24 fevereiro 2020

AINDA A SIBILA - COISAS PROSAICAS

Do ambiente doméstico provinciano descrito por Agustina, vão-se destacando referências recorrentes à organização espacial dos interiores e a peças de mobiliário muito próprias daquelas latitudes onde decorre o romance. Uma dessas peças é o escano ou preguiceiro. Trata-se de um banco especial, em madeira, multifuncional, para instalar na  cozinha (compartimento que não se assemelha ao que chamamos cozinha hoje, nem à congénere do sul). Lembrei-me então de partilhar o que recolhi há algum tempo, a propósito de Rio de Onor, uma aldeia de fronteira, em Trás-Os-Montes, em Jorge Dias e na experiência de uma visita à aldeia, que já perdeu, evidentemente, toda a vivência comunitária e pastoril que a caraterizava. No entanto, na casa onde pernoitámos, havia um par de escanos diferentes, os quais, embora fora do seu contexto original, ainda testemunham um certo modo de vida. Um deles tem uma mesa rebatível e uma gaveta lateral; o outro, um armário integrado com a porta disfarçada. Para além de reunir à beira do fogo uma parte da família, o escano servia também para alguém mais felizardo dormir à beira do lume nas noites de inverno...







23 fevereiro 2020

A SIBILA (12)

Vale o que vale. Em 2016, a revista Estante, da Fnac, promoveu a escolha dos 12 livros portugueses mais importantes dos últimos 100 anos. O júri era constituído pelos senhores e senhoras da foto. Da esquerda para a direita, Carlos Reis (professor catedrático de Literatura e ensaísta), Isabel Lucas (jornalista), Manuel Alberto Valente (editor), Clara Ferreira Alves (jornalista) e Pedro Mexia (crítico literário). O resultado foi o seguinte:
- A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino Ribeiro;
- A Sibila, de Agustina Bessa-Luís;
- Finisterra, de Carlos de Oliveira;
- Húmus, de Raul Brandão;
- Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa;
- Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio;
- O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago;
- O Delfim, de José Cardoso Pires;
- Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes;
- Os Passos em Volta, de Herberto Helder;
- Para Sempre, de Vergílio Ferreira
e
- Sinais de Fogo, de Jorge de Sena.
Quem já leu estes 12 livros?

22 fevereiro 2020

A SIBILA (11)

Agustina entre os juncos das dunas

CAPÍTULO IX – O NASCIMENTO DE GERMA E O CARTEIRO QUE NÃO ERA DE PABLO NERUDA; O DESPREZO DE QUINA PELAS MULHERES E O SEU RISO PELOS PATRIARCAS DAS TRIBOS; A MENINA GERMA E AS LIÇÕES DA VESSADA; BIRAS, BIRAS, BIRINHAS OU OS DESCONCERTOS DE AUGUSTO.

Acabei de reler:
«Enfim, Germa e Quina compreendiam-se bem demais, cada uma delas via na outra a sua própria personalidade, como num espelho que não tem os jogos de luz da benevolência para lhe adoçar os ângulos e esbater as deformidades. Cada uma via na outra os próprios defeitos e virtudes, e, uns porque não gostavam de os contemplar em outrem a nu, outros porque antes quisessem tê-las como originais, isso fazia com que mutuamente se detestassem, pois nós sempre tomamos como um vexame a cópia do nosso eu
Quina e Germa são as heroínas do romance. Não é por acaso que narrando a história de Quina ele começa e acaba com Germa. E que precoce era a menina no entendimento de tanto que escapava a todos.

21 fevereiro 2020

A SIBILA (10)

JOSÉ DO TELHADO (1818-1875), tal como é apresentado na edição ilustrada de Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco, Parceria A. M. Pereira, 2001

Esteve com Camilo na Cadeia da Relação do Porto, em 1860/61, antes de ser deportado para a África Ocidental Portuguesa. Era considerado esposo amantíssimo e pai extremoso. É personagem de Agustina no Cap. II de A Sibila.  

20 fevereiro 2020

A SIBILA (9)

LITERATURA DE CORDEL

Fui conhecer a história da donzela Teodora de que se cita no Cap. XII d’ A Sibila aquela sentença engraçada sobre a mulher perfeita: larga em três sítios, estreita em três sítios, branca em três sítios, etc.
Conta-se rapidamente. No reino de Tunes, um mercador da Hungria comprou um dia uma formosa donzela cristã. Mandou-a educar e teve-a consigo até que os seus negócios faliram. A donzela sugeriu-lhe então que a vendesse ao Rei Miramolim Almançor pelo alto preço de dez mil dobras de ouro vermelho, pois certamente ele apreciaria a sua beleza e a fina educação que adquirira. Mercador e donzela foram à presença do rei para firmar o trato. O rei logo viu a beleza da donzela e quanto a educação e sabedoria submeteu-a a grande cópia de perguntas por parte dos seus sábios. Ela saiu-se bem de todos os confrontos e, no fim, o rei deu-lhe a liberdade, pagou-lhe as dez mil dobras de ouro e ainda lhe ofereceu um vestido de brocado. E assim, mercador e donzela voltaram a ser felizes.
Cito algumas questões levantadas por um dos sábios com as respostas da donzela Teodora:  «Donzella, mui bem tens dito, agora dize-me das idades das mulheres, em que cada uma he pesada; a Donzella de vinte annos que dizes della? A Donzella respondeo: digo-te Mestre, que se he formosa parece bem ás gentes, especialmente aos homens, que são da sua compleição; e a de trinta, e quarenta annos, que me dizes? Essas, Senhor, tem juizo em tudo, para aquellas que o não tem. Das de cincoenta anos, que me dizes? Essas, Senhor Mestre, te digo, que he para o cutelo. A de sessenta annos, que me dizes? Essa vos digo, Senhor Mestre, que he boa para andar estações. As de setenta annos, que me dizes? Digo que já he terra, e de fóra de toda a razão. Das de oitenta annos, que me dizes della? Essa vos digo, Mestre, que não me entendo com ella, e de humas e outras vos guarde Deos da melhor.»
Aqui fica. Muita atenção, leitoras, a estas sentenças de proveito e exemplo.   

19 fevereiro 2020

A SIBILA (8)


Já aqui escrevi sobre Elisa Aida Fattoni, condessa de Monteros, dizendo que entre ela e Quina havia uma estima recíproca.
Ontem à noite, relendo o Capítulo VII, atentei neste bocado de texto: «Entendiam-se bem, sem mutuamente se estimarem; partilhavam segredos, detestando-se, como se eles tivessem sido arrancados por violência ou por traição. Contudo, seriam capazes da mais inteira admiração uma pela outra, experimentando até uma coragem quase insolente, uma afeição viva e resgatadora, que estavam muito próximas do ódio.»
Extraordinária arte de dizer uma coisa e o seu contrário, ou não isso, antes os infinitos desdobramentos psicológicos das personagens aqui levados a uma dimensão superior de análise e compreensão. 
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~~~~~~~~~~~~~~~ já agora, digam as leitoras qualquer coisinha. acho que devem estar cheias de ideias. até rima...

18 fevereiro 2020

A SIBILA (7)


TUER LE MANDARIN

Lembra-se em  A Sibila que a expressão é de Rousseau (do livro filosófico Emile), depois replicada por Chateaubriand em Génie du christianisme e creio também em Le Père Goriot por Balzac. Assim, Eça de Queirós foi mais um a recorrer à imagem. “Tuer le mandarin” (“Matar o mandarim”) significa um acto feito em proveito de alguém ao abrigo de qualquer responsabilização. No romance de Agustina (Cap. XVI), o tema é introduzido na relação de Abel com a filha: «”A solução destas vidas é sempre uma herança” – pensava. E lia nos olhos de Germa a previsão fria da sua morte, falava muito na imagem de Rousseau, a mágica campainha que suprimiria aquele mandarim que, no mesmo instante, nos fazia senhores das suas fabulosas riquezas.»

17 fevereiro 2020

A SIBILA (6)

Agustina, desenho de Alberto Luís (marido) em 1952

UMA ÉTICA DA PROPRIEDADE

« – Vá a minha casa um dia destes, de manhã. (…) Preciso muito de si. Sei que é mulher de bom conselho…». Este o convite feito a Quina por Elisa Aida. Os poderes divinatórios da lavradeira interessavam-lhe, mas também o seu sentido prático da vida, tudo aquilo que uma ociosa pode aprender facilmente com uma mulher de trabalho. Havia uma relação de desigualdade e, como Quina intuiu, se a condessa a convidava era para se aproveitar dela.
Na verdade, vieram a estimar-se reciprocamente. Custódio ou Emílio foi criado e mantido por Quina talvez por um certo instinto maternal irrealizado, mas também por uma questão de sangue, por ser supostamente neto ilegítimo da fidalga de Água-Levada.
Amando o seu filho adoptivo, não lhe deixou em testamento a sua parte na propriedade ancestral, mas apenas as que adquirira com o seu trabalho e dinheiro. Há aqui uma espécie de ética da propriedade. Tal ética – presente no amor à terra e na desconfiança com que olhava os familiares que seguiam outros caminhos de ascensão social (por exemplo, os irmãos e o tio José) – era já praticada pelo pai, Francisco Teixeira. Estouvado, mais amigo do ócio do que do negócio, assim provocando a ruína da casa, não sacrificava voluntariamente os bens para servir os seus prazeres. Como se lê em determinado passo do Capítulo III a propósito de uma caseira que lhe quis atribuir um filho, ele a repudiou com crueldade, «pois as mulheres que, com a alegação dos seus amores, procuravam atingir o património, tornavam-se-lhe odiosas.»

15 fevereiro 2020

A SIBILA (5)


« - Beba um copo e enxugue-se ao lume, ande lá.
Escanceou o vinho, que, dormente na caneca, mal espumejou a sua baba ciclâmen;» - Capítulo IX, episódio da chegada do carteiro com as notícias do nascimento de Germa. E em outro passo do romance também se refere a espuma do vinho como de cor ciclâmen.
Hoje, passeando por aí, dei com vistosos potes de ciclâmenes. Aí ficam as fotografias de dois. Cada vez me convenço mais de que nada acontece por acaso.

13 fevereiro 2020

A SIBILA (4)

MIGUEL ÂNGELO, A Criação de Adão, Capela Sistina, Cidade do Vaticano

OS ADÕES D´A SIBILA:

-- ADÃO, conversado de Quina durante quatro anos.
Livrou-se da relação por mor de um casamento com rapariga de teres e haveres e fez questão de se explicar à conversada. Joaquina, que sabia quanto o poder do dinheiro pode obnubilar os sentimentos, deixou-o ir. Desejou-lhe felicidades e ficou como sua conselheira de bens e finanças pela vida fora.
-- FRANCISCO TEIXEIRA, marido de Maria e pai de Quina.
Era frouxo de cabeça, mas tinha um coração com asas e sabia fazer filhos.
-- LUÍS ROMÃO, mestre-escola, namorado de Estina, irmã de Quina.
Cito: «Elegante na mentira, já prevenido da irremediável pobreza de Estina, ainda a namorou algum tempo, sinceramente, comovidamente, sem desbotar a graça dos seus sorrisos, sem deixar de se despedir dela com um olhar morno e profundo(…). Um domingo deixou de aparecer.»
-- INÁCIO LUCAS, consorte de Estina.
Só o nome arrepia. Uma espécie de besta do apocalipse em versão belle époque rural. Deixou morrer os filhos, tratava mal a mulher. No desaparecimento da filha doidinha pareceu mostrar alguma humanidade. Pura ilusão. Disse então para a esposa, aturdida pela infelicidade: «Se a menina não aparecer, se ela não vier ter aqui, trazida pelos anjos ou pelos diabos, e sem que um pico de tojo lhe tenha arranhado a pele, abro uma cova no quinteiro e enterro-te lá.» A única pessoa a quem tinha algum respeito era a cunhada Quina.
-- AUGUSTO, filho de Narcisa Soqueira.
Vago pretendente de Quina, como se a água alguma vez se pudesse misturar com o azeite. Um triste.  

Bem dizia Maria à filha Justina no lance do seu casamento de conveniência: «Faz o que quiseres. Os homens não têm aproveitadoiro, é uma verdade. Mas…»    

12 fevereiro 2020

A SIBILA (3)


«Sou uma leoa
Nunca permitirei que o meu corpo
Seja o lugar de repouso de ninguém.
Mas se deixasse, cuidado,
Não seria um cão.
Oh! Quantos leões
Eu desdenhei!»

Estes versos são da poeta hispano-árabe AISHA BINT AHMAD AL-QURTUBIYYA que viveu em Córdoba no século X. Encontrei-os no livro Humilhação e Glória, de Helena Vasconcelos.
Até ao que li de A Sibila (preparo-me para entrar no capítulo IX), acho que se ajustam na perfeição à personalidade de Joaquina Augusta ou Quina.

11 fevereiro 2020

A SIBILA (2)


Capítulo V, lido hoje. Ganha consistência o matriarcado vigente na casa da Vessada. Impera o trabalho das mulheres, mães de facto, como a terra, ou por sublimação do instinto maternal, caso de Joaquina. Na falta de «aproveitadoiro» dos homens, Estina casa-se sem amor, ou por amor à Vessada, para robustecer com a aliança matrimonial a possibilidade de um dia vir a defendê-la da gula dos irmãos: «Casando, ela aumentava as possibilidades de um dia licitar sobre os bens, manter ainda aquele aconchego de campos ligados por carreiros brancos, a vessada com a sua presa, sobre a qual a ramada enfolhava com tons fulvos, reflectindo na água sombras trémulas a assustar as rãs que pinchavam, mergulhando.» Por contraste, as primas de Folgozinho, folgam. E chega-se a 1910, quarenta anos depois do incêndio que arruinou a casa, mandado pôr por uma Prosérpina infernal no desquite de um homem fraco de carne e coração – o pai da família, Francisco Teixeira.  

10 fevereiro 2020

A SIBILA (1)


Uma característica da escrita de Agustina é a capacidade de dizer as coisas da forma menos previsível. Isso surpreende o leitor e agarra-o na aventura de a ler. Veja-se a seguinte passagem de A Ronda da Noite: «O adultério tem o seu horário, como o calista e as provas na modista tinham o seu. Já não há calistas, no Porto creio que tem dois ou três; foram substituídos pelas manicuras, o que não é a mesma coisa, nem se lhe compara.» Ou esta do mesmo livro: «No fim de contas, o que era o amor das pessoas senão aquela cena do trapézio voador, dando as mãos, a fazer saltos mortais com a rede, sem a rede, e no fim, se é que havia fim, a fazer vénias de ginastas e a sumir por detrás dos reposteiros?».
No capítulo IV de A Sibila – até onde li – é-nos dado começar a perceber os traços de poder de Joaquina, a sua «ascendência espiritual», o sentimento e o pressentimento na relação com os homens, de resto já patente no capítulo III quando de forma nervosamente fria põe um ponto final na afeição de quatro anos do seu conversado. Joaquina amava em estado de insatisfação, estava acima das paixões que tolhem e fazem doer. Diz-se no final do capítulo: «O amor é um estado de lucidez e de vidência. Aquele que ama é implacável; e só as almas mornas e indiferentes encontram no seu semelhante uma justificação de misérias fraternas e, perdoando-lhe, exigem o seu próprio perdão.» Acho que não se percebe logo, é preciso voltar a ler, de preferência em voz alta. Depois, aceite-se ou não, já se fica agarrado à ideia.

08 fevereiro 2020

"A Sibila" de Agustina Bessa Luís - 28 de Fevereiro às 21h00


Sinopse


No norte de Portugal, em finais do século XIX, na propriedade da Vessada, há já muito tempo que são as mulheres que, perante a indolência e os sonhos de evasão que os homens alimentam, asseguram como podem a gestão da propriedade. Quina era uma adolescente franzina e inculta, que desde cedo participava nos trabalhos do campo ao lado dos trabalhadores. Com a morte do pai, com a propriedade quase em abandono, Quina passa a ter que ter uma ainda maior responsabilidade na administração da mesma. Graças ao seu esforço a todos os níveis, começa a acumular de novo a riqueza que seu pai desperdiçara, o que lhe vale a admiração da sociedade. Quina era uma pessoa lúcida, astuta e sempre em demandas, o que faz com que esta se torne conhecida por Sibila…

30 janeiro 2020

BESTIÁRIO DE "A SELVA" (8)


O peixe-boi é um mamífero referido em A Selva que vive nos rios da Amazónia e pode pesar mais de 400 quilos e medir até 3 metros. No Cap. XV, os seringueiros foragidos, entretanto capturados, são açoitados com um peixe-boi por Alexandrino. Este peixe-boi não é mais que uma correia, um chicote ou um azorrague feitos de couro do animal. Recuperemos o que diz Elias perante a incredulidade de Alberto: «Vá à cozinha. Está lá o peixe-boi cheio de sangue. O Alexandrino bateu até fazer sangue. Foi ele mesmo que o disse… O João ouviu e o Tiago também. Os homens estavam amarrados e não se podiam defender…»

29 janeiro 2020

A FERROVIA DO DIABO

Cachoeira de Teotônio, Rio Madeira, Porto Velho

«… Este rio já teve dois grandes romances. Um, foi a construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré. Levou quase meio século a fazer-se. Os homens chegavam e a febres – zás – matavam eles. Morriam às centenas. Alguns trabalhadores que fugiam, tremendo com sezões, eram mortos também pelos índios de lá, que são de outra tribo. As companhias faliam e o material ficava a apodrecer. O dinheiro que se gastou naquela estrada de ferro dava para fazer uma vinte vezes maior. O outro…» – Cap. XIII de A Selva, fala do senhor Guerreiro.
Referia-se o guarda-livros à ideia surgida na Bolívia, em meados do século XIX, de escoar a borracha daquele país através dos portos atlânticos do Brasil. Na região de Porto Velho e a montante, as vinte cachoeiras do rio Madeira impediam a navegação. A ferrovia até ao troço navegável do rio parecia ser a solução, mas só acabou de se construir em 1912, quando a borracha amazónica entrara em declínio face à concorrência dos produtores asiáticos. Uma obra feita para nada com grande gasto de vidas e dinheiro. Por tudo, ficou conhecida pelo nome de “Ferrovia do Diabo”.

28 janeiro 2020

TEATRO AMAZONAS, MANAUS

Construído em 1896 no apogeu do primeiro ciclo da borracha, é bem o reflexo da prosperidade daqueles tempos. Na paragem feita pelo “Justo Chermont” (Capítulo III), Alberto saiu para a cidade à revelia das ordens de Balbino. Preocupado que estava em encontrar uma solução para a sua vida (é psicologicamente rico o episódio do comendador Aragão), acabou por não visitar o teatro. Diz-se no texto: «Renunciou a ver de perto o Teatro Amazonas, famoso em todo o norte do Brasil, com sua cúpula orgulhosa, que lhe sugerira, quando a vislumbrara de bordo, velha perspectiva de Constantinopla, encontrada nas páginas duma revista.»

27 janeiro 2020

A pacificação dos Parintintins


Na sequência da publicação anterior sobre Cândido Rondon, deixo cópia das últimas páginas do meu livro. Um mapa e um texto relativos à pacificação dos índios Parintintins e à acção humanista de Rondon. No  mapa, constam referências ao seringal Paraíso e à cabana de Todos-os-Santos.

CÂNDIDO RONDON (1865-1958)

Engenheiro militar, desbravador do sertão brasileiro e fundador do Serviço de Protecção ao Índio é referido por três ou quatro vezes em A Selva. Ferreira de Castro dedicou-lhe o seu último romance, O Instinto Supremo, «uma epopeia de humanitarismo» que narra as condições em que se desenrolaram as expedições para pacificação dos parintintins da Amazónia - esses que em A Selva levaram as cabeças dos seringueiros Feliciano e Procópio. O princípio adoptado por Rondon e os seus grupos pacificadores era, em relação aos índios, «antes morrer do que matar». Se bem se recordam do Cap. XIII do romance, a uma pergunta feita ao guarda-livros Guerreiro sobre o que se faria para punir os índios pela morte de Procópio, ele responde: «Antigamente era costume organizar um grupo de homens bem armados e mandá-los em perseguição dos parintintins. Mas o Rondon escreveu a pedir que não se tornasse a fazer isso. E eu acho que o pedido é justo. Está provado que estes índios não têm medo e serão precisos muitos anos e muitos sacrifícios para civilizá-los. Mandar quatro ou cinco homens persegui-los, é trabalho inútil. Só lhes acirra o ódio e mais nada.» 

26 janeiro 2020

BESTIÁRIO DE "A SELVA" (7)

«"Cobra Grande" [ou sucuriju] lhe chamavam em muitas lendas amazónicas, de que era personagem principal, senhora de variados poderes mágicos. Tão monstruoso tamanho alcançava, que Alberto vira, quando do baile, a pele seca de uma delas a servir de algeroz ao longo da barraca de Lourenço. A sucuriju emergia, à socapa, por entre as folhas da canarana, nas margens dos rios, e dum só golpe se lançava sobre cães e vitelos descuidados. Com os seu anéis implacáveis transformava carne e ossos numa pasta, que engolia vagarosamente, antes de remergulhar para as profundezas fluviais de onde saíra.»

25 janeiro 2020

"A Selva" e os "Gaiolas"


 Imagens daqui. Os “Gaiolas” Justo Chermont e Vitória

Os navios “gaiolas”, embarcações típicas da rede fluvial do Amazonas, eram peças fundamentais para o desenvolvimento económico, social e até mesmo político da região Amazónica. Transportavam de tudo, entre passageiros e carga. Uma das suas características era a possibilidade dos passageiros sem recursos, poderem armar a sua rede para dormir, em qualquer parte do convés mais desfavorecido. Navegavam rio acima, rio abaixo, aportando em cidades, vilas, aldeias, povoados ou apenas embarcadouros que serviam os barracões seringueiros, como descrito neste romance de Ferreira de Castro. Aqui, os “gaiolas” são referidos com regularidade e nomes como Justo Chermont, Vitória, Aymoré, Campos Sales ou Sapucaia, tornam-se familiares.
Aquando da viagem de Alberto para o Paraíso no Justo Chermont, há um momento em que este navio e o Vitória protagonizam uma espécie de regata competitiva.

“…
A Parintins, sucedeu Itacoatiara e, na outra margem, indicada pelos braços dos tripulantes, a bocarra do Rio Madeira. De lá saiu, rumando ao centro, em direcção também a Manaus, um novo “gaiola”. E ou porque o Justo Chermont diminuísse a marcha ou porque ele acelerasse a sua, em breve os dois se encontravam lado a lado, para o desafio comum e recreativo naquelas infindáveis viagens.

- É o Vitória! É o Vitória – exclamou-se entre o ruído de satisfação que o prélio causava, quando o adversário esteve perto.

O telégrafo do Justo Chermont retiniu na casa das máquinas e logo à popa aumentou o referver da água em torvelinho.
Dum para o outro barco, faziam-se sinais nervosos, cada qual vaticinando o êxito daquele que o conduzia e procurando amesquinhar a capacidade do rival. A primeira classe, mais moderada, assistia com um sorriso à regata mecânica, mas todos contagiados pelo ambiente de luta, tanto mais que o Comandante Patativa afirmara que havia de dar uma lição ao atrevido, reincidente em lançar-lhe cartel de desafio.
Todavia, o Vitória, intrépido na sua pequenez, manteve o talhamar na mesma linha, durante quase uma hora. Cedeu, por fim, dez metros agora, vinte logo, até que reconhecendo a impossibilidade de competir por mais tempo, silvou ao adversário um irónico “boa viagem”. Pela primeira vez na sua longa carreira, o Comandante Patativa não levou a mão à corda do apito para corresponder àquela saudação da praxe.
…”

Ferreira de Castro, “A Selva", Capítulo III

BESTIÁRIO DE "A SELVA" (6)

«o tamanduá-bandeira, de cauda em estandarte e saudoso do manjar que lhe forneciam os formigueiros, altos como guaritas de castelos;»  - FERREIRA DE CASTRO, A Selva, Cap. VIII.
Neste trecho do romance, o narrador refere a restinga onde, ante a subida diluviana das águas do rio e igarapés, se aglomerava toda a sorte de animais terrestres: a paca, a anta, a cotia, o tatu, o veado, a onça predadora (que tinha o privilégio de ter a comida mesmo ali ao pé), enquanto do alto contemplavam esta Arca de Noé as aves de movimentos livres como o quatipuru, o capijuba, os barrigudos e os pregos. 

24 janeiro 2020

BESTIÁRIO DE "A SELVA" (5)


  Imagens da net - Tartaruga pitiú e tartaruga tracajá

“…
O caboclo abandonava, então, a foz dos igarapés e vinha apanhar na areia, as tartarugas que saíam para desovar.
Alberto seguira, também, uma noite, pelo declive arenoso, os dois traços com que o bicho marcava a sua passagem. E lá o fora encontrar, já de volta e espantado, a fugir à sua frente, sentindo a vida em perigo. Mas não. Ele corria por correr, receoso de levar a mão ao casco fugitivo, não fosse ela ficar na boca da tartaruga.
- João! João! Lá vai uma!
Do cozinheiro só se via o farol, a deambular sobre a praia. Mas João era assaz ladino para cortar a dianteira ao anfíbio alarmado. Apanhou-o já rente à água, introduzindo os dedos entre a cabeça e o casco, e firmando rápido, o pé, cá atrás, junto ao rabo. Com a força que fazia, esgaravatando na areia, a própria tartaruga, subitamente retida, se voltava de peito para o ar.
- Já chega por esta noite – disse João
- Quantas?
- Virei três pitiús, cinco tracajás e esta
- Já é bem bom!
…”

Ferreira de Castro, "A Selva", Capítulo XII

Ficamos sem saber de que espécie era esta… Felizmente, hoje, as tartarugas já são espécie protegida!

BESTIÁRIO DE "A SELVA" (4)

O pirarucu, denominado “bacalhau da Amazónia”, é um peixe da bacia do Amazonas e de outros rios do Brasil. Em A Selva, faz parte da dieta dos seringueiros, como se pode ver no Capítulo IV: «Mas com os “brabos”, ignorantes do que era e não era indispensável, Juca Tristão (…) organizava a lista do aviamento: o boião para defumar, a bacia para o látex, o galão, o machadinho, as tigelinhas de folha, todos os utensílios que a extracção da borracha exigia – e mais um quilo de pirarucu e uns litros de farinha (…)».
Se se lembram de Seara Vermelha, de Jorge Amado, este peixe abundante era dado aos retirantes cearenses quando, depois de ultrapassada a inóspita caatinga, viajavam de barco no rio São Lourenço rumo a Pirapora e às promissoras lavouras de café em São Paulo. A fome transformava-se em fartura: pirarucu cozido, arroz e pirão feito com o caldo gordo do peixe. A comida forte em corpos fracos originava desinterias e mortes. 

23 janeiro 2020

BESTIÁRIO DE "A SELVA" (3)

 Imagens da net - garça, jaburú, maguari

“…

Puseram-se a andar sobre a folhagem que alarmava a floresta com o range-range da pisadura. Depois, Firmino deteve-se, levando o dedo aos lábios:
- Schiu! Agora devagarinho…

E mais além:
-Olhe, olhe!
Por uma fresta da selva vislumbrava-se pequena clareira – o chão negro lamacento e sobre ele pernaltas de linda plumagem. Alberto reconheceu logo a garça nívea e delicada, o jaburú tristonho, o maguari pensativo, como se se houvesse despregado de um templo oriental – e outras mais, muitas outras que só memória prodigiosa identificaria entre a variedade sem fim…
(…)
Indicando as aves esbeltas, que eram mimo de beleza na solidão imperante, Firmino interrogou, pondo o rifle em linha de disparo:
- Quere que mate uma?
- Come-se?
- Para comer não vale a pena gastar bala…
- Então não mate.
…”

Ferreira de Castro, "A Selva", Capítulo VI

DO LÁTEX À BORRACHA

Imagens tiradas do livro O Seringal e o Seringueiro, de Arthur Cezar Ferreira Reis. Edição do Ministério da Agricultura, Rio de Janeiro,1953. As tigelas colocadas sob as incisões feitas na árvore para recolha do látex, a defumação e as bolas ou "peles de borracha" - tudo como é descrito por Ferreira de Castro em A Selva. 


22 janeiro 2020

BESTIÁRIO DE "A SELVA" (2)

«Da água presa, como a do igapó, na concavidade da terra e abandonada pelas outras, que se tinham escoado mal o rio dera em vazar, ficara apenas um charco, onde se recolheram quantas vidas por lá deambulavam.
(...)
Deslizavam também, ondulando para abrir caminho nessa vaza pestilenta, os temerosos puraqués, que tinham sete fôlegos de gato e pele viscosa de enguias.
Firmino aguçou a ponta de pequena vara e com ela fisgou um.
- Não lhe toque, seu Alberto!
- Porquê?
- Vai ver...
Despiu a blusa, numa das mangas envolveu o cabo do seu facão e com a lâmina roçou de leve o dorso do puraqué.
- Agora toque aqui... Mas só com um dedo - e indicava o espigão do terçado, que aparecia na extremidade da madeira. Alberto obedeceu e logo se sentiu percorrido por um forte choque eléctrico.
Firmino sorria e explicava:
- Este bicho é assim. Se um homem tem o coração fraco e lhe toca dentro de água, pode ir para o outro mundo...»

--- FERREIRA DE CASTRO, A Selva, Capítulo VI.

21 janeiro 2020

BESTIÁRIO DE "A SELVA" (1)

«Subitamente, porém, Firmino deteve-se, fez um gesto rápido a Alberto e, tirando o rifle do ombro, apontou para a frente. Um tiro soou.
(...)
Firmino deteve-se um pouco mais além, a examinar a terra, as folhas dos arbustos e a espreitar para dentro da selva. (...)
- Escapuliu-se! Vamos! - gritou de lá.
Alberto aproximou:
- Que foi? 
- Uma anta. Deve ter apanhado bala, mas não deixou sangue. Era do tamanho dum novilho.
- E come-se? 
- Se se come! É da melhor carne que tem o Amazonas.»

--- FERREIRA DE CASTRO, A Selva, Capítulo V.

02 janeiro 2020

"A Selva" de Ferreira de Castro - 31 de Janeiro às 21h00


A abrir o novo ano e o trimestre “(re) leituras”, voltamos a Ferreira de Castro e ao belíssimo, "A Selva", um romance extraordinário sobre a vida dos seringueiros na selva amazónica, quando o ciclo da borracha iniciava a sua curva descendente.

29 dezembro 2019

E passaram mais doze meses de leituras!


Um pouco em jeito de balanço anual, mas também para memória futura e antes de entrarmos em 2020, deixo algumas notas sobre aquilo que fomos fazendo durante o corrente ano.
O amor pela leitura, mantém esta Comunidade em andamento desde 2007. Temos uma média de 20 leitores presentes por sessão, o que torna as mesmas muito animadas e dinâmicas.
Os livros levam-nos ainda para fora de portas, atrás de programas diversos que nos enriquecem a mente e alimentam o espírito. Assim, entre leituras, exposições, visitas, viagens, teatro, jantares, concertos, aconteceu de tudo um pouco!


No primeiro trimestre do ano andámos pela “Literatura no Feminino”. Revisitámos Jane Austen (Sensibilidade e Bom Senso), Emily Brontë (O Monte dos Vendavais) e Françoise Sagan (Bom Dia Tristeza). Foram sessões muito participadas, com animadas discussões entre géneros.

No segundo trimestre, lembrámos os “Autores Esquecidos” como José Rodrigues Miguéis (A Escola do Paraíso), Maria Judite de Carvalho (Tanta Gente, Mariana) e Luís de Sttau Monteiro (Um Homem não Chora). 
O romance “A Escola do Paraíso” levou a que o Manuel Nunes, durante o mês de Abril,  fizesse um périplo fotográfico por Lisboa, refazendo os passos do José Rodrigues Migueis. Está tudo disponível em diversas publicações no blogue que justificam plenamente uma leitura. 
Também em Abril, um pequeno grupo de leitores assistiu no Teatro D. Maria II, à récita de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett.

No mês de Junho, tivemos uma sessão especial na Feira do Livro de Lisboa. O escritor Carlos Querido, convidou-nos para fazermos uma apresentação do seu livro de contos, “Habeas Corpus”. Foi mais uma sessão memorável, com uma boa presença dos nossos leitores.


Chegou o Verão e com ele o terceiro trimestre, onde mergulhámos de cabeça na “Literatura Alemã”. Começámos com Goethe (Werther), seguiu-se Herman Hesse (O Lobo das Estepes) e terminámos com Erich Maria Remarque (Uma Noite em Lisboa).
A propósito do Goethe, a nossa leitora Amélia Cabrita publicou no blogue (no mês de Julho), matéria muito importante e interessante relativa à sua visita a Weimar, lugar incontornável na vida deste escritor. Recomendo a leitura. 

A estação mais quente do ano, trouxe muita animação e assim, entre outros programas, alguns dos nossos leitores marcaram presença na Festa dos Tabuleiros em Tomar, nas visitas de fado cantadas de alguns bairros históricos de Lisboa e no já tradicional Concerto dos 6 Órgãos de Mafra. Atravessámos o rio e fomos à Trafaria (entre outras travessias). 


Apanhámos o comboio e num programa muito especial que implica um grupo de “jovens” à solta, houve deslocações a Setúbal, Évora, Aveiro, Coimbra e Santarém. 



Houve ainda uma visita, cuja temática foi a estátua de D. José na Praça do Comércio, que nos levou à Sala dos Gessos (onde estão os moldes da dita) e ao Museu Militar, com uma passagem pelo núcleo museológico do Hotel Eurostars.


Foi um Verão cheio, onde não faltou energia, nem magia!

No quarto trimestre, visitámos aqueles a que decidimos chamar de “Queridos Autores”. Primeiro tivemos o nosso Eça de Queirós (A Capital), depois o repetente Philip Roth (Pastoral Americana) e terminámos com os contos de Gabriel Garcia Marquez (Doze Contos Peregrinos). Foram leituras de peso!
A anteceder a última sessão do ano, tivemos o habitual jantar anual, alegre convívio partilhado pela maioria dos membros da Comunidade.

E assim deixo esta síntese do ano. Houve muito mais, pelo que, convido outros leitores a acrescentarem o que entenderem por bem!

Uma palavra de agradecimento para a Biblioteca de São Domingos de Rana, que  em boa hora nos acolhe, continuando a disponibilizar o espaço para as nossas reuniões.

Boas Leituras para 2020!

18 dezembro 2019

AMORES À PRIMEIRA VISTA

«À laia de desculpa, perguntei-lhe se acreditava nos amores à primeira vista.
- Claro que sim - disse-me ela. - Os outros é que são impossíveis.»
--- Doze Contos Peregrinos, conto "O Avião da Bela Adormecida" (1982).

03 dezembro 2019

“Doze Contos Peregrinos” de Gabriel García Márquez - 27 de Dezembro às 21h00



“O homem da agência funerária chegou tão pontualmente que Maria dos Prazeres estava ainda em roupão de banho e com a cabeça cheia de rolos, e mal teve tempo para pôr uma rosa vermelha na orelha a fim de não aparecer tão indesejável como se sentia. Lamentou-se ainda mais do seu estado quando abriu a porta e viu que não se tratava apenas de um lúgubre, como ela supunha que deviam ser os comerciantes da morte, mas um jovem tímido com um casaco aos quadrados e uma gravata com pássaros coloridos. Não trazia sobretudo, apesar da Primavera incerta de Barcelona, que as chuvas batidas por ventos oblíquos tornavam quase sempre menos suportável ainda do que o Inverno. Maria dos Prazeres, que recebera tantos homens a qualquer hora, sentou-se envergonhada como pouquíssimas vezes lhe sucedera. Acabava de completar setenta e seis anos e convencera-se de que ia morrer antes do Natal, mas, apesar disso, esteve quase a fechar a porta e a pedir ao vendedor de funerais que esperasse um instante enquanto se vestia para o receber depois, de acordo com os seus méritos. Mas pensou que o rapaz ia gelar no patamar às escuras e deixou-o entrar…”

A abrir o conto “Maria dos Prazeres”, incluído no livro “Doze Contos Peregrinos” de Gabriel García Márquez

02 dezembro 2019

AINDA SOBRE PHILIP ROTH


No seguimento da nossa sessão de sexta-feira, transcrevo declarações de Philip Roth sobre a América de Trump (entrevista publicada no jornal Expresso):

«Ninguém que eu conheça previu uma América como a de hoje. Ninguém (exceto talvez o ácido H. L. Mencken, que descreveu a democracia americana como “a adoração de chacais por idiotas”) podia imaginar que a catástrofe que atingiria os EUA no século XXI, o mais rebaixante dos desastres, surgiria não sob, digamos, o aspeto aterrador de um Big Brother orwelliano, mas sob a ameaçadoramente ridícula figura de commedia dell’arte de um bufão gabarolas. Quão ingénuo fui nos anos 60 ao pensar que era um americano a viver em tempos absurdos! Quão pitoresco! Mas, afinal, o que é que eu podia saber em 1960 sobre 1963 ou 1968 ou 1974 ou 2001 ou 2016?»

Noutro passo da entrevista, diz o escritor:

«Trump (…) é uma fraude maciça, a soma maligna das suas deficiências, destituído de tudo exceto a ideologia oca de um megalomaníaco.»

A entrevista pode ser lida aqui:



30 novembro 2019

Plano de leituras 2020

Ilustração de Lorenzo Mattotti

1º Trimestre – (re) Leituras 

31 Janeiro - Ferreira de Castro, A selva
28 Fevereiro - Agustina Bessa Luís, A Sibila
27 Março - Jorge Amado, Jubiabá

2º Trimestre – Eça & Cª

24 Abril - Eça de Queirós, O conde de Abranhos
29 Maio - Gustave Flaubert, A educação sentimental
26 Junho - Honoré de Balzac, O tio Goriot

3º Trimestre – América!
31 Julho - Philip Roth, Casei com um comunista
28 Agosto - Margaret Atwood, Semente de Bruxa
25 Setembro - John Steinbeck, Viagens com o Charley

4º Trimestre – Recém-Laureados


30 Outubro - Afonso Reis Cabral, Pão de Açúcar (Prémio José Saramago 2019)
27 Novembro - Olga Tokarazuk, Viagens (Prémio Nobel da Literatura 2018)
18 Dezembro - Kazuo Ishiguro, As Pálidas Colinas de Nagasáqui (Prémio Nobel da Literatura 2017)

22 novembro 2019

SWEET BLACK ANGEL

ANGELA DAVIS (1944), lutadora pelos direitos humanos, icónica revolucionária dos anos 70 a quem os Rolling Stones e a dupla John Lenon/Yoko Ono dedicaram canções, perseguida e presa pelo FBI, surge em Pastoral Americana num episódio em que se misturam realidade e ficção. Fim do Capítulo 4 da Parte II, "A Queda". 

04 novembro 2019

"Pastoral Americana" de Philip Roth – 29 Novembro às 21h00

Sinopse

"Seymour «Sueco» Levov, um lendário atleta universitário, devotado homem de família, trabalhador esforçado e próspero herdeiro, envelhece na triunfante América do pós-guerra, vendo esfumar-se tudo o que ama quando o país começa a efervescer nos turbulentos anos 60.
Nem o mais tranquilo e bem-intencionado cidadão consegue escapar à vassourada da história, nem o Sueco pode permanecer para sempre na felicidade da amada e velha quinta em que vive com a sua bela mulher e a filha, que se torna uma revolucionária terrorista apostada em destruir o paraíso de seu pai. A inocência do Sueco Levov é varrida pelos tempos - como tudo o que foi criado pela sua família, através de gerações, deitado por terra na violenta explosão de uma bomba no seu bucólico quintal".