Do ambiente doméstico provinciano descrito por Agustina, vão-se destacando referências recorrentes à organização espacial dos interiores e a peças de mobiliário muito próprias daquelas latitudes onde decorre o romance. Uma dessas peças é o escano ou preguiceiro. Trata-se de um banco especial, em madeira, multifuncional, para instalar na cozinha (compartimento que não se assemelha ao que chamamos cozinha hoje, nem à congénere do sul). Lembrei-me então de partilhar o que recolhi há algum tempo, a propósito de Rio de Onor, uma aldeia de fronteira, em Trás-Os-Montes, em Jorge Dias e na experiência de uma visita à aldeia, que já perdeu, evidentemente, toda a vivência comunitária e pastoril que a caraterizava. No entanto, na casa onde pernoitámos, havia um par de escanos diferentes, os quais, embora fora do seu contexto original, ainda testemunham um certo modo de vida. Um deles tem uma mesa rebatível e uma gaveta lateral; o outro, um armário integrado com a porta disfarçada. Para além de reunir à beira do fogo uma parte da família, o escano servia também para alguém mais felizardo dormir à beira do lume nas noites de inverno...
Blogue da Comunidade de Leitores da Biblioteca de S. Domingos de Rana - Cascais - Portugal
24 fevereiro 2020
23 fevereiro 2020
A SIBILA (12)
Vale o que vale. Em 2016, a revista Estante, da Fnac, promoveu a escolha dos 12 livros portugueses mais importantes dos últimos 100 anos. O júri era constituído pelos senhores e senhoras da foto. Da esquerda para a direita, Carlos Reis (professor catedrático de Literatura e ensaísta), Isabel Lucas (jornalista), Manuel Alberto Valente (editor), Clara Ferreira Alves (jornalista) e Pedro Mexia (crítico literário). O resultado foi o seguinte:
- A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino Ribeiro;
- A Sibila, de Agustina Bessa-Luís;
- Finisterra, de Carlos de Oliveira;
- Húmus, de Raul Brandão;
- Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa;
- Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio;
- O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago;
- O Delfim, de José Cardoso Pires;
- Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes;
- Os Passos em Volta, de Herberto Helder;
- Para Sempre, de Vergílio Ferreira
e
- Sinais de Fogo, de Jorge de Sena.
Quem já leu estes 12 livros?
22 fevereiro 2020
A SIBILA (11)
Agustina entre os juncos das dunas
CAPÍTULO IX
– O NASCIMENTO DE GERMA E O CARTEIRO QUE NÃO ERA DE PABLO NERUDA; O DESPREZO DE
QUINA PELAS MULHERES E O SEU RISO PELOS PATRIARCAS DAS TRIBOS; A MENINA GERMA E
AS LIÇÕES DA VESSADA; BIRAS, BIRAS, BIRINHAS OU OS DESCONCERTOS DE AUGUSTO.
Acabei de
reler:
«Enfim,
Germa e Quina compreendiam-se bem demais, cada uma delas via na outra a sua
própria personalidade, como num espelho que não tem os jogos de luz da
benevolência para lhe adoçar os ângulos e esbater as deformidades. Cada uma via
na outra os próprios defeitos e virtudes, e, uns porque não gostavam de os
contemplar em outrem a nu, outros porque antes quisessem tê-las como originais,
isso fazia com que mutuamente se detestassem, pois nós sempre tomamos como um
vexame a cópia do nosso eu.»
Quina e
Germa são as heroínas do romance. Não é por acaso que narrando a história de
Quina ele começa e acaba com Germa. E que precoce era a menina no entendimento de
tanto que escapava a todos.
21 fevereiro 2020
A SIBILA (10)
JOSÉ DO TELHADO (1818-1875), tal como é apresentado na edição ilustrada de Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco, Parceria A. M. Pereira, 2001
Esteve com Camilo na Cadeia da Relação do Porto, em 1860/61, antes de ser deportado para a África Ocidental Portuguesa. Era considerado esposo amantíssimo e pai extremoso. É personagem de Agustina no Cap. II de A Sibila.
20 fevereiro 2020
A SIBILA (9)
LITERATURA
DE CORDEL
Fui conhecer
a história da donzela Teodora de que se cita no Cap. XII d’ A Sibila aquela sentença engraçada sobre
a mulher perfeita: larga em três sítios, estreita em três sítios, branca em
três sítios, etc.
Conta-se rapidamente. No reino de Tunes, um mercador da Hungria comprou um dia uma
formosa donzela cristã. Mandou-a educar e teve-a consigo até que os seus
negócios faliram. A donzela sugeriu-lhe então que a vendesse ao Rei Miramolim
Almançor pelo alto preço de dez mil dobras de ouro vermelho, pois certamente
ele apreciaria a sua beleza e a fina educação que adquirira. Mercador e donzela
foram à presença do rei para firmar o trato. O rei logo viu a beleza da donzela
e quanto a educação e sabedoria submeteu-a a grande cópia de perguntas por
parte dos seus sábios. Ela saiu-se bem de todos os confrontos e, no fim, o rei
deu-lhe a liberdade, pagou-lhe as dez mil dobras de ouro e ainda lhe ofereceu
um vestido de brocado. E assim, mercador e donzela voltaram a ser felizes.
Cito algumas
questões levantadas por um dos sábios com as respostas da donzela Teodora: «Donzella,
mui bem tens dito, agora dize-me das idades das mulheres, em que cada uma he
pesada; a Donzella de vinte annos que dizes della? A Donzella respondeo:
digo-te Mestre, que se he formosa parece bem ás gentes, especialmente aos
homens, que são da sua compleição; e a de trinta, e quarenta annos, que me
dizes? Essas, Senhor, tem juizo em tudo, para aquellas que o não tem. Das de
cincoenta anos, que me dizes? Essas, Senhor Mestre, te digo, que he para o
cutelo. A de sessenta annos, que me dizes? Essa vos digo, Senhor Mestre, que he
boa para andar estações. As de setenta annos, que me dizes? Digo que já he
terra, e de fóra de toda a razão. Das de oitenta annos, que me dizes della? Essa
vos digo, Mestre, que não me entendo com ella, e de humas e outras vos guarde
Deos da melhor.»
Aqui fica. Muita
atenção, leitoras, a estas sentenças de proveito e exemplo.
19 fevereiro 2020
A SIBILA (8)

Já aqui escrevi sobre Elisa Aida Fattoni, condessa de Monteros, dizendo que entre ela e Quina havia uma estima recíproca.
Ontem à noite, relendo o Capítulo VII, atentei neste bocado de texto: «Entendiam-se bem, sem mutuamente se estimarem; partilhavam segredos, detestando-se, como se eles tivessem sido arrancados por violência ou por traição. Contudo, seriam capazes da mais inteira admiração uma pela outra, experimentando até uma coragem quase insolente, uma afeição viva e resgatadora, que estavam muito próximas do ódio.»
Extraordinária arte de dizer uma coisa e o seu contrário, ou não isso, antes os infinitos desdobramentos psicológicos das personagens aqui levados a uma dimensão superior de análise e compreensão.
~~~~~~~~~~
~~~~~~~~~~~~
~~~~~~~~~~~~~~~ já agora, digam as leitoras qualquer coisinha. acho que devem estar cheias de ideias. até rima...
18 fevereiro 2020
A SIBILA (7)
TUER LE MANDARIN
Lembra-se em A Sibila que a expressão é de Rousseau (do
livro filosófico Emile), depois replicada
por Chateaubriand em Génie du christianisme
e creio também em Le Père Goriot por
Balzac. Assim, Eça de Queirós foi mais um a recorrer à imagem. “Tuer le
mandarin” (“Matar o mandarim”) significa um acto feito em proveito de alguém ao
abrigo de qualquer responsabilização. No romance de Agustina (Cap. XVI), o tema
é introduzido na relação de Abel com a filha: «”A solução destas vidas é sempre
uma herança” – pensava. E lia nos olhos de Germa a previsão fria da sua morte,
falava muito na imagem de Rousseau, a mágica campainha que suprimiria aquele
mandarim que, no mesmo instante, nos fazia senhores das suas fabulosas
riquezas.»
17 fevereiro 2020
A SIBILA (6)
Agustina, desenho de Alberto Luís (marido) em 1952
« – Vá a
minha casa um dia destes, de manhã. (…) Preciso muito de si. Sei que é mulher
de bom conselho…». Este o convite feito a Quina por Elisa Aida. Os poderes
divinatórios da lavradeira interessavam-lhe, mas também o seu sentido prático
da vida, tudo aquilo que uma ociosa pode aprender facilmente com uma mulher de
trabalho. Havia uma relação de desigualdade e, como Quina intuiu, se a condessa
a convidava era para se aproveitar dela.
Na verdade,
vieram a estimar-se reciprocamente. Custódio ou Emílio foi criado e mantido por
Quina talvez por um certo instinto maternal irrealizado, mas também por uma
questão de sangue, por ser supostamente neto ilegítimo da fidalga de
Água-Levada.
Amando o seu
filho adoptivo, não lhe deixou em testamento a sua parte na propriedade ancestral, mas
apenas as que adquirira com o seu trabalho e dinheiro. Há aqui uma espécie de
ética da propriedade. Tal ética – presente no amor à terra e na desconfiança
com que olhava os familiares que seguiam outros caminhos de ascensão social (por
exemplo, os irmãos e o tio José) – era já praticada pelo pai, Francisco
Teixeira. Estouvado, mais amigo do ócio do que do negócio, assim provocando a
ruína da casa, não sacrificava voluntariamente os bens para servir os seus
prazeres. Como se lê em determinado passo do Capítulo III a propósito de uma
caseira que lhe quis atribuir um filho, ele a repudiou com crueldade, «pois as
mulheres que, com a alegação dos seus amores, procuravam atingir o património,
tornavam-se-lhe odiosas.»
15 fevereiro 2020
A SIBILA (5)
« - Beba um copo e enxugue-se ao lume, ande lá.
Escanceou o vinho, que, dormente na caneca, mal espumejou a sua baba ciclâmen;» - Capítulo IX, episódio da chegada do carteiro com as notícias do nascimento de Germa. E em outro passo do romance também se refere a espuma do vinho como de cor ciclâmen.
Hoje, passeando por aí, dei com vistosos potes de ciclâmenes. Aí ficam as fotografias de dois. Cada vez me convenço mais de que nada acontece por acaso.
13 fevereiro 2020
A SIBILA (4)
MIGUEL ÂNGELO, A Criação de Adão, Capela Sistina, Cidade do Vaticano
OS ADÕES D´A SIBILA:
-- ADÃO,
conversado de Quina durante quatro anos.
Livrou-se da
relação por mor de um casamento com rapariga de teres e haveres e fez questão
de se explicar à conversada. Joaquina, que sabia quanto o poder do dinheiro
pode obnubilar os sentimentos, deixou-o ir. Desejou-lhe felicidades e ficou
como sua conselheira de bens e finanças pela vida fora.
-- FRANCISCO
TEIXEIRA, marido de Maria e pai de Quina.
Era frouxo
de cabeça, mas tinha um coração com asas e sabia fazer filhos.
-- LUÍS ROMÃO,
mestre-escola, namorado de Estina, irmã de Quina.
Cito:
«Elegante na mentira, já prevenido da irremediável pobreza de Estina, ainda a
namorou algum tempo, sinceramente, comovidamente, sem desbotar a graça dos seus
sorrisos, sem deixar de se despedir dela com um olhar morno e profundo(…). Um
domingo deixou de aparecer.»
-- INÁCIO
LUCAS, consorte de Estina.
Só o nome
arrepia. Uma espécie de besta do apocalipse em versão belle époque rural. Deixou
morrer os filhos, tratava mal a mulher. No desaparecimento da filha doidinha pareceu
mostrar alguma humanidade. Pura ilusão. Disse então para a esposa, aturdida pela infelicidade: «Se a menina não aparecer, se ela não vier ter aqui, trazida
pelos anjos ou pelos diabos, e sem que um pico de tojo lhe tenha arranhado a
pele, abro uma cova no quinteiro e enterro-te lá.» A única pessoa a quem tinha
algum respeito era a cunhada Quina.
-- AUGUSTO,
filho de Narcisa Soqueira.
Vago
pretendente de Quina, como se a água alguma vez se pudesse misturar com o
azeite. Um triste.
Bem dizia
Maria à filha Justina no lance do seu casamento de conveniência: «Faz o que
quiseres. Os homens não têm aproveitadoiro, é uma verdade. Mas…»
12 fevereiro 2020
A SIBILA (3)
«Sou uma
leoa
Nunca
permitirei que o meu corpo
Seja o lugar
de repouso de ninguém.
Mas se
deixasse, cuidado,
Não seria um
cão.
Oh! Quantos
leões
Eu
desdenhei!»
Estes versos
são da poeta hispano-árabe AISHA BINT AHMAD AL-QURTUBIYYA que viveu em Córdoba
no século X. Encontrei-os no livro Humilhação
e Glória, de Helena Vasconcelos.
Até ao que
li de A Sibila (preparo-me para
entrar no capítulo IX), acho que se ajustam na perfeição à personalidade de Joaquina
Augusta ou Quina.
11 fevereiro 2020
A SIBILA (2)
Capítulo V,
lido hoje. Ganha consistência o matriarcado vigente na casa da Vessada. Impera
o trabalho das mulheres, mães de facto, como a terra, ou por sublimação do
instinto maternal, caso de Joaquina. Na falta de «aproveitadoiro» dos homens, Estina
casa-se sem amor, ou por amor à Vessada, para robustecer com a aliança matrimonial
a possibilidade de um dia vir a defendê-la da gula dos irmãos: «Casando, ela aumentava
as possibilidades de um dia licitar sobre os bens, manter ainda aquele
aconchego de campos ligados por carreiros brancos, a vessada com a sua presa,
sobre a qual a ramada enfolhava com tons fulvos, reflectindo na água sombras
trémulas a assustar as rãs que pinchavam, mergulhando.» Por contraste, as
primas de Folgozinho, folgam. E chega-se a 1910, quarenta anos depois do
incêndio que arruinou a casa, mandado pôr por uma Prosérpina infernal no
desquite de um homem fraco de carne e coração – o pai da família, Francisco
Teixeira.
10 fevereiro 2020
A SIBILA (1)

Uma característica
da escrita de Agustina é a capacidade de dizer as coisas da forma menos
previsível. Isso surpreende o leitor e agarra-o na aventura de a ler. Veja-se a
seguinte passagem de A Ronda da Noite:
«O adultério tem o seu horário, como o calista e as provas na modista tinham o
seu. Já não há calistas, no Porto creio que tem dois ou três; foram
substituídos pelas manicuras, o que não é a mesma coisa, nem se lhe compara.» Ou
esta do mesmo livro: «No fim de contas, o que era o amor das pessoas senão
aquela cena do trapézio voador, dando as mãos, a fazer saltos mortais com a
rede, sem a rede, e no fim, se é que havia fim, a fazer vénias de ginastas e a
sumir por detrás dos reposteiros?».
No capítulo IV
de A Sibila – até onde li – é-nos
dado começar a perceber os traços de poder de Joaquina, a sua «ascendência
espiritual», o sentimento e o pressentimento na relação com os homens, de resto
já patente no capítulo III quando de forma nervosamente fria põe um ponto final
na afeição de quatro anos do seu conversado. Joaquina amava em estado de
insatisfação, estava acima das paixões que tolhem e fazem doer. Diz-se no final
do capítulo: «O amor é um estado de lucidez e de vidência. Aquele que ama é implacável;
e só as almas mornas e indiferentes encontram no seu semelhante uma
justificação de misérias fraternas e, perdoando-lhe, exigem o seu próprio
perdão.» Acho que não se percebe logo, é preciso voltar a ler, de preferência
em voz alta. Depois, aceite-se ou não, já se fica agarrado à ideia.
08 fevereiro 2020
"A Sibila" de Agustina Bessa Luís - 28 de Fevereiro às 21h00
Sinopse
No
norte de Portugal, em finais do século XIX, na propriedade da Vessada, há já
muito tempo que são as mulheres que, perante a indolência e os sonhos de evasão
que os homens alimentam, asseguram como podem a gestão da propriedade. Quina
era uma adolescente franzina e inculta, que desde cedo participava nos
trabalhos do campo ao lado dos trabalhadores. Com a morte do pai, com a
propriedade quase em abandono, Quina passa a ter que ter uma ainda maior
responsabilidade na administração da mesma. Graças ao seu esforço a todos os
níveis, começa a acumular de novo a riqueza que seu pai desperdiçara, o que lhe
vale a admiração da sociedade. Quina era uma pessoa lúcida, astuta e sempre em
demandas, o que faz com que esta se torne conhecida por Sibila…
Etiquetas:
"A Sibilia",
Agustina Bessa-Luís,
Livro do mês
30 janeiro 2020
BESTIÁRIO DE "A SELVA" (8)
O peixe-boi é um mamífero referido em A Selva que vive nos rios da Amazónia e
pode pesar mais de 400 quilos e medir até 3 metros. No Cap. XV, os seringueiros
foragidos, entretanto capturados, são açoitados com um peixe-boi por Alexandrino. Este peixe-boi não é mais que uma correia, um chicote ou um azorrague
feitos de couro do animal. Recuperemos o que diz Elias perante a incredulidade
de Alberto: «Vá à cozinha. Está lá o peixe-boi cheio de sangue. O Alexandrino
bateu até fazer sangue. Foi ele mesmo que o disse… O João ouviu e o Tiago
também. Os homens estavam amarrados e não se podiam defender…»
29 janeiro 2020
A FERROVIA DO DIABO
Cachoeira de Teotônio, Rio Madeira, Porto Velho
«… Este rio
já teve dois grandes romances. Um, foi a construção da estrada de ferro
Madeira-Mamoré. Levou quase meio século a fazer-se. Os homens chegavam e a
febres – zás – matavam eles. Morriam às centenas. Alguns trabalhadores que
fugiam, tremendo com sezões, eram mortos também pelos índios de lá, que são de
outra tribo. As companhias faliam e o material ficava a apodrecer. O dinheiro
que se gastou naquela estrada de ferro dava para fazer uma vinte vezes maior. O
outro…» – Cap. XIII de A Selva, fala
do senhor Guerreiro.
Referia-se o
guarda-livros à ideia surgida na Bolívia, em meados do século XIX, de escoar
a borracha daquele país através dos portos atlânticos do Brasil. Na região de
Porto Velho e a montante, as vinte cachoeiras do rio Madeira impediam a navegação.
A ferrovia até ao troço navegável do rio parecia ser a solução, mas só acabou de
se construir em 1912, quando a borracha amazónica entrara em declínio face à
concorrência dos produtores asiáticos. Uma obra feita para nada com grande gasto de vidas e dinheiro. Por tudo, ficou conhecida pelo nome de “Ferrovia do Diabo”.
28 janeiro 2020
TEATRO AMAZONAS, MANAUS
Construído em 1896 no apogeu do
primeiro ciclo da borracha, é bem o reflexo da prosperidade daqueles tempos. Na paragem feita pelo “Justo Chermont” (Capítulo III), Alberto
saiu para a cidade à revelia das ordens de Balbino. Preocupado que estava em
encontrar uma solução para a sua vida (é psicologicamente
rico o episódio do comendador Aragão), acabou por não visitar o teatro. Diz-se no texto: «Renunciou
a ver de perto o Teatro Amazonas, famoso em todo o norte do Brasil, com sua
cúpula orgulhosa, que lhe sugerira, quando a vislumbrara de bordo, velha
perspectiva de Constantinopla, encontrada nas páginas duma revista.»
27 janeiro 2020
A pacificação dos Parintintins
Na sequência da publicação anterior sobre Cândido Rondon, deixo cópia das últimas páginas do meu livro. Um mapa e um texto relativos à pacificação dos índios Parintintins e à acção humanista de Rondon. No mapa, constam referências ao seringal Paraíso e à cabana de Todos-os-Santos.
Etiquetas:
"A Selva",
Cândido Rondon,
Ferreira de Castro,
Parintintins
CÂNDIDO RONDON (1865-1958)
Engenheiro militar, desbravador do sertão brasileiro e fundador do Serviço de Protecção ao Índio é referido por três ou quatro vezes em A Selva. Ferreira de Castro dedicou-lhe o seu último romance, O Instinto Supremo, «uma epopeia de humanitarismo» que narra as condições em que se desenrolaram as expedições para pacificação dos parintintins da Amazónia - esses que em A Selva levaram as cabeças dos seringueiros Feliciano e Procópio. O princípio adoptado por Rondon e os seus grupos pacificadores era, em relação aos índios, «antes morrer do que matar». Se bem se recordam do Cap. XIII do romance, a uma pergunta feita ao guarda-livros Guerreiro sobre o que se faria para punir os índios pela morte de Procópio, ele responde: «Antigamente era costume organizar um grupo de homens bem armados e mandá-los em perseguição dos parintintins. Mas o Rondon escreveu a pedir que não se tornasse a fazer isso. E eu acho que o pedido é justo. Está provado que estes índios não têm medo e serão precisos muitos anos e muitos sacrifícios para civilizá-los. Mandar quatro ou cinco homens persegui-los, é trabalho inútil. Só lhes acirra o ódio e mais nada.»
26 janeiro 2020
BESTIÁRIO DE "A SELVA" (7)
«"Cobra Grande" [ou sucuriju] lhe chamavam em muitas lendas amazónicas, de que era personagem principal, senhora de variados poderes mágicos. Tão monstruoso tamanho alcançava, que Alberto vira, quando do baile, a pele seca de uma delas a servir de algeroz ao longo da barraca de Lourenço. A sucuriju emergia, à socapa, por entre as folhas da canarana, nas margens dos rios, e dum só golpe se lançava sobre cães e vitelos descuidados. Com os seu anéis implacáveis transformava carne e ossos numa pasta, que engolia vagarosamente, antes de remergulhar para as profundezas fluviais de onde saíra.»
25 janeiro 2020
"A Selva" e os "Gaiolas"
Imagens
daqui. Os “Gaiolas” Justo Chermont e Vitória
Os navios
“gaiolas”, embarcações típicas da rede fluvial do Amazonas, eram peças
fundamentais para o desenvolvimento económico, social e até mesmo político da
região Amazónica. Transportavam de tudo, entre passageiros e carga. Uma das
suas características era a possibilidade dos passageiros sem recursos, poderem armar
a sua rede para dormir, em qualquer parte do convés mais desfavorecido. Navegavam
rio acima, rio abaixo, aportando em cidades, vilas, aldeias, povoados ou apenas
embarcadouros que serviam os barracões seringueiros, como descrito neste
romance de Ferreira de Castro. Aqui, os “gaiolas” são referidos com regularidade
e nomes como Justo Chermont, Vitória, Aymoré, Campos Sales ou Sapucaia, tornam-se
familiares.
Aquando
da viagem de Alberto para o Paraíso no Justo Chermont, há um momento em que
este navio e o Vitória protagonizam uma espécie de regata competitiva.
“…
A
Parintins, sucedeu Itacoatiara e, na outra margem, indicada pelos braços dos
tripulantes, a bocarra do Rio Madeira. De lá saiu, rumando ao centro, em direcção
também a Manaus, um novo “gaiola”. E ou porque o Justo Chermont diminuísse a
marcha ou porque ele acelerasse a sua, em breve os dois se encontravam lado a
lado, para o desafio comum e recreativo naquelas infindáveis viagens.
- É
o Vitória! É o Vitória – exclamou-se entre o ruído de satisfação que o prélio
causava, quando o adversário esteve perto.
O
telégrafo do Justo Chermont retiniu na casa das máquinas e logo à popa aumentou
o referver da água em torvelinho.
Dum
para o outro barco, faziam-se sinais nervosos, cada qual vaticinando o êxito
daquele que o conduzia e procurando amesquinhar a capacidade do rival. A
primeira classe, mais moderada, assistia com um sorriso à regata mecânica, mas
todos contagiados pelo ambiente de luta, tanto mais que o Comandante Patativa
afirmara que havia de dar uma lição ao atrevido, reincidente em lançar-lhe
cartel de desafio.
Todavia,
o Vitória, intrépido na sua pequenez, manteve o talhamar na mesma linha, durante
quase uma hora. Cedeu, por fim, dez metros agora, vinte logo, até que
reconhecendo a impossibilidade de competir por mais tempo, silvou ao adversário
um irónico “boa viagem”. Pela primeira vez na sua longa carreira, o Comandante
Patativa não levou a mão à corda do apito para corresponder àquela saudação da
praxe.
…”
Ferreira
de Castro, “A Selva", Capítulo III
Etiquetas:
"A Selva",
"Gaiolas",
Ferreira de Castro
BESTIÁRIO DE "A SELVA" (6)
«o tamanduá-bandeira, de cauda em estandarte e saudoso do manjar que lhe forneciam os formigueiros, altos como guaritas de castelos;» - FERREIRA DE CASTRO, A Selva, Cap. VIII.
Neste trecho do romance, o narrador refere a restinga onde, ante a subida diluviana das águas do rio e igarapés, se aglomerava toda a sorte de animais terrestres: a paca, a anta, a cotia, o tatu, o veado, a onça predadora (que tinha o privilégio de ter a comida mesmo ali ao pé), enquanto do alto contemplavam esta Arca de Noé as aves de movimentos livres como o quatipuru, o capijuba, os barrigudos e os pregos.
24 janeiro 2020
BESTIÁRIO DE "A SELVA" (5)
Imagens da net - Tartaruga pitiú e tartaruga tracajá
“…
O caboclo abandonava, então, a foz dos igarapés e vinha apanhar na
areia, as tartarugas que saíam para desovar.
Alberto seguira, também, uma noite, pelo declive arenoso, os dois
traços com que o bicho marcava a sua passagem. E lá o fora encontrar, já de volta
e espantado, a fugir à sua frente, sentindo a vida em perigo. Mas não. Ele
corria por correr, receoso de levar a mão ao casco fugitivo, não fosse ela
ficar na boca da tartaruga.
- João! João! Lá vai uma!
Do cozinheiro só se via o farol, a deambular sobre a praia. Mas João
era assaz ladino para cortar a dianteira ao anfíbio alarmado. Apanhou-o já
rente à água, introduzindo os dedos entre a cabeça e o casco, e firmando
rápido, o pé, cá atrás, junto ao rabo. Com a força que fazia, esgaravatando na
areia, a própria tartaruga, subitamente retida, se voltava de peito para o ar.
- Já chega por esta noite – disse João
- Quantas?
- Virei três pitiús, cinco tracajás e esta…
- Já é bem bom!
…”
Ferreira de Castro, "A Selva", Capítulo XII
Ficamos sem saber de que espécie era esta… Felizmente, hoje, as tartarugas já são espécie protegida!
Etiquetas:
"A Selva",
Ferreira de Castro,
Tartarugas
BESTIÁRIO DE "A SELVA" (4)
O pirarucu, denominado “bacalhau da
Amazónia”, é um peixe da bacia do Amazonas e de outros rios do Brasil. Em A Selva, faz parte da dieta dos seringueiros, como se pode ver no Capítulo IV: «Mas
com os “brabos”, ignorantes do que era e não era indispensável, Juca Tristão (…)
organizava a lista do aviamento: o boião para defumar, a bacia para o látex, o
galão, o machadinho, as tigelinhas de folha, todos os utensílios que a
extracção da borracha exigia – e mais um quilo de pirarucu e uns litros de
farinha (…)».
Se se lembram de Seara Vermelha, de Jorge Amado, este peixe abundante era dado aos retirantes
cearenses quando, depois de ultrapassada a inóspita caatinga, viajavam de barco
no rio São Lourenço rumo a Pirapora e às promissoras lavouras de café em São
Paulo. A fome transformava-se em fartura: pirarucu cozido, arroz e pirão feito com o caldo gordo do peixe. A comida forte em corpos fracos originava
desinterias e mortes.
23 janeiro 2020
BESTIÁRIO DE "A SELVA" (3)
Imagens da net - garça, jaburú, maguari
“…
Puseram-se a andar sobre a folhagem que alarmava a floresta com o range-range da
pisadura. Depois, Firmino deteve-se, levando o dedo aos lábios:
- Schiu! Agora devagarinho…
E mais além:
-Olhe, olhe!
Por uma fresta da selva vislumbrava-se pequena clareira – o chão negro
lamacento e sobre ele pernaltas de linda plumagem. Alberto reconheceu logo a
garça nívea e delicada, o jaburú tristonho, o maguari pensativo, como se se houvesse
despregado de um templo oriental – e outras mais, muitas outras que só memória
prodigiosa identificaria entre a variedade sem fim…
(…)
Indicando as aves esbeltas, que eram mimo de beleza na solidão
imperante, Firmino interrogou, pondo o rifle em linha de disparo:
- Quere que mate uma?
- Come-se?
- Para comer não vale a pena gastar bala…
- Então não mate.
…”
Ferreira de Castro, "A Selva", Capítulo VI
Etiquetas:
"A Selva",
Ferreira de Castro,
Pernaltas
DO LÁTEX À BORRACHA
Imagens tiradas do livro O Seringal e o Seringueiro, de Arthur Cezar Ferreira Reis. Edição do Ministério da Agricultura, Rio de Janeiro,1953. As tigelas colocadas sob as incisões feitas na árvore para recolha do látex, a defumação e as bolas ou "peles de borracha" - tudo como é descrito por Ferreira de Castro em A Selva.
22 janeiro 2020
BESTIÁRIO DE "A SELVA" (2)
«Da água presa, como a do igapó, na concavidade da terra e abandonada pelas outras, que se tinham escoado mal o rio dera em vazar, ficara apenas um charco, onde se recolheram quantas vidas por lá deambulavam.
(...)
Deslizavam também, ondulando para abrir caminho nessa vaza pestilenta, os temerosos puraqués, que tinham sete fôlegos de gato e pele viscosa de enguias.
Firmino aguçou a ponta de pequena vara e com ela fisgou um.
- Não lhe toque, seu Alberto!
- Porquê?
- Vai ver...
Despiu a blusa, numa das mangas envolveu o cabo do seu facão e com a lâmina roçou de leve o dorso do puraqué.
- Agora toque aqui... Mas só com um dedo - e indicava o espigão do terçado, que aparecia na extremidade da madeira. Alberto obedeceu e logo se sentiu percorrido por um forte choque eléctrico.
Firmino sorria e explicava:
- Este bicho é assim. Se um homem tem o coração fraco e lhe toca dentro de água, pode ir para o outro mundo...»
--- FERREIRA DE CASTRO, A Selva, Capítulo VI.
21 janeiro 2020
BESTIÁRIO DE "A SELVA" (1)
«Subitamente, porém, Firmino deteve-se, fez um gesto rápido a Alberto e, tirando o rifle do ombro, apontou para a frente. Um tiro soou.
(...)
Firmino deteve-se um pouco mais além, a examinar a terra, as folhas dos arbustos e a espreitar para dentro da selva. (...)
- Escapuliu-se! Vamos! - gritou de lá.
Alberto aproximou:
- Que foi?
- Uma anta. Deve ter apanhado bala, mas não deixou sangue. Era do tamanho dum novilho.
- E come-se?
- Se se come! É da melhor carne que tem o Amazonas.»
--- FERREIRA DE CASTRO, A Selva, Capítulo V.
02 janeiro 2020
"A Selva" de Ferreira de Castro - 31 de Janeiro às 21h00
A abrir o novo ano e o trimestre “(re) leituras”, voltamos a Ferreira de Castro e ao belíssimo, "A Selva", um romance extraordinário sobre a vida dos seringueiros na selva amazónica, quando o ciclo da borracha iniciava a sua curva descendente.
Etiquetas:
"A Selva",
Ferreira de Castro,
Livro do mês
29 dezembro 2019
E passaram mais doze meses de leituras!
Um
pouco em jeito de balanço anual, mas também para memória futura e antes de
entrarmos em 2020, deixo algumas notas sobre aquilo que fomos fazendo durante o
corrente ano.
O
amor pela leitura, mantém esta Comunidade em andamento desde 2007. Temos uma
média de 20 leitores presentes por sessão, o que torna as mesmas muito animadas
e dinâmicas.
Os
livros levam-nos ainda para fora de portas, atrás de programas diversos que nos
enriquecem a mente e alimentam o espírito. Assim, entre leituras, exposições,
visitas, viagens, teatro, jantares, concertos, aconteceu de tudo um pouco!
No
primeiro trimestre do ano andámos pela “Literatura no Feminino”. Revisitámos Jane
Austen (Sensibilidade e Bom Senso), Emily Brontë (O Monte dos Vendavais) e Françoise
Sagan (Bom Dia Tristeza). Foram sessões muito participadas, com animadas discussões
entre géneros.
No
segundo trimestre, lembrámos os “Autores Esquecidos” como José Rodrigues
Miguéis (A Escola do Paraíso), Maria Judite de Carvalho (Tanta Gente, Mariana)
e Luís de Sttau Monteiro (Um Homem não Chora).
O romance “A Escola do Paraíso”
levou a que o Manuel Nunes, durante o mês de Abril, fizesse um périplo fotográfico por Lisboa, refazendo
os passos do José Rodrigues Migueis. Está tudo disponível em diversas publicações no blogue que justificam plenamente uma leitura.
Também em Abril, um pequeno
grupo de leitores assistiu no Teatro D. Maria II, à récita de Frei Luís de
Sousa, de Almeida Garrett.
No mês de Junho, tivemos uma
sessão especial na Feira do Livro de Lisboa. O escritor Carlos Querido,
convidou-nos para fazermos uma apresentação do seu livro de contos, “Habeas Corpus”.
Foi mais uma sessão memorável, com uma boa presença dos nossos leitores.
Chegou o Verão e com ele o
terceiro trimestre, onde mergulhámos de cabeça na “Literatura Alemã”. Começámos
com Goethe (Werther), seguiu-se Herman Hesse (O Lobo das Estepes) e terminámos
com Erich Maria Remarque (Uma Noite em Lisboa).
A
propósito do Goethe, a nossa leitora Amélia Cabrita publicou no blogue (no mês
de Julho), matéria muito importante e interessante relativa à sua visita a Weimar,
lugar incontornável na vida deste escritor. Recomendo a leitura.
A
estação mais quente do ano, trouxe muita animação e assim, entre outros programas,
alguns dos nossos leitores marcaram presença na Festa dos Tabuleiros em Tomar, nas
visitas de fado cantadas de alguns bairros históricos de Lisboa e no já tradicional
Concerto dos 6 Órgãos de Mafra. Atravessámos o rio e fomos à Trafaria (entre
outras travessias).
Apanhámos o comboio e num programa muito especial que
implica um grupo de “jovens” à solta, houve deslocações a Setúbal, Évora,
Aveiro, Coimbra e Santarém.
Houve ainda uma visita, cuja temática foi a estátua de D. José na Praça do Comércio, que nos levou à Sala dos Gessos (onde estão os moldes da dita) e ao Museu Militar, com uma passagem pelo núcleo museológico do Hotel Eurostars.
Foi um Verão cheio, onde não faltou energia, nem magia!
No
quarto trimestre, visitámos aqueles a que decidimos chamar de “Queridos Autores”.
Primeiro tivemos o nosso Eça de Queirós (A Capital), depois o repetente Philip
Roth (Pastoral Americana) e terminámos com os contos de Gabriel Garcia Marquez
(Doze Contos Peregrinos). Foram leituras de peso!
A
anteceder a última sessão do ano, tivemos o habitual jantar anual, alegre
convívio partilhado pela maioria dos membros da Comunidade.
E
assim deixo esta síntese do ano. Houve muito mais, pelo que, convido outros leitores a acrescentarem o
que entenderem por bem!
Uma palavra de agradecimento para a Biblioteca de São Domingos de Rana, que em boa hora nos acolhe, continuando a disponibilizar o espaço para as nossas reuniões.
Boas
Leituras para 2020!
18 dezembro 2019
AMORES À PRIMEIRA VISTA
«À laia de desculpa, perguntei-lhe se acreditava nos amores à primeira vista.
- Claro que sim - disse-me ela. - Os outros é que são impossíveis.»
--- Doze Contos Peregrinos, conto "O Avião da Bela Adormecida" (1982).
03 dezembro 2019
“Doze Contos Peregrinos” de Gabriel García Márquez - 27 de Dezembro às 21h00
“O
homem da agência funerária chegou tão pontualmente que Maria dos Prazeres
estava ainda em roupão de banho e com a cabeça cheia de rolos, e mal teve tempo
para pôr uma rosa vermelha na orelha a fim de não aparecer tão indesejável como
se sentia. Lamentou-se ainda mais do seu estado quando abriu a porta e viu que
não se tratava apenas de um lúgubre, como ela supunha que deviam ser os
comerciantes da morte, mas um jovem tímido com um casaco aos quadrados e uma
gravata com pássaros coloridos. Não trazia sobretudo, apesar da Primavera incerta
de Barcelona, que as chuvas batidas por ventos oblíquos tornavam quase sempre menos
suportável ainda do que o Inverno. Maria dos Prazeres, que recebera tantos
homens a qualquer hora, sentou-se envergonhada como pouquíssimas vezes lhe
sucedera. Acabava de completar setenta e seis anos e convencera-se de que ia
morrer antes do Natal, mas, apesar disso, esteve quase a fechar a porta e a
pedir ao vendedor de funerais que esperasse um instante enquanto se vestia para
o receber depois, de acordo com os seus méritos. Mas pensou que o rapaz ia
gelar no patamar às escuras e deixou-o entrar…”
A
abrir o conto “Maria dos Prazeres”, incluído no livro “Doze Contos Peregrinos”
de Gabriel García Márquez
Etiquetas:
“Doze Contos Peregrinos”,
Gabriel García Márquez,
Livro do mês
02 dezembro 2019
AINDA SOBRE PHILIP ROTH
No seguimento da nossa sessão de sexta-feira, transcrevo declarações de Philip Roth sobre a América de Trump (entrevista publicada no jornal Expresso):
«Ninguém que eu conheça previu uma América como a de hoje. Ninguém
(exceto talvez o ácido H. L. Mencken, que descreveu a democracia americana como
“a adoração de chacais por idiotas”) podia imaginar que a catástrofe que
atingiria os EUA no século XXI, o mais rebaixante dos desastres, surgiria não
sob, digamos, o aspeto aterrador de um Big Brother orwelliano, mas sob a
ameaçadoramente ridícula figura de commedia dell’arte de um bufão gabarolas.
Quão ingénuo fui nos anos 60 ao pensar que era um americano a viver em tempos
absurdos! Quão pitoresco! Mas, afinal, o que é que eu podia saber em 1960 sobre
1963 ou 1968 ou 1974 ou 2001 ou 2016?»
Noutro passo da entrevista, diz o escritor:
«Trump (…) é uma fraude maciça, a soma maligna das suas
deficiências, destituído de tudo exceto a ideologia oca de um megalomaníaco.»
A entrevista pode ser lida aqui:
30 novembro 2019
Plano de leituras 2020
Ilustração de Lorenzo Mattotti
1º Trimestre – (re) Leituras
31 Janeiro - Ferreira de Castro, A selva
28 Fevereiro - Agustina Bessa Luís, A Sibila
27 Março - Jorge Amado, Jubiabá
2º Trimestre – Eça & Cª
24 Abril - Eça de Queirós, O conde de Abranhos
29 Maio - Gustave Flaubert, A educação sentimental
26 Junho - Honoré de Balzac, O tio Goriot
3º Trimestre – América!
31 Julho - Philip Roth, Casei com um comunista
28 Agosto - Margaret Atwood, Semente de Bruxa
25 Setembro - John Steinbeck, Viagens com o Charley
4º Trimestre – Recém-Laureados
30 Outubro - Afonso Reis Cabral, Pão de Açúcar (Prémio José Saramago 2019)
27 Novembro - Olga Tokarazuk, Viagens (Prémio Nobel da Literatura 2018)
18 Dezembro - Kazuo Ishiguro, As Pálidas Colinas de Nagasáqui (Prémio Nobel da Literatura 2017)
22 novembro 2019
SWEET BLACK ANGEL
ANGELA DAVIS (1944), lutadora pelos direitos humanos, icónica revolucionária dos anos 70 a quem os Rolling Stones e a dupla John Lenon/Yoko Ono dedicaram canções, perseguida e presa pelo FBI, surge em Pastoral Americana num episódio em que se misturam realidade e ficção. Fim do Capítulo 4 da Parte II, "A Queda".
19 novembro 2019
04 novembro 2019
"Pastoral Americana" de Philip Roth – 29 Novembro às 21h00
Sinopse
"Seymour «Sueco» Levov, um lendário atleta universitário, devotado homem de família, trabalhador esforçado e próspero herdeiro, envelhece na triunfante América do pós-guerra, vendo esfumar-se tudo o que ama quando o país começa a efervescer nos turbulentos anos 60.
Nem o mais tranquilo e bem-intencionado cidadão consegue escapar à vassourada da história, nem o Sueco pode permanecer para sempre na felicidade da amada e velha quinta em que vive com a sua bela mulher e a filha, que se torna uma revolucionária terrorista apostada em destruir o paraíso de seu pai. A inocência do Sueco Levov é varrida pelos tempos - como tudo o que foi criado pela sua família, através de gerações, deitado por terra na violenta explosão de uma bomba no seu bucólico quintal".
Etiquetas:
"Pastoral Americana",
Livro do mês,
Philip Roth
Subscrever:
Mensagens (Atom)













































