2006/2007. É de assinalar que Tom Swift parece ter retomado as suas frenéticas e inventivas atividades em 2019, utilizando, claro, os meios atuais de publicação.  No decorrer desta já tão longa e irregular viagem editorial, os diferentes autores das aventuras ficaram sempre na sombra (e por isso serão eles os escritores fantasma) de dois autores designados mas  fictícios, Victor Appleton e Victor Appleton II. 

(Elementos recolhidos na Wikipédia)

26 janeiro 2021

MATARAM A COTOVIA_ROMANCE GRÁFICO


 Eis que uma segunda leitura de Mataram a Cotovia acabou por ser feita no formato Banda Desenhada, livro que me foi oferecido e que, afinal, apreciei bastante. Embora a sequência siga de perto o texto de Harper Lee, é evidente que se perde muito do conteúdo e do sabor do texto original. Mas gostei da composição gráfica dos personagens, correspondendo bastante à imagem que deles fazia. Considero que não é de desprezar, mesmo do ponto de vista literário, esta interpretação de To Kill a Mockingbird, publicado em 2018 na Grã Bretanha pela mesma editora responsável pela publicação original em 1960 e que nos chega, traduzida para português, através da Relógio D'Água, em 2019.

22 janeiro 2021

O “The Gray Ghost”, no "Mataram a Cotovia"

(Imagens da net)

A primeira tentativa de incursão à casa dos Radley, por Scout, Jem e Dill, aconteceu porque o Dill apostou o seu livro “The Gray Ghost” contra dois “Tom Swift” do Jem, em como ele não conseguiria ultrapassar o portão da referida casa. Aposta muito tentadora para Jem que mesmo assim demorou 3 dias a decidir-se. Aí começaram as aventuras das 3 crianças em torno do misterioso Boo Radley. O mesmo Boo que tem um papel fundamental no epílogo do romance.  

Mesmo no final de “Mataram a Cotovia”, o “The Gray Ghost” volta a aparecer. Após os terríveis acontecimentos dessa noite, Atticus que está a velar o sono de Jem, agarra no livro que estava por perto e começa a ler. Scout aparece, e pede para ele ler em voz alta. Atticus começa por recusar, por achar a história assustadora, mas Scout insiste dizendo que não tem medo. Aconchega-se e embalada pela voz do pai, pelo conforto do quarto e pelo barulho suave da chuva vai adormecendo. Quando Atticus a leva ao colo para a cama, ela vai murmurando:

“…Ouvi tudo o qu’ disseste – murmurei - … não estava a dormir, é sobre um barco e o Fred Três Dedos e o Stoner’s Boy…

Ele desapertou-me o macacão, encostou-me a si e despiu-mo. Depois segurou-me com uma mão enquanto pegava no pijama com a outra.

- Pois, e depois eles pensavam qu’ era o Stoner’s Boy quem estragava tudo no clube e espalhava tinta por toda a parte….

Levou-me para a cama e sentou-me nela. A seguir levantou-me as pernas e meteu-me debaixo das cobertas.

E vai daí eles perseguiram-no, só qu’ nunca o apanhavam porque não sabiam como ele era, e, depois Atticus, quando eles o encontraram, afinal não tinha sido ele qu’ tinha feito aquelas coisas… Atticus ele era mesmo bom…

As suas mãos estavam por baixo do meu queixo, puxando as cobertas e aconchegando-as à minha volta.

- A maior parte das pessoas são assim, Scout, quando finamente as conhecemos.

Desligou a luz e foi para o quarto do Jem. Sabia que ele ia ficar lá a noite toda e lá estaria ainda quando o Jem acordasse.”

 

E terminamos assim, com o herói Stoner’s Boy a moldar-se à imagem do Boo Radley. Ou será que é o contrário?

15 janeiro 2021

QUISERAM OS FADOS

QUISERAM OS FADOS não haver condições para escutarmos juntos o cantar da gentil cotovia. Por mim, já estou feito à ideia e só penso n´ As Vinhas da Ira do próximo mês. Anseio por reencontrar Rosa de Sharon, a personagem de que mais gostei.

Flor dos cânticos de Salomão, segui-te

dos campos de Oklahoma

aos vergéis sombrios de além Colorado.

Querias uma vida nova,

um marido amável

e uma casa branca com frigorífico na cozinha.

(…)

Entretanto, aqui fica a cançãozinha da cotovia. Coitadinha, ali no meio daqueles passarões!



06 janeiro 2021

ATTICUS, Noisettes

To kill a mockingbird
Is to silence the song
That seduces you
Why?
'Cause you need that desire in your heart to survive
And you need that burning fire in your soul to know
You're still alive
To catch me when I fall
Or did I dive at your delight?

In my heart I can fly
And I cannot disguise my love
There is no time
And I wouldn't know how
Constellations tonight
Are so fiercesomely bright, my love
I have no fear
I am Atticus now

Remember what I lost like hot coals in my hand from days gone by
Like Pandora adored the euphoria as her heart raced
Like love lost you've got to try even in vain
Feels like you'll go insane
But you're the hardest instrument that I've ever had to play

In my heart I can fly
And I cannot disguise my love
There is no time
And I wouldn't know how to
Constellations tonight
Are so fiercesomely bright, my love
I have no fear
I am Atticus now

So why don't we fall into the waves?
Can't you see how my heart yearns to misbehave?

In my heart I can fly
And I cannot disguise my love
There is no time to
And I wouldn't know how
Constellations tonight
Are so fiercesomely bright, my love
I have no fear left
'Cause I am Atticus now

So why don't we fall into the waves?
Can't you see how my heart yearns to misbehave?


02 janeiro 2021

“Mataram a Cotovia” de Harper Lee (Livro de Janeiro)


 A abrir

“Quando estava prestes a completar treze anos, o meu irmão Jem fraturou gravemente o braço na zona do cotovelo. Quando recuperou, e os seus receios de nunca mais poder jogar futebol foram postos de parte, raramente tomava consciência da sua lesão. Porém, o seu braço esquerdo ficara um tanto ou quanto mais curto do que o direito; quando estava parado, de pé, ou a caminhar, a palma da sua mão ficava mesmo perpendicular ao corpo, com o polegar paralelo à coxa. Mas isso não o incomodava, desde que conseguisse fazer passes e rematar…”

In “Mataram a Cotovia” de Harper Lee

01 janeiro 2021

Feliz Ano Novo!

 

(Foto minha, Serra de Sintra, 2019)

Recomeça

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Sísifo de Miguel Torga

29 dezembro 2020

E 2020 chega ao fim… sem deixar muitas saudades

Ilustração de Jonathan Wolstenholme

Dois mil e vinte está a chegar ao fim e com ele mais um ano de leituras para esta Comunidade.

Em retrospetiva, percebemos que foi um ano muito estranho e fora de comum, tudo por conta de uma virose coletiva. Adiante se verá… 

O primeiro trimestre do ano “(re)-leituras”, foi intenso!

Em Janeiro, Ferreira de Castro e “A Selva”, transportaram-nos à exuberância da selva amazónica e à vida penosa dos seringueiros, já em tempo de declínio da comercialização da borracha. Descobrimos todo um exótico mundo novo, modos de vida surpreendentes e um léxico praticamente desconhecido, como “gaiolas”, “igarapé”, “pirão”, “brenha”, “parintintins” ou “cunhantã” entre outros. 

Em Fevereiro, chegou Agustina com “A Sibila” e um universo rural e predominantemente feminino, levando-nos a descobrir uma galeria de mulheres decididas, de personalidades distintas, mas todas perseguindo e atingindo objetivos muito precisos. 

Ainda neste mês, celebrou-se o dia internacional da Língua Materna e a Câmara Municipal de Cascais promoveu o facto, publicando um vídeo alusivo, que contou com a participação de 2 elementos desta Comunidade, através da leitura de 2 poemas da Sophia de Mello Breyner: "Com Fúria e Raiva" e  "Habitação". 

O mês de Março de 2020, que ficará na história da humanidade, até começou bem, com uma visita à Exposição de Álvaro Pirez d’Évora, no MNAA. 

Em seguida mergulhámos todos numa espécie de realidade paralela ou filme da Twilight Zone, com a explosão da pandemia Covid’19, provocada por um Vírus que ficou famoso e cujo nome nos faz tremer nas bases: o Corona. 

Para combater o confinamento obrigatório, Jorge Amado, Jubiabá e as histórias da história de António Balduíno, foram uma ajuda preciosa. Com a Biblioteca fechada e a proibição de reuniões com um grande número de pessoas, não houve sessão presencial, mas conseguimos manter contacto e trocar ideias através das redes sociais, que se revelaram ótimas para situações como estas. Penso mesmo que, por conta do Corona, o nosso blogue ficou mais rico… 

O segundo trimestre – Eça & Cª, prometia…

Assim, com o estado de emergência em vigor e confinados cada um a sua casa, o mês de Abril trouxe-nos Eça de Queirós e o seu “Conde d’Abranhos”, personagem que descobrimos através dos maiores encómios do seu secretário Z. Zagalo:  “Alípio Severo Abranhos, Conde d'Abranhos…varão eminente, Orador, Publicista, Estadista, Legislador e Filósofo”. Na realidade e após a leitura, o que se revelou foi um político pobre de espírito, incompetente, oportunista, lambe-botas e vira-casacas.

Neste mês continuou a não ser possível uma sessão presencial, pelo que usámos a tecnologia disponível e reunimos em formato teleconferência. Correu muito bem e só nos faltou a partilha dos habituais bolinhos e bolachinhas. 

No mês de Maio, ainda confinados, voltámos a reunir via Zoom, para discutir a “A educação sentimental” de Gustave Flaubert, seguindo o percurso do jovem egocêntrico Frédéric Moreau. 

Entre Junho e Outubro suspendemos as sessões da Comunidade. A impossibilidade de reunir presencialmente, alguma dificuldade de acesso às plataformas digitais e outras questões relacionadas com a pandemia (sobretudo um cansaço coletivo muito desmotivador), assim o ditaram. No entanto, a maior parte dos leitores continuou com as leituras agendadas.  Assim, Balzac, Roth, Atwood e Steinbeck fizeram-nos companhia durante tempos difíceis. Os livros são sempre uma opção vencedora! 

Com a boa vontade dos responsáveis pela nossa Biblioteca, que num esforço feliz garantiram as condições de segurança e higiene necessárias, realizámos finalmente uma sessão presencial no dia 6 de Novembro, onde pudemos contar com a presença de 17 dos membros da Comunidade. O romance “Pão de Açúcar” do jovem escritor Afonso Reis Cabral, que estava alinhado para Outubro, foi o mote para o animado reencontro e abertura do 4º Trimestre, dedicado a “Recém-Laureados”. 

A 27 Novembro, mais uma feliz sessão presencial com 18 elementos, que se debruçaram sobre a personalidade de Olga Tokarczuk e o seu surpreendente e fragmentado “Viagens”. Um desconcerto em movimento contínuo sem nunca olhar para trás, numa nómada digressão pelo espaço e pelo tempo, é o que me ocorre dizer.

Fruto de discussão e propostas entre leitores, ficou ainda definido nesta sessão, o Plano de Leituras para 2021. 

E continuando em modo presencial, Dezembro, por norma o mês mais mágico do ano, trouxe-nos “As Pálidas Colinas de Nagasáqui” de Kazuo Ishiguro. Um romance que provocou reações diversas entre os leitores. Uns, gostaram, outros, não. Leituras diferentes para uma escrita um pouco melancólica, mas muito bonita (digo eu) que, neste caso, apresenta diversas pontas soltas e muitas questões sem resposta. Intencional por parte do escritor? Certamente que sim e daí as diferentes leituras e apreciações. 

E assim 2020 chega ao fim, a deixar poucas ou mesmo nenhumas saudades. E não falo das nossas leituras!

Avancemos para o novo Ano com otimismo e esperança em dias melhores. 

Feliz Ano Novo!

23 dezembro 2020

Feliz Natal!


Bing Crosby & David Bowie - "The Little Drummer Boy (Peace On Earth)"

Este é o meu postal de Natal para todos: o meu vídeo musical de natal preferido. O diálogo inicial é delicioso e a interpretação que se segue, sublime!
 
Feliz Natal!

17 dezembro 2020

Nagasáqui, Parque da Paz

 

Parque da Paz em Nagasáqui (foto daqui)

“…Os ornamentos típicos, como arbustos e fontes, tinham sido reduzidos ao mínimo, o que transmitia uma sensação de austeridade, com o relvado plano, o extenso céu de Verão e o monumento em si mesmo - uma estátua branca, enorme, em memória das pessoas mortas pela bomba atómica - a dominar todo o recinto.

A estátua parecia um deus grego musculado, sentado com os braços abertos. Com a mão direita apontava para o céu, de onde a bomba tinha caído. Com o outro braço, estendido para a esquerda, estava supostamente a suster as forças do mal. Tinha os olhos fechados em oração.

Sempre tive a sensação de que a estátua tinha um aspeto bastante desajeitado e nunca consegui associá-la ao que aconteceu no dia em que a bomba caiu, nem aos dias terríveis que se seguiram…”

In “As Pálidas Colinas de Nagasáqui”, parte dois, capítulo 8

Ao longo do romance aparecem algumas referências à bomba atómica, mas quase que de forma subtil, como se isso interessasse pouco para o desenrolar do história. Puro engano, digo eu, as influências do ataque nuclear e da guerra estão lá em cada linha, cada parágrafo...


06 dezembro 2020

"AS PÁLIDAS COLINAS DE NAGASÁQUI" (1982) - ALGUNS TÓPICOS

O romance de Kazuo Ishiguro deixa  várias interrogações ao leitor: – Qual o destino de Sachiko e sua filha Mariko? Que vida era a de Niki em Londres e, sobretudo, a de Keiko em Manchester? Qual o sentido profundo das inquietantes recordações de Etsuko, narradora e protagonista?

O romance desenvolve-se em dois planos de tempo e espaço: o do tempo presente (Inglaterra),  fim da década de setenta ou princípios da de oitenta; e o do tempo recordado (Japão), um certo Verão dos primeiros anos do pós-guerra.

É clara ao longo da história a oposição entre os valores do Japão tradicional e os da sociedade que se seguiu à rendição, o interesse pela América triunfante e a sua cultura – como se vê pelo confronto entre Ogata-San e Shigeo Matsuda (Capítulo 9 da Parte Dois) e a persistente atracção de Sachiko pelo “sonho americano”, pela grande nação onde a filha poderia vir a ser uma mulher de negócios ou uma actriz bem sucedida.

A penetração da cultura americana no Japão destroçado (há referências ao ataque nuclear e às suas consequências) está igualmente presente no segundo romance de Ishiguro, Um Artista do Mundo Flutuante (1986), num episódio de 1948 em que o neto do narrador, nas suas brincadeiras, adopta a figura de um cowboy (Lone Ranger), desprezando os ensinamentos heróicos dos antigos samurais.

----- E agora, lançados estes tópicos, dizei, leitores, como vão as vossas leituras.

 

01 dezembro 2020

“As Pálidas Colinas de Nagasáqui” de Kazuo Ishiguro – 18 de Dezembro às 20h00


A abrir:

“Niki, o nome que finalmente demos à minha filha mais nova, não é um diminutivo; foi um acordo a que cheguei com o pai dela. Porque, por mais paradoxal que possa parecer, foi ele que quis que ela tivesse um nome japonês, ao passo que eu – talvez por um qualquer desejo egoísta de não ter de recordar o passado – insisti que o nome fosse inglês. Acabámos por concordar com Niki, talvez por acharmos que tinha um vago tom oriental…”

In “As Pálidas Colinas de  Nagasáqui” de Kazuo Ishiguro


28 novembro 2020

PLANO DE LEITURAS 2021

Duas Raparigas Lendo (1934), de Pablo Picasso 

1º trimestre: 29 de Janeiro, 26 de Fevereiro e 26 de Março

«Escuto a América a cantar, as várias canções que escuto» - WALT WITHMAN

- Não Matem a Cotovia, de Harper Lee

- As Vinhas da Ira, de John Steinbeck

- O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway

2º trimestre: 30 de Abril, 28 de Maio e 25 de Junho

«Última flor do Lácio, inculta e bela» - OLAVO BILAC

- Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto

- Levantado do Chão, de José Saramago

- Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo

3º trimestre: 30 de Julho, 27 de Agosto e 24 de Setembro

«Bem próvida a natura quando alteou / Entre nós e os tudescos / Dos fortes Alpes o limite duro» - FRANCESCO PETRARCA

- O Leopardo, de Tomasi di Lampedusa

- O Nome da Rosa, de Umberto Eco

- Se numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino

4º trimestre: 29 de Outubro, 26 de Novembro e 17 de Dezembro

«A única coisa que nos resta diante dessa inelutável derrota a que chamamos vida, é tentar compreendê-la. Eis aí a razão de ser da arte do romance» - MILAN KUNDERA

- A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol, de Haruki Murakami

- O Mar, o Mar, de Iris Murdoch

- O Triunfo dos Porcos, de George Orwell


24 novembro 2020

LIÇÃO DE ANATOMIA

 ADRIAEN BACKER, Lição de Anatomia do Dr. Frederik Ruysch (1670)

«O pintor conseguiu captar na expressão facial do jovem Ruysch a autoconfiança aliada à astúcia de comerciante. O corpo retratado está pronto para ser dissecado; em poucas palavras, o cadáver do homem ainda novo é fresco; parece estar vivo - a pele é de uma cor rosada e leitosa e em nada faz lembrar um cadáver; o joelho dobrado parece o movimento de um homem que, deitado nu e de costas, instintivamente tenta tapar as partes vergonhosas do corpo ante os olhares de estranhos. Trata-se do corpo de um enforcado, o ladrão Joris van Iperen.» - OLGA TOKARCZUK, Viagens, p. 189.  

21 novembro 2020

JOSEPHINUM, VIENA

O museu Josephinum foi construído entre 1783 e 1785 para a Academia de Medicina e Cirurgia e expõe modelos de cera do corpo humano.



Viagens, de Olga Tokarczuk, dedica-lhe o fragmento "Colecções de Modelos de Cera". A descrição impressiona, certamente não mais que as peças vistas ao vivo. «Sentei-me junto à janela, num banco duro, diante da multidão silenciosa de modelos de cera e, exausta, deixei que uma onda de comoção me invadisse. Que músculo é este que me dá um nó na garganta? Como se chama? Quem inventou o corpo humano? E, nesta sequência, quem detém sobre ele os eternos direitos de autor» (p. 111). Uma comoção de dúvidas em que  não cabem verdades absolutas. 
 

19 novembro 2020

FALAR DE AEROPORTOS

 

«Tal faz com que, na Psicologia da Viagem, tenha surgido ultimamente a ideia da sua supremacia sobre os outros ramos, chegando-se ao ponto de se defender que não pode haver outra Psicologia a não ser a Psicologia da Viagem.»

-- OLGA TOKARCZUK, Viagens


Tocado pela escrita da nossa autora deste mês, venho falar de aeroportos.

Duas experiências apenas, pontuais e insignificantes. Quantas de bem mais robusto interesse não terão para contar as nossas leitoras? Ah, a Psicologia da Viagem! Que falem agora, ou então calem-se para sempre.

1ª experiência:

Barcelona, aeroporto d´El Prat de Llobregat, há uma carrada de anos.

Saí pelas 9 horas da manhã de um hotel na Diagonal à boleia de pessoa amiga que ia trabalhar para o seu escritório na zona do aeroporto. Meia hora depois ali estava, só que o meu voo para Lisboa era ao fim da tarde. Porque não fiquei a passear pelas Ramblas ou pelo Paseo Marítimo e me fui meter, com antecedência de oito ou nove horas, naquele antro de partidas e chegadas, de escadas rolantes e vozes multilingues disparadas como balas dos canos estriados dos altifalantes? Quis aproveitar a boleia, foi isso, conversar mais uns minutos com quem me levava, e ali permaneci todo o dia claro com a pequena mala que tinha por bagagem, observando, lendo e rabiscando umas notas sem préstimo. Almocei uma sandes de boa catadura e gosto indiferenciado que me custou um ror de pesetas, saudosa divisa, as moedas mostrando a cara daquele rei que veio a especializar-se em caçadas de elefantes e negócios comissionados. Acho que a certa altura me fartei. Então errei pela vastidão dos espaços, entrei nas casas-de-banho só para me ver aos espelhos, fiz perguntas impertinentes aos balcões das companhias aéreas, tais como qual é o preço de uma viagem para Miami ou com que frequência há saídas para o Rio de Janeiro. Ah, lembro-me bem, vi mulheres belíssimas de todas as cores e feitios. Foi bom, mas para um dia inteiro é cansativo. Fui o primeiro a fazer o check-in, eram 5 horas da tarde.

2ª experiência:

É como que simétrica da anterior. Voo de Lisboa para Veneza, há cerca de um ano.

O avião levantava antes das 7 da manhã, tinha de estar no aeroporto pelo menos uma hora antes. Achei pouco seguro sair de casa (arredores de Lisboa) de madrugada. Pensava que poderia não encontrar táxi ou que, se ajustasse previamente o serviço, o taxista poderia falhar por qualquer razão imprevista. Nunca tinha saído num voo tão madrugador e não queria arriscar-me a ficar em terra: um caso certamente merecedor de análise no âmbito da Psicologia da Viagem. Cheguei ao aeroporto à 1 da manhã, quando cessam os voos de partida e chegada. Depois desta hora tudo se transforma: há carros de aspiração e limpeza em circulação; operários trabalhando com o ruído dos seus berbequins a retirar e a colocar painéis publicitários; há luzes que se apagam ou diminuem de intensidade. Há quem durma nos esconsos do amplo espaço sobre cartões e mantas: passageiros a aguardar viagem ou sem-abrigo em lugar protegido e climatizado? Não cheguei a apurar. Dormir nos bancos é propósito ínvio, tanto pela configuração e incomodidade dos assentos como pelo barulho dos trabalhadores em acção. Desisti de dormir, fiquei a ver o circo. Pelas 3 horas da manhã, uma miúda de vinte e poucos anos veio ter comigo. Estava ali por razões mais ou menos idênticas às minhas: eu aguardava a partida, ela esperava a chegada de um amigo num voo de Cabo Verde, lá para as 5 e tal da manhã. Por essa hora não tinha transporte, então veio para o aeroporto à meia-noite.

“Está à espera de que voo?”

“Estou à espera de partir, vou para Veneza.”

“Ah, Veneza, a minha avó esteve lá no ano passado, não gostou.”

Imaginei a pobre senhora na Praça de São Marcos, cercada de hordas de chins e outros povos estranhos, a circularem aos magotes pelas bordas dos canais e ela em grande perigo de cair à água, desejosa de se ver ao sol de Lisboa e em terra firme do seu bairro.

“O patrão do meu amigo deu-lhe uma semana de férias por ter feito um bom trabalho. Pagou-lhe a viagem. Por outro não estava aqui, mas este amigo merece.”

Não aprofundei, mas cá para mim era amigo colorido. Apreciei a forma como a ele se referia e lembrei-me do nosso rei trovador.

Ai flores, ai flores do verde pino,

se sabedes novas do meu amigo?

Ai Deus, e u é?

Acho que lhe perguntei o nome, gosto de saber o nome dos meus interlocutores, mas se mo disse já o esqueci. A amor é bonito. Uma noite passada no aeroporto também.



09 novembro 2020

“Viagens” de Olga Tokarczurk – 27 de Novembro às 20h00


 Abri o livro ao acaso e deparei-me com a história que se segue

“…

Expedições ao Pólo Norte

Lembrei-me hoje de uma coisa de que Borges se lembrou em tempos – ele lera algures que, nos tempos da construção do império dinamarquês, os padres dinamarqueses anunciavam nas igrejas que todo aquele que participasse numa expedição ao Pólo Norte mais facilmente alcançaria a salvação da alma. Como tal não suscitou muitos interessados, os padres acabaram por admitir que se tratava de uma expedição longa e difícil que não era para todos, mas somente para os mais corajosos. Ainda assim não houve muitos interessados. Por conseguinte, para não perder a face, os padres rectificaram o seu anúncio – em verdade, toda e qualquer viagem podia ser considerada como expedição ao Pólo, até mesmo uma excursão ou um passeio de charrete pela cidade.

Hoje em dia, certamente, até podia ser uma viagem de metro.

…”

In “Viagens” de Olga Tokarczurk

 

Agora vou voltar ao início e começar em modo “Existo”…

08 novembro 2020

REGRESSO ÀS SESSÕES PRESENCIAIS

Assim foi disposta a sala polivalente para a nossa sessão da passada sexta-feira. Em discussão o romance Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral. Os leitores sentaram-se cadeira sim, cadeira não, cumprindo todas as normas de segurança da Direcção Geral de Saúde. Compareceram 17, não longe dos 25 da média de presenças em tempo normal.

Agradecemos aos coordenadores e demais pessoal da Biblioteca Municipal de São Domingos de Rana a organização física da sessão e todo o carinho que têm dispensado às actividades da Comunidade de Leitores.

02 outubro 2020

“Pão de Açúcar” de Afonso Reis Cabral - 6 de Novembro às 20h00 (Data e horas atualizadas)

Abri e calhou o capítulo 14 que começa assim:

 “Espreitei para dentro da barraca e encontrei-a a dormir. Pendurei o saco de pão na porta, como na aldeia, e atirei a mangueira para a gravilha. Levava uma surpresa na mochila.

Era bom chegar ao Pão de Açúcar, nervoso por a encontrar, antecipando como reagiria às prendas que lhe levava, o tal arroz, água, chocolates, e saber que afinaria a voz, por norma mais grossa, num “Obrigada menino” que soaria verdadeiro.

Enquanto dormia, meti-me ao trabalho.

Tirei da mochila vários rolos de papel higiénico que roubei da Pires de Lima e dos cafés entre a Oficina e o Campo 24 de Agosto. Não podia sacá-los da oficina porque cada um roubava o seu e o dos outros. Os sabonetes também…”

In “Pão de Açúcar” de Afonso Reis Cabral.

As sessões presenciais estão de volta, sujeitas a confirmação prévia e às normais condições de segurança e higiene. Aplausos à nossa Biblioteca!

08 setembro 2020

3º Trimestre – América!

 

Os meses sucedem-se ritmados e o terceiro trimestre está a chegar ao fim. Dos três livros em agenda (Julho - Philip Roth / Casei com um Comunista, Agosto - Margaret Atwood / Semente de Bruxa e Setembro - John Steinbeck / Viagens com o Charley), foi este último que me deu mais prazer na leitura. Deixou-me a sonhar com a sua Rocinante e a possibilidade de ir um dia pela estrada fora, sem destino certo e a parar ao sabor do momento.

(As sessões presenciais continuam suspensas, mas os livros estão por aí, à espera de serem lidos…)

02 junho 2020

"O Tio Goriot" de Honoré de Balzac



Goriot, um pobre homem que, em função do seu tresloucado amor pelas filhas, tudo lhes dedica até aos últimos momentos de vida, sem nunca receber qualquer retribuição.

O ambiente de uma despretensiosa quase miserável pensão familiar, a Casa Vauquer, onde diversas personagens tudo fazem valer, para sobreviver na degenerada sociedade parisiense do século XIX.