24 abril 2020

AINDA O CONDE D' ABRANHOS E A NOSSA HISTÓRIA


A páginas tantas de O Conde d' Abranhos: "Hoje, destruído o regimen absoluto, temos a feliz certeza de que a Carta liberal é justa, é sábia, é útil, é sã. Que necessidade há de a examinar, criticar, comparar, pôr em dúvida?...".
A Carta que vigorava na época do Conde e também do Eça, era a 2ª Constituição portuguesa, de 1826, com o nome de Carta Constitucional, conhecida como A Carta. Refletia a reação conservadora contra a Constituição liberal de 1822. Outorgada por D.Pedro I do Brasil, (e IV de Portugal), após a morte de D.João VI, seguia o modelo francês de 1814 e o exemplo de outros países, como Alemanha, Polónia, e o próprio Brasil, cuja Constituição datava de 1824, outorgada pelo mesmo D. Pedro.
Esta Carta tinha introduzido várias medidas anti-democráticas e a Câmara dos Pares, que fazia pendant nas Cortes com a Câmara dos Deputados, era composta por elementos da nobreza e do clero escolhidos pelo rei (por esta altura, D. Luís), "vitalícia e hereditariamente", incluindo o príncipe real e os infantes. O poder moderador pertencia ao rei, que podia nomear os pares, convocar Cortes e dissolver a Câmara dos Deputados, para além de nomear e demitir o governo, vetar as leis, etc. Também lhe pertencia o poder executivo em conjunto com o governo, pertencendo o poder judicial aos juízes e jurados. Um Conselho de Estado, igualmente de nomeação régia, assistia o rei como cabeça do poder moderador.
Com esta disposição, "quase toda a alta nobreza e a totalidade da hierarquia ficavam com lugar permanente no novo Parlamento liberal". A Carta de 1826 agradava às tradicionais classes privilegiadas, para além de incluir, na Câmara dos Deputados os grandes proprietários e burgueses.
É então esta Carta que vai perdurar um total de 72 anos; numa 1ª fase, de 1926 a 1928 e depois, de 1834 até 5 de outubro de 1910, "como texto fundamental do Reino".

MARQUES, A.H.O. 1998. História de Portugal. Vol III. Lisboa: Editorial Presença

Conde d’Abranhos, sessão mensal em modo videoconferência!



Hoje é dia da nossa sessão mensal. Não sendo possível reunir presencialmente, vamos fazê-lo de forma virtual. Todos os membros da Comunidade receberam o convite para participação, por isso contamos com a presença daqueles que tiverem disponibilidade.

Em discussão e análise, a vida de “Alípio Severo Abranhos, Conde d'Abranhos…varão eminente, Orador, Publicista, Estadista, Legislador e Filósofo”, tal como o descreve o seu eloquente secretário Z. Zagalo.

Eça e a sua crítica política feroz, no seu melhor.

22 abril 2020

O CONDE D´ABRANHOS (4)

Lendo O Conde d´Abranhos, podemos identificar o período do Liberalismo em que se insere a carreira política do protagonista, questionando-nos se sob os nomes fictícios de partidos, ministérios e agentes políticos ( Reformadores, Nacionais, ministério Cardoso Torres, o «velho general despeitado» da Revolta de 20 de Junho, etc.) não estarão nomes reais, historicamente conhecidos, de um tempo concreto e preciso. 
O Conde d´Abranhos foi escrito de um fôlego em 1879, durante uma estadia de Eça em Dinan, na Bretanha, embora a publicação só postumamente ocorresse, em 1925. À época da sua escrita, por razões que se adivinham, o editor terá chegado a propor que o livro saísse sem indicação da autoria.
A carreira política de Alípio Abranhos desenrola-se no 3º período do Liberalismo (1851 a 1890), conhecido pelo nome de Regeneração. Trata-se de um período caracterizado por um conjunto de melhorias materiais – rede viária e ferroviária, faróis, portos, telégrafo, fornecimento de água e iluminação – com expansão do sector agrícola mas fraca progressão da indústria. Este programa de desenvolvimento foi denominado Fontismo, devido a Fontes Pereira de Melo, seu inspirador e principal impulsionador.
No plano político destacavam-se os partidos Regenerador, Reformista e Histórico, tendo estes últimos dado origem, em 1876, ao Partido Progressista. As forças partidárias iam alternando no poder, tal como os Reformadores e os Nacionais do romance, sem que entre elas houvesse diferenças significativas, tanto ideológicas  como de prática política. Era o rotativismo.
Desconheço a eventual correspondência histórica do ministério Cardoso Torres, mas tendo a normalidade constitucional da Regeneração sido perturbada por golpes de estado – a revolução da Janeirinha em 1867-1868 e o golpe do Marechal Saldanha em 1870 – o livro de Eça faz eco de tais acontecimentos com o pronunciamento do «velho general despeitado», uma provável representação do marechal Saldanha, chefe militar prestigiado e inveterado golpista.
De notar que o período da Regeneração corresponde no plano cultural ao do segundo Romantismo, execrado e combatido pela escola realista, sendo notórias, neste e noutros escritos de Eça, as sátiras em torno de poemas ultra-românticos de João de Lemos, Soares de Passos e Bulhão Pato.
E assim, temos um romance que ficou na gaveta por mais de quarenta e cinco anos, ultrapassado em data de publicação por obras menos acutilantes do autor, um romance inacabado, sem revisão, o que lhe confere essa característica de peça em bruto, sem rodeios, num registo de quem fala com “o coração na boca” – fundamentalmente pelo discurso laudatório do narrador-biógrafo, convencido de que está a pôr nos píncaros o seu mentor e afinal só lhe descobre as fraquezas, a mediocridade intelectual e as misérias do seu carreirismo político sem honra nem princípios.

[Fontes: www.feq.pt, sítio da Fundação Eça de Queiroz; JOÃO MEDINA, História de Portugal Contemporâneo (político e institucional), Universidade Aberta, 1994.]

16 abril 2020

Luís Sepúlveda (1949-2020) - O fim de um voo...

 
(Foto Bruno Simão)
(Foto dos meus livros)

“Capítulo 4 - O fim de um voo

O gato grande, preto e gordo estava a apanhar sol na varanda, ronronando e meditando acerca de como se estava bem ali, recebendo os cálidos raios de barriga para cima, com as quatro patas muito encolhidas e o rabo estendido.
No preciso momento em que rodava preguiçosamente o corpo para que o sol lhe aquecesse o lombo ouviu o zumbido provocado por um objeto voador que não foi capaz de identificar e que se aproximava a grande velocidade. Atento, deu um salto, pôs-se de pé nas quatro patas e mal conseguiu atirar-se para um lado para se esquivar à gaivota que caiu na varanda.
Era uma ave muito suja. Tinha todo o corpo impregnado de uma substância escura e malcheirosa.
Zorbas aproximou-se e a gaivota tentou pôr-se de pé arrastando as asas.
-Não foi uma aterragem muito elegante - miou.
-Desculpa. Não pude evitar -reconheceu a gaivota.
-Olha lá, tens um aspeto desgraçado. Que é isso que tens no corpo? E que mal que cheiras! -miou Zorbas.
-Fui apanhada por uma maré negra. A peste negra. A maldição dos mares. Vou morrer - grasnou a gaivota num queixume.
-Morrer? Não digas isso. Estás cansada e suja. Só isso. Porque é que não voas até ao jardim zoológico? Não é longe daqui e lá há veterinários que te poderão ajudar -miou Zorbas.
-Não posso. Foi o meu voo final - grasnou a gaivota numa voz quase inaudível, e fechou os olhos.
-Não morras! Descansa um pouco e verás que recuperas. Tens fome? Trago -te um pouco da minha comida, mas não morras - pediu Zorbas, aproximando-se da desfalecida gaivota.
Vencendo a repugnância, o gato lambeu-lhe a cabeça. Aquela substância que a cobria, além do mais, sabia horrivelmente. Ao passar-lhe a língua pelo pescoço notou que a respiração da ave se tornava cada vez mais fraca.
-Olha, amiga, quero ajudar-te, mas não sei como. Procura descansar enquanto eu vou pedir conselho sobre o que se deve fazer com uma gaivota doente - miou Zorbas, preparando-se para trepar ao telhado.
Ia a afastar-se na direção do castanheiro quando ouviu a gaivota a chamá-lo.
-Queres que te deixe um pouco da minha comida? - sugeriu ele algo aliviado.
-Vou pôr um ovo. Com as últimas forças que me restam vou pôr um ovo. Amigo gato, vê-se que és um animal bom e de nobres sentimentos. Por isso, vou pedir -te que me faças três promessas. Fazes? – grasnou, sacudindo desajeitadamente as patas numa tentativa falhada de se pôr de pé.
Zorbas pensou que a pobre gaivota estava a delirar e que com um pássaro em estado tão lastimoso ninguém podia deixar de ser generoso.
-Prometo-te o que quiseres. Mas agora descansa – miou ele compassivo.
-Não tenho tempo para descansar. Promete-me que não comes o ovo - grasnou ela abrindo os olhos.
-Prometo que não te como o ovo - repetiu Zorbas.
-Promete-me que cuidas dele até que nasça a gaivotinha.
-Prometo que cuido do ovo até nascer a gaivotinha.
-Promete-me que a ensinas a voar - grasnou ela fitando o gato nos olhos.
Então Zorbas achou que aquela infeliz gaivota não só estava a delirar, como estava completamente louca.
-Prometo ensiná-la a voar. E agora descansa, que vou em busca de auxílio – miou Zorbas trepando de um salto para o telhado.
Kengah olhou para o céu, agradeceu a todos os bons ventos que a haviam acompanhado e, justamente ao exalar o último suspiro, um pequeno ovo branco com pintinhas azuis rolou junto do seu corpo impregnado de petróleo….”

In “História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar”, de Luís Sepúlveda


15 abril 2020

O CONDE D´ABRANHOS (3)

Nos romances de Eça há recorrências notáveis. Uma delas é o aparecimento de personagens de meninos-prodígios a recitarem poesia. Deveis estar lembrados do Cap. III d´Os Maias, o «tristonho e molengão» Eusebiozinho a mostrar os seus dotes com o poema “A Lua de Londres” do ultra-romântico João de Lemos.
O Conde de Abranhos, a menina Julinha recita o mesmo poema em casa do bestial desembargador Amado, sendo citados quatro versos da primeira estrofe e outros tantos da segunda. Antes, a prodigiosa menina aventurara-se por poesia mais funesta, nada mais, nada menos que “O Noivado do Sepulcro”, de Soares de Passos:
«Vai alta a Lua na mansão da morte,
Já meia-noite com vagar soou…»
É claro que o bom do Eça não refere os títulos dos poemas nem os nomes dos seus autores. Nem tal era preciso, tão conhecidos eram eles dos salões e saraus chiques da época. Os poetas ultra-românticos, os citados e também Bulhão Pato, foram bobos da festa nas narrativas queirosianas. Os portugueses e ainda Lamartine, o criador de Elvira, embora este estivesse uns degraus acima dos românticos serôdios cá do burgo. Cá da «choldra», diria o Eça.

14 abril 2020

O CONDE D´ABRANHOS (2)

Escrevendo em louvor de Alípio Abranhos, Z. Zagalo tem páginas de utilidade e rigorosa actualidade. 
Hoje retomei a leitura naquela parte do livro em que o «varão eminente» está a praticar as técnicas forenses no escritório do famoso jurista Dr. Vaz Correia. Na sua douta explanação, o biógrafo traz à colação a histórica revolta da Maria da Fonte, iniciada no Minho em Março-Abril de 1846 e depois alargada, num crescendo da crise social, a outras regiões do país.
Isto deu-me a oportunidade de ir rever os manuais da universidade, nomeadamente a História de Portugal Contemporâneo – Político e Institucional, de João Medina, na edição da Universidade Aberta.
É bom sinal que um livro de ficção nos leve a descobrir ou relembrar certos temas da nossa história. A boa ficção é uma leitura séria e na maioria dos casos altamente científica.
A revolta da Maria da Fonte fez-se contra o governo ditatorial de António Bernardo de Costa Cabral (1803-1889), um governo que, apesar de ter saído de um golpe de Estado e restabelecido um regime constitucional conservador (a Carta), empreendeu medidas progressistas como a proibição dos enterros nas igrejas e recintos anexos. A reacção popular de cariz religioso a esta medida sanitária (via-se nela o afastamento dos defuntos da asa protectora da Igreja) foi seguida de grandes desacatos com assaltos de camponeses às sedes da administração civil, a arquivos da Fazenda e quartéis, tendo os revoltosos tomado as cidades de Braga e Guimarães.
Diz João Medina: «A Maria da Fonte foi uma reacção sobretudo provinciana, camponesa e agrária contra as reformas em geral do Liberalismo (legislações de Mouzinho, Joaquim A. de Aguiar e Silva Carvalho) e contra alguns aspectos mais modernos da política de fomento material empreendida pela ditadura dos Cabrais e, nesta medida, contra a própria modernização económico-social iniciada desde 1842.»
Claro que esta explosão social e a coligação negativa – como hoje se diz – que se estabeleceu (cartistas anticabralistas, setembristas e até miguelistas) acabou por determinar a destituição de Costa Cabral pela rainha D. Maria II.
Mas voltemos a Z. Zagalo e a Alípio Abranhos (não sei se repararam, mas é como ir de AA a ZZ, um vasto campo, o que talvez não seja inocente…). Era ideia do ilustre pensador político que o regime constitucional democrático deveria prevalecer sobre o autoritário, que essa seria a melhor forma de levar as ovelhas ao redil. Demos a palavra a Z. Zagalo: «O Conde d´Abranhos, com a sua alta intuição, sentiu que se estava preparando uma nova política, que, condizendo com o seu temperamento, seria o elemento natural em que a sua fortuna medraria como num terreno propício. Ele bem sabia que o governo nada perdia do seu poder discricionário – mas que apenas o disfarçava. Em vez de bater uma forte patada no país, clamando com força: – Para aqui! Eu quero! – os governos democráticos conseguem tudo, com mais segurança própria e toda a admiração da plebe, curvando a espinha e dizendo com doçura: – Por aqui, se fazem favor! Acreditem que é o bom caminho!»
Não sei o que estão os nossos leitores a pensar, mas, se calhar, estão a pensar o mesmo que eu.

11 abril 2020

10 abril 2020

Em formato TV


(imagem da série)


Através do nosso leitor José Moreira, chegou-nos a informação desta série de ficção da RTP, baseada na obra de Eça de Queirós, que estamos a ler no mês de Abril.

Se quiserem acompanhar, neste formato, o percurso político de Alípio Abranhos, fica o link para todos os episódios:


07 abril 2020

O CONDE D´ABRANHOS (1)


Falemos d’ O Conde d´Abranhos. Para começar, a carta-prefácio de Z. Zagalo, ex-secretário do «varão eminente» e seu humílimo biógrafo.
Esta carta é assim como um programa da narrativa a apresentar. O leitor percebe logo, e isso não lhe diminui o interesse, com que tipo de discurso se vai deparar. Um discurso laudatório sobre uma personagem pautada pelos valores fundamentais que alegadamente forjaram a grandeza da Pátria.
Portanto, esperamos ver no Conde de Abranhos o seu «ser moral», a sua «filosofia tão profundamente religiosa» e a «vasta ciência política» adquirida, além da profunda devoção à família – nomeadamente à segunda esposa, Dona Catarina, «um bálsamo» para a vida – e o seu reconhecimento aos servidores estrénuos e dedicados como este impagável Z. Zagalo metido a biógrafo da grande figura pública.
Sendo assim, vamos lá à leitura!

01 abril 2020

Abril é mês de "O Conde d'Abranhos" (mesmo sem sessão presencial)




A abrir:

“ALÍPIO SEVERO ABRANHOS nasceu no ano de 1826, em Penafiel, no dia de Natal. A Providência, por um símbolo subtil e engenhoso, fez nascer no dia sagrado em que nasceu Jesus de Nazaré, aquele que em Portugal devia ser o mais forte pilar e o procurador mais eloquente da Igreja, dos seus interesses e do seu reino.

Muitas vezes o Conde se comprazia em contar que, nessa noite de 24 de Dezembro de 1826, Inverno que ficou na história pelas grandes neves que caíram, seus pais – segundo a tradição venerada na família – tinham armado um presépio, como era costume nesses tempos em que a boa fé portuguesa amava a piedosa devoção dos altares íntimos. Ao centro do presépio, florido de muita verdura, entre os animais da narração evangélica, o Menino Jesus sorria, nos braços de uma Virgem, obra delicadamente trabalhada por Antão Serrano, o grande santeiro de Amarante. Em torno, ardiam as velas de cera; na cozinha, cantavam nas frigideiras os rojões da ceia; o lume de lenha húmida estalava jovialmente, e fora, na neve que caía, os sinos repicavam para a missa do Galo – quando a mãe do Conde, subitamente
Sentiu o tenro ser...
como diz o nosso grande lírico no seu poema, A Mãe…"

in “O Conde d’Abranhos” de Eça de Queiroz

Em Abril, continuaremos certamente sem nos podermos encontrar. Que isso não nos impeça, de ler o livro agendado para este mês!

"A MONTANHA MÁGICA". CRUÉIS, FLEUMÁTICOS E ENÉRGICOS

Vou lendo este livro que tem tanto a ver com o momento presente, ainda que nele seja um bacilo e não um vírus a desempenhar o papel da lúgubre Átropos, cortando impiedosamente o fio da vida.
Ludovico Settembrini, homo humanus, visita Hans Castorp no seu leito de enfermo. O jovem está constipado, uma doença secundária porque a principal, um foco húmido no pulmão, é a que lhe foi detectada pelo médico-chefe do sanatório, o conselheiro Behrens.
Conversam sobre a natureza dos alemães: cruéis, fleumáticos e enérgicos. Conversam sobre a doença e a morte. Diz Settembrini: «Permita-me, senhor engenheiro, permita-me que lhe diga e sublinhe
que a única forma salutar e nobre, que é ao mesmo tempo – e acrescento com toda a ênfase – a única forma religiosa de encarar a morte é considerá-la como parte integrante e componente da vida, é senti-la como condição sagrada da mesma, e não de algum modo – o que estaria nos antípodas do saudável, nobre, razoável e religioso – separá-la, no plano intelectual, da vida, colocando as duas em confronto ou até em oposição. Os povos antigos adornavam os sarcófagos com imagens da vida e da fertilidade, por vezes até com símbolos obscenos. No quadro do ideário religioso da Antiguidade, o sagrado coincidia, não raras vezes com o obsceno. Aqueles homens sabiam venerar a morte. É precisamente por ser o berço da vida, o seio da renovação, que a morte é venerável. Dissociada da vida, a morte transforma-se em fantasma, em monstro ou em algo ainda pior. Vista como força espiritual autónoma, a morte é extremamente devassa, podendo o seu magnetismo malévolo conduzir à mais abominável alienação do espírito humano.»
Bem, depois desta citação acho que já interessei uns tantos leitores pela obra… e afastei outros, talvez mais, da sua leitura…

31 março 2020

"A MONTANHA MÁGICA", O SANATÓRIO BERGHOF E O CONFINAMENTO

A fotografia, de 1915, é do Sanatorium Valbella, de Davos, que terá servido de modelo a Thomas Mann para o Sanatório Berghof d’ A Montanha Mágica. Esta é a história dum jovem engenheiro alemão, Hans Castorp, que vem visitar o seu primo ali em tratamento. A estadia era para ser de três semanas, mas entretanto é o próprio Castorp que se vê acometido por um foco de tuberculose, sendo aconselhado pelo reputadíssimo Behrens, médico-chefe do sanatório, a ficar internado sem nenhuma previsão de quando poderia voltar à vida normal.
Há nos primeiros capítulos do romance um discurso recorrente sobre o tempo: o tempo físico e o psicológico, a aparência das suas diferentes velocidades.
Isto faz-me reflectir sobre o tempo vivido em confinamento. Estranhamente, parece-me que ele corre depressa, os dias esgotam-se num ápice. Ando por aqui a fazer o que me é permitido e quando dou por mim é já de noite. Esta é a sensação descrita no romance para Hans Castorp quando passa da situação de visitante a doente internado. Não me adentro nos argumentos filosóficos avançados pelo narrador para tal fenómeno, leiam que depois falamos. Tais argumentos podem surgir como paradoxais: então não é do senso comum que quanto mais distraídos andamos, mais o tempo parece correr depressa? E que em situações de monotonia (de confinamento) vem o tédio e toma conta de nós, fazendo de cada dia um tempo imensamente longo?
A minha experiência, como disse, não o indica, mas o melhor é que cada um fale por si.

30 março 2020

"A MONTANHA MÁGICA" E A REVOLUÇÃO DE 1830 EM PARIS

EUGÈNE DELACROIX, A Liberdade Guiando o Povo (1830). Comemoração da Revolução de Julho de 1830 ou Revolução dos Três Dias Gloriosos, referida em A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Queda da dinastia absolutista de Bourbon e subida ao trono de Luis Filipe de Orleães, o rei burguês. 

Do Quarto Capítulo d´A Montanha Mágica, de Thomas Mann, li hoje o subcapítulo “Temor Crescente. Dos dois avós e do passeio de barco ao lusco-fusco.” É um extenso trecho do romance em que as asserções da personagem Ludovico Settembrini levam o protagonista Hans Castorp a reequacionar algumas das suas concepções do mundo e da vida numa atitude de estranhamento, de tentativa de compreensão e, finalmente, de alguma admiração e respeito por aquele seu antagonista.
Ludovico Settembrini está em tratamento no sanatório Berghof de Davos-Platz e Hans Castorp é  visita do mesmo sanatório onde pensava passar três semanas a acompanhar o seu primo Joachim ali igualmente em tratamento.
Castorp é um jovem engenheiro alemão fortemente marcado pelo avô cristão e conservador que, por morte dos pais, se encarregou de o educar. Settembrini é um erudito de nacionalidade italiana cujo espírito revolucionário da família remonta ao seu avô Giuseppe.
Sobre as ideias de Settembrini e a estranheza de Castorp perante elas, diz o narrador: «Uma só vez, contava o italiano, uma só vez na vida, no princípio da sua idade adulta, conhecera o avô a felicidade em toda a sua plenitude – por ocasião da revolução de Julho em Paris. E então proclamara, publicamente e a plenos pulmões, que um dia viria em que todos os homens iriam comparar aqueles três dias de Paris aos seis dias da criação do mundo. Ao ouvir tal coisa, Hans Castorp não se pôde conter e bateu com o punho na mesa, tão profunda era a sua estupefacção. Parecia-lhe de um exagero inaudito pretender comparar os três dias do Verão de 1830, durante os quais o povo de Paris promulgara uma nova Constituição, aos seis dias que Deus Nosso Senhor levara a separar os continentes dos oceanos e a criar as estrelas do firmamento, as flores e as árvores, os pássaros e os peixes, enfim, toda a vida à face da Terra.»
Isto e muito mais foi ouvido pelo jovem Hans Castorp da boca de Ludovico Settembrini e acabou por produzir nele um efeito que superou a estranheza inicial, vendo no discurso do italiano algo «que valia a pena ouvir e saber, se bem que mais a título experimental e sem compromisso.»
Se será assim ou não, só o poderemos saber em fase mais adiantada do romance.

27 março 2020

Uma carta entre dois grandes!


(Ferreira de Castro e Jorge Amado - foto da net)

Ao fazer algumas pesquisas sobre Jubiabá, encontrei este excerto de uma carta que Jorge Amado escreveu a Ferreira de Castro (cujo original estará no Museu Ferreira de Castro – talvez o nosso coordenador Manuel Nunes possa dizer algo sobre isso…)

“…Venho de passar quatro meses na Bahia, recolhendo um resto de material para um romance sobre negros. Chamar-se-á Jubiabá, nome de um macumbeiro de lá, e espero fazer um livro forte, fixando nas duas primeiras partes — “Bahia de Todos os Santos” e “Grande Circo Internacional” — todo o pitoresco do negro baiano — música, religião de candomblé e macumba, farras, canções, conceitos, carnaval místico — e toda a paradoxal alma do negro — raça liberta, raça das grandes gargalhadas, das grandes mentiras e raça ainda escrava do branco, fiel como cão, trazendo nas costas e na alma as marcas do chicote do Sinhô Branco. A terceira parte — “A greve” — será a visão da libertação integral do negro pela sua proletarização integral. Que acha v. do plano?...”

Não sei o que achou Ferreira de Castro, mas eu achei muito bem e agradeço-lhe por isso!

ZÉ TAPERA & TEODORO - PEDRO MALAZARTE

26 março 2020

Jubiabá para cinéfilos


Jubiabá de Nelson Pereira dos Santos (1987)

Vi hoje e gostei.

O Circo


Le cirque - Georges Seurat (1890-1891) - Musée d'Orsay

Giusepe, um dos donos do grande circo internacional, que bebia para esquecer, contou numa noite a Balduíno, que o circo fazia parte da história da sua família. E também ele tivera os seus tempos áureos. Ele e a sua mulher Risoleta, até ao dia em que um salto mortal lhe acabou com a vida.

“…Naquele outro retrato ela estava em cima do cavalo, com uma perna levantada. Era Júpiter o nome daquele cavalo e valia um bom dinheiro. Ficou com um credor da Dinamarca, numa das vezes que o circo andara lá. Aquele retrato de Risoleta em cima do cavalo fora tirado poucos dias antes dela cair…”

JUBIABÁ (8)


CHEIRO DOCE DE FUMO
Li hoje este capítulo de Jubiabá em que de uma forma mais directa se coloca a questão da exploração dos trabalhadores, aliás das trabalhadoras, mão-de-obra da indústria de charutos em São Félix e Cachoeira. As mulheres, mal pagas e a trabalharem em condições infra-humanas, sofriam o assédio dos patrões, naturalmente as que ainda não tinham perdido o viço da juventude, porque a maioria, «pálidas e macilentas mulheres de olhos compridos», não as queriam eles.
«Le melhoro de condição…», dizia o loiro alemão, proprietário de uma fábrica em Cachoeira, para a mulatinha pretendida.
Ainda hoje os charutos baianos são vendidos para todo o mundo. Na foto, a fachada da fábrica de São Félix fundada em 1872 pelo alemão Gerhard Dannemann (seria algum neto seu o assediador da mulatinha?), fábrica ainda em actividade naquela cidade do Recôncavo Baiano.


25 março 2020

Os Saveiros da Baía



JUBIABÁ (7)


Mapa do Recôncavo Baiano com as cidades de Salvador e Cachoeira, a Baía de Todos os Santos, a ilha de Itaparica, o rio Paraguaçu e os portos de Maragogipe e Santo Amaro.
Por ali vogava o saveiro de Mestre Manuel, um cheiro de abacaxis maduros saindo-lhe do bojo. António Balduíno pensava em sambas com os olhos postos nas estrelas, o Gordo sonhava com anjos, via uma estrela na lanterna do saveiro Paquete Voador. Até que do porão, misturando o cheiro do mar com o dos abacaxis maduros, surge uma mulher, Iemanjá erotizada.
«Mestre Manuel apresenta:
– Minha patroa…
A surpresa deles é tão grande que não dizem nada. Ela também está calada e, mesmo que fosse feia, seria bela assim em pé no saveiro que se inclina, o vestido levantado pelo vento, os cabelos voando.»  

23 março 2020

JUBIABÁ (6)

JORGE AMADO (Itabuna, 1912 - Salvador, 2001)

«Jubiabá, esse adorável Jubiabá, marca para nós uma transição na obra do autor. Aí já o horizonte se alarga imensamente. Os personagens começam a viver por si. Já não se trata de figurinos (concordamos que figurino é um pouco excessivo) justificando ideias. Aqui há pessoas que vivem. Poderemos esquecer Baldo, o negro António Balduíno, procurando o seu «caminho de casa», Santo Jubiabá e o seu «olho da piedade», os suspiros de Maria Clara, sua canção do cais, o morro do «Capa Negro», a bela figura do Gordo na «Lanterna dos Afogados»?
Poderemos esquecer a história de Lindinalva, a Companhia do Grande Circo Internacional, a saudação no cais de Baldo a Hans, o marinheiro? E porque nos apetece Jubiabá num plano tão diferente?
Simplesmente por isto: Jorge Amado foi neste livro ao fundo do homem.Todo o romance, feito afinal dum conjunto de romances, feito de vida, é a análise do homem desnorteado, do homem-tipo da nossa época, que procura um rumo, um homem vergado ao peso de milhentos problemas, que procura nortear-se e caminhar, caminhar sempre. E esse homem não é António Balduíno, a figura mais cuidada do livro. Esse homem é António Balduíno, é a velha Luísa, Giuseppe, Luigi, Rosenda, Rosendá, etc.» --- MÁRIO DIONÍSIO em "A propósito de Jorge Amado-II", O Diabo, nº 165, 21 de Novembro de 1937.

22 março 2020

Lanterna dos Afogados


(Gal Costa)

Esta ligação a Jubiabá e ao capítulo "Lanterna dos Afogados", chegou-nos pela mão da nossa leitora Fátima Coelho. A canção original é dos "Paralamas do Sucesso", aqui numa versão de Gal Costa.

“…
Por que chamara ao botequim de Lanterna dos Afogados, ninguém sabia. Sabiam
porém que ele naufragara três vezes e que correra o mundo todo. Antes de morrer
casou com a amásia, para que ela pudesse herdar o já afreguesado café. Ela o
vendeu a seu António, que de há muito estava de olho nele, devido ao ponto que
era óptimo. António não gostava do nome do botequim. Não via razão para aquele
título esquisito. E dias após a realização do negócio a tabuleta apareceu
mudada. A nova trazia o desenho malfeito de uma caravela da época das
descobertas portuguesas e por baixo um nome: Café Vasco da Gama…”

in Jubiabá, capítulo "Lanterna dos Afogados"

21 março 2020

Zé Camarão / D. António Balduíno

Ruy Mingas ‎- Poema Da Farra [Zip Zip 45 Angola]

E mais uma vez, via José António...

ABC de António Balduíno



(Orquestra Revelia)

E pela mão do nosso leitor e amigo José António, chegou-nos em boa hora, o ABC do António Balduíno. 

Apreciem, que vale a pena!

20 março 2020

ABC, Literatura de Cordel brasileira




Como reiteradamente tem afirmado Antônio Balduíno, um dos sonhos que persegue é vir a ser herói, objeto de um ABC que lhe seja dedicado.
O ABC, literatura popular, dita de cordel, (por razões à vista), foi declarada património cultural brasileiro pelo Iphan (Instituto do património histórico e artístico nacional) em 2018. Com origem em finais do século XIX, inspirada na nossa congénere que data do século XVI (a qual, ironicamente, terá entrado em decadência quando surge e se desenvolve o ABC brasileiro), continua ainda hoje a ser produzida e divulgada no Brasil. Mantêm-se as caraterísticas editoriais de pequena brochura, barata (se não for de coleção...),com textos em verso e ilustrações em xilogravura ou linogravura (julgo eu). Há algum tempo, tivemos oportunidade de ver uma exposição a propósito, na BN. Também tive a grata sorte de consultar alguma desta literatura portuguesa de cordel em miscelâneas, na BN, com histórias hilariantes sobre saloios e saloias.


JUBIABÁ (5)



Cartão POR SI MINHA ALMA SOFRE (Capítulo "Lutador"), dado por Baldo a Maria dos Reis. O canto do sim e o canto do não. Como no poema de Viriato da Cruz, musicado por Fausto e cantado por Sérgio Godinho:

https://www.youtube.com/watch?v=ir-ox6LGWgM

«Mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou
"por ti sofre o meu coração"
num canto "sim"
noutro canto "não"
e ela o canto do não
dobrou.»

19 março 2020

JUBIABÁ (4)

Estou a ler o capítulo "Lanterna dos Afogados" e faço umas notas sobre o pequeno diálogo das 3ª e 4ª páginas entre António Balduíno e Joana. Vendidas que foram as letras e músicas dos sambas ao "poeta" Anísio Pereira, Baldo compra uns sapatos novos: «E olhe a prosopopeia do meu sapato novo...» - diz ele para a moça. 
Prosopopeia é uma figura de linguagem em que se atribuem sentimentos ou acções próprias dos humanos a animais irracionais ou a seres inanimados. Exemplo: «O sol sorria no dia luminoso». Pelo que é curiosa a expressão utilizada para o seu sapato pelo herói do romance...
Outra nota é sobre o seu amor da adolescência, ainda presente neste tempo em que ele já era o «dono da cidade». Referindo os encontros carnais com Joana, diz o narrador: «Iam à macumba e depois se estendiam no areal, onde se amavam raivosamente, António Balduíno vendo no corpo de Joana o corpo de Lindinalva.»
Cartune de Spacca

JUBIABÁ (3)

Café (1935), de Cândido Portinari, óleo sobre tela, 130x195, exposto ironicamente no "Stand de Arte" do Pavilhão do Brasil na Exposição do Mundo Português (1940)

A literatura brasileira, tanto a de temas nordestinos (Euclides da Cunha, João Guimarães Rosa, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos), como a de escritores do sul como Erico Veríssimo, teve uma grande influência no nascimento e desenvolvimento do neo-realismo português.
Aprecie-se este passo do capítulo "Moleque" de Jubiabá:
«Os homens negros do cais do porto pararam o trabalho em outra ocasião. Desta vez a noite era sem estrelas e sem lua. Do violão de um cego na Lanterna dos Afogados vinham cantigas de escravo. Foi quando um homem trepou num caixão e começou a falar. Os outros cercaram-no, foram chegando todos para perto. Quando António Balduíno e o seu grupo chegaram, já o homem gritava apenas vivas, a que a massa correspondia:
- Viva!
(...)
O homem que estava em cima do caixão, e que pelo seu jeito era espanhol, jogou um punhado de papéis, que foram disputados. António Balduíno pegou um que deu ao estivador António Caroço, que era seu amigo. Foi quando alguém gritou:
- Lá vem a polícia...»
A mensagem é clara, acompanhada da dimensão poética do discurso, bem presente na frase que fecha o capítulo: «Ia ao cais todas as noites e ficava espiando no mar o caminho de casa.»

18 março 2020

Cancelamento da sessão do mês de Março

Caros Leitores


Como já não é novidade para ninguém, um vírus endiabrado aterrou neste planeta e anda por aí a fazer maldades, a virar do avesso a vida das pessoas e a levar-nos a todos de regresso às questões mais básicas e essenciais desta vida.

Assim, confirmamos o cancelamento da nossa sessão do mês de Março. Em Abril saberemos se poderemos voltar à nossa Biblioteca.

Vamos, no entanto, continuar a ler o nosso Jubiabá, mantendo a interacção possível através deste blogue. Usem a caixa de comentários e vão opinando sobre as publicações efectuadas. Se alguém tiver matéria interessante para publicar por aqui, enviem para mim ou para o nosso Coordenador Manuel Nunes e nós publicaremos, com a devida identificação dos seus autores.

Entretanto protejam-se, a vocês e aos que vos estão próximos. Não nos deixemos abater e mantenhamos o espírito em alta. Os livros são sempre o melhor placebo!

E como hoje dizia um amigo nosso, a propósito do isolamento social, lembremo-nos de Anne Frank e facilmente colocamos tudo na devida perspectiva…

Fiquem bem e até breve de olhos nos olhos!

16 março 2020

JUBIABÁ (2)

SPACCA, jubiaba.blogspot.com

«É ruim fechar o olho da piedade… fica só o olho da maldade», frase de Pai Jubiabá. Em língua ioruba (nagô), «Ôju ánun fó ti iká, li ôku!»
A história de um homem e do seu amigo João Janjão, retirantes do sertão por causa da seca, é contada no morro do Capa Negro pelo primeiro. Ele tinha matado o amigo que o salvara da morte, transportando-o às costas na fuga do sertão. O amigo tinha o olho da piedade bem aberto, ele não.
Uma parábola do segundo capítulo de Jubiabá. O homem que só tinha o olho da maldade vivia com a consciência atormentada pelo seu crime. Contou-o ao pai-de-santo e a quem o quis ouvir.
«– Ele tinha-me levado nas costas um dia todo… Ele tinha o olho da piedade bem aberto… Eu quero tirar ele da minha frente e não posso… Ele está ali, bem ali, olhando para mim.»
No fim, «o homem levantou e desceu o morro levando a sua história.»

15 março 2020

JUBIABÁ (1)


Ficha do cartunista SPACCA em jubiaba.blogspot.com

A CIDADE-MULHER

Li hoje o segundo capítulo de Jubiabá, “Infância remota”. Infância remota de António Balduíno, o menino que observava a cidade do alto do morro e dela adivinhava mais do que se pode esperar de uma criança. Uma primeira nota para a dimensão erótica, dada pelo narrador, desta observação da cidade (cidade-mulher), aquele espaço de certa forma interdito onde fulguravam luzes, circulavam bondes e se movimentava a gente de diversas classes nas suas labutas diárias. O despertar remoto da sexualidade.
À espera de, à hora do crepúsculo, ver as luzes se acenderem, Baldo tinha uma volúpia que «parecia um homem esperando a fêmea». Uma vez, sentindo, vindo lá de baixo, um «choro de mulher e vozes que a consolavam», houve um tropel dentro dele que «o arrastava numa vertigem de gozo». Havia sofrimento na cidade, diferente certamente do que se vivia no morro, mas o «menino de oito anos, gozava aqueles pedaços de sofrimento como o homem goza a mulher.» E tudo isto, assim mesmo mal entendido, tornava Baldo mais terno na sua rudeza de menino desamparado. Se algum companheiro se aproximasse dele naqueles instantes de contemplação, «ele o acariciaria sem dúvida, não o receberia com os beliscões costumeiros» e passaria «a mão sobre a carapinha do companheiro de brinquedos, recostaria o peito ao peito do amigo. E talvez sorrisse.»
Ainda numa linha de erotismo, dizia a irmã Luísa do pai de Baldo: «Ele era um negro bonito de encher a boca de água.»
E isto é apenas sobre as duas primeiras páginas do capítulo. Já iremos ao pai-de-santo Jubiabá e aos ABC de Zé Camarão.

13 março 2020

FLORENÇA 1348 E O "DECAMERON"


«Já tinha chegado o ano de 1348 da fecunda encarnação do filho de Deus, quando a cidade de Florença, nobre, entre as mais famosas de Itália foi vítima da mortal epidemia.» - Assim se diz na Primeira Jornada deste livro admirável que é o Decameron.
Temendo a peste que grassava na cidade, dez jovens (sete moças e três mancebos) isolam-se numa casa de campo e passam o tempo a contar histórias em cujos enredos se anuncia uma nova moral, sentindo-se já o espírito de abertura do Renascimento. 
Dez jovens, dez dias ou jornadas, dez histórias narradas em cada uma das jornadas: cem ao todo. DECAMERON.
Um grande livro que parte de uma situação de infortúnio extremo. Um exemplo, ou um conforto, para os tempos que correm. Quem tiver em casa que leia. 
    

03 março 2020

“Jubiabá” de Jorge Amado - 27 Março às 21h00


Abro ao acaso e leio:

“…
Eis que vem a música! Agora está dobrando a Rua Direita e já se ouve o som da marcha carnavalesca. No circo todos se levantam. Os que estão nos bancos mais altos da geral espreitam por cima do pano. Os moleques que estão na porta do circo correm e acompanham a Euterpe 7 de Setembro, que vem garbosa, marcial, vestida de verde e azul. Seu Rodrigo da farmácia é um bicho na flauta. O pistão atira sons que ficam vibrando no ar e vão se bater na cabeça de António Balduíno, que foge da barraca e vem olhar a música. Banda bonita. Estão bem vestidos como o diabo. Aquele que vai ali de costas é o maestro. António Balduíno bem que trocava o seu lugar de lutador pelo homem magro que vai de costas dirigindo a Euterpe 7 de Setembro…”

in “Jubiabá” de Jorge Amado 

28 fevereiro 2020

A FECHAR "A SIBILA"

Uma das características do narrador d' A Sibila é uma espécie de alarde cultural que não chega a incomodar e cativa. Desde chamar por nomes estrangeiros os móveis dos campónios (rocking chair, siège percé, etc.) até à referência de obras de arte da grande pintura europeia, como Femme à la robe verte, de Claude Monet. Muito mais se poderia dizer sobre este narrador (ou narradora), mas limito-me a deixar a imagem da obra citada do impressionista francês. E assim se fecha, pela minha parte, o ciclo de publicações sobre A Sibila.
Óleo sobre tela (1866).

27 fevereiro 2020

AINDA A SIBILA - MAIS COISAS PROSAICAS

Hoje, em Portugal (e em quase todo o mundo), com a divulgação de um modo de vida urbano e globalizado, diluiram-se, quase até à extinção, as caraterísticas que marcavam a diversidade social de norte a sul. No entanto, ainda é possível identificar, nos vestígios materiais (e imateriais), diferenças fundamentais que, na minha opinião, separavam, de forma decisiva, o Norte e o Sul (o Mondego como linha separadora, de acordo com Orlando Ribeiro, à parte todas as nuances regionais). Pessoalmente, quanto mais aprofundava o reconhecimento da lógica patente nas estruturas sociais e culturais nortenhas, através dos estudos etnográficos, da literatura e da arquitetura subsistente, maior era a perplexidade face às diferenças fundamentais, que descobria, para além do que unia uma população nacional maioritariamente camponesa.
Um exemplo que aproveito para acrescentar, é o do moinho, que também surge em A Sibila. Embora o tipo de que aqui se trata--o moinho de água de rodízio, também se encontrasse na região de Lisboa (saloia, portanto), era designado azenha, diferenciando-se assim do moinho de vento, o qual marcava sobretudo a paisagem meridional.
Uma vez mais, apresento o exemplo encontrado, ainda a funcionar, em Rio de Onor, tipo largamente difundido nas aldeias e que aproveitava, de forma simples, a torrente das linhas de água, por simples desvio. Quer dizer, sem as complicações que as azenhas de roda lateral implicavam, em zonas onde a água não fosse tão abundante. Recordo, a este propósito, o sistema utilizado nos moinhos de maré, que visitámos, e se baseia no mesmo princípio deste exemplo.

A parte inferior, o rodízio que gira movido pela água, a que se chama INFERNO
(desenho de F. Galhano, em Dias, J., Rio de Onor)

Moinho de Rio de Onor, com o canal tosco de desvio da torrente. A represa faz parte  do sistema

O interior, ainda com todos os elementos a funcionar

25 fevereiro 2020

"A SIBILA", AS CASAS, AS COZINHAS E OS MÓVEIS


Cozinha da Casa de Manhufe, de Amadeo de Souza-Cardoso. A obra é de 1913, ano correspondente à parte central do tempo da história d´A Sibila – aquele em que se começa a esboçar a prosperidade de Quina.
Manhufe – freguesia de Mancelos, Amarante –, não fica longe de Vila Meã, terra de Agustina, de cuja sensibilidade rural se aproveitou para a sua narrativa.
Numa expressão artística próxima do cubismo, Amadeo dá-nos uma cozinha da região de Entre Douro e Minho, aliás a cozinha da casa de família, com essas “coisas prosaicas” que são os móveis e utensílios. Não vejo nenhum banco corrido como aquele em que Quina guardava o feijão e as estrigas, mas tudo o que lá está estimula a nossa imaginação.
Há uma diferença a considerar: esta é a cozinha de uma casa já estabelecida na sua prosperidade; a de Quina, talvez igual à da família de Agustina, ainda se procura firmar, e sempre sem dar muito nas vistas – a grande arte de não despertar invejas e conseguir ir mais longe.
Para fechar, outra obra de Amadeo do mesmo período: Casa de Manhufe, a própria.