01 abril 2020

Abril é mês de "O Conde d'Abranhos" (mesmo sem sessão presencial)




A abrir:

“ALÍPIO SEVERO ABRANHOS nasceu no ano de 1826, em Penafiel, no dia de Natal. A Providência, por um símbolo subtil e engenhoso, fez nascer no dia sagrado em que nasceu Jesus de Nazaré, aquele que em Portugal devia ser o mais forte pilar e o procurador mais eloquente da Igreja, dos seus interesses e do seu reino.

Muitas vezes o Conde se comprazia em contar que, nessa noite de 24 de Dezembro de 1826, Inverno que ficou na história pelas grandes neves que caíram, seus pais – segundo a tradição venerada na família – tinham armado um presépio, como era costume nesses tempos em que a boa fé portuguesa amava a piedosa devoção dos altares íntimos. Ao centro do presépio, florido de muita verdura, entre os animais da narração evangélica, o Menino Jesus sorria, nos braços de uma Virgem, obra delicadamente trabalhada por Antão Serrano, o grande santeiro de Amarante. Em torno, ardiam as velas de cera; na cozinha, cantavam nas frigideiras os rojões da ceia; o lume de lenha húmida estalava jovialmente, e fora, na neve que caía, os sinos repicavam para a missa do Galo – quando a mãe do Conde, subitamente
Sentiu o tenro ser...
como diz o nosso grande lírico no seu poema, A Mãe…"

in “O Conde d’Abranhos” de Eça de Queiroz

Em Abril, continuaremos certamente sem nos podermos encontrar. Que isso não nos impeça, de ler o livro agendado para este mês!

"A MONTANHA MÁGICA". CRUÉIS, FLEUMÁTICOS E ENÉRGICOS

Vou lendo este livro que tem tanto a ver com o momento presente, ainda que nele seja um bacilo e não um vírus a desempenhar o papel da lúgubre Átropos, cortando impiedosamente o fio da vida.
Ludovico Settembrini, homo humanus, visita Hans Castorp no seu leito de enfermo. O jovem está constipado, uma doença secundária porque a principal, um foco húmido no pulmão, é a que lhe foi detectada pelo médico-chefe do sanatório, o conselheiro Behrens.
Conversam sobre a natureza dos alemães: cruéis, fleumáticos e enérgicos. Conversam sobre a doença e a morte. Diz Settembrini: «Permita-me, senhor engenheiro, permita-me que lhe diga e sublinhe
que a única forma salutar e nobre, que é ao mesmo tempo – e acrescento com toda a ênfase – a única forma religiosa de encarar a morte é considerá-la como parte integrante e componente da vida, é senti-la como condição sagrada da mesma, e não de algum modo – o que estaria nos antípodas do saudável, nobre, razoável e religioso – separá-la, no plano intelectual, da vida, colocando as duas em confronto ou até em oposição. Os povos antigos adornavam os sarcófagos com imagens da vida e da fertilidade, por vezes até com símbolos obscenos. No quadro do ideário religioso da Antiguidade, o sagrado coincidia, não raras vezes com o obsceno. Aqueles homens sabiam venerar a morte. É precisamente por ser o berço da vida, o seio da renovação, que a morte é venerável. Dissociada da vida, a morte transforma-se em fantasma, em monstro ou em algo ainda pior. Vista como força espiritual autónoma, a morte é extremamente devassa, podendo o seu magnetismo malévolo conduzir à mais abominável alienação do espírito humano.»
Bem, depois desta citação acho que já interessei uns tantos leitores pela obra… e afastei outros, talvez mais, da sua leitura…

31 março 2020

"A MONTANHA MÁGICA", O SANATÓRIO BERGHOF E O CONFINAMENTO

A fotografia, de 1915, é do Sanatorium Valbella, de Davos, que terá servido de modelo a Thomas Mann para o Sanatório Berghof d’ A Montanha Mágica. Esta é a história dum jovem engenheiro alemão, Hans Castorp, que vem visitar o seu primo ali em tratamento. A estadia era para ser de três semanas, mas entretanto é o próprio Castorp que se vê acometido por um foco de tuberculose, sendo aconselhado pelo reputadíssimo Behrens, médico-chefe do sanatório, a ficar internado sem nenhuma previsão de quando poderia voltar à vida normal.
Há nos primeiros capítulos do romance um discurso recorrente sobre o tempo: o tempo físico e o psicológico, a aparência das suas diferentes velocidades.
Isto faz-me reflectir sobre o tempo vivido em confinamento. Estranhamente, parece-me que ele corre depressa, os dias esgotam-se num ápice. Ando por aqui a fazer o que me é permitido e quando dou por mim é já de noite. Esta é a sensação descrita no romance para Hans Castorp quando passa da situação de visitante a doente internado. Não me adentro nos argumentos filosóficos avançados pelo narrador para tal fenómeno, leiam que depois falamos. Tais argumentos podem surgir como paradoxais: então não é do senso comum que quanto mais distraídos andamos, mais o tempo parece correr depressa? E que em situações de monotonia (de confinamento) vem o tédio e toma conta de nós, fazendo de cada dia um tempo imensamente longo?
A minha experiência, como disse, não o indica, mas o melhor é que cada um fale por si.

30 março 2020

"A MONTANHA MÁGICA" E A REVOLUÇÃO DE 1830 EM PARIS

EUGÈNE DELACROIX, A Liberdade Guiando o Povo (1830). Comemoração da Revolução de Julho de 1830 ou Revolução dos Três Dias Gloriosos, referida em A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Queda da dinastia absolutista de Bourbon e subida ao trono de Luis Filipe de Orleães, o rei burguês. 

Do Quarto Capítulo d´A Montanha Mágica, de Thomas Mann, li hoje o subcapítulo “Temor Crescente. Dos dois avós e do passeio de barco ao lusco-fusco.” É um extenso trecho do romance em que as asserções da personagem Ludovico Settembrini levam o protagonista Hans Castorp a reequacionar algumas das suas concepções do mundo e da vida numa atitude de estranhamento, de tentativa de compreensão e, finalmente, de alguma admiração e respeito por aquele seu antagonista.
Ludovico Settembrini está em tratamento no sanatório Berghof de Davos-Platz e Hans Castorp é  visita do mesmo sanatório onde pensava passar três semanas a acompanhar o seu primo Joachim ali igualmente em tratamento.
Castorp é um jovem engenheiro alemão fortemente marcado pelo avô cristão e conservador que, por morte dos pais, se encarregou de o educar. Settembrini é um erudito de nacionalidade italiana cujo espírito revolucionário da família remonta ao seu avô Giuseppe.
Sobre as ideias de Settembrini e a estranheza de Castorp perante elas, diz o narrador: «Uma só vez, contava o italiano, uma só vez na vida, no princípio da sua idade adulta, conhecera o avô a felicidade em toda a sua plenitude – por ocasião da revolução de Julho em Paris. E então proclamara, publicamente e a plenos pulmões, que um dia viria em que todos os homens iriam comparar aqueles três dias de Paris aos seis dias da criação do mundo. Ao ouvir tal coisa, Hans Castorp não se pôde conter e bateu com o punho na mesa, tão profunda era a sua estupefacção. Parecia-lhe de um exagero inaudito pretender comparar os três dias do Verão de 1830, durante os quais o povo de Paris promulgara uma nova Constituição, aos seis dias que Deus Nosso Senhor levara a separar os continentes dos oceanos e a criar as estrelas do firmamento, as flores e as árvores, os pássaros e os peixes, enfim, toda a vida à face da Terra.»
Isto e muito mais foi ouvido pelo jovem Hans Castorp da boca de Ludovico Settembrini e acabou por produzir nele um efeito que superou a estranheza inicial, vendo no discurso do italiano algo «que valia a pena ouvir e saber, se bem que mais a título experimental e sem compromisso.»
Se será assim ou não, só o poderemos saber em fase mais adiantada do romance.

27 março 2020

Uma carta entre dois grandes!


(Ferreira de Castro e Jorge Amado - foto da net)

Ao fazer algumas pesquisas sobre Jubiabá, encontrei este excerto de uma carta que Jorge Amado escreveu a Ferreira de Castro (cujo original estará no Museu Ferreira de Castro – talvez o nosso coordenador Manuel Nunes possa dizer algo sobre isso…)

“…Venho de passar quatro meses na Bahia, recolhendo um resto de material para um romance sobre negros. Chamar-se-á Jubiabá, nome de um macumbeiro de lá, e espero fazer um livro forte, fixando nas duas primeiras partes — “Bahia de Todos os Santos” e “Grande Circo Internacional” — todo o pitoresco do negro baiano — música, religião de candomblé e macumba, farras, canções, conceitos, carnaval místico — e toda a paradoxal alma do negro — raça liberta, raça das grandes gargalhadas, das grandes mentiras e raça ainda escrava do branco, fiel como cão, trazendo nas costas e na alma as marcas do chicote do Sinhô Branco. A terceira parte — “A greve” — será a visão da libertação integral do negro pela sua proletarização integral. Que acha v. do plano?...”

Não sei o que achou Ferreira de Castro, mas eu achei muito bem e agradeço-lhe por isso!

ZÉ TAPERA & TEODORO - PEDRO MALAZARTE

26 março 2020

Jubiabá para cinéfilos


Jubiabá de Nelson Pereira dos Santos (1987)

Vi hoje e gostei.

O Circo


Le cirque - Georges Seurat (1890-1891) - Musée d'Orsay

Giusepe, um dos donos do grande circo internacional, que bebia para esquecer, contou numa noite a Balduíno, que o circo fazia parte da história da sua família. E também ele tivera os seus tempos áureos. Ele e a sua mulher Risoleta, até ao dia em que um salto mortal lhe acabou com a vida.

“…Naquele outro retrato ela estava em cima do cavalo, com uma perna levantada. Era Júpiter o nome daquele cavalo e valia um bom dinheiro. Ficou com um credor da Dinamarca, numa das vezes que o circo andara lá. Aquele retrato de Risoleta em cima do cavalo fora tirado poucos dias antes dela cair…”

JUBIABÁ (8)


CHEIRO DOCE DE FUMO
Li hoje este capítulo de Jubiabá em que de uma forma mais directa se coloca a questão da exploração dos trabalhadores, aliás das trabalhadoras, mão-de-obra da indústria de charutos em São Félix e Cachoeira. As mulheres, mal pagas e a trabalharem em condições infra-humanas, sofriam o assédio dos patrões, naturalmente as que ainda não tinham perdido o viço da juventude, porque a maioria, «pálidas e macilentas mulheres de olhos compridos», não as queriam eles.
«Le melhoro de condição…», dizia o loiro alemão, proprietário de uma fábrica em Cachoeira, para a mulatinha pretendida.
Ainda hoje os charutos baianos são vendidos para todo o mundo. Na foto, a fachada da fábrica de São Félix fundada em 1872 pelo alemão Gerhard Dannemann (seria algum neto seu o assediador da mulatinha?), fábrica ainda em actividade naquela cidade do Recôncavo Baiano.


25 março 2020

Os Saveiros da Baía



JUBIABÁ (7)


Mapa do Recôncavo Baiano com as cidades de Salvador e Cachoeira, a Baía de Todos os Santos, a ilha de Itaparica, o rio Paraguaçu e os portos de Maragogipe e Santo Amaro.
Por ali vogava o saveiro de Mestre Manuel, um cheiro de abacaxis maduros saindo-lhe do bojo. António Balduíno pensava em sambas com os olhos postos nas estrelas, o Gordo sonhava com anjos, via uma estrela na lanterna do saveiro Paquete Voador. Até que do porão, misturando o cheiro do mar com o dos abacaxis maduros, surge uma mulher, Iemanjá erotizada.
«Mestre Manuel apresenta:
– Minha patroa…
A surpresa deles é tão grande que não dizem nada. Ela também está calada e, mesmo que fosse feia, seria bela assim em pé no saveiro que se inclina, o vestido levantado pelo vento, os cabelos voando.»  

23 março 2020

JUBIABÁ (6)

JORGE AMADO (Itabuna, 1912 - Salvador, 2001)

«Jubiabá, esse adorável Jubiabá, marca para nós uma transição na obra do autor. Aí já o horizonte se alarga imensamente. Os personagens começam a viver por si. Já não se trata de figurinos (concordamos que figurino é um pouco excessivo) justificando ideias. Aqui há pessoas que vivem. Poderemos esquecer Baldo, o negro António Balduíno, procurando o seu «caminho de casa», Santo Jubiabá e o seu «olho da piedade», os suspiros de Maria Clara, sua canção do cais, o morro do «Capa Negro», a bela figura do Gordo na «Lanterna dos Afogados»?
Poderemos esquecer a história de Lindinalva, a Companhia do Grande Circo Internacional, a saudação no cais de Baldo a Hans, o marinheiro? E porque nos apetece Jubiabá num plano tão diferente?
Simplesmente por isto: Jorge Amado foi neste livro ao fundo do homem.Todo o romance, feito afinal dum conjunto de romances, feito de vida, é a análise do homem desnorteado, do homem-tipo da nossa época, que procura um rumo, um homem vergado ao peso de milhentos problemas, que procura nortear-se e caminhar, caminhar sempre. E esse homem não é António Balduíno, a figura mais cuidada do livro. Esse homem é António Balduíno, é a velha Luísa, Giuseppe, Luigi, Rosenda, Rosendá, etc.» --- MÁRIO DIONÍSIO em "A propósito de Jorge Amado-II", O Diabo, nº 165, 21 de Novembro de 1937.

22 março 2020

Lanterna dos Afogados


(Gal Costa)

Esta ligação a Jubiabá e ao capítulo "Lanterna dos Afogados", chegou-nos pela mão da nossa leitora Fátima Coelho. A canção original é dos "Paralamas do Sucesso", aqui numa versão de Gal Costa.

“…
Por que chamara ao botequim de Lanterna dos Afogados, ninguém sabia. Sabiam
porém que ele naufragara três vezes e que correra o mundo todo. Antes de morrer
casou com a amásia, para que ela pudesse herdar o já afreguesado café. Ela o
vendeu a seu António, que de há muito estava de olho nele, devido ao ponto que
era óptimo. António não gostava do nome do botequim. Não via razão para aquele
título esquisito. E dias após a realização do negócio a tabuleta apareceu
mudada. A nova trazia o desenho malfeito de uma caravela da época das
descobertas portuguesas e por baixo um nome: Café Vasco da Gama…”

in Jubiabá, capítulo "Lanterna dos Afogados"

21 março 2020

Zé Camarão / D. António Balduíno

Ruy Mingas ‎- Poema Da Farra [Zip Zip 45 Angola]

E mais uma vez, via José António...

ABC de António Balduíno



(Orquestra Revelia)

E pela mão do nosso leitor e amigo José António, chegou-nos em boa hora, o ABC do António Balduíno. 

Apreciem, que vale a pena!

20 março 2020

ABC, Literatura de Cordel brasileira




Como reiteradamente tem afirmado Antônio Balduíno, um dos sonhos que persegue é vir a ser herói, objeto de um ABC que lhe seja dedicado.
O ABC, literatura popular, dita de cordel, (por razões à vista), foi declarada património cultural brasileiro pelo Iphan (Instituto do património histórico e artístico nacional) em 2018. Com origem em finais do século XIX, inspirada na nossa congénere que data do século XVI (a qual, ironicamente, terá entrado em decadência quando surge e se desenvolve o ABC brasileiro), continua ainda hoje a ser produzida e divulgada no Brasil. Mantêm-se as caraterísticas editoriais de pequena brochura, barata (se não for de coleção...),com textos em verso e ilustrações em xilogravura ou linogravura (julgo eu). Há algum tempo, tivemos oportunidade de ver uma exposição a propósito, na BN. Também tive a grata sorte de consultar alguma desta literatura portuguesa de cordel em miscelâneas, na BN, com histórias hilariantes sobre saloios e saloias.


JUBIABÁ (5)



Cartão POR SI MINHA ALMA SOFRE (Capítulo "Lutador"), dado por Baldo a Maria dos Reis. O canto do sim e o canto do não. Como no poema de Viriato da Cruz, musicado por Fausto e cantado por Sérgio Godinho:

https://www.youtube.com/watch?v=ir-ox6LGWgM

«Mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou
"por ti sofre o meu coração"
num canto "sim"
noutro canto "não"
e ela o canto do não
dobrou.»

19 março 2020

JUBIABÁ (4)

Estou a ler o capítulo "Lanterna dos Afogados" e faço umas notas sobre o pequeno diálogo das 3ª e 4ª páginas entre António Balduíno e Joana. Vendidas que foram as letras e músicas dos sambas ao "poeta" Anísio Pereira, Baldo compra uns sapatos novos: «E olhe a prosopopeia do meu sapato novo...» - diz ele para a moça. 
Prosopopeia é uma figura de linguagem em que se atribuem sentimentos ou acções próprias dos humanos a animais irracionais ou a seres inanimados. Exemplo: «O sol sorria no dia luminoso». Pelo que é curiosa a expressão utilizada para o seu sapato pelo herói do romance...
Outra nota é sobre o seu amor da adolescência, ainda presente neste tempo em que ele já era o «dono da cidade». Referindo os encontros carnais com Joana, diz o narrador: «Iam à macumba e depois se estendiam no areal, onde se amavam raivosamente, António Balduíno vendo no corpo de Joana o corpo de Lindinalva.»
Cartune de Spacca

JUBIABÁ (3)

Café (1935), de Cândido Portinari, óleo sobre tela, 130x195, exposto ironicamente no "Stand de Arte" do Pavilhão do Brasil na Exposição do Mundo Português (1940)

A literatura brasileira, tanto a de temas nordestinos (Euclides da Cunha, João Guimarães Rosa, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos), como a de escritores do sul como Erico Veríssimo, teve uma grande influência no nascimento e desenvolvimento do neo-realismo português.
Aprecie-se este passo do capítulo "Moleque" de Jubiabá:
«Os homens negros do cais do porto pararam o trabalho em outra ocasião. Desta vez a noite era sem estrelas e sem lua. Do violão de um cego na Lanterna dos Afogados vinham cantigas de escravo. Foi quando um homem trepou num caixão e começou a falar. Os outros cercaram-no, foram chegando todos para perto. Quando António Balduíno e o seu grupo chegaram, já o homem gritava apenas vivas, a que a massa correspondia:
- Viva!
(...)
O homem que estava em cima do caixão, e que pelo seu jeito era espanhol, jogou um punhado de papéis, que foram disputados. António Balduíno pegou um que deu ao estivador António Caroço, que era seu amigo. Foi quando alguém gritou:
- Lá vem a polícia...»
A mensagem é clara, acompanhada da dimensão poética do discurso, bem presente na frase que fecha o capítulo: «Ia ao cais todas as noites e ficava espiando no mar o caminho de casa.»

18 março 2020

Cancelamento da sessão do mês de Março

Caros Leitores


Como já não é novidade para ninguém, um vírus endiabrado aterrou neste planeta e anda por aí a fazer maldades, a virar do avesso a vida das pessoas e a levar-nos a todos de regresso às questões mais básicas e essenciais desta vida.

Assim, confirmamos o cancelamento da nossa sessão do mês de Março. Em Abril saberemos se poderemos voltar à nossa Biblioteca.

Vamos, no entanto, continuar a ler o nosso Jubiabá, mantendo a interacção possível através deste blogue. Usem a caixa de comentários e vão opinando sobre as publicações efectuadas. Se alguém tiver matéria interessante para publicar por aqui, enviem para mim ou para o nosso Coordenador Manuel Nunes e nós publicaremos, com a devida identificação dos seus autores.

Entretanto protejam-se, a vocês e aos que vos estão próximos. Não nos deixemos abater e mantenhamos o espírito em alta. Os livros são sempre o melhor placebo!

E como hoje dizia um amigo nosso, a propósito do isolamento social, lembremo-nos de Anne Frank e facilmente colocamos tudo na devida perspectiva…

Fiquem bem e até breve de olhos nos olhos!

16 março 2020

JUBIABÁ (2)

SPACCA, jubiaba.blogspot.com

«É ruim fechar o olho da piedade… fica só o olho da maldade», frase de Pai Jubiabá. Em língua ioruba (nagô), «Ôju ánun fó ti iká, li ôku!»
A história de um homem e do seu amigo João Janjão, retirantes do sertão por causa da seca, é contada no morro do Capa Negro pelo primeiro. Ele tinha matado o amigo que o salvara da morte, transportando-o às costas na fuga do sertão. O amigo tinha o olho da piedade bem aberto, ele não.
Uma parábola do segundo capítulo de Jubiabá. O homem que só tinha o olho da maldade vivia com a consciência atormentada pelo seu crime. Contou-o ao pai-de-santo e a quem o quis ouvir.
«– Ele tinha-me levado nas costas um dia todo… Ele tinha o olho da piedade bem aberto… Eu quero tirar ele da minha frente e não posso… Ele está ali, bem ali, olhando para mim.»
No fim, «o homem levantou e desceu o morro levando a sua história.»

15 março 2020

JUBIABÁ (1)


Ficha do cartunista SPACCA em jubiaba.blogspot.com

A CIDADE-MULHER

Li hoje o segundo capítulo de Jubiabá, “Infância remota”. Infância remota de António Balduíno, o menino que observava a cidade do alto do morro e dela adivinhava mais do que se pode esperar de uma criança. Uma primeira nota para a dimensão erótica, dada pelo narrador, desta observação da cidade (cidade-mulher), aquele espaço de certa forma interdito onde fulguravam luzes, circulavam bondes e se movimentava a gente de diversas classes nas suas labutas diárias. O despertar remoto da sexualidade.
À espera de, à hora do crepúsculo, ver as luzes se acenderem, Baldo tinha uma volúpia que «parecia um homem esperando a fêmea». Uma vez, sentindo, vindo lá de baixo, um «choro de mulher e vozes que a consolavam», houve um tropel dentro dele que «o arrastava numa vertigem de gozo». Havia sofrimento na cidade, diferente certamente do que se vivia no morro, mas o «menino de oito anos, gozava aqueles pedaços de sofrimento como o homem goza a mulher.» E tudo isto, assim mesmo mal entendido, tornava Baldo mais terno na sua rudeza de menino desamparado. Se algum companheiro se aproximasse dele naqueles instantes de contemplação, «ele o acariciaria sem dúvida, não o receberia com os beliscões costumeiros» e passaria «a mão sobre a carapinha do companheiro de brinquedos, recostaria o peito ao peito do amigo. E talvez sorrisse.»
Ainda numa linha de erotismo, dizia a irmã Luísa do pai de Baldo: «Ele era um negro bonito de encher a boca de água.»
E isto é apenas sobre as duas primeiras páginas do capítulo. Já iremos ao pai-de-santo Jubiabá e aos ABC de Zé Camarão.

13 março 2020

FLORENÇA 1348 E O "DECAMERON"


«Já tinha chegado o ano de 1348 da fecunda encarnação do filho de Deus, quando a cidade de Florença, nobre, entre as mais famosas de Itália foi vítima da mortal epidemia.» - Assim se diz na Primeira Jornada deste livro admirável que é o Decameron.
Temendo a peste que grassava na cidade, dez jovens (sete moças e três mancebos) isolam-se numa casa de campo e passam o tempo a contar histórias em cujos enredos se anuncia uma nova moral, sentindo-se já o espírito de abertura do Renascimento. 
Dez jovens, dez dias ou jornadas, dez histórias narradas em cada uma das jornadas: cem ao todo. DECAMERON.
Um grande livro que parte de uma situação de infortúnio extremo. Um exemplo, ou um conforto, para os tempos que correm. Quem tiver em casa que leia. 
    

03 março 2020

“Jubiabá” de Jorge Amado - 27 Março às 21h00


Abro ao acaso e leio:

“…
Eis que vem a música! Agora está dobrando a Rua Direita e já se ouve o som da marcha carnavalesca. No circo todos se levantam. Os que estão nos bancos mais altos da geral espreitam por cima do pano. Os moleques que estão na porta do circo correm e acompanham a Euterpe 7 de Setembro, que vem garbosa, marcial, vestida de verde e azul. Seu Rodrigo da farmácia é um bicho na flauta. O pistão atira sons que ficam vibrando no ar e vão se bater na cabeça de António Balduíno, que foge da barraca e vem olhar a música. Banda bonita. Estão bem vestidos como o diabo. Aquele que vai ali de costas é o maestro. António Balduíno bem que trocava o seu lugar de lutador pelo homem magro que vai de costas dirigindo a Euterpe 7 de Setembro…”

in “Jubiabá” de Jorge Amado 

28 fevereiro 2020

A FECHAR "A SIBILA"

Uma das características do narrador d' A Sibila é uma espécie de alarde cultural que não chega a incomodar e cativa. Desde chamar por nomes estrangeiros os móveis dos campónios (rocking chair, siège percé, etc.) até à referência de obras de arte da grande pintura europeia, como Femme à la robe verte, de Claude Monet. Muito mais se poderia dizer sobre este narrador (ou narradora), mas limito-me a deixar a imagem da obra citada do impressionista francês. E assim se fecha, pela minha parte, o ciclo de publicações sobre A Sibila.
Óleo sobre tela (1866).

27 fevereiro 2020

AINDA A SIBILA - MAIS COISAS PROSAICAS

Hoje, em Portugal (e em quase todo o mundo), com a divulgação de um modo de vida urbano e globalizado, diluiram-se, quase até à extinção, as caraterísticas que marcavam a diversidade social de norte a sul. No entanto, ainda é possível identificar, nos vestígios materiais (e imateriais), diferenças fundamentais que, na minha opinião, separavam, de forma decisiva, o Norte e o Sul (o Mondego como linha separadora, de acordo com Orlando Ribeiro, à parte todas as nuances regionais). Pessoalmente, quanto mais aprofundava o reconhecimento da lógica patente nas estruturas sociais e culturais nortenhas, através dos estudos etnográficos, da literatura e da arquitetura subsistente, maior era a perplexidade face às diferenças fundamentais, que descobria, para além do que unia uma população nacional maioritariamente camponesa.
Um exemplo que aproveito para acrescentar, é o do moinho, que também surge em A Sibila. Embora o tipo de que aqui se trata--o moinho de água de rodízio, também se encontrasse na região de Lisboa (saloia, portanto), era designado azenha, diferenciando-se assim do moinho de vento, o qual marcava sobretudo a paisagem meridional.
Uma vez mais, apresento o exemplo encontrado, ainda a funcionar, em Rio de Onor, tipo largamente difundido nas aldeias e que aproveitava, de forma simples, a torrente das linhas de água, por simples desvio. Quer dizer, sem as complicações que as azenhas de roda lateral implicavam, em zonas onde a água não fosse tão abundante. Recordo, a este propósito, o sistema utilizado nos moinhos de maré, que visitámos, e se baseia no mesmo princípio deste exemplo.

A parte inferior, o rodízio que gira movido pela água, a que se chama INFERNO
(desenho de F. Galhano, em Dias, J., Rio de Onor)

Moinho de Rio de Onor, com o canal tosco de desvio da torrente. A represa faz parte  do sistema

O interior, ainda com todos os elementos a funcionar

25 fevereiro 2020

"A SIBILA", AS CASAS, AS COZINHAS E OS MÓVEIS


Cozinha da Casa de Manhufe, de Amadeo de Souza-Cardoso. A obra é de 1913, ano correspondente à parte central do tempo da história d´A Sibila – aquele em que se começa a esboçar a prosperidade de Quina.
Manhufe – freguesia de Mancelos, Amarante –, não fica longe de Vila Meã, terra de Agustina, de cuja sensibilidade rural se aproveitou para a sua narrativa.
Numa expressão artística próxima do cubismo, Amadeo dá-nos uma cozinha da região de Entre Douro e Minho, aliás a cozinha da casa de família, com essas “coisas prosaicas” que são os móveis e utensílios. Não vejo nenhum banco corrido como aquele em que Quina guardava o feijão e as estrigas, mas tudo o que lá está estimula a nossa imaginação.
Há uma diferença a considerar: esta é a cozinha de uma casa já estabelecida na sua prosperidade; a de Quina, talvez igual à da família de Agustina, ainda se procura firmar, e sempre sem dar muito nas vistas – a grande arte de não despertar invejas e conseguir ir mais longe.
Para fechar, outra obra de Amadeo do mesmo período: Casa de Manhufe, a própria.


24 fevereiro 2020

AINDA A SIBILA - COISAS PROSAICAS

Do ambiente doméstico provinciano descrito por Agustina, vão-se destacando referências recorrentes à organização espacial dos interiores e a peças de mobiliário muito próprias daquelas latitudes onde decorre o romance. Uma dessas peças é o escano ou preguiceiro. Trata-se de um banco especial, em madeira, multifuncional, para instalar na  cozinha (compartimento que não se assemelha ao que chamamos cozinha hoje, nem à congénere do sul). Lembrei-me então de partilhar o que recolhi há algum tempo, a propósito de Rio de Onor, uma aldeia de fronteira, em Trás-Os-Montes, em Jorge Dias e na experiência de uma visita à aldeia, que já perdeu, evidentemente, toda a vivência comunitária e pastoril que a caraterizava. No entanto, na casa onde pernoitámos, havia um par de escanos diferentes, os quais, embora fora do seu contexto original, ainda testemunham um certo modo de vida. Um deles tem uma mesa rebatível e uma gaveta lateral; o outro, um armário integrado com a porta disfarçada. Para além de reunir à beira do fogo uma parte da família, o escano servia também para alguém mais felizardo dormir à beira do lume nas noites de inverno...







23 fevereiro 2020

A SIBILA (12)

Vale o que vale. Em 2016, a revista Estante, da Fnac, promoveu a escolha dos 12 livros portugueses mais importantes dos últimos 100 anos. O júri era constituído pelos senhores e senhoras da foto. Da esquerda para a direita, Carlos Reis (professor catedrático de Literatura e ensaísta), Isabel Lucas (jornalista), Manuel Alberto Valente (editor), Clara Ferreira Alves (jornalista) e Pedro Mexia (crítico literário). O resultado foi o seguinte:
- A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino Ribeiro;
- A Sibila, de Agustina Bessa-Luís;
- Finisterra, de Carlos de Oliveira;
- Húmus, de Raul Brandão;
- Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa;
- Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio;
- O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago;
- O Delfim, de José Cardoso Pires;
- Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes;
- Os Passos em Volta, de Herberto Helder;
- Para Sempre, de Vergílio Ferreira
e
- Sinais de Fogo, de Jorge de Sena.
Quem já leu estes 12 livros?

22 fevereiro 2020

A SIBILA (11)

Agustina entre os juncos das dunas

CAPÍTULO IX – O NASCIMENTO DE GERMA E O CARTEIRO QUE NÃO ERA DE PABLO NERUDA; O DESPREZO DE QUINA PELAS MULHERES E O SEU RISO PELOS PATRIARCAS DAS TRIBOS; A MENINA GERMA E AS LIÇÕES DA VESSADA; BIRAS, BIRAS, BIRINHAS OU OS DESCONCERTOS DE AUGUSTO.

Acabei de reler:
«Enfim, Germa e Quina compreendiam-se bem demais, cada uma delas via na outra a sua própria personalidade, como num espelho que não tem os jogos de luz da benevolência para lhe adoçar os ângulos e esbater as deformidades. Cada uma via na outra os próprios defeitos e virtudes, e, uns porque não gostavam de os contemplar em outrem a nu, outros porque antes quisessem tê-las como originais, isso fazia com que mutuamente se detestassem, pois nós sempre tomamos como um vexame a cópia do nosso eu
Quina e Germa são as heroínas do romance. Não é por acaso que narrando a história de Quina ele começa e acaba com Germa. E que precoce era a menina no entendimento de tanto que escapava a todos.

21 fevereiro 2020

A SIBILA (10)

JOSÉ DO TELHADO (1818-1875), tal como é apresentado na edição ilustrada de Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco, Parceria A. M. Pereira, 2001

Esteve com Camilo na Cadeia da Relação do Porto, em 1860/61, antes de ser deportado para a África Ocidental Portuguesa. Era considerado esposo amantíssimo e pai extremoso. É personagem de Agustina no Cap. II de A Sibila.  

20 fevereiro 2020

A SIBILA (9)

LITERATURA DE CORDEL

Fui conhecer a história da donzela Teodora de que se cita no Cap. XII d’ A Sibila aquela sentença engraçada sobre a mulher perfeita: larga em três sítios, estreita em três sítios, branca em três sítios, etc.
Conta-se rapidamente. No reino de Tunes, um mercador da Hungria comprou um dia uma formosa donzela cristã. Mandou-a educar e teve-a consigo até que os seus negócios faliram. A donzela sugeriu-lhe então que a vendesse ao Rei Miramolim Almançor pelo alto preço de dez mil dobras de ouro vermelho, pois certamente ele apreciaria a sua beleza e a fina educação que adquirira. Mercador e donzela foram à presença do rei para firmar o trato. O rei logo viu a beleza da donzela e quanto a educação e sabedoria submeteu-a a grande cópia de perguntas por parte dos seus sábios. Ela saiu-se bem de todos os confrontos e, no fim, o rei deu-lhe a liberdade, pagou-lhe as dez mil dobras de ouro e ainda lhe ofereceu um vestido de brocado. E assim, mercador e donzela voltaram a ser felizes.
Cito algumas questões levantadas por um dos sábios com as respostas da donzela Teodora:  «Donzella, mui bem tens dito, agora dize-me das idades das mulheres, em que cada uma he pesada; a Donzella de vinte annos que dizes della? A Donzella respondeo: digo-te Mestre, que se he formosa parece bem ás gentes, especialmente aos homens, que são da sua compleição; e a de trinta, e quarenta annos, que me dizes? Essas, Senhor, tem juizo em tudo, para aquellas que o não tem. Das de cincoenta anos, que me dizes? Essas, Senhor Mestre, te digo, que he para o cutelo. A de sessenta annos, que me dizes? Essa vos digo, Senhor Mestre, que he boa para andar estações. As de setenta annos, que me dizes? Digo que já he terra, e de fóra de toda a razão. Das de oitenta annos, que me dizes della? Essa vos digo, Mestre, que não me entendo com ella, e de humas e outras vos guarde Deos da melhor.»
Aqui fica. Muita atenção, leitoras, a estas sentenças de proveito e exemplo.   

19 fevereiro 2020

A SIBILA (8)


Já aqui escrevi sobre Elisa Aida Fattoni, condessa de Monteros, dizendo que entre ela e Quina havia uma estima recíproca.
Ontem à noite, relendo o Capítulo VII, atentei neste bocado de texto: «Entendiam-se bem, sem mutuamente se estimarem; partilhavam segredos, detestando-se, como se eles tivessem sido arrancados por violência ou por traição. Contudo, seriam capazes da mais inteira admiração uma pela outra, experimentando até uma coragem quase insolente, uma afeição viva e resgatadora, que estavam muito próximas do ódio.»
Extraordinária arte de dizer uma coisa e o seu contrário, ou não isso, antes os infinitos desdobramentos psicológicos das personagens aqui levados a uma dimensão superior de análise e compreensão. 
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~~~~~~~~~~~~~~~ já agora, digam as leitoras qualquer coisinha. acho que devem estar cheias de ideias. até rima...

18 fevereiro 2020

A SIBILA (7)


TUER LE MANDARIN

Lembra-se em  A Sibila que a expressão é de Rousseau (do livro filosófico Emile), depois replicada por Chateaubriand em Génie du christianisme e creio também em Le Père Goriot por Balzac. Assim, Eça de Queirós foi mais um a recorrer à imagem. “Tuer le mandarin” (“Matar o mandarim”) significa um acto feito em proveito de alguém ao abrigo de qualquer responsabilização. No romance de Agustina (Cap. XVI), o tema é introduzido na relação de Abel com a filha: «”A solução destas vidas é sempre uma herança” – pensava. E lia nos olhos de Germa a previsão fria da sua morte, falava muito na imagem de Rousseau, a mágica campainha que suprimiria aquele mandarim que, no mesmo instante, nos fazia senhores das suas fabulosas riquezas.»

17 fevereiro 2020

A SIBILA (6)

Agustina, desenho de Alberto Luís (marido) em 1952

UMA ÉTICA DA PROPRIEDADE

« – Vá a minha casa um dia destes, de manhã. (…) Preciso muito de si. Sei que é mulher de bom conselho…». Este o convite feito a Quina por Elisa Aida. Os poderes divinatórios da lavradeira interessavam-lhe, mas também o seu sentido prático da vida, tudo aquilo que uma ociosa pode aprender facilmente com uma mulher de trabalho. Havia uma relação de desigualdade e, como Quina intuiu, se a condessa a convidava era para se aproveitar dela.
Na verdade, vieram a estimar-se reciprocamente. Custódio ou Emílio foi criado e mantido por Quina talvez por um certo instinto maternal irrealizado, mas também por uma questão de sangue, por ser supostamente neto ilegítimo da fidalga de Água-Levada.
Amando o seu filho adoptivo, não lhe deixou em testamento a sua parte na propriedade ancestral, mas apenas as que adquirira com o seu trabalho e dinheiro. Há aqui uma espécie de ética da propriedade. Tal ética – presente no amor à terra e na desconfiança com que olhava os familiares que seguiam outros caminhos de ascensão social (por exemplo, os irmãos e o tio José) – era já praticada pelo pai, Francisco Teixeira. Estouvado, mais amigo do ócio do que do negócio, assim provocando a ruína da casa, não sacrificava voluntariamente os bens para servir os seus prazeres. Como se lê em determinado passo do Capítulo III a propósito de uma caseira que lhe quis atribuir um filho, ele a repudiou com crueldade, «pois as mulheres que, com a alegação dos seus amores, procuravam atingir o património, tornavam-se-lhe odiosas.»

15 fevereiro 2020

A SIBILA (5)


« - Beba um copo e enxugue-se ao lume, ande lá.
Escanceou o vinho, que, dormente na caneca, mal espumejou a sua baba ciclâmen;» - Capítulo IX, episódio da chegada do carteiro com as notícias do nascimento de Germa. E em outro passo do romance também se refere a espuma do vinho como de cor ciclâmen.
Hoje, passeando por aí, dei com vistosos potes de ciclâmenes. Aí ficam as fotografias de dois. Cada vez me convenço mais de que nada acontece por acaso.

13 fevereiro 2020

A SIBILA (4)

MIGUEL ÂNGELO, A Criação de Adão, Capela Sistina, Cidade do Vaticano

OS ADÕES D´A SIBILA:

-- ADÃO, conversado de Quina durante quatro anos.
Livrou-se da relação por mor de um casamento com rapariga de teres e haveres e fez questão de se explicar à conversada. Joaquina, que sabia quanto o poder do dinheiro pode obnubilar os sentimentos, deixou-o ir. Desejou-lhe felicidades e ficou como sua conselheira de bens e finanças pela vida fora.
-- FRANCISCO TEIXEIRA, marido de Maria e pai de Quina.
Era frouxo de cabeça, mas tinha um coração com asas e sabia fazer filhos.
-- LUÍS ROMÃO, mestre-escola, namorado de Estina, irmã de Quina.
Cito: «Elegante na mentira, já prevenido da irremediável pobreza de Estina, ainda a namorou algum tempo, sinceramente, comovidamente, sem desbotar a graça dos seus sorrisos, sem deixar de se despedir dela com um olhar morno e profundo(…). Um domingo deixou de aparecer.»
-- INÁCIO LUCAS, consorte de Estina.
Só o nome arrepia. Uma espécie de besta do apocalipse em versão belle époque rural. Deixou morrer os filhos, tratava mal a mulher. No desaparecimento da filha doidinha pareceu mostrar alguma humanidade. Pura ilusão. Disse então para a esposa, aturdida pela infelicidade: «Se a menina não aparecer, se ela não vier ter aqui, trazida pelos anjos ou pelos diabos, e sem que um pico de tojo lhe tenha arranhado a pele, abro uma cova no quinteiro e enterro-te lá.» A única pessoa a quem tinha algum respeito era a cunhada Quina.
-- AUGUSTO, filho de Narcisa Soqueira.
Vago pretendente de Quina, como se a água alguma vez se pudesse misturar com o azeite. Um triste.  

Bem dizia Maria à filha Justina no lance do seu casamento de conveniência: «Faz o que quiseres. Os homens não têm aproveitadoiro, é uma verdade. Mas…»    

12 fevereiro 2020

A SIBILA (3)


«Sou uma leoa
Nunca permitirei que o meu corpo
Seja o lugar de repouso de ninguém.
Mas se deixasse, cuidado,
Não seria um cão.
Oh! Quantos leões
Eu desdenhei!»

Estes versos são da poeta hispano-árabe AISHA BINT AHMAD AL-QURTUBIYYA que viveu em Córdoba no século X. Encontrei-os no livro Humilhação e Glória, de Helena Vasconcelos.
Até ao que li de A Sibila (preparo-me para entrar no capítulo IX), acho que se ajustam na perfeição à personalidade de Joaquina Augusta ou Quina.

11 fevereiro 2020

A SIBILA (2)


Capítulo V, lido hoje. Ganha consistência o matriarcado vigente na casa da Vessada. Impera o trabalho das mulheres, mães de facto, como a terra, ou por sublimação do instinto maternal, caso de Joaquina. Na falta de «aproveitadoiro» dos homens, Estina casa-se sem amor, ou por amor à Vessada, para robustecer com a aliança matrimonial a possibilidade de um dia vir a defendê-la da gula dos irmãos: «Casando, ela aumentava as possibilidades de um dia licitar sobre os bens, manter ainda aquele aconchego de campos ligados por carreiros brancos, a vessada com a sua presa, sobre a qual a ramada enfolhava com tons fulvos, reflectindo na água sombras trémulas a assustar as rãs que pinchavam, mergulhando.» Por contraste, as primas de Folgozinho, folgam. E chega-se a 1910, quarenta anos depois do incêndio que arruinou a casa, mandado pôr por uma Prosérpina infernal no desquite de um homem fraco de carne e coração – o pai da família, Francisco Teixeira.  

10 fevereiro 2020

A SIBILA (1)


Uma característica da escrita de Agustina é a capacidade de dizer as coisas da forma menos previsível. Isso surpreende o leitor e agarra-o na aventura de a ler. Veja-se a seguinte passagem de A Ronda da Noite: «O adultério tem o seu horário, como o calista e as provas na modista tinham o seu. Já não há calistas, no Porto creio que tem dois ou três; foram substituídos pelas manicuras, o que não é a mesma coisa, nem se lhe compara.» Ou esta do mesmo livro: «No fim de contas, o que era o amor das pessoas senão aquela cena do trapézio voador, dando as mãos, a fazer saltos mortais com a rede, sem a rede, e no fim, se é que havia fim, a fazer vénias de ginastas e a sumir por detrás dos reposteiros?».
No capítulo IV de A Sibila – até onde li – é-nos dado começar a perceber os traços de poder de Joaquina, a sua «ascendência espiritual», o sentimento e o pressentimento na relação com os homens, de resto já patente no capítulo III quando de forma nervosamente fria põe um ponto final na afeição de quatro anos do seu conversado. Joaquina amava em estado de insatisfação, estava acima das paixões que tolhem e fazem doer. Diz-se no final do capítulo: «O amor é um estado de lucidez e de vidência. Aquele que ama é implacável; e só as almas mornas e indiferentes encontram no seu semelhante uma justificação de misérias fraternas e, perdoando-lhe, exigem o seu próprio perdão.» Acho que não se percebe logo, é preciso voltar a ler, de preferência em voz alta. Depois, aceite-se ou não, já se fica agarrado à ideia.

08 fevereiro 2020

"A Sibila" de Agustina Bessa Luís - 28 de Fevereiro às 21h00


Sinopse


No norte de Portugal, em finais do século XIX, na propriedade da Vessada, há já muito tempo que são as mulheres que, perante a indolência e os sonhos de evasão que os homens alimentam, asseguram como podem a gestão da propriedade. Quina era uma adolescente franzina e inculta, que desde cedo participava nos trabalhos do campo ao lado dos trabalhadores. Com a morte do pai, com a propriedade quase em abandono, Quina passa a ter que ter uma ainda maior responsabilidade na administração da mesma. Graças ao seu esforço a todos os níveis, começa a acumular de novo a riqueza que seu pai desperdiçara, o que lhe vale a admiração da sociedade. Quina era uma pessoa lúcida, astuta e sempre em demandas, o que faz com que esta se torne conhecida por Sibila…