27 maio 2020

Sessão de Maio, em modo virtual (Zoom) – 29 Maio-21h00



Caros Amigos Leitores

Neste mês de Maio, continuamos sem poder realizar uma sessão presencial, pelo que, mais uma vez, realizaremos a mesma via Zoom.

Contamos convosco para as habituais partilhas de leitura, desta vez com Flaubert e a sua Educação Sentimental.


25 maio 2020

PELLERIN, UM PINTOR EM "A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL"

A personagem de Pellerin como pintor medíocre e incoerente é uma das boas criações de Flaubert em A Educação Sentimental. Um grande romance vive também destas personagens secundárias que despertam o riso ou a piedade dos leitores e cujos episódios servem para retardar e complicar o desenvolvimento da acção principal.   
Apresentado no capítulo quarto da primeira parte como estudioso de «todas as obras de estética para descobrir a verdadeira teoria do Belo», a sua maneira de viver é descrita sumariamente da seguinte forma: «Pellerin deitava-se tarde, e era um frequentador assíduo de teatros. Era servido por uma velhota andrajosa, jantava numa tasca e vivia sem amante». A descrição é depois alargada a mais algumas considerações: «Os seus conhecimentos, adquiridos ao sabor do acaso, tornavam os seus paradoxos divertidos. O ódio contra o comum e o burguês extravasava-se em sarcasmos de um lirismo soberbo, e tinha pelos mestres uma tal religião que ela o elevava quase até eles».
É este Pellerin que no capítulo seguinte dá lições de pintura ao jovem Frédéric Moreau num momento em que o recém-chegado a Paris, para se aproximar do ofício de marchand de arte do marido de Marie Arnoux, é tomado pela ideia de se fazer pintor. No mesmo capítulo, em casa do seu pupilo, tem uma discussão sobre estética com o socialista Sénécal. Para o revolucionário, a única arte válida é a que visa a «moralização das massas», assente na escolha de temas que evidenciem a exploração e a miséria do povo trabalhador, enquanto Pellerin está mais do lado da autonomia da arte, defendendo não haver temas obrigatórios em função de objectivos de ordem social ou política.
O pintor está ainda associado à factura de um retrato de Rosanette, que ele pensa poder vir a ser a sua obra-prima, de que Frédéric Moreau, futuro amante da retratada, é o encomendador.
Muito curioso, por revelar a versatilidade criadora, um quadro seu adquirido pelo capitalista Dambreuse representava a República ou a Civilização, sob a figura de Jesus Cristo, conduzindo uma locomotiva através de uma selva virgem. 

18 maio 2020

GUSTAVE FLAUBERT, "A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL" - Leitura do mês -


No final da segunda parte do romance, um bilhete enviado por Deslauriers a Frédéric Moreau diz o seguinte:
«Meu velho,
A pêra está madura. Conforme a tua promessa, contamos contigo. Reunimo-nos  amanhã cedinho, na praça do Panthéon. Entra no café Soufflot. Tenho de te falar antes da manifestação.»
Estava-se em vésperas dos acontecimentos revolucionários de 1848 e esta pêra não era outra que Luís Filipe I, o rei burguês, cuja cabeça os caricaturistas desenhavam em forma de pêra, como na conhecida gravura de Honoré Daumier (1808-1879), O Rei de França como Gargântua.
No traço do artista – que lhe valeu a prisão – o rei é representado segundo a figura do insaciável Gargântua, personagem de Rabelais, recebendo continuamente o alimento que os súbditos são forçados a entregar-lhe e saindo-lhe sob o cadeira do trono, como dejectos, as suas leis e disposições antipopulares.
A acção de A Educação Sentimental decorre de 1840 – em pleno período da chamada monarquia de Julho – até ao golpe de Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão, em 1851.
Sobre o golpe de que nasceu o II Império escreveria Marx as frases célebres de O 18 do Brumário de Louis Bonaparte : «Hegel faz notar algures, que todos os grandes acontecimentos e personagens históricos ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.»

08 maio 2020

A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL, capítulo primeiro

L´éducation sentimentale, série de televisão de 1973, com Françoise Fabian (Marie Arnoux) e Jean-Pierre Léaud (Fréderic Moreau). Episódio da viagem de barco entre Paris (Quai Saint-Bernard) e Montereau correspondente ao capítulo primeiro do romance: 
«Foi como uma aparição.
Estava sentada, no meio do banco, completamente só ou, pelo menos, ele não se apercebeu de mais ninguém no deslumbramento que os seus olhos lhe transmitiram. (...)
Tinha um largo chapéu de palha, com fitas cor-de-rosa que, por detrás dela palpitavam ao vento. Os bandós negros, que lhe contornavam as pontas das longas sobrancelhas, estavam muito descaídos e pareciam comprimir amorosamente o oval do rosto.»
E assim se desencadeou uma atracção de grandes consequências no desenvolvimento da narrativa. 

02 maio 2020

"A Educação Sentimental" de Gustave Flaubert - 29 de Maio



“…Com excepção de alguns burgueses, na primeira classe, eram operários e lojistas com as mulheres e os filhos. Como o costume de então era vestir-se sordidamente em viagem, quase todos usavam velhas barretinas gregas, ou chapéus desbotados, fraques pretos puídos, lustrosos de roçar nas escrivaninhas, ou então sobrecasacas cujos botões forrados se esgarçavam, de tanto terem servido nas lojas; aqui e ali, um colete posto aos ombros como xaile deixava entrever uma camisa de algodão, maculada de café; alfinetes dourados prendiam gravatas esfarrapadas; tiras de pano prendiam aos pés pantufas de feltro; dois ou três vadios, ostentando pingalins com alças de couro, lançavam olhares de esguelha, e chefes de família esbugalhavam os olhos, fazendo perguntas. Conversavam em pé ou sentados nas bagagens; outros dormiam pelos cantos; alguns comiam. Cascas de nozes e de peras, pontas de charuto, restos de chouriço, trazido dentro de papéis, sujavam o tombadilho; três marceneiros, de blusões, estacionavam diante da cantina; um tocador de harpa, esfarrapado, descansava apoiado no seu instrumento; de tempos em tempos, ouvia-se o ruído do carvão de pedra na fornalha, uma voz que se elevava, uma risada; — e o capitão, na ponte, ia sem parar de uma roda à outra. Para voltar ao seu lugar, Frédéric abriu a cancela da primeira classe, passando por entre dois caçadores e os seus cães. 
Foi como uma aparição!

Ela estava sentada, sozinha, no meio do banco…”

In A Educação Sentimental de Gustave  Flaubert

01 maio 2020

MAIS MONTANHA MÁGICA

Fazer o bom uso das doenças. O estado de saúde confere uma sensação de imortalidade, uma obsessão por divertimentos e realizações que não propicia a reflexão e o aperfeiçoamento individual. A doença pode ser uma oportunidade de melhoramento, por mais contraditório que isto possa parecer. Em meados do século XVII, Blaise Pascal escreveu um texto sobre o tema em forma de oração a Deus.
No Hans Castorp d´ A Montanha Mágica está bem presente o pascaliano princípio do «bon usage des maladies». É sob a doença que o jovem engenheiro vive o amor e sente vontade de estudar biologia, ciências médicas e botânica. É neste estado aparentemente limitador que lhe vem a necessidade de iniciação ao pensamento filosófico, procurando formar as suas ideias a partir das discussões presenciadas entre o humanista Ludovico Settembrini e o escolástico Leo Naphta. A comunhão com a natureza, ou seja, com a vida, é outra inclinação que lhe é dada pela sua estadia no sanatório Berghof.
Acabei de ler o subcapítulo “Neve” do sexto capítulo do romance. Hans Castorp aprende a esquiar para melhor conhecer os espaços maravilhosos da montanha. Fá-lo às escondidas do médico-chefe, o conselheiro Behrens, que nunca lhe teria dado autorização para o exercício de desportos físicos. Ele está diagnosticado com um «foco húmido» no pulmão, uma doença grave de evolução imprevisível.
Este subcapítulo é dos mais belos que o romance tem. Verão as colegas leitoras quando lá chegarem.

27 abril 2020

A MONTANHA MÁGICA, novo apontamento

Inácio de Loyola (1491-1556) e Frederico II da Prússia (1712-1786)

Em pleno sexto capítulo de A Montanha Mágica, o leitor é surpreendido com o aparecimento de uma nova personagem: Leo Naphta, jesuíta de origem judia (tal e qual!), filósofo escolástico e grande defensor da essência do espírito contra a carne em trânsito para a putrefacção. Embora fora do sanatório, Leo Naphta encontrava-se em Davos Dorf a tratar-se da tuberculose, deixando em suspenso a sua acção em prol da edificação da Cidade de Deus.
Hans Castorp, o protagonista, ensaia então em pensamento uma comparação entre o militarismo prussiano (a que o seu primo Joachim se entregara, abandonando o sanatório para poder seguir a carreira das armas) e a pragmática dos inacianos. Passagem soberba de pensamento, daquelas que só se encontram nas grandes obras. «Não seria o seminário Stella Matutina [dos Jesuítas, onde Leo Naphta estudara] uma autêntica escola de cadetes em que os pupilos eram distribuídos por "divisões" e exortados a cumprirem honradamente uma disciplina ao mesmo tempo militar e espiritual, constituindo, por isso, uma espécie de combinação de "colarinho engomado" com a "golilha espanhola"? A ideia de honra e de distinção por mérito, tão importantes na profissão de Joachim, não se evidenciavam também de modo notório, como pensava Hans Castorp, na vocação que Naphta tivera que abandonar devido à doença?» E mais adiante: «A doutrina e os preceitos estabelecidos pelo fundador e primeiro general, o espanhol Loyola, levavam a crer que a sua acção era de maior alcance e que prestavam serviços mais meritórios do que aquelas pessoas que agiam apenas em função da razão lógica.» Considerando ainda: «É que combater o inimigo, agere contra, atacar, portanto, significava mais , e era mais honroso, do que defender-se apenas (resistere). Debilitar e desbaratar o inimigo, dizia o regulamento do serviço de campanha, e mais uma vez o seu autor, o espanhol Loyola, estava em perfeita sintonia com o capitan general de Joachim, Frederico da Prússia, e a sua palavra de ordem: " Ao ataque! Ao ataque!", "Destroçar o inimigo!", "Attaquez donc toujours!" Imagina-se o que destas reflexões poderia dizer o humanista e pacifista Ludovico Settembrini, personagem amiga do confronto intelectual, mesmo com os que, como no caso do jesuíta Naphta, lhe eram totalmente opostos em matéria de pensamento.

24 abril 2020

AINDA O CONDE D' ABRANHOS E A NOSSA HISTÓRIA


A páginas tantas de O Conde d' Abranhos: "Hoje, destruído o regimen absoluto, temos a feliz certeza de que a Carta liberal é justa, é sábia, é útil, é sã. Que necessidade há de a examinar, criticar, comparar, pôr em dúvida?...".
A Carta que vigorava na época do Conde e também do Eça, era a 2ª Constituição portuguesa, de 1826, com o nome de Carta Constitucional, conhecida como A Carta. Refletia a reação conservadora contra a Constituição liberal de 1822. Outorgada por D.Pedro I do Brasil, (e IV de Portugal), após a morte de D.João VI, seguia o modelo francês de 1814 e o exemplo de outros países, como Alemanha, Polónia, e o próprio Brasil, cuja Constituição datava de 1824, outorgada pelo mesmo D. Pedro.
Esta Carta tinha introduzido várias medidas anti-democráticas e a Câmara dos Pares, que fazia pendant nas Cortes com a Câmara dos Deputados, era composta por elementos da nobreza e do clero escolhidos pelo rei (por esta altura, D. Luís), "vitalícia e hereditariamente", incluindo o príncipe real e os infantes. O poder moderador pertencia ao rei, que podia nomear os pares, convocar Cortes e dissolver a Câmara dos Deputados, para além de nomear e demitir o governo, vetar as leis, etc. Também lhe pertencia o poder executivo em conjunto com o governo, pertencendo o poder judicial aos juízes e jurados. Um Conselho de Estado, igualmente de nomeação régia, assistia o rei como cabeça do poder moderador.
Com esta disposição, "quase toda a alta nobreza e a totalidade da hierarquia ficavam com lugar permanente no novo Parlamento liberal". A Carta de 1826 agradava às tradicionais classes privilegiadas, para além de incluir, na Câmara dos Deputados os grandes proprietários e burgueses.
É então esta Carta que vai perdurar um total de 72 anos; numa 1ª fase, de 1926 a 1928 e depois, de 1834 até 5 de outubro de 1910, "como texto fundamental do Reino".

MARQUES, A.H.O. 1998. História de Portugal. Vol III. Lisboa: Editorial Presença

Conde d’Abranhos, sessão mensal em modo videoconferência!



Hoje é dia da nossa sessão mensal. Não sendo possível reunir presencialmente, vamos fazê-lo de forma virtual. Todos os membros da Comunidade receberam o convite para participação, por isso contamos com a presença daqueles que tiverem disponibilidade.

Em discussão e análise, a vida de “Alípio Severo Abranhos, Conde d'Abranhos…varão eminente, Orador, Publicista, Estadista, Legislador e Filósofo”, tal como o descreve o seu eloquente secretário Z. Zagalo.

Eça e a sua crítica política feroz, no seu melhor.

22 abril 2020

O CONDE D´ABRANHOS (4)

Lendo O Conde d´Abranhos, podemos identificar o período do Liberalismo em que se insere a carreira política do protagonista, questionando-nos se sob os nomes fictícios de partidos, ministérios e agentes políticos ( Reformadores, Nacionais, ministério Cardoso Torres, o «velho general despeitado» da Revolta de 20 de Junho, etc.) não estarão nomes reais, historicamente conhecidos, de um tempo concreto e preciso. 
O Conde d´Abranhos foi escrito de um fôlego em 1879, durante uma estadia de Eça em Dinan, na Bretanha, embora a publicação só postumamente ocorresse, em 1925. À época da sua escrita, por razões que se adivinham, o editor terá chegado a propor que o livro saísse sem indicação da autoria.
A carreira política de Alípio Abranhos desenrola-se no 3º período do Liberalismo (1851 a 1890), conhecido pelo nome de Regeneração. Trata-se de um período caracterizado por um conjunto de melhorias materiais – rede viária e ferroviária, faróis, portos, telégrafo, fornecimento de água e iluminação – com expansão do sector agrícola mas fraca progressão da indústria. Este programa de desenvolvimento foi denominado Fontismo, devido a Fontes Pereira de Melo, seu inspirador e principal impulsionador.
No plano político destacavam-se os partidos Regenerador, Reformista e Histórico, tendo estes últimos dado origem, em 1876, ao Partido Progressista. As forças partidárias iam alternando no poder, tal como os Reformadores e os Nacionais do romance, sem que entre elas houvesse diferenças significativas, tanto ideológicas  como de prática política. Era o rotativismo.
Desconheço a eventual correspondência histórica do ministério Cardoso Torres, mas tendo a normalidade constitucional da Regeneração sido perturbada por golpes de estado – a revolução da Janeirinha em 1867-1868 e o golpe do Marechal Saldanha em 1870 – o livro de Eça faz eco de tais acontecimentos com o pronunciamento do «velho general despeitado», uma provável representação do marechal Saldanha, chefe militar prestigiado e inveterado golpista.
De notar que o período da Regeneração corresponde no plano cultural ao do segundo Romantismo, execrado e combatido pela escola realista, sendo notórias, neste e noutros escritos de Eça, as sátiras em torno de poemas ultra-românticos de João de Lemos, Soares de Passos e Bulhão Pato.
E assim, temos um romance que ficou na gaveta por mais de quarenta e cinco anos, ultrapassado em data de publicação por obras menos acutilantes do autor, um romance inacabado, sem revisão, o que lhe confere essa característica de peça em bruto, sem rodeios, num registo de quem fala com “o coração na boca” – fundamentalmente pelo discurso laudatório do narrador-biógrafo, convencido de que está a pôr nos píncaros o seu mentor e afinal só lhe descobre as fraquezas, a mediocridade intelectual e as misérias do seu carreirismo político sem honra nem princípios.

[Fontes: www.feq.pt, sítio da Fundação Eça de Queiroz; JOÃO MEDINA, História de Portugal Contemporâneo (político e institucional), Universidade Aberta, 1994.]

16 abril 2020

Luís Sepúlveda (1949-2020) - O fim de um voo...

 
(Foto Bruno Simão)
(Foto dos meus livros)

“Capítulo 4 - O fim de um voo

O gato grande, preto e gordo estava a apanhar sol na varanda, ronronando e meditando acerca de como se estava bem ali, recebendo os cálidos raios de barriga para cima, com as quatro patas muito encolhidas e o rabo estendido.
No preciso momento em que rodava preguiçosamente o corpo para que o sol lhe aquecesse o lombo ouviu o zumbido provocado por um objeto voador que não foi capaz de identificar e que se aproximava a grande velocidade. Atento, deu um salto, pôs-se de pé nas quatro patas e mal conseguiu atirar-se para um lado para se esquivar à gaivota que caiu na varanda.
Era uma ave muito suja. Tinha todo o corpo impregnado de uma substância escura e malcheirosa.
Zorbas aproximou-se e a gaivota tentou pôr-se de pé arrastando as asas.
-Não foi uma aterragem muito elegante - miou.
-Desculpa. Não pude evitar -reconheceu a gaivota.
-Olha lá, tens um aspeto desgraçado. Que é isso que tens no corpo? E que mal que cheiras! -miou Zorbas.
-Fui apanhada por uma maré negra. A peste negra. A maldição dos mares. Vou morrer - grasnou a gaivota num queixume.
-Morrer? Não digas isso. Estás cansada e suja. Só isso. Porque é que não voas até ao jardim zoológico? Não é longe daqui e lá há veterinários que te poderão ajudar -miou Zorbas.
-Não posso. Foi o meu voo final - grasnou a gaivota numa voz quase inaudível, e fechou os olhos.
-Não morras! Descansa um pouco e verás que recuperas. Tens fome? Trago -te um pouco da minha comida, mas não morras - pediu Zorbas, aproximando-se da desfalecida gaivota.
Vencendo a repugnância, o gato lambeu-lhe a cabeça. Aquela substância que a cobria, além do mais, sabia horrivelmente. Ao passar-lhe a língua pelo pescoço notou que a respiração da ave se tornava cada vez mais fraca.
-Olha, amiga, quero ajudar-te, mas não sei como. Procura descansar enquanto eu vou pedir conselho sobre o que se deve fazer com uma gaivota doente - miou Zorbas, preparando-se para trepar ao telhado.
Ia a afastar-se na direção do castanheiro quando ouviu a gaivota a chamá-lo.
-Queres que te deixe um pouco da minha comida? - sugeriu ele algo aliviado.
-Vou pôr um ovo. Com as últimas forças que me restam vou pôr um ovo. Amigo gato, vê-se que és um animal bom e de nobres sentimentos. Por isso, vou pedir -te que me faças três promessas. Fazes? – grasnou, sacudindo desajeitadamente as patas numa tentativa falhada de se pôr de pé.
Zorbas pensou que a pobre gaivota estava a delirar e que com um pássaro em estado tão lastimoso ninguém podia deixar de ser generoso.
-Prometo-te o que quiseres. Mas agora descansa – miou ele compassivo.
-Não tenho tempo para descansar. Promete-me que não comes o ovo - grasnou ela abrindo os olhos.
-Prometo que não te como o ovo - repetiu Zorbas.
-Promete-me que cuidas dele até que nasça a gaivotinha.
-Prometo que cuido do ovo até nascer a gaivotinha.
-Promete-me que a ensinas a voar - grasnou ela fitando o gato nos olhos.
Então Zorbas achou que aquela infeliz gaivota não só estava a delirar, como estava completamente louca.
-Prometo ensiná-la a voar. E agora descansa, que vou em busca de auxílio – miou Zorbas trepando de um salto para o telhado.
Kengah olhou para o céu, agradeceu a todos os bons ventos que a haviam acompanhado e, justamente ao exalar o último suspiro, um pequeno ovo branco com pintinhas azuis rolou junto do seu corpo impregnado de petróleo….”

In “História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar”, de Luís Sepúlveda


15 abril 2020

O CONDE D´ABRANHOS (3)

Nos romances de Eça há recorrências notáveis. Uma delas é o aparecimento de personagens de meninos-prodígios a recitarem poesia. Deveis estar lembrados do Cap. III d´Os Maias, o «tristonho e molengão» Eusebiozinho a mostrar os seus dotes com o poema “A Lua de Londres” do ultra-romântico João de Lemos.
O Conde de Abranhos, a menina Julinha recita o mesmo poema em casa do bestial desembargador Amado, sendo citados quatro versos da primeira estrofe e outros tantos da segunda. Antes, a prodigiosa menina aventurara-se por poesia mais funesta, nada mais, nada menos que “O Noivado do Sepulcro”, de Soares de Passos:
«Vai alta a Lua na mansão da morte,
Já meia-noite com vagar soou…»
É claro que o bom do Eça não refere os títulos dos poemas nem os nomes dos seus autores. Nem tal era preciso, tão conhecidos eram eles dos salões e saraus chiques da época. Os poetas ultra-românticos, os citados e também Bulhão Pato, foram bobos da festa nas narrativas queirosianas. Os portugueses e ainda Lamartine, o criador de Elvira, embora este estivesse uns degraus acima dos românticos serôdios cá do burgo. Cá da «choldra», diria o Eça.

14 abril 2020

O CONDE D´ABRANHOS (2)

Escrevendo em louvor de Alípio Abranhos, Z. Zagalo tem páginas de utilidade e rigorosa actualidade. 
Hoje retomei a leitura naquela parte do livro em que o «varão eminente» está a praticar as técnicas forenses no escritório do famoso jurista Dr. Vaz Correia. Na sua douta explanação, o biógrafo traz à colação a histórica revolta da Maria da Fonte, iniciada no Minho em Março-Abril de 1846 e depois alargada, num crescendo da crise social, a outras regiões do país.
Isto deu-me a oportunidade de ir rever os manuais da universidade, nomeadamente a História de Portugal Contemporâneo – Político e Institucional, de João Medina, na edição da Universidade Aberta.
É bom sinal que um livro de ficção nos leve a descobrir ou relembrar certos temas da nossa história. A boa ficção é uma leitura séria e na maioria dos casos altamente científica.
A revolta da Maria da Fonte fez-se contra o governo ditatorial de António Bernardo de Costa Cabral (1803-1889), um governo que, apesar de ter saído de um golpe de Estado e restabelecido um regime constitucional conservador (a Carta), empreendeu medidas progressistas como a proibição dos enterros nas igrejas e recintos anexos. A reacção popular de cariz religioso a esta medida sanitária (via-se nela o afastamento dos defuntos da asa protectora da Igreja) foi seguida de grandes desacatos com assaltos de camponeses às sedes da administração civil, a arquivos da Fazenda e quartéis, tendo os revoltosos tomado as cidades de Braga e Guimarães.
Diz João Medina: «A Maria da Fonte foi uma reacção sobretudo provinciana, camponesa e agrária contra as reformas em geral do Liberalismo (legislações de Mouzinho, Joaquim A. de Aguiar e Silva Carvalho) e contra alguns aspectos mais modernos da política de fomento material empreendida pela ditadura dos Cabrais e, nesta medida, contra a própria modernização económico-social iniciada desde 1842.»
Claro que esta explosão social e a coligação negativa – como hoje se diz – que se estabeleceu (cartistas anticabralistas, setembristas e até miguelistas) acabou por determinar a destituição de Costa Cabral pela rainha D. Maria II.
Mas voltemos a Z. Zagalo e a Alípio Abranhos (não sei se repararam, mas é como ir de AA a ZZ, um vasto campo, o que talvez não seja inocente…). Era ideia do ilustre pensador político que o regime constitucional democrático deveria prevalecer sobre o autoritário, que essa seria a melhor forma de levar as ovelhas ao redil. Demos a palavra a Z. Zagalo: «O Conde d´Abranhos, com a sua alta intuição, sentiu que se estava preparando uma nova política, que, condizendo com o seu temperamento, seria o elemento natural em que a sua fortuna medraria como num terreno propício. Ele bem sabia que o governo nada perdia do seu poder discricionário – mas que apenas o disfarçava. Em vez de bater uma forte patada no país, clamando com força: – Para aqui! Eu quero! – os governos democráticos conseguem tudo, com mais segurança própria e toda a admiração da plebe, curvando a espinha e dizendo com doçura: – Por aqui, se fazem favor! Acreditem que é o bom caminho!»
Não sei o que estão os nossos leitores a pensar, mas, se calhar, estão a pensar o mesmo que eu.

11 abril 2020

10 abril 2020

Em formato TV


(imagem da série)


Através do nosso leitor José Moreira, chegou-nos a informação desta série de ficção da RTP, baseada na obra de Eça de Queirós, que estamos a ler no mês de Abril.

Se quiserem acompanhar, neste formato, o percurso político de Alípio Abranhos, fica o link para todos os episódios:


07 abril 2020

O CONDE D´ABRANHOS (1)


Falemos d’ O Conde d´Abranhos. Para começar, a carta-prefácio de Z. Zagalo, ex-secretário do «varão eminente» e seu humílimo biógrafo.
Esta carta é assim como um programa da narrativa a apresentar. O leitor percebe logo, e isso não lhe diminui o interesse, com que tipo de discurso se vai deparar. Um discurso laudatório sobre uma personagem pautada pelos valores fundamentais que alegadamente forjaram a grandeza da Pátria.
Portanto, esperamos ver no Conde de Abranhos o seu «ser moral», a sua «filosofia tão profundamente religiosa» e a «vasta ciência política» adquirida, além da profunda devoção à família – nomeadamente à segunda esposa, Dona Catarina, «um bálsamo» para a vida – e o seu reconhecimento aos servidores estrénuos e dedicados como este impagável Z. Zagalo metido a biógrafo da grande figura pública.
Sendo assim, vamos lá à leitura!

01 abril 2020

Abril é mês de "O Conde d'Abranhos" (mesmo sem sessão presencial)




A abrir:

“ALÍPIO SEVERO ABRANHOS nasceu no ano de 1826, em Penafiel, no dia de Natal. A Providência, por um símbolo subtil e engenhoso, fez nascer no dia sagrado em que nasceu Jesus de Nazaré, aquele que em Portugal devia ser o mais forte pilar e o procurador mais eloquente da Igreja, dos seus interesses e do seu reino.

Muitas vezes o Conde se comprazia em contar que, nessa noite de 24 de Dezembro de 1826, Inverno que ficou na história pelas grandes neves que caíram, seus pais – segundo a tradição venerada na família – tinham armado um presépio, como era costume nesses tempos em que a boa fé portuguesa amava a piedosa devoção dos altares íntimos. Ao centro do presépio, florido de muita verdura, entre os animais da narração evangélica, o Menino Jesus sorria, nos braços de uma Virgem, obra delicadamente trabalhada por Antão Serrano, o grande santeiro de Amarante. Em torno, ardiam as velas de cera; na cozinha, cantavam nas frigideiras os rojões da ceia; o lume de lenha húmida estalava jovialmente, e fora, na neve que caía, os sinos repicavam para a missa do Galo – quando a mãe do Conde, subitamente
Sentiu o tenro ser...
como diz o nosso grande lírico no seu poema, A Mãe…"

in “O Conde d’Abranhos” de Eça de Queiroz

Em Abril, continuaremos certamente sem nos podermos encontrar. Que isso não nos impeça, de ler o livro agendado para este mês!

"A MONTANHA MÁGICA". CRUÉIS, FLEUMÁTICOS E ENÉRGICOS

Vou lendo este livro que tem tanto a ver com o momento presente, ainda que nele seja um bacilo e não um vírus a desempenhar o papel da lúgubre Átropos, cortando impiedosamente o fio da vida.
Ludovico Settembrini, homo humanus, visita Hans Castorp no seu leito de enfermo. O jovem está constipado, uma doença secundária porque a principal, um foco húmido no pulmão, é a que lhe foi detectada pelo médico-chefe do sanatório, o conselheiro Behrens.
Conversam sobre a natureza dos alemães: cruéis, fleumáticos e enérgicos. Conversam sobre a doença e a morte. Diz Settembrini: «Permita-me, senhor engenheiro, permita-me que lhe diga e sublinhe
que a única forma salutar e nobre, que é ao mesmo tempo – e acrescento com toda a ênfase – a única forma religiosa de encarar a morte é considerá-la como parte integrante e componente da vida, é senti-la como condição sagrada da mesma, e não de algum modo – o que estaria nos antípodas do saudável, nobre, razoável e religioso – separá-la, no plano intelectual, da vida, colocando as duas em confronto ou até em oposição. Os povos antigos adornavam os sarcófagos com imagens da vida e da fertilidade, por vezes até com símbolos obscenos. No quadro do ideário religioso da Antiguidade, o sagrado coincidia, não raras vezes com o obsceno. Aqueles homens sabiam venerar a morte. É precisamente por ser o berço da vida, o seio da renovação, que a morte é venerável. Dissociada da vida, a morte transforma-se em fantasma, em monstro ou em algo ainda pior. Vista como força espiritual autónoma, a morte é extremamente devassa, podendo o seu magnetismo malévolo conduzir à mais abominável alienação do espírito humano.»
Bem, depois desta citação acho que já interessei uns tantos leitores pela obra… e afastei outros, talvez mais, da sua leitura…

31 março 2020

"A MONTANHA MÁGICA", O SANATÓRIO BERGHOF E O CONFINAMENTO

A fotografia, de 1915, é do Sanatorium Valbella, de Davos, que terá servido de modelo a Thomas Mann para o Sanatório Berghof d’ A Montanha Mágica. Esta é a história dum jovem engenheiro alemão, Hans Castorp, que vem visitar o seu primo ali em tratamento. A estadia era para ser de três semanas, mas entretanto é o próprio Castorp que se vê acometido por um foco de tuberculose, sendo aconselhado pelo reputadíssimo Behrens, médico-chefe do sanatório, a ficar internado sem nenhuma previsão de quando poderia voltar à vida normal.
Há nos primeiros capítulos do romance um discurso recorrente sobre o tempo: o tempo físico e o psicológico, a aparência das suas diferentes velocidades.
Isto faz-me reflectir sobre o tempo vivido em confinamento. Estranhamente, parece-me que ele corre depressa, os dias esgotam-se num ápice. Ando por aqui a fazer o que me é permitido e quando dou por mim é já de noite. Esta é a sensação descrita no romance para Hans Castorp quando passa da situação de visitante a doente internado. Não me adentro nos argumentos filosóficos avançados pelo narrador para tal fenómeno, leiam que depois falamos. Tais argumentos podem surgir como paradoxais: então não é do senso comum que quanto mais distraídos andamos, mais o tempo parece correr depressa? E que em situações de monotonia (de confinamento) vem o tédio e toma conta de nós, fazendo de cada dia um tempo imensamente longo?
A minha experiência, como disse, não o indica, mas o melhor é que cada um fale por si.

30 março 2020

"A MONTANHA MÁGICA" E A REVOLUÇÃO DE 1830 EM PARIS

EUGÈNE DELACROIX, A Liberdade Guiando o Povo (1830). Comemoração da Revolução de Julho de 1830 ou Revolução dos Três Dias Gloriosos, referida em A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Queda da dinastia absolutista de Bourbon e subida ao trono de Luis Filipe de Orleães, o rei burguês. 

Do Quarto Capítulo d´A Montanha Mágica, de Thomas Mann, li hoje o subcapítulo “Temor Crescente. Dos dois avós e do passeio de barco ao lusco-fusco.” É um extenso trecho do romance em que as asserções da personagem Ludovico Settembrini levam o protagonista Hans Castorp a reequacionar algumas das suas concepções do mundo e da vida numa atitude de estranhamento, de tentativa de compreensão e, finalmente, de alguma admiração e respeito por aquele seu antagonista.
Ludovico Settembrini está em tratamento no sanatório Berghof de Davos-Platz e Hans Castorp é  visita do mesmo sanatório onde pensava passar três semanas a acompanhar o seu primo Joachim ali igualmente em tratamento.
Castorp é um jovem engenheiro alemão fortemente marcado pelo avô cristão e conservador que, por morte dos pais, se encarregou de o educar. Settembrini é um erudito de nacionalidade italiana cujo espírito revolucionário da família remonta ao seu avô Giuseppe.
Sobre as ideias de Settembrini e a estranheza de Castorp perante elas, diz o narrador: «Uma só vez, contava o italiano, uma só vez na vida, no princípio da sua idade adulta, conhecera o avô a felicidade em toda a sua plenitude – por ocasião da revolução de Julho em Paris. E então proclamara, publicamente e a plenos pulmões, que um dia viria em que todos os homens iriam comparar aqueles três dias de Paris aos seis dias da criação do mundo. Ao ouvir tal coisa, Hans Castorp não se pôde conter e bateu com o punho na mesa, tão profunda era a sua estupefacção. Parecia-lhe de um exagero inaudito pretender comparar os três dias do Verão de 1830, durante os quais o povo de Paris promulgara uma nova Constituição, aos seis dias que Deus Nosso Senhor levara a separar os continentes dos oceanos e a criar as estrelas do firmamento, as flores e as árvores, os pássaros e os peixes, enfim, toda a vida à face da Terra.»
Isto e muito mais foi ouvido pelo jovem Hans Castorp da boca de Ludovico Settembrini e acabou por produzir nele um efeito que superou a estranheza inicial, vendo no discurso do italiano algo «que valia a pena ouvir e saber, se bem que mais a título experimental e sem compromisso.»
Se será assim ou não, só o poderemos saber em fase mais adiantada do romance.